Del 6 ANBEFALINGER
6.1 Kvalitetssikring av datamaterialet
O entendimento da chamada crise dos paradigmas é contundentemente presente nos estudos de Sousa Santos (1997), em particular naquele que o pensador chama de tudo “o que é sólido se desfaz no ar: o Marxismo também”. Aqui, o referido autor, ao decretar a falência da utopia moderna, afirma: “Em suma, a utopia de Marx é, em tudo, um produto da modernidade e, nessa medida, não é suficientemente radical para nos guiar num período de transição paradigmática” (SOUSA SANTOS, 1997, p. 43).
Ainda, no seu combate à modernidade, em especial a ciência moderna, argumenta: “Nunca esteve tanto nas nossas mãos, mas as nossas mãos nunca foram tão ignorantes sobre se afagam uma pomba ou uma bomba. Por esta razão, e tal como acontece em geral com a modernidade devemos ir buscar a Marx muito mais para defrontar nossos problemas – muito, excepto a solução” (SOUSA SANTOS, 1997, p. 43).
Paulo Netto (2004, p. 223), no apêndice do livro Marxismo impenitente: contribuição à
história das idéias marxistas, intitulado “De como não ler Marx, o Marx de Sousa Santos”,
investe sua crítica às posições do referido autor no livro Pela mão de Alice, em especial quando Santos se volta para uma avaliação da tradição marxista. A contundência da argumentação, como também a riqueza e complexidade da análise de Paulo Netto nos obrigam a abusar da longa citação, pois assim preservamos o autor, o leitor e a esta investigadora de incorrer em uma interpretação precária do seu pensamento:
É preciso deixar muito claro que são secundárias, a esta altura, as opiniões e apreciações de Sousa Santos sobre Marx e a tradição marxista; que ele, como todos e qualquer um de nós, é livre para emitir quaisquer juízos de valor sobre ambos, seja enquanto cidadão, seja enquanto intelectual – papéis que,
como sabemos, se entrecruzam sem se confundir. Mas parece não haver muita dúvida de que o papel do intelectual exige modos de argumentação mais rigorosos para validar tais juízos. E é exatamente aqui que se põe o problema da “avaliação” de Sousa Santos: a sua análise da teoria marxiana é de todo incompetente para fundar uma interpretação que dê conta, minimamente, da fecundidade ou não daquela teoria para enfrentar os grandes desafios contemporâneos [...]. Entretanto, já salientei quão distintos são o Marx de Sousa Santos e o Marx real, verificável nos textos autógrafos. Com franqueza, repito: independentemente dos limites a que se impôs, a análise que, em Pela mão de Alice..., Sousa Santos nos oferece de Marx e sua tradição é uma análise incompetente: se apanha alguns elementos significativos e lacunas reais da teoria marxiana (como indiquei), repete lugares-comuns insustentáveis (dos quais o mais tolo é a acusação acerca do “reducionismo”), faz afirmações completamente absurdas (como aquela sobre “a equação automática entre progresso tecnológico e progresso social”) e elude convenientemente importantes tematizações marxianas (como as referidas à relação sociedade/natureza). Presta, com isto, dois enormes desserviços à investigação: de um lado, reforça preconceitos ignorantes em face da teoria marxiana; de outro, não contribui para que a pesquisa identifique o que, nessa teoria, efetivamente perdeu atualidade e validez. No fim das contas, é quase inacreditável que um intelectual do nível e da qualidade de Sousa Santos – que, por outra parte e como assinalei, revela-se capaz de análises finas e sugestivas – possa nos apresentar um Marx tão deformado e empobrecido e um marxismo tão miserável. Mas quando um autor competente como Sousa Santos tanto se expõe numa análise assim incompetente, há que buscar razões de fundo para isto. (PAULO NETTO, 2004,p. 238)
Ao se referir ainda às críticas de ordem metodológicas à teoria de Marx, trazidas por Sousa Santos, no marco da pós-modernidade, Paulo Netto (1998) destaca três delas, observando que estas não são novas, mas que remontam ao século XIX, fundamentalmente, à constituição da segunda internacional, a partir de 1889.
A primeira crítica é a ideia do reducionismo. Haveria em Marx um reducionismo econômico. Na visão de Paulo Netto, essa crítica não se sustenta quando se trata da textualidade de Marx, pois este não é um autor fatorialista, não há apenas um fator econômico, há um fator político, um fator..., na medida em que Marx opera sistematicamente com a categoria da totalidade, sendo, portanto, uma crítica impertinente.
A segunda crítica, de inspiração lyotardiana, diz respeito à ideia da metanarrativa, dos grandes relatos. Os marxistas seriam ótimos para grandes painéis, já para os objetos microscópicos, não dariam conta e aí seria necessário recorrer a outras alternativas. Esse modo de pensar incorre em equívoco, de acordo com Paulo Netto (2004), pois não é o “tamanho do objeto” que define sua relação com a totalidade; as micropesquisas podem ser feitas conservando uma perspectiva ampla da sociedade, do processo social e de história.
E a terceira é a ideia do determinismo, como se houvesse em Marx um determinismo econômico. Argumenta o pensador que basta recorrer aos textos do próprio Marx para se perceber que neste não há um determinismo no sentido de imaginar a história como teleologia. Os sujeitos históricos operam teleologicamente, mas a história não tem teleologia; e, por fim, a ideia de evolucionismo. Marx trabalha com uma concepção evolutiva da sociedade, contudo, é preciso distinguir esta de uma concepção evolucionista, segundo a qual há uma teleologia já contida no princípio. Tomá-las como idênticas é um erro grosseiro, pois revela total desconhecimento das teses e categorias da concepção histórico-dialética de Marx.
Paulo Netto (2004) observa que essas críticas são pertinentes se dirigidas a boa parte da produção marxista, mas é preciso não confundir o que Marx disse, e que se pode provar na sua textualidade, com o que disseram e interpretaram dele.
O autor destaca a erudição de Sousa Santos, contudo, como fica evidente, estranha em muito que esse pensador faça uma análise tão precária da obra de Marx e, além de requerer do intelectual maior rigor nos seus juízos, sinaliza que há algo mais substantivo ancorando as posições daquele. Para o pensador, a explicação reside no pós-modernismo inquietante e de oposição no qual Sousa Santos se situa que sustenta a exaustão do paradigma da Modernidade. E salienta: “um dos traços que melhor caracteriza a ambiência cultural pós-moderna – para além de um surpreendente banalismo nas suas formulações – reside em que, nela, o antiontologismo associa-se a uma concepção clara e grosseiramente idealista do mundo social” (PAULO NETTO, 2004, p. 158).
Paulo Netto (2004) se refere diretamente às análises que descolam a razão de sua base de constituição, a forma social burguesa. A razão, a produção das ideias, da consciência, é ela mesma condicionada pelo movimento recíproco, incessante, mediado e contraditório que se realiza entre as relações materiais-sociais de produção e as formas espirituais de expressão, apreensão e manifestação desse movimento – condição essa completamente ignorada pelas análises pós-modernas que creditam à razão humana os males vividos pela humanidade. A regressão teórica contida nessa recaída idealista, para o autor, aparece especialmente na entificação da razão moderna pelos pós-modernos; entificação que a torna um demiurgo onipotente de fazer inveja ao espírito hegeliano, uma vez que, “Nas construções pós- modernas, a realidade da ordem burguesa contemporânea deriva do dinamismo interno da razão incondicionada, que tudo pode” (PAULO NETTO, 2004, p. 158).
O marxista destaca que esse idealismo não é inocente, pois ao “creditar à razão a realidade histórico-social contemporânea, o que fica na sombra é a ordem do capital, com a
dominação de classe da burguesia” (PAULO NETTO, 2004, p. 158). Ainda para o autor, “É
evidente que as implicações políticas dessa regressão teórica também são regressivas: entre os pós-modernos, as alternativas à sociedade capitalista ou não se põem ou, quando se põem, estão no limbo das utopias” (PAULO NETTO, 2004, p. 158-159). A alusão aqui é clara, seja ao pós-modernismo de celebração, seja ao de oposição que, como bem lembra Paulo Netto (2004), tal classificação se faz bastante infundada pelas análises de Mészáros (1996).
O que parece ficar evidente, para os ideólogos da pós-modernidade, é que toda herança cultural da modernidade encontra-se em putrefação, em particular a teoria do ser social de Marx, historicamente consubstanciada na razão dialética, no historicismo e no humanismo.
De acordo com Lombardi (1993, p. 138): “É nesse quadro de crise das grandes teorias que muitos autores têm situado a ‘crise do marxismo’ e tentam demonstrar a necessidade de sua superação por uma ‘nova’ teorização do social”. Os que assim pensam têm com suas proposições, notadamente na produção e no debate acadêmico, conquistado espaço nos mais variados campos do saber e, “embora toda a argumentação seja direcionada para as chamadas Ciências Humanas e Sociais, esses argumentos também têm sido utilizados no debate que está posto na educação [...]” (LOMBARDI, 1993, p. 138).
Nessa mesma perspectiva, Frigotto (2001, p. 25-26) analisa a influência do pensamento pós- moderno no País afirmando que:
No campo das Ciências Sociais, no Brasil dos anos 90, não só se explicita de forma mais clara o pensamento teórico conservador, mas, sobretudo, toma conta do ambiente da pesquisa e do ensino nas universidades uma ampla constelação de posturas pós-modernas. Em nome da diversidade, diferença e alteridade reforçam, na maioria das vezes, o individualismo, o particularismo, a fragmentação, a descontinuidade e o evento, negando as dimensões estruturais e a continuidade histórica.
Nossas preocupações, assim como as dos autores citados, recaem, em especial, sobre as questões ontognosiológicas, atinentes à produção e ao conhecimento da realidade, portanto, pedagógicas e didáticas. Assim, ainda de acordo com as análises de Frigotto (2001, p. 26): “O resultado destas perspectivas no plano epistemológico é, em grande parte, um retorno às perspectivas do relativismo absoluto [...] no limite, cada pesquisador tem sua teoria e esta é igualmente válida”.
Se essas posições ganharam espaços tão estratégicos, e com a incidência observada pelos autores referidos, a indagação sobre seus rebatimentos na pesquisa do saber didático é
pertinente e relevante, se observadas as seguintes questões: primeiro, no movimento de construção e reconstrução da didática no Brasil, pesquisas significativas estão ancoradas nas proposições do materialismo histórico dialético de Marx. Tais pesquisas percebem a importância da educação escolar no processo de transformação social e reivindicam uma didática comprometida com essas proposições.