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Pesquisas etnográficas normalmente resultam em grande quantidade de dados, o que nos obriga a desenvolver métodos para o tratamento desse material. Em minha pesquisa não foi diferente: as transcrições dos encontros de grupo focal, das entrevistas individuais e das reuniões gravadas geraram centenas de páginas que não poderiam ser analisadas integralmente seguindo-se os métodos próprios da ADC.

Embora grande parte do trabalho de produção das análises tenha sido feito diretamente nos arquivos digitais, as etapas iniciais de tratamento dos dados são, para mim, um trabalho a ser feitos com lápis, canetas coloridas e, infelizmente, muito papel. Meu primeiro procedimento, após a transcrição das gravações em áudio e a impressão dos arquivos, foi uma primeira leitura cuidadosa de cada documento. Apenas na segunda leitura fiz grifos e tomei notas a respeito dos textos, já iniciando uma seleção prévia de recortes potenciais. Utilizei esse primeiro recorte, mais amplo, como base para o recorte final, imprimindo-lhe uma cópia e reiniciando o processo.

Nesse sentido, minha estratégia pode ser identificada com o que Crabtree & Miller (1992: 95) conceituam como “abordagem mais flexível”, em oposição a uma abordagem “mais estruturada”, em que a codificação do texto é definida a priori e depois aplicada aos dados. Na abordagem flexível, ao contrário, é a leitura dos dados que define a codificação,

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em termos dos temas e categorias que se decide explorar. Evidentemente, essa abertura na codificação é algo relativa: quando procedemos à primeira leitura dos documentos não estamos livres de pressuposições a seu respeito, temos já construídas algumas perspectivas a respeito do que vamos buscar, não só porque conhecemos as interações de que são resultado, mas também por toda a experiência etnográfica com a observação.

Trata-se de uma tarefa trabalhosa, demorada, mas que resulta útil para a redução do extenso material em dados especificamente relacionados às questões de pesquisa. Se por um lado todo recorte carrega a desvantagem do não aproveitamento de parte dos dados gerados – e muitas vezes é preciso excluir da pesquisa temas que seriam também relevantes – por outro lado traz a vantagem de manter o foco nos problemas da pesquisa. O consolo é saber que toda pesquisa é mesmo um processo formado por escolhas subseqüentes – e além disso sempre é possível utilizar os dados não explorados na tese em trabalhos posteriores. A vantagem de se trabalhar com recortes decorre de que as formulações para análise textual da ADC referem-se a “um trabalho intensivo que pode ser

produtivamente aplicado a recortes de material de pesquisa mais que a textos longos” (Fairclough, 2003: 6). Como a unidade mínima de análise em ADC é o texto, entretanto, é

necessário que os recortes selecionados para análise não sejam constituídos de enunciados isolados, mas de trechos significativos em seu conjunto.

Uma vez definido o recorte final a ser aplicado sobre um determinado documento etnográfico, e providenciada sua impressão, adotei o procedimento da codificação em cores como primeira estratégia de identificação das categorias relevantes para a análise discursiva do documento. A codificação em cores é uma dentre as diversas estratégias para codificação disponíveis e, embora seja um procedimento muito simples – com base na utilização de canetas ou lápis coloridos para separar tópicos ou categorias que depois terão análise sistemática –, é útil para tornar mais ‘legíveis’ (ou ‘analisáveis’) os dados etnográficos. Utilizei canetas marca-texto de quatro cores diferentes para destacar recorrências de categorias que se mostravam úteis em cada texto. Assim fazendo, não apenas identificava categorias como também as separava, o que facilita no momento posterior, o da primeira redação da análise.

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Os capítulos analíticos são organizados de modo a contemplarem, cada qual, dois documentos etnográficos: no Capítulo 5, duas entrevistas com educadoras; no Capítulo 6, dois encontros de grupo focal; no Capítulo 7, duas entrevistas com jovens; no Capítulo 8, duas reuniões. Essa organização em duplas de documentos me permitiu experimentar duas estratégias analíticas em cada capítulo. Em cada um deles, a análise de um dos documentos seguiu uma estratégia mais estruturada, em termos de categorias de análise, e a outra seguiu uma estratégia mais seqüencial. Nesse sentido, Fairclough (2003: 6) sugere que o nível de detalhamento de análises em ADC pode variar: “a análise textual pode focalizar apenas

alguns aspectos selecionados de textos, ou muitos aspectos simultaneamente”.

Nas análises mais estruturadas, uma ou poucas categorias foram selecionadas a partir da codificação e então trabalhadas exaustivamente; nas análises mais seqüenciais, a análise não partiu da definição prévia de categorias a serem exploradas a fundo, mas foi conduzida de modo mais livre, incorporando diversas categorias à medida em que a análise se desenvolvia, isto é, apliquei uma estratégia mais seqüencialmente dirigida. Nesses casos, utilizei uma aproximação menos estruturada em categorias analíticas específicas e mais ancorada em uma abordagem integral dos recortes; busquei realizar a análise desses recortes de modo seqüencial, procedendo à aplicação de diversas categorias, de modo menos pré-definido, à medida que as categorias mostravam-se mais relevantes em cada trecho do recorte.

Que fique claro: mesmo nas análises que defino como mais estruturadas, a escolha das categorias não foi feita previamente à codificação, mas previamente ao trabalho de primeira sistematização das análises (algo como ‘no recorte X, parece relavante a categoria Y’ ou ‘parecem relevantes as categorias Y e Z’). Julgo esse detalhe relevante porque

sabemos que nas análises lingüísticas os dados é que nos devem mostrar as categorias adequadas e não serem encaixados em categorias definidas a priori. A diferença é que no caso das análises definidas como mais seqüenciais essa primeira sistematização foi mais intuitiva, isto é, nesse caso a codificação não me forneceu uma ou poucas categorias a serem perseguidas à exaustão mas sim um mosaico de categorias que foram trabalhadas de acordo com a linearidade do texto, resultando análises mais diversificadas. Ainda, mesmo nas análises que defini como mais estruturadas as seqüências dos recortes foram

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respeitadas, na medida do possível (em alguns casos o foco em categorias específicas nos obriga a reorganizar trechos do texto para análise dos dados), pois considero que em textos, ao contrário do que ensina a matemática, a ordem dos fatores altera a soma.

Assim, no Capítulo 5, a análise da entrevista com Júlia foi feita segundo uma abordagem seqüencial, tendo se mostrado relevantes como categorias analíticas a seleção de tempos verbais, as estratégias de mitigação, distanciamento e indeterminação, a modalidade e a utilização dos pronomes ‘a gente’ e ‘você’. A entrevista com Vera foi analisada de modo mais estruturado, a análise centrou-se na categoria de coesão, especificamente nas relações causais entre orações. No Capítulo 6, a análise do Grupo Focal 1 seguiu um padrão estruturado baseado nas categorias interdiscursividade e metáfora conceitual. No Grupo Focal 2, por outro lado, apliquei uma análise seqüencial em que foram relevantes as categorias (negociação de) significado de palavra, modalidade, uso de qualificadores e circunstâncias/complexidade em representações, intertextualidade. No Capítulo 7, a análise da entrevista com Maria foi estruturada nas categorias de modalidade e de processos verbais (esses para investigação de identificação relacional), e a entrevista com Joana teve uma análise mais seqüencial que sugeriu a relevância das categorias de coesão, indeterminação, metáfora, intertextualidade, modalidade e pressuposição. Por fim, no Capítulo 8, a Reunião 1 foi analisada por meio das categorias de negociação de significados, modalidade, uso de dêiticos e metáfora, e a análise da Reunião 2 foi estruturada na categoria representação de atores sociais.

Evidentemente, o tipo de análise escolhido para cada documento dependeu do próprio documento. Em alguns casos, os textos mostram-se mais claros, apontam categorias cuja exploração se vê útil, salta aos olhos. Em outros, aparecem instâncias de categorias diversas que, juntas, mostram-se mais eficazes que a exploração sistemática de uma ou duas. Agora, depois de escritos os capítulos analíticos e finalizada a tese, a avaliação que faço de um e outro método é que ambos resultam análises capazes de nos levar a conclusões pertinentes do ponto de vista da articulação entre categorias lingüísticas e sociais – que no fundo é o que buscamos. Uma diferença é que as análises mais estruturadas parecem mais duras, inclusive gerando textos analíticos mais pesados,

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enquanto as análises seqüenciais têm o potencial de serem, por um lado, mais abertas e, por outo lado, mais leves.

Outra observação: as análises foram concluídas na ordem em que os capítulos analíticos aparecem na tese – ou seja, comecei pelas entrevistas com as educadoras, passei para os grupos focais e assim por diante –, e a impressão que tenho é que a diferença entre os dois tipos de análise diminuiu à medida que esse trabalho foi sendo desenvolvido. O que quero dizer é que nos capítulos iniciais a diferença entre as análises mais estruturadas e mais seqüenciais (compare por exemplo as análises das entrevistas com Júlia e Vera) parece ser maior que nos capítulos finais (por exemplo, nas análises das reuniões). Isso pode indicar que em vez de buscar identificar e comparar vantagens de um e outro método o mais adequado é mesmo encontrar o equilíbrio entre os dois tipos de análise – por exemplo, focalizando algumas categorias a serem exploradas mais a fundo mas sem perder de vista a contribuição que outras categorias, mais localizadas, podem trazer. As categorias utilizadas são definidas nos próprios capítulos analíticos.

Algumas considerações

A seleção da abordagem multimetodológica nesta pesquisa se justifica porque as fontes e métodos selecionados para a geração e a coleta de dados ensinam sobre as práticas implicadas na atuação do Movimento e ajudam a perceber como relações sociais, identidades e discursos articulam-se nessas práticas. Também porque, por meio dessas fontes e métodos, foi possível examinar todas as questões de pesquisa levantadas.

Além disso, a articulação dos métodos selecionados foi uma forma de explorar diferentes dimensões de um processo social e de dirigir-me a diferentes níveis ontológicos. Assim, por meio da observação participante registrada em notas de campo, que se estendeu a todo o processo de pesquisa, pretendi conhecer atividades materiais, relações sociais e redes de práticas; por meio de grupos focais e entrevistas focalizadas, pretendi acessar discursos, identidades e representações discursivas da ação social e de relações sociais; por meio da gravação de reuniões, busquei acesso a identificações e representações discursivas de relações sociais e da ação social, além de converter em

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textos passíveis de análise atividades materiais do Movimento, o que me permitiu focalizar também a negociação de significados e as relações sociais estabelecidades nas interações.

Os produtos analíticos resultantes da exploração desses dados, então, são ontologicamente consistentes porque estão baseados em assunções similares a respeito da realidade social como estratificada e constituída de práticas formadas por articulações relativamente estáveis de elementos que não se podem reduzir um ao outro, e porque possibilitaram o acesso aos componentes ontológicos de acordo com essa perspectiva do mundo social (ver Capítulo 2). São epistemologicamente consistentes porque estão baseados em assunções acerca do que pode constituir conhecimento da realidade social coerentes com a ontologia adotada (ver Capítulo 3). E são, também, coerentes com o desafio intelectual que me imponho e com a ética de pesquisa que me exijo.

REPRESENTAÇÕES DA CRISE PELAS EDUCADORAS DO 

MNMMR/DF 

E o Movimento teve um auge mesmo. Na década de ‘80, juntou o Estatuto, a luta do Estatuto, do próprio Movimento Nacional dos Meninos de Rua que veio, que mobilizou, que trouxe a meninada pra o Congresso (…). E você cumprir o Estatuto da Criança e do Adolescente, você fazer com que os meninos percebam o Estatuto…É uma lei brasileira moderna, só que, quando você põe em prática na luta, é muito difícil você fazer essa conquista, principalmente em se falando de protagonismo juvenil.

(Entrevista com Vera)

este primeiro capítulo analítico, investigo as representações das educadoras do

MNMMR/DF, Júlia e Vera, a respeito do Movimento e de sua crise – as origens do

Movimento, sua formação como entidade de luta pelos direitos de crianças e adolescentes, suas conquistas e desafios, as causas e conseqüências de sua crise.

O que me interessa neste capítulo é investigar como as educadoras representam os eventos que acarretaram a crise e como constroem relações causais/temporais entre esses eventos. Dessa forma, o capítulo tem o mérito de construir um quadro acerca da compreensão da crise do Movimento por parte de pessoas que atuam na organização há mais de uma década e que foram atores/testemunhas de sua história, desde antes do período de crise.

Embora este capítulo não toque diretamente nas questões centrais da tese – o significado de protagonismo juvenil; a luta em torno da construção de identidades; a contradição entre mobilização social e a percepção de imobilidade na estrutura –, as análises indicam questões que podem ser identificadas nas representações da crise pelas educadoras, e que nos ajudam a compreender os recortes analisados nos capítulos posteriores. Os recortes analisados das entrevistas com Júlia e Vera constam no Anexo A.

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