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Tanto nos cultos no templo quanto nos encontros dos GCEMs os fiéis são incitados a pouparem o dinheiro para terem condições de pagarem à vista aquilo que for necessário comprar. A fim de que isso se concretize na vida de cada crente, o líder do GCEM ao qual o indivíduo está vinculado utiliza conhecimentos de Administração e Economia somados ao ensinamento religioso de como fazer o orçamento familiar, a pouparem e a investirem aquilo que sobra. Via de regra as orientações dadas nos GCEMs reproduzem os ensinamentos transmitidos pelos pastores da CG, mas em alguns grupos o conhecimento compartilhado é mais aprofundado em decorrência do líder ser administrador, economista, contador ou empresário. Sem embargo, uma das primeiras ações que o crente precisa fazer para mudar o rumo de sua vida financeira é aprender a preencher o formulário intitulado “O que eu devo”. Neste a pessoa coloca somente as dívidas contraídas, atrasadas ou não para ter uma visão mais clara do total da dívida que ela precisa quitar e qual tem sido o pagamento mínimo mensal. Além deste relatório ela é orientada a calcular o valor total do seu patrimônio subtraindo o que deve a fim de perceber se as dívidas são maiores ou não do que os bens e dinheiro próprios.

Outro formulário que visa ajudar os membros é aquele que discrimina a receita familiar mensal especificando o rendimento ou salário pessoal, do cônjuge, dos outros membros da família e outros rendimentos. E para completar é ensinado ao membro preencher o formulário atinente às despesas mensais na seguinte ordem: 1) Dízimos e ofertas; 2) Dívidas e bancos: anuidades de cartão, juros cheque especial, CPMF e tarifas do banco, dívidas negociadas; 3) Futuro: investimentos, previdência privada, poupança e seguro de vida; 4) Alimentação: padaria, mercado, feiras e despesas semanais; 5) Despesas da casa: prestação ou aluguel, condomínio, água, empregada, luz, gás, IPTU, consertos e manutenção, taxa do lixo, seguro; 6) Educação: colégio, escola, faculdade, cursos (inglês, música etc.), lanches, livros e material escolar; 7) Comunicação: celular, telefone de casa, internet; 8) Saúde: consultas, dentista, remédios, plano de saúde; 9) Transporte: combustível, estacionamento, pedágio, IPVA, despachante, manutenção, multas, seguro, passes, táxi; 10) Lazer: jornais, revistas, TV a cabo, diversão, esportes, clube, livros, CDs, DVDs, viagens, passeios, restaurantes; 11) Pessoal: presentes, vestuário, cabeleireiro, academia, esportes, perfumaria; 12) Filhos: mesadas, passeio, vestuário; 13) Outros (Bezerra: 2006d, 61-65).

Descoberta a real situação financeira, o fiel da CG terá que refazer o seu orçamento e esforçar-se por conviver dentro dos limites dele. Por isso, nos discursos religiosos desta instituição é reforçada as seguintes ponderações de Bezerra:

Nas Escrituras Sagradas observamos que os que serviam a Deus eram pessoas prósperas, e não miseráveis. Todos eles tinham o necessário para si e para os outros, e nada lhes faltava. Entretanto, hoje encontramos muitos cristãos vivendo uma vida financeiramente miserável, instável, endividada (Bezerra: 2006, 12c).

Na ótica desta igreja a gestão do dinheiro é uma questão espiritual e a prosperidade é conseqüência de uma espiritualidade cristã eficaz e institucionalmente aprovada. Destarte, aquele/a que não obtém da parte de Deus as dádivas econômicas nos moldes supraditos é porque não assumiu ainda o habitus (Bourdieu, 2001)da CG, logo permanece no erro (pecado). O trabalho, o estudo, a administração das finanças e as demais coisas que compreendem a vida de um crente devem ser exercidas com empenho e competência para a “glória de Deus”. Então, a pessoa que escolher ficar

“escravizada” pela miséria, não acatar as orientações da igreja e continuar na desordem econômica estará desonrando a Deus e trará maldição para a vida pessoal e familiar.

Conforme Bezerra, se o fiel necessitar competir com outras pessoas por razões estritamente profissionais é profícuo que o faça competentemente segundo as diretrizes divinas contidas na Bíblia. Porém, está interditado àquele membro da CG entrar no enredo capitalista “para manter ou mostrar status pessoal”. O crente desta igreja deve merecer aquilo que ganhou com o trabalho, desde que não seja determinado pelos “pecados” da ganância, da lassidão, da improbidade, da aliança com pessoas que praticam fraudes e negócios excusos, da vanglória e da confiança exclusiva na própria capacidade. Estas motivações são contrárias à ordem da igreja alicerçada no princípio da honestidade, pois são indicativas que a pessoa não deu “a Deus a prioridade número um na vida” (Bezerra: 2006d, 67).

A administração eficaz somada ao ato simbólico da oração e à doação de valores por meio de dízimos e ofertas se configuram como a “cura e libertação financeira”99 dos membros da CG. Com a aderência dos costumes morais, estéticos e valorativos desta igreja passa-se a entender que a prosperidade gravita entre os planos terreno e espiritual, e um posicionamento é necessário a fim de ficar de bem com Deus e viver corretamente no mundo. A partir da adesão deste ideário e das experiências pessoais e coletivas decorrentes, ao crente abre-se a oportunidade da detecção de “maldições” como ganância, lucros desonestos, sociedades com incrédulos, mentiras para ganhar mais dinheiro, precipitação, falta de planejamento e conselheiros, não saber quanto ganha e quanto gasta, confiar na própria capacidade, entrar em dívidas, ser fiador, seguir os próprios conselhos, negligenciar o trabalho, dentre outras relações econômicas perigosas (Bezerra: 2006c, 37-39). Para se libertar delas caberá ao crente realizar o rito da “confissão vitoriosa” e reordenar suas finanças com base nos textos sagrados e nas orientações técnicas da área econômica.

As ofertas e os dízimos são recolhidos exclusivamente nos cultos no templo em envelopes. O crente pode colocar dinheiro, cheque ou comprovante de depósito ou transferência para a conta bancária da igreja. Cada um destes invólucros de papel trazem

o logotipo da igreja, imagens (mãos levantadas, plantação de trigo, mãos abertas) e versículos bíblicos que reforçam o ideário da CG. Há um envelope destinado ao dízimo que traz o seguinte trecho da Bíblia em Malaquias 3,10: “Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida”. Neste o fiel escreve o seu nome completo, coloca a data de entrega e discrimina o valor em reais do seu dízimo. Outro envelope traz uma citação bíblica em II Coríntios 9,7: “Cada um contribuía segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama a quem dá com alegria”. E em certas ocasiões é disponibilizado um envelope que traz a expressão “Gratidão” acompanhada da frase da Bíblia em I Crônicas 29,14: “Tudo o que temos feito veio de Deus, e nós somente damos ao Senhor o que já é seu!”. Conforme asseveram os pastores no momento cúltico, os valores são colocados em envelopes com o intento de não constranger os fiéis a terem que expô-los na frente de outros crentes que estejam por perto, todavia uma forma de coação ocorre quando os líderes religiosos pedem aos crentes que desejam “louvar a Deus com suas finanças” que estendam uma das mãos a fim de um diácono levar até eles as sobrecartas em que farão o seu depósito. Como muita gente oferta nos cultos, muitos daqueles que não estavam dispostos a participarem deste ato acabam por colocar nas salvas algum dinheiro, pois vários fiéis estão participando. Em seqüência uma oração é feita a Deus agradecendo a oportunidade de compartilhar daquele rito financeiro, pede-se que os crentes não passem necessidades econômicas, suplica-se em favor de quem esteja desempregado e não pode contribuir, e finalmente solicita-se ao Espírito Santo que desperte aquelas pessoas que têm condições e não colaboram financeiramente com o Reino de Deus.