A história das sementes está ligada à vida humana, através da simbologia e das lendas, formando a pedagogia, para que, nesta longa travessia, cada geração aprenda.
Vejam por exemplo a semente do milho. Um velho índio ao morrer chamou seu filho, propondo-lhe com voz indagadora, que o levassem e o enterrasse no meio da lavoura.
Com um nó na garganta disse que, sobre a sepultura, três dias depois, rebentaria uma planta. Com sua voz comovente disse mais, que não a comessem e o fruto guardasse por semente. Deste jeito aconteceu e foi assim que o milho apareceu.
No sertão nordestino, onde a seca já faz parte do destino; a família sertaneja para proteger a semente, empreende contra a fome uma difícil peleja.
Guardada em litros e em garrafões, as sementes resistem aos sucessivos verões. Vira um calor do inferno, quando a seca se prolonga comendo o próprio inverno.
Preservadas as sementes do gorgulho, comê-las por necessidade é uma improbidade, é o mesmo que comer o próprio orgulho; ou ainda mais, mesmo em meio a esta intensa matança, comer as sementes é devorar a esperança. Isto porque, quando o inverno vier, não se tem o que plantar.
A história humana é muito parecida, sempre coube a alguns povos, grupos e movimentos, suportar o peso e os tormentos, para guardar as sementes, por isso é que elas têm suas lendas, misturadas com as lendas da gente.
Desde os pergaminhos que os anciões baseados em sua fé, escondiam para não serem destruídos, para que as futuras gerações, soubessem o que tinha acontecido. Até os dias atuais, as sementes são preciosas demais. Ninguém pode comê-las, por isso é preciso defendê-las.
Usamos como referência, Cuba. Se ela for comida pelo imperialismo, perderemos a semente deste bravo socialismo. Será uma derrota para a América Latina, perdendo-se esta semente fina.
Se Israel comer a Palestina em sua essência, não teremos mais a semente que instiga a resistência e então, ficaremos sem um ponto de partida, por isso a Palestina não pode ser comida.
Se no Brasil, por ódio ou por vingança, o governo comer o MST, perderemos sem querer a semente da esperança. A reforma agrária será interrompida, porque a semente da luta e da ousadia, também foram comidas.
É assim que devemos observar. Uma semente é mais do que semente. Ela tem um pouco de vegetal, um pouco de animal, e o restante é feito dos sonhos da gente.
As sementes são como um povo construído, tem sua força, sua fé e seus valores. Atentar contra elas, é sermos roedores, que fazem da vida apenas um consumo. É um dever fazer a história enveredar para outro rumo.
Não é verdade que a semente precisa morrer para poder ter vida; pelo menos estas que citamos, pois já estão nascidas. É verdade, porém, que para preservá-las nos custará a vida.
Mas de que vale viver, se deixarmos a semente morrer? É melhor que ela permaneça e que de nós pelo menos nunca esqueça. A mão que semeia, da vitória nunca será alheia!
Cartas de Amor Nº 31 À UTOPIA
Utopias são fantasias que escondemos na consciência, por isso é que, somente as cultiva quem tem perspectivas; assimila e conduz a história com paciência.
As fantasias nunca se realizam do jeito que são imaginadas, mas são importantes, elas ajudam a caminhar adiante, fazendo com os passos, pedaços de nossa estrada.
Quem não tem fantasias, vive do passado, espera o amanhecer de braços cruzados. Não tem inspiração, não gosta de emoção e o mundo segue em frente com seus passos, lentos e cansados.
Só existe uma maneira da história não ter pausa, é quando a utopia se torna causa. Como uma nuvem distante, chama os lutadores para seguir adiante.
Utopia sem luta não tem graça, é como confundir uma nuvem com fumaça, que, pode ser tocada pelo vento. A nuvem é mais do que fumaça, é instrumento, guarda em si o segredo da esperança, por isso é que, olhar no alto as nuvens ninguém cansa.
Mas há um grande perigo, é preciso ter cuidado com o inimigo. A alma do carrasco é seca e fria; não tem constrangimento, este monstro fedorento, gosta de entrar dentro da utopia.
Ao entrar ali se acostuma, e a ordem da utopia desarruma. Desmancha as fantasias e enche a memória com espanto, tentando confundir o choro com o canto.
Nos últimos anos o que tem acontecido? O governo brasileiro prepotente, embrutecido, mandado por um caubói violento e alucinado, entrou na utopia que tínhamos formulado.
Nas fantasias dos homens, de cada um ter a sua terra, impuseram leis, processos e devaneios, que fizeram a utopia adormecer, nos postos dos correios.
As mulheres, que sonharam com suas casas em bom estado, algumas receberam uma gaiola de 42 metros quadros; e milhares delas nada receberam; assim as fantasias das moradias também adormeceram.
Os jovens, que sonharam ter escola de boa qualidade, receberam transporte para irem até a cidade, aprenderem ali o ABC, sem gosto, nem graça, nem cor; e cedo o jovem Sem Terra aprendeu o que é ser perdedor.
A militância, como artista de novela, foi fichada, filmada, retratada pela repressão candente, ganhando status de liderança e dirigente. Sentiu as fantasias dissolverem-se dentro e fora, quando as vitórias decidiram ir embora.
A mídia fez o seu papel, mostrou para a sociedade um “movimento infiel”, que se dissolve com luzes e refletores, por isso desarrumaram as virtudes e valores.
Repressão, processos, mapeamento, censura, fome, e morte por vingança, sempre foi o preço a ser pago por quem alimenta uma esperança. Por isso, um movimento é como um ser vivo, para viver precisa de segurança.
Precisamos agir com ousadia, despejar os poderosos de nossas fantasias. Eles não trazem nenhuma solução. O povo constrói as utopias com suas mãos.
Utopia só tem quem quer e acredita. Dentre todas, as dos revolucionários, são sempre as mais bonitas.
Cartas de Amor Nº 32
À VERDADE
Difícil é saber o que é a verdade nua e crua, até porque na vida que levamos, nos acostumamos, a cada um ter a sua.
Estavam seis cegos conversando, diz a lenda, quando ouviram um grito alucinante: “lá vem o elefante, quem puder que se defenda!”
Os cegos ficaram ali parados, curiosos e com medo. Era a chance de conhecerem um elefante, tocando-o com os dedos.
O animal andando lentamente, avistou os cegos e parou em sua frente. Um a um foram à identificação, tocando o elefante com as mãos.
O primeiro partiu, feito uma centelha e pegou o elefante pela orelha. O elefante se moveu feito um ginete, dando ao cego a impressão de ser, bravo e valentão, mas fino e largo igual a um tapete.
O segundo na tromba se agarrou. Não teve dúvidas, e logo interpretou: sendo roliça, torcida e espichada, para ele o elefante era como uma cobra bem criada.
O terceiro agarrou-se a uma perna e fez a sua previsão. O elefante era roliço, forte e alto como uma árvore do sertão.
O quarto cego mansamente sem fazer intrigas, tocou o elefante na barriga e respondeu de uma forma precisa: o elefante era como uma parede, forte e lisa.
O quinto cego, cheio de desconfianças, tocou em uma das presas e disse que o elefante era semelhante a uma lança.
O sexto cego na cauda então pegou e por certo se decepcionou. Ao ver aquela corda longa e fina disse que o elefante era frágil como uma goteira de neblina.
Assim voltaram a sentar-se e a tecer a discussão, cada qual querendo ter razão. Todos felizes, com sorrisos muito vivos, confiando que o elefante era pois inofensivo.
O elefante cansado e com os olhos tesos, começou a deitar-se sobre os cegos indefesos, que, ao escorarem o elefante com as mãos, sentiram o peso e mudaram de repente de opinião.
Após o sufoco para se retirarem e deixá-lo à vontade, concluíram em frente a igreja, que um homem só, por mais sábio que seja, jamais conseguirá saber toda a verdade.
Nos tempos atuais, onde a ciência avançou bem mais que o próprio entendimento, as técnicas parecem fazer um testamento, contra o ser humano e as espécies entristecidas. O que importa é o lucro que mantém a ganância das empresas enfurecidas, e não a vida.
Se a verdade está com as empresas, quem pagará os prejuízos e as despesas, quando verem as espécies dizimadas? Quando as árvores morrerem envenenadas, os peixes deixarem de nadar, as borboletas deixarem de voar, as sementes deixarem de nascer, e os humanos deixarem de comer?
A verdade, companheiros caminhantes, é que as empresas transgênicas se agarraram aos cascos do elefante. Dizem, ser ele como um rolo compressor, por onde passa soca a terra sem ter medo, enquanto a transforma em um grande lajedo. O que sobrar das pisadas deste monstruoso elefante, será a herança que a humanidade terá para seguir adiante.
Quem não quiser ser também pisado, arme-se de porretes, foices e machados, para cortar deste elefante imperialista as suas intenções. Só assim salvaremos as futuras gerações.
Cartas de Amor Nº 33