Feitas as devidas considerações concernentes à ação social e à emoção, agora há suporte para avaliar o conceito tipológico de Gemeinschaft, ou comunidade, na ótica weberiana. O sentido deste termo traz uma idéia de dinamismo a este tipo de relação social onde cada um dos participantes constitui o todo como uma unidade, em outros termos, o “nós”. Para elucidar, a palavra espanhola comunización18 transmite mais
precisamente tal acepção por referir-se à união de indivíduos e o movimento produzido nesta cumplicidade. Diferentemente de uma sociedade que se move majoritariamente pela compensação ou união de interesses racionais (fins ou valores), a concepção tipológica de comunidade se apresenta como uma relação social, cuja ação social é fundamentalmente inspirada por um sentimento subjetivo (afetivo ou tradicional), variável quanto à intensidade, vivenciado por todos os membros do grupo. Nestas relações comunitárias são estabelecidos também os sentimentos de pertença e de diferença. O primeiro diz respeito ao indivíduo com seus pares, as motivações fundantes do grupo e os desejos compartilhados, ou seja, a subjetividade que fundamenta a unidade de uma dada confraria. Por outro lado, o segundo proporciona aos membros da
coletividade a percepção de que há outros grupamentos que lhes são contrários por uma série de fatores.
Weber destaca que a relação social comunitária tanto pode ser aberta quanto fechada ao exterior. Ela é aberta quando as ações sociais exercitadas não são tolhidas ou ordenadas por nenhuma espécie de regimento. De modo oposto, a fechada impede com que os participantes do grupo ajam para além das “fronteiras” da comunidade. Logo, independente da abertura ou fechamento há que se ressaltar que elas estão condicionadas pela tradição, afetividade, valores e fins. Assim sendo, para que a comunidade mantenha-se uniforme frente às diferenças e/ou ações sociais externas, na maior parte dos casos, uma série de pressões internas “violentas” se realiza. Estas não necessariamente se concretizam por agressões físicas, pois, via de regra, as persuasões e coerções emotivas são mais eficazes. Exemplificando, as formas coercitivas podem ser realizadas garantindo prestígio, honra e satisfação ao participante da coletividade. Deste modo, quanto mais íntimos os membros do grupo são, maior é a suscetibilidade às influências afetivas e/ou tradicionais, homogeneizadoras e homogeneizantes (Weber, 1992: 37).
Não obstante às possíveis finalidades racionais que podem ser traçadas e galgadas, segundo Weber, as comunidades são primeiramente organizadas e desenvolvidas a partir de seus alicerces emocionais como sendo de ordem pneumática, erótica, piedosa, nacional e familiar. O aspecto subjetivo é, portanto, o diferencial destas relações sociais, sejam elas econômicas, políticas, domésticas, militares, étnicas ou religiosas (Weber, 1971: 390-400). Uma vez que a comunidade religiosa é aquela que apresenta um maior interesse ao estudo proposto neste capítulo, passa-se em seqüência a analisá-la. No parecer weberiano, esta é marcada por representações e fins subjetivos do indivíduo. Mas a ação produzida por esta coletividade, embora sendo mágica e/ou religiosa, também possui um nível racional, pois ela se desempenha firmada em regras de experiência. Somando-se a isto, ela procura os meios mais adequados para se ampliar e alcançar os fins almejados pelo grupamento, dentre os quais é possível ressaltar o anseio por viver bem no mundo.
Segundo Weber, por mais que um grupamento religioso se reporte, por meio de símbolos e significações, a uma existência ultramundana e a poderes supra-sensíveis,
grande parte das finalidades religiosas não objetiva uma vida prazerosa e eterna após a morte, mas sim o desfrute econômico, político e histórico no presente. Em outras palavras, nesta Gemeinschaft também estão em jogo os interesses e os ideais materiais e subjetivos. Para esta comunidade específica a tradição é um elemento sempre presente, ainda que instável devido às transformações sociais. Assim, determinadas atitudes ou posturas no relacionamento com um Deus, com o cosmos e com outras pessoas são condicionadas por aquilo que se tornou uma convenção para o grupo em tensão com o cotidiano comunitário. Desta forma, tanto para o grupo dos ascetas intramundanos quanto para os místicos, tudo aquilo que contraria a sua fé e o seu ethos não é válido.
Outro componente que integra esta relação social é a força não-cotidiana intitulada carisma. Trata-se de uma representação coletiva que se torna impessoal e interiorizada pelos membros do grupo após um longo processo de sublimação. À semelhança do mana ou da orenda, o carisma é um “dom” que uma pessoa ou objeto possuem por natureza ou por meio extraordinário, sendo concedido pela força supra- sensível de um Deus que atua sobre o curso de um fenômeno concreto (Weber, 1992: 329-330). No carisma percebe-se então que estão presentes forças coletivas interiorizadas. Estas se constituem com a mescla de conceitos, manifestações afetivas e emocionais, e sentimentos individuais e da sociedade propiciando à confraria, por exemplo, as idéias de alma, Deuses, demônios, também como, a opinião de que o acesso às entidades ultramundanas só é possível através de atos simbólicos permanentes (culto e rito) e presididos preferencialmente por portadores/as do carisma.19
Com base neste ideário, ao refletir sobre a comunidade religiosa há como supor o exercício de uma “ação religiosa”. E a constatação desta não desabona a ação social desta coligação piedosa, mas acrescenta que o seu movimento em direção a outros indivíduos é insuflado pela relação dos membros do grupo com poderes supra-sensíveis e a crença de que estes últimos podem interferir no mundo exterior. Conseqüentemente, é razoável nomear este agir de “ação social religiosa”. Após estas considerações fica mais claro perceber que a comunidade em questão se constrói sob um círculo de representações simbólicas interiorizadas extremamente complexas (Weber, 1971: 399).
19 Não há pretensão de especificar a diferença entre liderança carismática ou tradicional, mas sim destacar que o carisma é um diferencial na comunidade religiosa. Sobre as características de cada um dos comandos comunitários mencionados ver: WEBER, 1992, p. 180-203.
Neste há o choque entre racionalidade e subjetividade que, do mesmo modo, se permitem notar nos comportamentos religiosos mais ou menos irracionais. Nota-se que na comunidade religiosa os elementos religiosos, afetivos, tradicionais e racionais se entrelaçam. Por outro lado, um ou dois desses rudimentos pode prevalecer sobre outros em decorrência dos interesses do grupo. E, para tanto, uma vez mais, as emoções envolvidas serão grandemente influenciadoras do modo de se conduzir das confrarias e poderão obter novos significados e magnitudes à medida que nos atos devocionais, cultos e ritos, os sentimentos forem reforçados de alguma maneira.