Em meio a esse cenário político, a economia paranaense, graças ao desenvolvimento da atividade industrial ervateira, apresentava indícios de urbanização, concretizando, assim, as transformações pretendidas pela parte da elite curitibana, que pretendia desenvolver os espaços urbanos, em contrassenso das elites agrárias dos Campos Gerais, que se mostravam satisfeitas com o panorama rural vivenciado pelos provincianos até a emancipação do Paraná.
Essa percepção ou não quanto à importância de se desenvolverem cidades, criando, assim, polos de urbanização, não significa embate de interesses, mas, sim, meramente, uma questão prática, já que os habitantes dos Campos Gerais, em sua maioria, tinham suas vidas atreladas às fazendas, as quais tinham por si só seus espaços organizados com pequenas capelas e comércios, sendo, por isso, vista pelos moradores não apenas como unidade produtora, mas também como ambiente que oportunizava o convívio social semelhante ao da cidade, tornando-se dispensável e incompreensível a necessidade da vida citadina (DITZEL e LAMB, 2011).
Segundo Ianni (1988), no século XIX, as fazendas eram verdadeiras autarquias, organizações endógenas, autossuficientes, que produziam sua própria alimentação, vestuário, mobiliário, defesa, instrumentos de trabalho, material para a construção das casas, entre outros.
Esse predomínio da vida rural nos Campos Gerais é demonstrado em dois retratos da época colhidos por Ditzel e Lamb (2011). O primeiro deles mostra que os indivíduos que tinham casas, tanto na cidade quanto na fazenda, mantinham-nas fechadas durante toda a semana, apenas as abrindo aos domingos e feriados, porque viam o campo como instância de labor e lazer. O segundo retrata as discussões quando da construção da igreja matriz de Castro, episódio em que o vigário aspirava cobrar dos fazendeiros tributos religiosos para a sua construção e estes se mostravam revoltosos, não por descaso com a religião, mas por já terem capelas próprias em suas fazendas, onde os fiéis buscavam conforto espiritual e, por isso, não transparecia interesse em mudar de espaço social.
Percepção diversa circulava pelos ares curitibanos e litorâneos, locais movimentados, principalmente, pela nascente industrialização do mate, que
precisava de contingente obreiro e, sem a urbanização, não podia contar com espaços de convívio sociais suficientes necessários para fomentar a vinda desses trabalhadores à cidade.28
Nesse contexto, para atender às novas exigências das cidades paranaenses, que demandavam por novos espaços públicos, por força do clima de industrialização da erva-mate, um maior contingente de mão de obra fazia-se necessário. Entretanto, a demografia paranaense, demarcada por uma população escassa, que habitava pequenos núcleos dispersos na Província, não dispunha desse contingente, que representava, segundo estudos de Wachowicz (1984, p. 17), 0,25 habitantes por km², localizados, predominantemente, na faixa litorânea, no planalto curitibano e na região dos campos gerais.
O problema da escassez populacional fica evidenciado nos estudos como o de Westphalen e Cardoso (1981), ao frisar que, apesar de os espaços existentes na Província serem pouco a pouco ocupados pela exploração de ervais e de matas de araucária por parte de populações estrangeiras e a intensa atividade do comércio de muares conduzida, sobretudo, por tropeiros, da criação de gado, além das explorações hidrográficas, evidenciam, no século XIX, ainda uma fronteira econômica a ser conquistada, com uma parca população branca e “civilizada”.
Os estudos de Wachowicz (1984, p. 14-18) também corroboram tais evidências ao destacar as inúmeras tentativas frustradas de povoar os sertões paranaenses ainda não explorados, como: a criação do Aldeamento de São Pedro de Alcântara, composto por índios Kaiowá e Kaingang; da Colônia Militar de Jataí no ano de 1855, às margens esquerdas do Rio Tibagi, com o intuito de facilitar a comunicação terrestre entre o Paraná e o Mato Grosso; do Aldeamento de São Jerônimo da Serra em 1859, que objetivava apaziguar as frequentes lutas entre fazendeiros das regiões de Guarapuava e Palmas e os indígenas Kaingang ali residentes; do Aldeamento de Paranapanema (1862), que serviu de entreposto obrigatório entre Jataí e Mato Grosso, e foi destinado aos índios Caiuá que posteriormente serviu de ponto de apoio estratégico na Guerra do Paraguai; do aldeamento de Chagu, em 1858, e o de São Tomás de Papanduva, em 1877, que
28 Curitiba, quando passou a capital, em 1854, era um pequeno aglomerado “quase circular” de 338
casas dispostas em 27 quarteirões, servida por duas escolas de primeiras letras, uma masculina e outra feminina. A população era constituída por lavradores, artesãos, comerciantes, trabalhadores nos engenhos de mate, nas fazendas de gado e proprietários (DIEZ e HORN, 2000, p. 2).
nem chegaram a ser instalados devido à recusa dos indígenas em serem transferidos e catequizados nesses locais; e a criação de Colônias Militares nas regiões próximas à fronteira guarani, no segundo quartel do século XIX.29
Pelo discurso do governo, entende-se que as tentativas de criação de aldeamentos nada mais eram do que buscas por interações entre os grupos indígenas interioranos e os atores sociais posicionados à frente do processo expansionista paranaense, objetivando definir e defender as fronteiras, estabelecer rotas de acesso a outras Províncias e minimizar as lutas e os ataques indígenas aos fazendeiros, “civilizando-os”.
Essa lógica fica demonstrada no relato de Vasconcellos (1854, p. 10):
A visinhança de paizes estrangeiros, a necessidade de promover, pela colonisação, a cultura de tanto terreno esperdiçado, e de chamar á civilisação milhares de indigenas que allí andão errantes e bárbaros, pedem que o governo da nova provincia, approxime-se, quanto seja possivel, desses lugares onde tamanhos interesses tem á fiscalisar e superintender.
Os ataques indígenas às fazendas e aos povoados era coisa corriqueira nas terras paranaenses, como demonstra o relatório de presidente de província em 1854, que, na parte policial, relata várias ocorrências no mês de fevereiro, como a de Guarapuava, na casa de Domingos Florianno Machado, em que os indígenas mataram oito pessoas, feriram gravemente mais cinco e levaram tudo o que havia de valor na casa; na casa de José Nogueira do Amaral, em que outro grupo de indígenas tentou invadi-la, mas esse, com a ajuda de pessoas da casa, reagiram energicamente, conseguindo repelir os invasores; nos Ambrózios, distrito de São José dos Pinhais, também houve receio de invasão, e acarretou que fossem destacados de quarenta a sessenta homens para irem ao encalço dos indígenas e os afugentarem (VASCONCELLOS, 1854, p. 3-4).
Desse modo, a política de aldeamento surge como uma possibilidade de atenuar as tensões vivenciadas pelas comunidades que residiam perto de bosques e matas fechadas, bem como, um meio de catequizar e civilizar essa parte da população, que, na visão governamental, era selvagem e não compunha a força laboriosa tão necessária ao desenvolvimento da Província.
29 Vasconcellos (1854, p. 10), em seu relatório, especificava que, na época da emancipação da
Província, permanecia inexplorada a região que fazia fronteira com as repúblicas de língua espanhola, como Guarapuava e Palmas.
A constituição desse corpo laboral em um período de estruturação da Província, em que a população ativa era tênue, fazia-se premente, e o trabalho indígena foi visto como uma das possibilidades de angariar facilmente mão de obra:
Sendo certo, senhores, que a cifra da população da provincia, he diminutíssima e que ha huma, quantidade inumeravel de indigenas que vagueão perdidos para o trabalho e para a industria pelas suas terras devolutas e em grande parte ainda por explorar, comprehendereis e attrahil- os á sociedade e á civilisação. Ao governo central compete, mais que á ninguem, a solução dessa dificuldade, que tanto lhe dá que pensar, porem á vos não he ella estranha, se não muito do vosso dever e interesse. (VASCONCELLOS, 1854, p. 62).
Desse modo, estava evidente a necessidade de promover a colonização e o aculturamento dos indígenas para melhor conhecer e defender as fronteiras com a Argentina e o Paraguai, e promover convivência pacífica entre “selvagens e civilizados” eram facetas que permeavam as intenções governamentais, tendo como destaque a obtenção de força de trabalho.
Apesar de a população indígena aparecer como potencial força de trabalho, vivia “espalhada pelos sertões paranaenses, com hábitos selvagens e anti- civilizados” (VASCONCELLOS, 1854). Esse modo de vida “selvagem”, não- capitalista, aparecia nos discursos governamentais e em suas estatísticas como uma “não-população”, o que faz transparecer, em muitos estudos sobre a historiografia paranaense, como se o Paraná, antes dos portugueses, negros e imigrantes, fosse terra de ninguém, com um vazio demográfico.
Por causa dessa perspectiva, de que os índios, por serem “selvagens”, não se encaixavam nos padrões ditos civilizados, bem como, por serem dificilmente disciplinados e transformados em uma população economicamente ativa, eles não eram computados e por isso se trabalha a lógica do diminuto contingente populacional paranaense em sua emancipação.30
Nesse contexto, o número diminuto de contingente populacional “ativo” paranaense foi agravado pela falta de mão de obra nos cafezais paulistas, que incitou a comercialização dos escravos paranaenses, e foi acentuado pela Lei
30 Observa-se que, apesar de os índios não se enquadrarem nos padrões pensados pelos
governantes, foram eles que primeiramente extraíram a erva-mate e deram início a todo o ciclo ervateiro paranaense (Wachowicz, 1984). Avulta-se, ainda, que havia uma proporção da população indígena que foi utilizada como mão de obra escrava, como afirma Gutierréz (1988, p. 166), como é o caso de Guarapuava, que tinha uma legislação, entre 1808 a 1831, autorizando a escravização de indígenas.
Eusébio de Queiroz, que, em 185031, proibiu definitivamente a entrada de escravos africanos no Brasil, o que atenuou ainda mais a população ativa da Província.
Outro fator marcante na redução dos escravos foi a Guerra do Paraguai (1864-1870), em que o governo geral, devido ao precário contingente do exército brasileiro e a falta de cidadãos dispostos a lutar, publicou, no dia 21 de janeiro de 1865, um decreto convocando 14.796 guardas nacionais, divididos em cotas entre as províncias. A província paranaense deveria fornecer um total de 416 guardas (FLEURY, 1865, p. 9), todavia encontrou resistência dos membros da aristocracia local, onde, em vista do caráter clientelar da Guarda Nacional, seus integrantes não queriam lutar.
O governo central, a fim de aumentar o contingente de homens dispostos a lutar na Guerra, propôs várias medidas, como a de formar um grupo de voluntários
(1865) que optassem por defender a pátria em contrapartida a recebimento de soldos, terras, promoções, pensões. Esse grupo, segundo Izeckshon (2004), que,
no início do ano de 1865, perfazia mais de 10.000 homens em todo o país, após um ano já havia quase sumido, por deserções. No Paraná, entre os anos de 1865 a 1867, houve 433 alistamentos de voluntários (BURLAMAQUE, 1867b, p. 2).
Com a baixa permanência dos voluntários, a demora da Guerra e a falta de contingente suficiente, além das deserções, que em 1865 e 1866 perfizeram um total de 36,09% e 42,85% (SOUZA, 1996, p. 60), respectivamente, em 6 de novembro de 1866 foi decidido alforriar os escravos que lutassem na Guerra, todavia essa alforria dependia da aquiescência de seu dono, que precisava dos mesmos escravos para o trabalho agrícola, acarretando novamente em um número pequeno de alistados. Por fim, em dezembro do mesmo ano, decidiu-se pagar pelos escravos que prestassem serviço militar.
Essa medida, conforme os estudos de Silva (2011), surtiu efeito no Paraná, em que os fazendeiros alistavam escravos indesejados para obter
31 Nesse mesmo ano, em que se findou o tráfico negreiro no Brasil, a produção cafeeira
brasileira ganhou destaque internacional, transformando o café em produto comercializado mundialmente, ocasionando, de acordo com Mizuta e Sant’Anna (2010, p. 103), a elevação do capital interno, que antes era utilizado para aquisição de escravos; ocorre, ainda, o aumento de empréstimos internacionais, vindos especialmente da Inglaterra, grande interessada no desenvolvimento do Brasil, estimulando, assim, o surgimento de postos de trabalho principalmente em torno dos cafezais.
um lucro substancial, ou os enviavam em substituição a membros de sua família convocados para lutar. Não existem números certos sobre a porcentagem de escravos alistados no exército imperial, todavia, em estimativa elaborada por Salles (1990, p. 64-65), salienta-se que, do total de 123.150 soldados que participaram da Guerra do Paraguai durante todo o
período, 20.000 eram escravos e escravas, que conseguiram a liberdade com a guerra.
A diminuição da população escrava no Paraná faz-se notória nos Mapas de estatística da população paranaense de 1854, 1858, e no Relatório de presidente de Província de 1866, que demonstram que, se em 1854 os escravos
representavam 16,4% dos habitantes paranaenses, quatro anos mais tarde esse número caiu para 12,2% e em 1866 representavam apenas 12%.32 Essa
queda acentua-se ainda mais em 1872 de acordo com Marcondes (2004, p. 04), que apresenta os dados do recenseamento desse ano, pelo qual se percebe que o número de escravos representa tão somente 8,3% do total da população.
Objetivando solucionar esse problema da mão de obra rural e urbana, o governo provincial, estimulado pelo governo imperial, intensificou a imigração de grupos estrangeiros33, incentivo que já vinha ocorrendo na Província desde 182934, porém com resultados tímidos (OLIVEIRA, 1994, p. 9).
De acordo com Machado (1969, p. 133), nesse período, o governo provincial desenvolveu uma ativa política de imigração europeia e de colonização
agrícola, uma vez que a organização da nova Província respondia, pois, a interesses não só quanto a setores de agricultura, como também industriais,
comerciais e administrativos, para que então se definissem realmente as funções econômicas do Paraná, como também dominar a instabilidade da própria estrutura econômica, a qual era interinamente dependente de mercados
externos.
32 Trindade e Andreazza (2001, p. 27) relatam que, no período colonial, principalmente na década de
1780, a população negra no Paraná era de 28,8%.
33 Destaca-se que, na Província do Paraná, no século XIX, a imigração se deu, prioritariamente, por
europeus: alemães (1829), franceses (1847), suíços (1852), ingleses (1860), poloneses (1870), espanhóis (1875), italianos (1872) e russos (1876) (WACHOWICZ, 1988, p. 141-56).
34 Segundo Wachowicz (1988, p. 142), no Paraná, a primeira política imigratória deu-se
com a instalação de um núcleo de imigrantes alemães estabelecido na Capela da Mata, posteriormente Rio Negro, situado no caminho de tropas que fazia a ligação de São Paulo a Rio Grande do Sul.
1.4 O Hibridismo Cultural como impeditivo ao progresso: a necessidade de