Nas obras A ética protestante e o espírito do capitalismo, Ensaios de Sociologia e Economia y sociedad, dentre vários temas abordados, Weber assinala que as comunidades religiosas protestantes que incentivaram mais fortemente o desenvolvimento do capitalismo foram o calvinismo e as seitas batistas,20 ambas ascetas
e seguidoras da doutrina da predestinação.21 É importante destacar que, em linhas gerais, o ascetismo consiste na negação do corpo em favor da purificação da alma até alcançar a salvação (Weber, 1971: 371-410).22 Para tanto, negam-se os desejos e prazeres carnais, o luxo e o conforto, ou seja, o/a asceta abstém-se de todos os ímpetos e satisfações mundanas a fim de glorificar a Deus e, após a morte, obter a vida eterna. Logo, as ações sociais produzidas por esta comunidade são orientadas por esse ethos. Weber indica que a ascese protestante é caracterizada por alguns procedimentos diante da vida. Estes últimos, se bem realizados, trazem benefícios diretos aos/às fiéis, também como a segurança e a certeza de que são dignos/as de morarem no céu com Deus.
Um primeiro procedimento ascético é o de lidar corretamente com o dinheiro obtido com o labor diário. Conseqüentemente, a riqueza adquirida por meio de um
20 Os calvinistas e batistas são protestantes influenciados principalmente pelo reformador João Calvino, nascido na França em 1509. Ver: BALKE, Willem. Calvin na the Anabatist Radicals. Grand Rapids: Eerdmans, 1981. E também: MCNEILL, John. The history and character of calvinism. London: Oxford University Press, 1954.
21 Em suma, a doutrina da predestinação assevera que Deus, por sua vontade soberana e imutável, determina as pessoas que obterão a salvação e as que serão condenadas. Logo, o indivíduo eleito é reconhecido por viver vocacionalmente para glorificar e manifestar a glória da divindade: sendo assíduo no trabalho (para obter cada vez mais notoriedade e êxitos para Deus), agindo racionalmente e regradamente, renunciando os prazeres carnais, rejeitando as experiências religiosas emocionais, realizando o amor fraternal sem nenhum interesse pessoal.
trabalho árduo glorifica a Deus, no entanto não é permitido desfrutar desta, tampouco viver ociosamente. Assim sendo, todo lucro que segue esta lógica é bem visto. Diante do mundo dos ofícios o/a asceta é alguém consciente de que as funções e atividades próprias da divisão do trabalho e das profissões são estabelecidas por Deus. Deste modo, cabe ao/à fiel fazer responsavelmente a sua parte na área que lhe foi estabelecida. Mas ele/a não deve contentar-se com a sua situação profissional, mas sim se esforçar mais ainda para chegar num nível superior e que lhe confira mais ganhos como garantia de ser portador/a da bênção divina.
Vale ressaltar em breves palavras o impacto do uso da razão no campo das conquistas econômicas, pois no século XVII destaca-se uma Europa em expansão, motivada pelo capitalismo comercial, que se utiliza do conhecimento científico adquirido para enriquecer, isto é, acumular capital. O que caracteriza este momento econômico são as relações assalariadas de produção e a acumulação de capital nas mãos dos comerciantes, e não tanto nas dos produtores, como exemplo, as companhias mercantis, revendedoras de produtos, eram as que mais lucravam neste período (Arruda & Piletti, 1996: 162-163). Sendo assim, neste contexto o ethos do protestantismo ascético, rígido e racional, corrobora e/ou incentiva o alargamento do ethos capitalista.
O rigor ascético também engloba a gestão dos bens e negócios. Por conseguinte, o/a salvo/a não age com desonestidade e/ou ganância, pois o lucro pelo trabalho deve ser obtido legalmente por meio de um ato determinado e intenso. Vale reforçar que as benesses alcançadas pelo/a fiel indicam que ele/a é aprovado/a por Deus e detém a salvação. Exemplificando, o reformador protestante Martinho Lutero23 assevera que a desigualdade na distribuição da riqueza é vontade de Deus. Contudo, o religioso Baxter24 diverge neste aspecto afirmando que as disparidades sociais, ou melhor, a pobreza é reflexo da ausência de uma atitude sistemática, zelosa, empenhada e metódica. Nesta perspectiva conclui-se que um/a asceta virtuoso/a é alguém que adota e exercita esta postura. No ascetismo, o trabalho (braçal e mental) realizado de modo duro
23 Precursor da Reforma Protestante na Europa, viveu entre 1483 e 1546.
24 Richard Baxter (1615-1691) foi um clérigo protestante inglês expulso da Igreja Anglicana em decorrência de sua postura política divergente dos interesses governamentais do período, bem como em razão de algumas idéias puritanas e inclinação ao movimento pietista. Outras informações: BAXTER, Richard. The reformed pastor. Edinburgh: Banner of Truth, 1974. E também: BARRY, Reay. Fear and
polemic in seventeenth-century England: Richard Baxter and antinomianismo. Burlington: Ashgate, 2001.
e constante é assinalado como uma vocação divina (Weber, 1999: 110-132). De vez que há esta concepção, o/a fiel procura se apresentar cotidianamente vocacionado/a rejeitando os deleites de uma vida mundana e descansando dos seus afazeres apenas no “Domingo do Senhor”.25
Somando-se ao empenho por este trabalho e ganho legítimos, aproveitar bem o tempo é algo também aprovado por Deus, porém o descuido com esta tarefa é repugnado e sinaliza que o/a fiel não é salvo/a. Por isso, o/a crente deve estar ciente de que o tempo para uma pessoa é muito curto e, desta forma, precisa ser bem utilizado para a glória da divindade. Além dos procedimentos relativos ao trabalho, aos negócios, ao descanso e ao tempo, o/a asceta tem a tarefa de se apartar de toda a gama de prazeres, sensações e emoções que tragam algum tipo de contentamento com coisas relacionadas à vida terrena. Isto vale principalmente para o culto a Deus, o sexo e o esporte.
Os exercícios de culto a Deus, bem como todos os atos devocionais, devem ser realizados com muita sobriedade, razão e equilíbrio, sob pena de se transformar numa afronta ao Ser Divino. Como exemplo, a experiência emocional “aceita” por este protestantismo se restringe à conversão.26 Portanto, após o momento emocional da conversão o/a novo/a convertido/a passa a receber orientações para decodificar esta experiência em termos racionais. Por conseguinte, o/a fiel vai se distanciando desta emoção e processualmente fundamenta a sua fé a partir de um saber teológico racional mediado por uma dada instituição religiosa. No que tange à prática do sexo, no ascetismo ele só deve servir como meio de procriação porque desta forma Deus é glorificado. Logo, o prazer sexual deve ser repelido veementemente, pois faz as pessoas gostarem mais desta vida e motiva-as a empreenderem os seus preciosos tempos com coisas fúteis e que conduzem à perdição. Por outro lado, enveredar pelo caminho prazeroso do esporte, da arte, do teatro, da música e do entretenimento de modo geral é oposto à ascese protestante. Tudo aquilo que causa “sensações não-racionais” afasta o/a fiel de Deus e, conseqüentemente, sinaliza que o/a crente idolatra a carne, não é nem vocacionado/a e nem salvo/a. Em suma, o/a asceta deve cultivar e aperfeiçoar uma
25 O “Domingo do Senhor” é o dia em que os/as cristãos/ãs protestantes se prestam à realização de encontros para reflexão bíblica, oração e cultos.
26 Segundo Weber, tal experiência emocional é mais enfatizada em setores do luteranismo e do metodismo.
alegria por viver procedente de uma postura racional, econômica, laboriosa e autocontralada.
Nestes protestantismos de linha “exclusivamente” ascética, o sentimento de pertença é muito forte e as interferências nas condutas dos fiéis pelos outros participantes das comunidades são intensas. Se de um lado o individualismo é grandemente cultivado nestas confrarias, por outro a força repressora da coletividade é inegável. Enfim, embora sejam religiões que, além de interesseiras, são produtos de estados tradicionais e afetivos, somente no estudo das comunidades ascéticas27 mais
afinadas à “cultura sensual”28 que será possível observar a “emoção religiosa” para além da conversão.