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5.0. CONCLUSION

5.0.1. Agents versus structures

O desafio que se põe ao refletir sobre a classe média contemporânea é entendê- la para além de definições teóricas desconectadas da realidade, ou seja, observando o desenvolvimento e o modo como esta identidade classista se apresenta no cotidiano. Com este intento logo se nota que o consumo é característica primaz para identificação desta. Na atualidade, os projetos sociais devem ser apregoadores da liberdade privada e facilitadores dos projetos individuais. Por outro lado, os projetos individuais não possuem garantias, tampouco certeza e/ou estabilidade para se concretizarem. Em meio a esta complexidade o Mercado oferece a realização individual ao suprir todos os anseios de consumo viabilizados pela produção em larga escala através da contínua especialização técnica. Exemplificando, vende-se na atualidade alguns produtos para consumir como imagens, entretenimento, sensações, supérfluos. Por isso, Bauman afirma que “o spiritus movens da atividade consumista não é mais o conjunto mensurável de necessidades articuladas, mas o desejo – entidade muito mais volátil e efêmera, evasiva e caprichosa, e essencialmente não-referencial que as necessidades” (2001: 89).109

Na primeira metade do século XX Brian Owesby (1991) ao estudar as classes médias nas capitais do Rio de Janeiro e São Paulo já detectava a distinção entre essas e as demais camadas sociais como sendo a propensão às atividades intelectuais, educacionais e consumistas - constatação válida na realidade até o término da década de 1980. Já a partir de 1990 gradativamente o que fica em voga como fator distintivo é o

109 Constatação semelhante é feita por Baudelaire quando afirma que “a Modernidade é o transitório, o efêmero, o contingente; é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável”. Ver: Baudelaire, 1996: 25.

consumo e não tanto o nível intelectual ou cultural dos integrantes da classe média. Para além do habitus classista apontado por Elias (1990 e 1994) no processo de vir a ser civilização das sociedades européias, o ato de consumir e poder fazê-lo em espaços segregados (Caldeira: 2003) excede na contemporaneidade à produção de “artefatos” culturais peculiares. Embora haja divisões e características diferenciadoras entre as pessoas da classe média (Simões: 1992) que não serão estudadas com profundidade neste trabalho, ainda assim ressalta-se a atividade consumista como a principal marca classista e diferenciadora.

Sendo assim, ao discorrer sobre a classe média, ou uma igreja constituída por pessoas desta classe, é necessário pontuar que a caracterização desta disposição “classista” se apresenta deveras abstrusa. No contexto brasileiro a antiga camada da população em referência teve seus ideais de emprego estável, lazer, educação de qualidade, habitação, poupança e facilidade de consumo abaladas pelas transformações sociais ocorridas nas décadas de 80 e 90 do século XX. Além disso, segundo Maureen ODougherty (1997), surge uma nova classe média com intentos diferentes da representação “clássica” da classe média, em linhas gerais é perceptível que a mais recente preocupada em desfrutar daquilo que é efêmero e prazeroso, e a anterior apegada simbolicamente à idealização de uma superioridade moral firmada na capacidade intelectual e bagagem cultural (Oliveira: 1988).

Entretanto, após os tensos rearranjos desencadeados, as práticas de consumo permanecem como fatores importantes para a formação, identidade e desenvolvimento desta classe. Apesar dos desgastes sofridos especialmente com o achatamento do poder aquisitivo de um grupo de indivíduos e a ascensão econômica de outros, a busca por distinção e separação continua firmada no consumo e em padrões culturais mesmo que voláteis e exacerbadamente provisórios (Mafra, 1993). Por conseguinte, é sobre este escopo que se sedimenta a preferência por espaços públicos segregados em que se possam consumir bens, imagens, sensações e práticas, bem como fazer uso de uma linguagem e ações identitárias.

O foco no consumo, embora esteja respaldado pelas considerações anteriores, é também uma reação àquilo que se presencia no trabalho empírico. É fato que existe a orientação doutrinária sobre a correta administração das finanças no contexto da CG,

contudo isso não exclui que o consumo faz parte da vida de grande parte dos fiéis e pastores desta igreja. Se de um lado estão as ponderações precavidas do presidente desta instituição religiosa – marcado por uma tradição pentecostal e que vivenciou o período do milagre econômico brasileiro e a crise nacional apregoadora de uma reformulação social – de outro Bezerra, e sua igreja, procura adequar-se e apresentar respostas e ofertas religiosas aos crentes inseridos numa sociedade pós-tradicional e envolvida pelo efêmero. Em outros termos, é o antigo interagindo e transformando-se a partir do novo como particularidade daquilo que Pierucci nomeia como secularização (2004, 19-20).

O consumo é algo importante para o grupo religioso analisado e isso é perceptível nas reuniões dos fiéis. Durante os cultos é considerável a quantidade de menções aos produtos valorizados pela classe média como Aparelhos de TV de última geração, Canais de Televisão pagos, perfumes importados, roupas de grife, carros, viagens, passeios a parques de diversão, moradias em lugares nobres e promoções no trabalho. E no cotidiano da igreja o discurso religioso de que Deus supre primeiramente as necessidades dos crentes, e eventualmente os desejos, não pode ser entendido como somente a guarnição celestial de alimento, emprego, moradia, educação e saúde. Embora no diálogo com os fiéis ora se perceba um discurso racional e comedido de rejeição moral a tudo que exceda ao suprimento básico para subsistência, outro “discurso verbal e não-verbal” mais intenso e presente é que os cinco elementos da provisão divina devem estar adequados ao ethos classista dos envolvidos acrescidos dos elementos que representam noções de conforto, bem-estar e status da classe média.

Esta tensão entre discurso moral e identitário também se percebe no ambiente do culto, do GCEM e nos acampamentos da igreja. No templo, conquanto os pastores entrevistados tenham apresentado a ressalva de que não é tão importante, detecta-se uma preocupação pelo conforto sonoro, estético (semelhante à CG Sede em São Paulo) e dos assentos usados pelos crentes. Nos GCEMs a orientação pastoral de que nas casas dos “anfitriões” dos encontros deve-se promover aconchego e satisfação às pessoas é obedecida. E com relação aos acampamentos da igreja o mesmo se repete. Para exemplificar, o pastor Luís Blotta por ocasião da proximidade do Acampamento de Carnaval 2008, no terceiro domingo de janeiro, emitiu o seguinte parecer:

“(...) antigamente nos acampamentos nós dormíamos em barracas, cozinhávamos a nossa própria comida, tomávamos banho no rio, fazíamos culto na base do violãozinho, não existia nem retroprojetor, não tinha essas frescuras. Hoje em dia a gente ficou mais exigente é som de primeira, data-show, suíte, chuveiro quente, cama confortável, piscina, quadra, campo de futebol, comida pronta... e tem gente ainda que não manda o filho pro acampamento... depois vai reclamar que o filho tá no mundão (...)”.