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Vimos, nas seções anteriores, algumas implicações epistemológicas do RC para

pesquisas em ciências sociais e, especificamente, para pesquisas discursivas. Não somos cientistas sociais, somos analistas de discurso. Embora nossos problemas sejam de caráter social e dialoguemos com teorias sociais, é importante que mantenhamos nossa posição como analistas – o que, por um lado, ajuda a legitimar a lingüística como campo de investigação crítica e, por outro, esclarece nosso foco. Isso não significa nos fecharmos em um campo considerado acabado; sabemos que todo conhecimento é histórico e contextual, e como qualquer outro conjunto de crenças é passível de transformação e superação. Nesse sentido, é vantajosa a abertura a teorias fronteiriças, e é essa abertura que faz da ADC não

uma disciplina, mas uma interdisciplina. Mantermos a distinção de nosso trabalho como analistas de discurso em relação ao trabalho de cientistas sociais é um modo, porém, de

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estabelecermos com clareza nosso papel particular na crítica social contemporânea – não se trata de demarcação de territórios acadêmicos, mas de clareza em relação a objetos e objetivos, o que é relevante inclusive para a formação de redes multidisciplinares.

Temos interesses específicos em aspectos de problemas sociais que não coincidem plenamente com os interesses das ciências sociais (em termos da dimensão intransitiva do conhecimento), e contamos com habilidades e discursos científicos diferentes (em sua dimensão transitiva). Acontece que nosso foco, como analistas de discurso, não são primariamente as atividades materiais ou as estruturas sociais de um modo amplo, mas o momento discursivo das práticas sociais e as relações causais que estabelecem com outros momentos das práticas, as relações de emergência entre aspectos discursivos e não discursivos na reprodução/transformação da sociedade. Como determinados discursos são utilizados para manter/transformar relações sociais? Como construções discursivas de identidades entram em conflito em práticas sociais específicas? Como recursos discursivos – habilidades para a produção de textos em gêneros específicos, acesso a espaços privilegiados de interlocução etc. – são disponibilizados a atores sociais que ocupam posições específicas?

Uma implicação direta desse interesse particular nos aspectos discursivos de práticas sociais é que, em nosso diálogo profícuo com as ciências sociais, precisamos fazer reflexões que nos permitam adaptar categorias e conceitos a nossos interesses, precisamos transformá-los em ferramentas adaptadas a nossas necessidades. Um bom exemplo disso é a necessidade de se distinguir com clareza ação social e representação da ação social para não incorrer em inconscistências epistemológicas.

Para examinar essa distinção, tomemos a seguinte citação de Bhaskar (1998a: xvii, grifos meus): “o interesse das ciências sociais inclui não apenas objetos sociais mas também crenças sobre esses objetos”. Enquanto pesquisas em RC também percebem a relevância dos

discursos sobre objetos sociais não discursivos, pesquisas em ADC estão primariamente

interessadas nas representações discursivas, sem perder de vista a relevância dos momentos não discursivos das práticas sociais para a crítica explanatória do papel do momento discursivo das práticas. Isso porque o foco de pesquisas em ADC é no discurso, e portanto nas

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representações.23 No caso específico de pesquisas etnográfico-discursivas como esta, é preciso ter em mente que “não descobrimos estruturas sociais reais entrevistando pessoas sobre elas” (Archer, 1998: 199). Por isso o foco central em pesquisas etnográfico-discursivas não são as estruturas, práticas e eventos em si, mas suas representações discursivas, embora para o estudo dessas representações o conhecimento contextualizado das práticas em questão seja imprescindível. Vejamos o que Sayer (2000b: 20) nos diz a esse respeito:

Quando pesquisadores/as estão interessados/as em discursos e nas qualidades significativas de práticas sociais, não se trata de abstração seguida de síntese concreta, mas de interpretação. Entretanto, realistas acrescentariam que para interpretar o que atores sociais dizem precisamos relacionar seu discurso aos referentes e aos contextos. Também vale lembrar que a realidade social é apenas parcialmente textual. Muito do que acontece não depende ou não corresponde à compreensão de atores sociais; há conseqüências inesperadas e condições não percebidas, e as coisas podem acontecer a pessoas independentemente de sua compreensão.

Para análises discursivas lograrem críticas explanatórias, é indispensável um conhecimento contextual capaz de possibilitar o estabelecimento das relações entre representações discursivas e práticas sociais. Isso endossa a relação desejável entre ADC e

etnografia. O reconhecimento de que a realidade social é apenas parcialmente discursiva, e de que portanto as representações das práticas/eventos carregam lacunas inevitáveis, sugere que os documentos etnográficos gerados/coletados em campo sejam complementados por estratégias observacionais na construção do objeto da pesquisa. Nesse sentido, Fairclough, Jessop & Sayer (2002: 2) sugerem que “pode ser necessário ou apropriado suplementar a ADC com análises mais concretas-complexas dos domínios

extradiscursivos”, assim como Wodak (2003a) insiste que o trabalho de campo é desejável para se explorar o objeto da investigação e como condição prévia para trabalhos de

23 Não excluo a possibilidade de pesquisas em ADC focalizarem o aspecto discursivo da ação social em si, e não a

representação da ação social. Tomemos como exemplo uma pesquisa em que audiências públicas sejam gravadas a fim de se investigar como os atores sociais participantes agem por meio da linguagem. Nesse caso, o foco será o aspecto discursivo da ação social, a ação discursiva. Nesta pesquisa, entretanto, discuto a questão da distinção entre ação e representação da ação, pois meu interesse específico é a representação. A questão da relação entre ação social e ação discursiva fica em aberto.

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análise. Blommaert (2005: 233) vai mais além, quando sugere o caráter central da contextualização para pesquisas discursivas e propõe a etnografia como meio para tanto:

Precisamos desenvolver uma abordagem ampla da linguagem na sociedade, em que a contextualização do discurso seja um elemento central. Se tomamos contexto seriamente, então precisamos investigá-lo seriamente. Isso significa que precisamos adotar um registro eclético de abordagens e métodos capaz de captar a complexidade do discurso como local de desigualdade. Para isso a etnografia é central: uma perspectiva da linguagem como intrinsecamente ligada a contexto e atividade humana.

Não basta identificar desejos, motivações – e mesmo ações – de atores sociais em relação a um objetivo de mudança social, porque a efetividade dos projetos pessoais/institucionais depende dos modos como se relacionam com contingências contextuais, com as possibilidades apresentadas nos contextos em que sua atividade social se desenrola. Isso justifica explanações causais: o que há nos contextos pesquisados que permite ou bloqueia o sucesso de uma ação intencional? O fracasso das estratégias de atores sociais/instituições pode ter mais relação com as limitações contextuais que com suas intenções discursivamente representadas. Daí a relevância da observação para a apreensão dessas contingências.

A crítica explanatória construída em termos de relações causais, explica Collier (1994: 18), é interna no sentido de que “as contradições descobertas são internas à prática”. O que está em questão é identificar nas próprias práticas pesquisadas contradições que bloqueiam a ação social. No caso de pesquisas discursivas, essas contradições podem ser entre discursos interiorizados e práticas – por exemplo, o discurso da imobilidade das estruturas sociais, que entra em contradição irreconciliável com a mobilização social –, entre construções identitárias e posições – como no caso das posições de ‘menina’ e de ‘educadora’ e a luta identitária em torno dessas posições (ver Parte II). Como vimos, esses elementos discursivos são objetos concretos que podem ser causalmente explicados, por um lado, e identificados como mecanismos em explanações causais, por outro.

A descrição do objeto da pesquisa é uma necessidade anterior à produção de uma crítica explanatória. Bhaskar (1998c: 72) sugere que essa etapa descritiva depende de dois tipos de trabalho: o trabalho prático experimental, cujo objetivo é tornar o objeto

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acessível à percepção do/a pesquisador/a, “em que os poderes perceptivos do/a cientista aumentam”, e o trabalho teórico, cujo objetivo é possibilitar a produção de uma descrição cientificamente informada do objeto, “em que os poderes conceitual e descritivo do/a cientista aumentam”. Bhaskar pondera que ambos os tipos de trabalho são essenciais para uma descrição qualitativa, mas para ele são tarefas independentes.

No caso de pesquisas de caráter etnográfico-discursivo como a que realizei, entretanto, essa separação entre construção do objeto e construção do conceito do objeto não se verifica, já que o processo da pesquisa etnográfica é recursivo (ver Capítulo 4). Creio que em qualquer pesquisa que lide com geração/coleta de dados por meio de trabalho de campo, quando se inicia o processo de produção do corpus (construção do objeto) já se inicia a formulação de conceitos com base nas teorias que nos servem de suporte (construção do conceito do objeto). Tentar estabelecer uma separação por um lado não é possível e por outro não é desejável. Nesse sentido, prefiro concordar com Sayer (1998: 122) quando argumenta que “a observação não é teoricamente neutra, e a teoria não apenas ‘organiza os fatos’, mas traz reivindicações sobre a natureza de seu objeto”.

Uma vez construído o corpus e formulados os conceitos básicos da pesquisa, realistas críticos/as procedem à explanação social dos problemas investigados. O ponto de partida para a identificação de estruturas explanatórias é a interpretação. Para Bhaskar (1998d: 238), o potencial explanatório de pesquisas sociais tem por base a análise de significados e “dos modos como tais significados são produzidos”. Essa relevância da análise semiótica para a crítica explanatória sugere a vantagem de uma articulação com a

ADC e sua formulação metodológica para a análise de dados textuais: “é aí que a análise de

discurso pode contribuir no desenvolvimento da pesquisa social; mas isso não deve ser concebido como um simples somatório de teorias de linguagem existentes com teorias sociais existentes” (Fairclough, 2000: 165). A interiorização entre teorias sociais e discursivas sem dúvida recebe uma contribuição relevante da ADC, mas não podemos

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Algumas considerações

Como vimos no capítulo anterior, o diálogo com a Ciência Social Crítica, e especialmente com o Realismo Crítico, provê à Análise de Discurso Crítica uma versão de ontologia que prevê a estratificação da realidade social, a vida social como um sistema aberto constituído de redes de práticas em relações relativamente estáveis, em que as estruturas sociais são a condição sincrônica dos eventos sociais e o resultado diacrônico desses mesmos eventos. Neste capítulo, procurei enfatizar a necessidade de reflexões de caráter epistemológico em estudos discursivos, sobretudo do ponto de vista das vantagens e limitações das relações entre disciplinas de que nos valemos em nossas pesquisas. Nesse sentido, foram abordadas algumas implicações epistemológicas dessa versão da ontologia. A distinção entre os estudos sociais e os estudos discursivos, no que se refere à crítica explanatória baseada em relações causais, é que nosso interesse são os mecanismos gerativos de elementos discursivos e os modos como facetas desse momento discursivo podem ser também mecanismos gerativos de mudança social. Se questões epistemológicas também incluem a consideração de que evidências contam como conhecimento das coisas sociais, outra diferença notável pode ser formulada: para a ADC, as evidências mais

significativas são lingüístico-discursivas, pois nossa ferramenta para a crítica social são categorias para análises textualmente orientadas.

Assim, se em pesquisas etnográfico-discursivas os processos de construção do objeto e de construção do conceito do objeto são considerados recursivos – pois a observação não é teoricamente neutra e as teorias carregam pressupostos sobre seus objetos –, o mesmo também é verdade para os processos de análise discursiva e crítica explanatória. Isso porque as evidências de que nos valemos para a crítica explanatória são as articulações entre as análises textualmente orientadas de dados e conhecimentos extra- discursivos da prática social. Quanto mais eficiente for a pesquisa no sentido de mapear essas conexões, mais relevantes serão seus resultados em termos da crítica explanatória.

Tomadas as decisões sobre as perspectivas ontológica e epistemológica adotadas para a pesquisa, é preciso considerar que estratégias de geração e coleta de dados podem ser coerentes com tais decisões. Além disso, essas estratégias precisam levar em consideração as questões de pesquisa, isto é, o planejamento da pesquisa deve decorrer

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também das questões que se pretende abordar. Antes de apresentar a metodologia da pesquisa foi necessária uma reflexão acerca das relações entre as perspectivas ontológica e epistemológica em seu planejamento, pois “as técnicas são selecionadas pela instância ontológica e epistemológica, e não o contrário” (Páramo & Otálvaro, 2006: 6).

Os métodos etnográficos selecionados para a pesquisa de campo neste estudo foram a observação participante, as notas de campo, o grupo focal, a entrevista focalizada e a gravação de reuniões. No próximo capítulo, discuto cada um desses métodos utilizados para geração/coleta de dados e procuro mostrar como se relacionam às questões da pesquisa.

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ESTABELECENDO RELAÇÕES ENTRE ONTOLOGIA, 

EPISTEMOLOGIA E METODOLOGIA: AS ESTRATÉGIAS 

DA PESQUISA 

Busco uma etnografia de redenção, pragmaticamente profética, existencial, vulnerável, que nos mostre como agir moralmente, com solidariedade e dignidade (...). Essa etnografia se movimenta da minha biografia para as biografias de outras pessoas, para esses raros momentos em que nossas vidas se conectam.

(Norman Denzin, 1999: 511)

o desenvolvimento desta pesquisa, a geração e a coleta de dados foram feitas por meio da articulação de diversos métodos etnográficos, e essa articulação – decorrente da reflexão acerca da necessária relação entre ontologia, epistemologia e metodologia – define uma contribuição da pesquisa para os estudos em ADC. Este

capítulo, então, deve ser considerado como uma continuação da discussão sobre a ontologia que orienta a versão de ADC que adoto e das reflexões sobre epistemologia.

Isso porque as estratégias para geração e coleta de dados usadas em uma pesquisa não se justificam em si mesmas, mas em sua relação com os componentes ontológicos do mundo social que se pretende acessar, com a versão de epistemologia adotada e com as questões da pesquisa. O capítulo encontra-se dividido em quatro seções. Na primeira, faço uma reflexão inicial sobre colaboração e ética em pesquisa qualitativa. Em seguida, abordo os métodos selecionados para a geração e a coleta dos dados da pesquisa. Na terceira seção, dedico-me à reflexão acerca do que se espera com a articulação dos diversos métodos selecionados para geração e coleta de dados, baseada em uma discussão das questões da pesquisa. Na quarta seção, desloco meu foco para as estratégias observadas para o tratamento dos dados. Por fim, apresento algumas considerações sobre o capítulo.

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