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Uma vez estabelecido contato com as participantes por meio da observação, a pesquisa passou a uma segunda etapa: a realização de grupos focais com jovens que participaram do MNMMR/DF na infância e na adolescência, a fim de discutir a ação do

Movimento em suas cidades. Grupo focal define-se como uma técnica de pesquisa que diz respeito à geração de dados “por meio de interação grupal sobre um tópico determinado” (Morgan, 1996: 130). O grupo focal, então, localiza a interação em uma discussão em grupo que é a fonte dos dados. A vantagem do grupo focal sobre a entrevista individual é justamente a interação: por meio do grupo de discussão é possível captar pontos de instabilidade e discordância, negociação de significados, liderança (Hollander, 2004).

Gaskell (2005: 66) chama atenção para a necessidade de formulação de um tópico-guia na condução de qualquer tipo de entrevista qualitativa, individual ou em grupo. Para ele, “um bom tópico-guia irá criar um referencial fácil e confortável para uma discussão, fornecendo uma progressão lógica plausível através dos temas em foco”. Entretanto, é preciso adotar o tópico-guia, formulado para dar conta das questões de pesquisa, com flexibilidade: algumas alterações de foco podem acontecer devido ao próprio interesse dos/as participantes.

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Os encontros de grupo focal foram a primeira estratégia de geração de dados analíticos no contexto do MNMMR/DF. Antes disso eu havia feito observação participante e

tomado notas de campo, mas ainda não havia feito entrevistas individuais ou grupais. O método de grupo focal não constava no planejamento inicial da pesquisa, foi inserido por sugestão de Júlia, a educadora do MNMMR/DF a que me referi como sendo ‘participante-

chave’. A educadora percebeu minha preocupação com a desestruturação do MNMMR/DF

– o Movimento, que tem mais de 20 anos de existência, encontrava-se, de acordo com representações de seus próprios membros, em fase de crise financeira, administrativa, pedagógica e de militância – e considerou que uma discussão com jovens que passaram pelo Movimento antes desse período de crise seria pertinente para que eu pudesse tomar conhecimento dessa outra fase das atividades do MNMMR/DF.

Júlia julgava interessante que eu conversasse com ‘ex-meninos/as’ do Movimento que pudessem me contar sobre suas trajetórias junto à organização e sobre o funcionamento dos núcleos antes de sua crise e do encerramento de suas atividades. A denominação ‘ex-meninos/as’ não é uma imposição da pesquisa; é interna ao Movimento, sendo um modo usual de referência a jovens que na infância e/ou adolescência participaram do Movimento como ‘meninos/as’, fizeram parte de projetos de nucleação e organização, e, na juventude, ou deixaram de participar diretamente, mantendo entretanto vínculo com a instituição, ou assumiram outros papéis junto ao Movimento, tornando-se ‘protagonistas’. Como meu projeto tem por base a pesquisa participativa, achei por bem acatar sua sugestão e realizei dois encontros de grupo focal, em abril de 2006, na sede do Movimento. Ambos os encontros foram organizados pela educadora.

Para participarem do Grupo Focal 1, que aconteceu no sábado 07 de abril de 2006, pela manhã, na sede do Movimento na Asa Norte, Júlia contatou nove jovens, que confirmaram sua presença. No dia marcado, entretanto, uma chuva muito forte impediu que algumas pessoas fossem à Asa Norte – todas moram em cidades satélites distantes do Plano Piloto. Outras pessoas, ainda, deixaram de comparecer sem justificar sua ausência.

Trata-se de uma dificuldade identificada em qualquer tipo de entrevista em grupo: é preciso contar com a disponibilidade de um número de pessoas, e isso sempre pode trazer problemas. No caso de minha pesquisa, devo confessar que a ausência de mais da

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metade das pessoas convidadas, embora tenha me frustrado, não me impressionou: não era a primeira vez – e não seria a última – que um compromisso agendado deixava de ser cumprido. Sobre minha decepção em relação às ausências nesse encontro de grupo focal, registrei em meu diário de campo:

Hoje às 9h eu estava no Movimento. A Jú também chegou pontualmente para abrir para mim, mas já adiantou: com essa chuva os/as meninos/as vão chegar atrasados. Foi pior que isso: dos nove confirmados só vieram quatro! Parece que estava chovendo muito hoje de manhã no entorno. Fiquei bem chateada, depositei tanta energia nisso! Puxa! Fizemos a discussão só nós cinco mesmo (a Jú foi embora depois de abrir e conversar um pouco com a gente). (...) Cheguei em casa meio tonta, cansada, frustrada. Tenho de registrar também que fiquei um bocado decepcionada com as ausências de hoje... mas não posso desanimar! Difícil isso... (Nota de campo registrada em 8 de abril de 2006).

Na verdade, o processo de minha pesquisa foi fortemente marcado por frustrações decorrentes de insucessos no planejamento e por angústias a respeito da geração de dados – logo no início da pesquisa registrei em meu diário: “Isso é sempre uma incógnita no Movimento... a gente nunca sabe se as coisas acontecerão como planejamos...”. Não fosse por minha insistência no prosseguimento da pesquisa, que em parte devo às participantes e a minha orientadora, o projeto poderia ter sido abandonado. Como vimos no Capítulo 1, foi necessário fazer ajustes não raros para adequar o planejamento inicial a essa realidade complexa na qual escolhi realizar minha pesquisa. A pesquisa com movimentos sociais da natureza do MNMMR/DF, sobretudo em contextos de crise organizacional, inclui esse risco.

O tempo da pesquisa e o tempo da organização não coincidem, assim como não coincidem minhas urgências como pesquisadora e as urgências dos membros do grupo. Uma das coisas que aprendi é que é preciso ter paciência.

Vieram enfim quatro pessoas a esse Grupo Focal 1, chegando com mais de uma hora de atraso. Eram dois ex-meninos e duas ex-meninas, que já se conheciam do Movimento. Os jovens, Rafael e Alexandre, fazem parte do primeiro grupo de ‘ex- meninos/as’ identificado – aquele composto por jovens que deixaram de participar diretamente das atividades do Movimento –, as jovens, Maria e Amanda, ao contrário, fazem parte do segundo grupo – assumiram papéis na organização.

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Maria foi uma parceira importante em todo o desenvolvimento da pesquisa. Tinha, à época do Grupo Focal 1, 25 anos. Ela participou do Movimento na infância, deixou de participar na adolescência, em decorrência de uma gravidez aos 15 anos. Casou-se e teve duas filhas. Aos 21 anos separou-se de seu companheiro e voltou a participar do Movimento, dedicando-se à nucleação de meninos e meninas em sua comunidade: foi coordenadora do Núcleo de Base do MNMMR/DF em sua cidade, aqui identificada como

Campina. O núcleo teve suas atividades totalmente interrompidas em dezembro de 2005, e meses antes disso já não funcionava bem. Quando realizamos o Grupo Focal 1, Maria militava no Movimento e era também membro do comitê da juventude do Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. No papel de representante do Centro-Oeste na coordenação colegiada desse comitê, viajava regularmente por todo o país. Hoje Maria é contratada como educadora no Projeto Giração, aprovado pelo Cecria (Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e

Adolescentes), em parceria com o MNMMR/DF, para organização de jovens

trabalhadores/as das imediações da rodoviária do Plano Piloto de Brasília (trata-se do projeto a que me referi na Seção 3.2.1).

Amanda tinha também 25 anos na ocasião do grupo focal. Ela é casada, mãe de duas filhas. Participou como menina no Movimento e teve papel na constituição de um núcleo de base em Oliveiras. O núcleo foi coordenado por ela até o encerramento das atividades em dezembro de 2005. Desempenhou na comunidade sobretudo ações culturais relacionadas à formação de um grupo de quadrilha que se apresenta em festas de São João, atividade articulada à organização de meninos e meninas e à garantia de direitos. Em meados de 2006, Amanda empregou-se como balconista na cafeteria de um shopping, mas, segundo ela, depois de alguns meses foi acusada injustamente de furto por seu empregador – que depois admitiu o engano –, e pediu demissão. Atualmente participa, com Maria, do Projeto Giração, tendo sido contratada também como educadora.

Rafael contava 20 anos quando de sua participação no Grupo Focal 1. É solteiro, ex- menino do Movimento, esteve em situação de rua e estudou, junto com sua irmã, na Escola do Parque, instituição pública de educação para crianças e adolescentes em situação de rua. Na adolescência, ao lado de Amanda e de mais outros/as 18 meninos e meninas do Movimento,

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participou da montagem da peça de teatro “Brasileirinho”, em que atuou no papel principal. A peça, a respeito da situação de crianças e adolescentes pobres no Brasil, obteve apoio da Caixa Econômica Federal para se apresentar no Canadá – Rafael sempre conta com saudades de sua atuação na peça e de sua viagem ao exterior. Aos 17 anos Rafael cometeu um ato infracional relacionado ao tráfico de drogas e cumpriu medida sócio-educativa no CAJE – Centro de

Atendimento Juvenil Especializado; à época do encontro estava em regime de liberdade assistida, vivendo com sua mãe. Em meados de 2006, entretanto, foi preso por tráfico de drogas e encarcerado no presídio da Papuda, no Distrito Federal. Posteriormente, foi libertado por haver sido considerado usuário de drogas e não traficante.

Alexandre foi o mais jovem integrante desse grupo focal. Ainda adolescente, tinha 16 anos quando fizemos o encontro. Alexandre esteve em situação de rua dos 11 aos 15 anos, tendo sido usuário de drogas. Vivia na rua quando conheceu o Movimento, a convite de um primo que o acompanhava. Aproximou-se do Movimento atraído por atividades culturais e esportivas então oferecidas pela organização. À época da realização do grupo focal vivia com a família no entorno do Distrito Federal, em Goiás.

Os dois encontros de grupo focal não tiveram exatamente os/as mesmos/as participantes – como vimos, uma dificuldade das interações grupais é a disponibilidade das pessoas em participar dos encontros. O Grupo Focal 2 aconteceu também na sede da Comissão Local do MNMMR/DF, no dia 11 de abril de 2006, na terça-feira seguinte ao dia

do Grupo Focal 1. Dessa vez, foi agendado para o período da tarde, às 14h30. Estiveram presentes, do Grupo 1, Maria, Amanda e Rafael. Outras participações foram as de Fernanda, irmã de Maria, e Gabriel.

Fernanda é irmã mais nova de Maria. É casada e mora na casa dos pais com sua família. Tem um filho de quatro anos e uma filha de dois meses. Ambas as crianças foram levadas ao encontro – nesse dia Amanda também precisou levar sua filha de quatro anos, de modo que o Grupo Focal 2 foi realizado em um ambiente algo conturbado. Fernanda foi uma das adolescentes fundadoras do núcleo de Campina, onde sua família vive até hoje. Ela participou do Movimento na infância e adolescência, mas deixou de participar ao completar 18 anos – no encontro ela afirmou que se sentiu sem espaço no Movimento quando deixou de ser adolescente. Maria e Fernanda têm uma relação difícil, e a

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participação de Fernanda no Grupo Focal 2 praticamente limitou-se às provocações feitas a Maria. Em meu diário de campo registrei: Faltaram discutir as duas.

Gabriel também particiou do Movimento na infância e na adolescência, tendo posteriormente deixado de participar diretamente. É estudante universitário, o único entre os/as participantes dos dois encontros a ter ingressado no curso superior. Em minhas notas de campo registrei que sua fala parece ter sido amplamente direcionada pelas provocações de Fernanda. Registrei também que isso se alinha com a discussão de Hollander (2004) acerca de discursos problemáticos em grupos focais:

A Fernanda disse que se sentiu excluída [do Movimento] quando fez 18 anos e fez uma porção de críticas. O Gabriel falou pouco e parece que a fala dele foi muito direcionada pela fala da Fernanda. Ele concordava com ela em tudo. Senti direitinho o que Hollander fala sobre os discursos problemáticos em grupo focal! Como ela foi a primeira a falar e fez críticas logo de cara, foi a opinião dela e o modo dela de se expressar que pautaram toda a discussão. Do jeitinho como Hollander discute no artigo! (Nota de campo registrada em 11 de abril de 2006).

Os encontros de grupo focal tiveram a duração média de duas horas cada. Foram gravados em áudio e transcritos para serem analisados de acordo com os métodos propostos pela ADC. Além do objetivo inicial dos encontros, de conhecer uma perspectiva

anterior ao período de crise, os grupos focais resultaram relevantes para a análise da identificação das jovens protagonistas, Maria e Amanda, nas interações grupais. Nesse sentido, as discussões em grupo possibilitaram acesso a perspectivas divergentes em relação ao protagonismo juvenil e à mobilização social, o que implica diferenças na identificação de Maria e de Amanda como protagonistas. Ademais, as participações de Rafael, Alexandre, Fernanda e Gabriel denotam uma incerteza acerca do que seja protagonismo juvenil, o que causa estranhamento uma vez que esse é um tópico considerado central na ação do Movimento (ver Capítulo 6).

O tópico-guia formulado para os encontros de grupo focal nesta pesquisa centrou-se em dois principais eixos temáticos: (1) o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua no Distrito Federal e (2) o protagonismo juvenil. Formulei questões abertas, propondo temas para a discussão, com base nesses dois eixos. Para ambos os eixos temáticos, iniciei com perguntas descritivas, procurando incitar respostas dirigidas pela compreensão dos/as

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participantes quanto aos temas tratados, e adicionei perguntas estruturais, que acrescentam um foco mais específico (Gilchrist, 1992). As questões propostas foram:

EIXO TEMÁTICO (1)

O que é o MNMMR/DF?

Quais são os objetivos do MNMMR/DF?

Como o MNMMR/DF age para atingir esses objetivos? Como se deu o ingresso do/a participante no MNMMR/DF?

EIXO TEMÁTICO (2)

O que é o protagonismo juvenil?

O protagonismo juvenil tem uma importância social? Se sim, qual? O que faz de um/a jovem protagonista?

O MNMMR/DF favorece o protagonismo juvenil? Se sim, como?

Quadro 4.1 – Tópico-guia para os grupos focais

Não depositei demasiada preocupação em seguir as questões na ordem em que foram pensadas inicialmente, respeitando o fluxo da interação, nem tampouco em formulá-las exatamente no formato pré-estabelecido (Atkinson & Pugsley, 2005). Esse tópico-guia, como o nome sugere, foi utilizado como um guia para as interações grupais, mas houve abertura para que os/as participantes sugerissem outros temas de interesse ou conduzissem um tema levantado em direções não previstas no momento de formulação do tópico. Isso reflete a necessária flexibilidade do planejamento em pesquisa etnográfica de caráter participativo. Uma conseqüência dessa abertura, entretanto, é que nem todos os temas levantados foram efetivamente tratados.