4. Veien mot en avhandling
4.4 Kulturforskeren som den gode hyrde
Em qualquer tempo e lugar, a classe dominante quer sempre controlar. É egoísta e prepotente, principalmente quando se trata do cargo de presidente.
O preconceito é antigo, mas cabem aqui comparações. Na antiga Roma, o perigo eram os
vilões. Moradores do campo considerados rudes e grosseiros, instalados em vilas e comunidades, e
representavam uma grande ameaça quando iam para a cidade. Para livrar as autoridades dos “impuros”, mandaram erguer ao redor da cidade enormes muros.
Se pra cidade fossem agrupados: “Lá vem a turba!” começavam a gritar. Daí é que surgiu a palavra perturbar. Pobre organizado em turba, perturba.
Na corte o Rei a poucos atendia. Daí também vem a palavra cortesia. Era o bom trato dado a quem ali chegava. Assim era como o poder e o poderoso funcionavam.
Da antiga Roma aqui para o nosso solo. Ao invés de muros os ricos edificaram o protocolo. Serve para preservar a autoridade. Por isso os trajes a rigor, a cerimônia e a seriedade.
Assim, o governante não se identifica; a não ser, é claro, com a classe rica. Ali em seu palácio instalado, se mantém preservado, para que as mãos “impuras” não o toquem, não o perturbem, nem o provoquem.
Mas eis que há uma variação. Certa ocasião, o presidente recebeu de presente, uma bola, um boné e frutos da produção, e, numa manobra louca, levou um biscoito até a boca de um Sem Terra com a própria mão. “Contaminou” com saliva a sua reputação.
Na Corte foi além em sua cortesia. Ensaiou com a bola o que faria num campo em qualquer jogo. “Quebrou o protocolo!”, dizem os jornais cuspindo fogo.
Assemelham-se os Sem Terra aos antigos vilões; são tolerados se ficarem nos grotões. Os ricos os deixam votar nas eleições, participar das festas e comemorações; aplaudirem e sentirem-se contentes; mas a eles não pertence o Presidente.
Esta é a imagem da falsa democracia, onde o pobre vota, mas dele o poder se distancia. A autoridade pertence à minoria!
Não importa se é dos pobres que vem o presidente, mas, lá ao chegar, deve se comportar de forma diferente.
Qualquer boné poderia ali entrar e receber a cortesia, menos este vermelho que sua cor carrega ideologia.
Aos ricos isto causou espanto, como se alguém tivesse atirado uma pedra em um santo. Profanou-se o espaço e a simbologia que tanto deu prazer à burguesia.
Na verdade não é o boné que os incomoda. É que este presidente inventou uma nova moda: jogar bola na sala da audiência: paciência!
Podemos então dizer com satisfação: o Presidente pode até, pela situação precária, não fazer a reforma agrária; mas vai matar de raiva a elite atrasada que sente que o seu poder não vale nada, e pode, a qualquer tempo, ser desafiada.
O boné vermelho ficará lá como um conselho com o chefe da nação, que optou a ser igual seu povo, até o dia em que voltarmos lá de novo.
Canalhas! Egoístas e ladrões! Há quinhentos anos enganais as multidões! Pela primeira vez ali entrou a simbologia simples e séria! O que os incomoda, não é o boné, é o alerta da miséria que pôs os pés nos tapetes do poder. A audiência é o prenúncio do que pode acontecer, no dia em que está Pátria for levada a séria.
Carta de Amor Nº 58
À CORDIALIDADE
Cordialidade é uma palavra que vem do latim, que, bem no fim, está ligada ao coração. É afeto, franqueza, demonstração de carinho e gentileza.
Portanto, eis a definição: só pode ser cordial quem usa bem o coração. Quem o usa mal, não é cordial; é um animal selvagem; só faz bobagem.
Ao usar mal o coração, o ser social, perde a sensibilidade, fica egoísta só o seu ponto de vista pensa ter validade.
Sem gentileza, o ser humano perde todas as grandezas, fica avarento e mesquinho, incapaz de qualquer gesto de carinho.
Quem não possui esta virtude, torna-se arrogante e prepotente, quer proibir os outros de serem amáveis e comportar-se gentilmente.
Quer comandar e impor sua determinação, como se o mundo fosse um pequeno balão na mão de um só senhor; a ele pertence qualquer tipo de louvor.
Por isso, alguns se sentem tão raivosos quando as coisas não vão bem. A seu lado não pode haver ninguém que os afronte, nem que os desaponte, pois seus caprichos vão sempre muito além.
Temos uma demonstração recente, quando os Sem Terra visitaram o Presidente. Faz parte da cultura camponesa, levar presentes; é uma forma de grandeza.
Não se trata de comprar a autoridade, nem ofender a sua maestria. É pois uma simples cortesia, um agrado, um afago, um presente; mesmo que seja com o Presidente, se conversa e se partilha a alegria.
Muito menos é um constrangimento! Visitar alguém querido é um sacramento! Uma festa, um momento de partilha, não é jamais uma armadilha, isto não passa nem pelo pensamento.
Ocorre que os ricos são sisudos, intransigentes, prepotentes e carrancudos. Têm vergonha da afetividade, sabem apenas pedir e perdem facilmente a honestidade.
Aliás, o rico não visita, faz audiência, por isso o protocolo e a aparência. Esconde-se, pois não é capaz de transparente ser. Usa para si os cargos e o poder para alimentar a própria intransigência.
Por isso o espanto, quando o Presidente demonstrou o seu encanto por ter reencontrado os seus iguais. Renasceu como nos festivais renasce a música e a poesia. Sentiu-se à vontade, transbordou de alegria, ensaiou embaixadas com a bola, afrouxou a gravata de sua gola. Na cabeça colocou o boné. Mostrou com humildade, quem foi, quem é. E que, fazer política não é dar esmola.
Os ricos revoltados atacam sem piedade. Isto demonstra uma grande verdade na esfera do poder de tudo controlar. É que o governo para eles é uma propriedade, onde alguns poucos em nome da vaidade, fazem o Estado se tornar particular.
Por isso doeu tanto! Causou bastante espanto, revolta e ameaça. Ë que eles não aceitam repartir, o espaço é para poucos usufruir, e a amizade não pode ser de graça.
Demonstrou-se após quinhentos anos, que é possível se igualar como seres humanos, e derrotar o poder dos opressores. É preciso dizer ainda mais, que estando no poder é possível ser cordiais e praticar a solidariedade e os bons valores.
Cartas de Amor Nº 59