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O planejamento da metodologia de uma pesquisa não deve decorrer diretamente do campo social pesquisado e/ou dos objetivos iniciais da pesquisa; deve, antes, ser resultante da reflexão acerca das perspectivas ontológica e epistemológica adotadas (Mason, 2006). A epistemologia é definida como “o estudo da natureza e dos fundamentos do saber” (Laville & Dionne, 1999: 332). Para Páramo & Otálvaro (2006: 3), a postura epistemológica refere- se ao “conjunto de pressuposições das quais nos valemos para nos orientar na busca do conhecimento”. Questões epistemológicas, então, são questões sobre como se considera possível gerar conhecimento acerca da realidade social pesquisada; são questões acerca da natureza do conhecimento, não sobre estratégias de geração e coleta de dados – essas últimas são questões metodológicas (tratadas no Capítulo 4). A epistemologia diz respeito aos modos por meio dos quais a realidade social pode ser conhecida, ao que se considera como evidência ou conhecimento das coisas sociais.

O modelo epistemológico adotado em uma pesquisa precisa ajudar a produzir conhecimentos acerca dos componentes ontológicos do mundo social, de acordo com a versão da ontologia considerada para a pesquisa. Por isso em uma pesquisa é necessário haver correspondência entre as perspectivas ontológica e epistemológica. Isso deve decorrer do reconhecimento não só de que há diversas epistemologias disponíveis, mas também de que “elas não são todas complementares ou igualmente consistentes com determinadas posições ontológicas” (Mason, 2002: 13).

Por exemplo, se o objetivo de uma pesquisa é explorar as relações entre atividades, relações sociais, identidades e discursos em uma prática social específica, então essa pesquisa apresentará inconsistências caso baseie-se em uma epistemologia segundo a qual apenas o que é produzido no momento discursivo das práticas é passível de conhecimento – porque deseja explorar também outros momentos da prática, mas não percebe que tais momentos são também passíveis de conhecimento. Se concordamos que ações e processos sociais são passíveis de conhecimento e se queremos entender a relação

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entre eventos, práticas e estruturas sociais, então só o discurso não definirá um bom projeto: é preciso lançar mão de relações interdisciplinares, o que inclui reflexão epistemológica. Análises discursivas críticas baseadas apenas em dados documentais (e a maioria das abordagens é documental, segundo Meyer, 2003) não conseguem realizar epistemologicamente todo o potencial da perspectiva ontológica adotada pela ADC,

baseada em uma realidade social estratificada composta de práticas e redes de práticas. Em outras palavras, carecem de coerência entre teoria e empiria.

Existe, então, uma inconsistência entre a perspectiva ontológica da ADC e sua

tradição de análise documental isolada: se os componentes do mundo social são práticas sociais compostas de relações sociais, ideologias, atividades materiais e discursos, e se esses elementos da prática social são dialeticamente interconectados e não se podem reduzir um ao outro, então há uma incongruência entre essa ontologia e a postura epistemológica que acredita que essa realidade social pode ser conhecida simplesmente por meio do discurso materializado em textos (análise documental). A epistemologia que dá conta dessa ontologia das práticas sociais tem de ser mais reflexiva de sua prática e, provavelmente, tem de articular outros métodos além da coleta de documentos. A questão fundamental é que pesquisadores/as em ADC precisam engajar-se na reflexão

epistemológica de seus projetos antes de passar à construção de metodologias capazes de gerar explanações contextualmente informadas das relações entre o momento discursivo e as dimensões extra-discursivas das práticas sociais que estudam.

Para Retamozo (2006: 4), “a dimensão ontológica se relaciona com o nível metodológico através do epistemológico”, e por isso “é necessário construir pontes que permitam transitar da ontologia para a epistemologia e para a metodologia”. Em muitas pesquisas discursivas, ao contrário, parece haver um salto entre uma ontologia altamente complexa e uma metodologia por vezes incapaz de responder a essa complexidade, e esse salto se dá justamente sobre a reflexão epistemológica, que é suprimida da pesquisa gerando uma lacuna. Reconhecendo que toda prática teórica crítica deve ser também auto-crítica, nesta pesquisa pretendo introduzir uma preocupação com a reflexão epistemológica em

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Não pretendo com isso afirmar que acredito que a realidade social possa ser diretamente acessada, como preferiria uma abordagem realista ingênua. Sabemos que nossa compreensão do mundo social sempre é mediada por nossos conhecimentos e teorias do mundo social, por isso toda abordagem plenamente naturalista do mundo social deve ser vista com cautela. Com Páramo & Otálvaro (2006: 4), assumo que “a informação empírica não é imediata, mas está a uma certa distância do objeto que representa. Portanto, é ingênuo considerar os dados empíricos como equivalentes diretos dos objetos materiais”. A ADC, assim como o RC, considera “a impossibilidade de pesquisas

científicas acessarem diretamente, por exemplo sem passar pelo crivo do pesquisador, o estrato empírico da realidade” (Ramalho, 2007: 79). Tal fato, entretanto, não deve ser suficiente para pôr em risco a validade dos métodos observacionais para investigação da ação social e das práticas sociais, pois mesmo os dados textuais são analisados de acordo com a subjetividade do/a analista, e isso – como sabemos – não constitui um problema para a interpretação em ADC, que não se pretende imparcial e assume a impossibilidade da

neutralidade analítica: “não existe análise ‘objetiva’ de textos, pois não é possível descrever simplesmente ‘o que está lá’ sem a participação da subjetividade do/a analista” (Fairclough, 2003: 14; ver também Chouliaraki & Fairclough, 1999).

Um desafio intelectual imposto a esta pesquisa, então, é ampliar a relação entre a Ciência Social Crítica (CSC) e a ADC por meio de uma abordagem etnográfica

multimetodológica e multidimensional capaz de acessar a relação entre práticas, eventos, discursos, identidades, relações sociais (ver Capítulo 4). A ADC tem sido criticada por não

realizar, nas práticas de pesquisa e análise, as relações interdisciplinares discutidas no nível teórico (Wodak, 2003b). Isso pode ser devido, em parte, a uma falta de reflexão – no sentido de abordagem questionadora e ativa – no desenho da pesquisa. Creio que algumas pesquisas em ADC tendem a repetir modelos de forma mecânica, sem reconhecer que a

abertura para diferentes abordagens pode trazer vantagens para a investigação.

As reflexões que apresento aqui são voltadas especificamente para a pesquisa que fiz: não se trata de formular um modelo considerado melhor nem pior que nenhum outro; creio que cada pesquisador/a precisa engajar-se pessoalmente nas considerações

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epistemológicas de sua pesquisa. Assim como a ADC não é compatível com metodologias

pré-moldadas, também não pode contar com reflexões epistemológicas prontas.

Na próxima seção, procuro justificar o engajamento de minha pesquisa ao paradigma qualitativo para, na seção seguinte, qualificar mais especificamente a que tipo de pesquisa qualitativa meu estudo filiou-se.