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Por que será que a elite após quinhentos anos de poder, deixaria alguém que não é de sua classe se exceder, e o país por ele governar? Isto é o que se deve perguntar àqueles que mansamente se aproximam, principalmente quando as pesquisas os animam.

A democracia burguesa é como um carro rodando estrada a fora. Nele há um motorista treinado pela tradição. Mesmo cansado e sonolento, deixa o carro andar mais lento, mas não entrega nem por um momento o controle do regime que leva a multidão.

Este carro a dirigir pode ser dado, se um dia estiver muito atolado e iniciar as rebeliões de passageiros. Aí o motorista de mansinho, chama um ajudante, se afasta, e finge ir embora, mas fica controlando os movimentos lá de fora.

Sabendo que o carro fácil não sairá; ajuda os passageiros a reclamar para poder ir de volta ao volante. Por isso se posta mais adiante e espera a hora certa de dar o golpe certeiro, taxando o ajudante de barbeiro, vendo o carro patinando no atoleiro.

Se por acaso houver reações das multidões, enlameadas pelo barro, o “fugitivo” muito esperto e cheio de confiança, chama os seguranças e manda descer todos do carro.

Aí impõe as ordens até o dia que bem quiser. Como não foi previsto outro carro, a multidão tem de seguir a pé, prometendo vingar-se mais adiante, quando houver alguma eleição mais importante.

Assim a chuva passa, seca a estrada; o carro sai em disparada, rumo ao destino repensado. O motorista já não tem o mesmo brilho, aí passa o volante, não ao ajudante, mas a um de seus filhos; e lá ficam os ajudantes enciumados a protestar, e o carro segue devagar, carregando as multidões para lugares pintados de ilusões.

Os ajudantes, todos de cara feia, a cada quatro anos são chamados a uma ceia. Num grande parlamento para discutirem porque o carro anda lento. Passam as horas, a ceia termina, aí descobrem que o carro anda lento por não ter buzina. Então convocam uma eleição para o povo (que até então nada pôde opinar), decidir que tipo de buzina colocar. E assim procedem, mas o carro continua andando devagar.

Passa-se o tempo, ceias vão e ceias vêm, e o carro já não atrai mais ninguém, apenas os que vão para ceiar. Xingam-se novamente em mesas regadas de champanhe e caviar, culpando-se uns aos outros, porque o carro anda devagar.

Trocam o motorista e nada modifica. Os ajudantes se revoltam porque novamente ele pertence à classe rica e nada de bom pode surgir. Propõe-se na próxima ceia, tomar o carro e começar a dirigir.

Vem a próxima ceia convocada pela elite. E a direita distribui todos os convites como se fosse uma grande brincadeira. E novamente, ocupa a maior parte das cadeiras.

Os ajudantes revoltados ameaçam não comer. “Que nada”, diz a elite, “ganhamos foi por pouco até”. A multidão iludida renova sua fé e continua a andar a pé.

Os ajudantes fingem não compreender, mas gostam de estar ali, mesmo sem dirigir, aproveitam todos os dias as muitas regalias, por viajarem (mesmo como ajudantes), no sistema da classe dominante.

Assim é. A multidão composta pelo povo. Se quiser viajar e ter prazer, deve lutar para ter um carro novo; onde não haja privilégios de ceias e bacanais de doutores ou de turistas, e que todos, de algum jeito, tenham o direito, de serem motoristas.

Cartas de Amor Nº 26 AO JOSUÉ DE CASTRO

Caro poeta da fome. É uma alegria relembrar em poucas linhas seu afetuoso nome.

Ao ler seu livro “Homens e Caranguejos”, (que sabedoria bela), é onde seu carisma de poeta se revela. Em palavras muito bem repartidas, nos diz que, a linguagem ou melhor, a gíria da fome, sempre vem com palavras evocando comidas.

Em seu tempo, a propósito de tudo, se dizia: “É uma sopa, é uma canja, é um tomate, é uma ova, é um abacaxi, é uma batata, é pão-pão é queijo-queijo”. Sem muita precisão para que isto aconteça, diz você que é porque, “as comidas subiram à cabeça”.

Pensando bem, este vocabulário é bem maior. Quando alguém deixa passar uma oportunidade diz-se que “dormiu de touca”, mas ao ver algo gostoso, “ficou com água na boca”. Na dureza se diz que é “um angu de caroço”, ou então que é “carne de pescoço”. Para alguém que é um tanto mal falada, “é uma galinha”, “uma pirua”, mas pra coisas duvidosas e falcatruas, diz-se que é “uma marmelada”.

Quando há algo que perturba o destino, diz-se que “é um pepino”. Se alguém é desajeitado, feio e com pouco luxo, fala-se que “é um bucho”. “É um filé”, se diz a alguém muito bacana, mas para quem não atina muito bem, “é um banana”.

Paremos por aqui. Mas você acertou com precisão ao descrever o drama da fome em suas verdades. “Esta presença constante da fome sempre fora a grande força modeladora do comportamento moral de todos os homens desta comunidade: dos seus valores éticos, das suas esperanças e de todos seus sofrimentos dominantes. Vê-los agir, falar, lutar, sofrer, viver e morrer, era ver a própria fome modelando, com suas despóticas mãos de ferro, os heróis do maior drama da humanidade – o drama da fome”.

Mas veja caro amigo; nossa linguagem toda, hoje corre perigo. De um lado o imperialismo em sua louca corrida, vem mudando o comportamento e os nomes de todas as comidas. Toucinho de porco já é bacon, sanduíche com ovo é cheese egg, algo sem gordura virou light e o que não tem açúcar agora é diet.

Por outro lado, queira você saber, até a esquerda virou ligth e assim pensa chegar ao governo e ao poder. Está mudando de bagagem, e das muitas coisas que está descarregando uma delas é a linguagem. Neste teatro onde os líderes buscam fama, creia, ignoram o triste drama. Temos hoje, início do novo século XXI neste país, o grande recinto, cerca de 50 milhões de pobres e famintos, que usam a gíria da fome todo dia. Mas a “esquerda” nada fala. Esta gíria espanta a burguesia.

Já não se fala em classes, nem em revolução, daqui a pouco num gesto sobranceiro, abandonam a palavra companheiro e passam a chamar-se de irmãos. Afinal, menos radical.

É triste, mas vivemos este tormento; aqueles que deveriam falar da fome e combatê-la, já não a mencionam, e se chegarem ao poder, irão mantê-la.

As mudanças virão, mas por outro caminho. No dia em que a palavra “poder” significar: feijão, arroz, leite, verdura, rapadura...e não aceitação, submissão e safadeza pura. A gíria da fome será ultrapassada, ficarão outras como: “É uma barbada”. “É uma parada”. “É uma pelada”...A geografia da fome será enfim modificada. Neste dia (que sem tardar veremos), voltaremos a nos chamar de Camaradas!

Cartas de amor Nº 27

À MULHER

Qual é a palavra certa que rima com mulher? É o que intriga o poeta que se debate em vão. Pois há palavras em certas situações, que não rimam não.

É o caso da palavra mulher, que às vezes não rima, por ela estar acima. Semelhante a montanha que não se acanha em expor sua beleza. Feita do mesmo material do que as baixadas, e vivem tão ligadas na formação da bela natureza.

A montanha eleva-se com fulgor, para sentir primeiro o perfume da flor. A planície é fértil e esparramada. Há porém uma diferença; na planície espalham-se os cultivos, nas montanhas passeiam os seres vivos sem preocupação e medo; por isso é ali onde se escondem os maiores segredos.

A mulher como a montanha, em tudo vê primeiro. Cria e promove o guerrilheiro que fica dentro dela para se proteger; que pensa em descer, levar os sonhos e faze-los acontecer. O homem é a planície, lá embaixo suporta grande peso, partilha o sonho ileso do novo amanhecer.

A planície jamais será montanha e a montanha não quer planície ser. Ambas têm suas funções, vivem em plena integração. É triste, monótono, cansativo e intediante, quando uma da outra está distante.

Andar pela planície “não” se cansa, é como ser homem em todo tempo em que a história avança. Subir a montanha é mais complicado. É como ser mulher, o esforço é dobrado em todas as idades. Mas, o respeito e o direito um dia se abraçarão e construirão um mundo de igualdade.

Afora esta simbologia, mulher rima com rebeldia. Sua força não está nos braços, nas pernas, nos pés ou em cada mão. Isto é uma evidência, está em sua consciência que move a resistência e se torna paixão. De novo, mulher rima com coração. Poderia até rimar com revolução, mas seria crueldade; pois revolução é um nascimento, e nesta obra de atrevimento, o homem tem direito a fazer a metade.

É preciso romper a terra para fazer nascer às flores, por isso a subversão dará a condição de modificar o conteúdo dos valores.

Mas é preciso deixar algo por escrito: é importante combater todos os mitos. Que “a mulher é um poço de bondade”, “santa” e “devagar”, que sua força está em saber, que só pode exercer, o poder, como “rainha do lar”.

Que o seu brilho está obscurecido porque ela é “dependente do marido”. Voltemos à nossa simbologia; a montanha não depende da planície para se proteger de qualquer ventania. Ao contrário! Ela é quem enfrenta os ventos e desafia os raios.

A saber; a história será diferente, quando a mulher deixar de ser estranha de si mesma e perceber, sem ignorância, que sua importância é a mesma da montanha. Sem ela não nascem cachoeiras, não se pára o vento, nem se faz poesia com rima, sem a auto-estima.

As montanhas ficam em pé porque na superfície, suas raízes estão ficadas nas planícies. Bem comparado! Olhando de outra forma e cheios de esperanças, sem que as ilusões e os preconceitos nos domem. A força das mudanças está, em entender que, só poderão acontecer, no dia em que cada mulher, mesmo com todas as cicatrizes, tiver suas raízes, plantadas no coração de cada homem.

Cartas de amor Nº 28

À PALESTINA

Palestina, pátria sem lugar. Menina que ainda há de nascer

Povo que resiste, que luta, que insiste sem medo de morrer. Cercado por tanques, bombas, repressão...

Que marcam o chão com sangue vertido Que mancham o tecido do destino Com desenhos de flores transparentes Que fazem de sua gente

Armas e explosivos.

Redobram pedidos e apelos cansativos E vêem se transformar de uma vez só A paz misturada a cinza e pó

Dissolvendo os mortos nas trincheiras com os vivos. Não são terroristas, são armas de guerra!

Último recurso encontrado para conquistar sua terra. Terror é o que faz o senhor tirano

Que dá a Israel três bilhões por ano Para sustentar a urgia de Sharon... Que é apenas o dedo no gatilho

Do império caudilho que perdeu o coração. Palestina pátria por nascer...

Que queremos ver já de imediato Que seja de fato

A pátria do povo... Que renasce novo

Por trás dos escombros e da poeira. Que erguerá nos ombros

A sua bandeira

A primeira do milênio cristão. Que se torne exemplo de nação De força e de coragem

Que empreenda os passos desta viagem Que leva à solidariedade.

E o império?

Que engula a crueldade e entrave a sua garganta Sufocado morra, enquanto o povo canta

Cartas de Amor

Nº 29