6. Opplevelse av å forsørge en familie på én inntekt
6.3 Konsekvenser av knapp økonomi
Desde há longa data, investigadores em várias áreas do saber procuram conhecer e compreender a cidade e as suas dinâmicas. Uma certeza porém existe, a cidade é algo complexa, ampla e difusa, logo difícil de caracterizar, de sistematizar e de catalogar. Esta ambiguidade propícia, apesar de tudo, a abertura de vários ângulos a partir dos quais é possível estudar a cidade e o fenómeno urbano.
Goitia (2006: 9) resume as leituras que algumas áreas do saber fazem da cidade através da referência aos respectivos autores: na visão de Spengler, a história universal é a história das cidades (história); para Vidal de la Blanche, o homem organiza o espaço físico de maneira a satisfazer as suas necessidades (geografia); de acordo com Pirenne, o comércio e a indústria são, desde as civilizações mais remotas, as forças motrizes com base nas quais as cidades se desenvolvem (economia); segundo Aristóteles, a cidade define-se em função do número de cidadãos (política); Mumford define a cidade como a
forma e o símbolo de uma relação social integrada (sociologia); Alberti considera que a grandeza da cidade está relacionada com a grandeza da sua arquitectura e a solidez das instituições avalia-se pela solidez dos muros que as protegem” (arte e arquitectura). A cidade enquanto construção humana é um produto da dimensão gregária e social do Homem. A cidade contemporânea resulta de influências passadas e espelha a organização social, económica, cultural e estética dominantes ao longo da História. Para melhor compreender as cidades de hoje, nas suas diversas dimensões, há que percorrer, ainda que superficialmente, os principais momentos da história da cidade. A origem da maioria das cidades europeias remonta à Antiguidade Clássica. De acordo com Ferreira (2003) esta é uma das razões pelas quais se identificam, nas nossas cidades, um conjunto de traços comuns. Os vales férteis dos rios Nilo, Tigre, Eufrates e Indo acolheram as primeiras civilizações da era histórica. Embora tenham sobrevivido poucos vestígios dessas cidades, os que se encontraram permitem-nos supor a existência de cidades-templo, com grandes avenidas, praças e salas monumentais, de traçado geométrico, adaptadas ao terreno e concebidas para produzir um efeito cénico. O desenvolvimento da democracia, nas cidades-estado da Grécia, revela-se em elementos urbanísticos tradutores de uma maior participação dos cidadãos na comunidade, onde a praça, ou Ágora, se assume como um espaço de encontro, de convívio, de reunião, de tertúlia e de exercício da cidadania. Ainda hoje é o centro onde se desenrola a sociabilidade da vida urbana através do convívio e das relações que se estabelecem entre residentes, visitantes e turistas. Dois dos valores fundamentais da civilização ocidental – polis enquanto o lar da democracia, da cidadania e da participação, e
Babilónia, a cidade heterogénea, tolerante e inclusiva – são um reflexo da organização
interessante florescimento artístico (Ferreira, 2003). A origem das cidades criativas (Creative Milieux), cujo conceito se explica adiante, pode ser encontrada nas cidades da Antiguidade, nomeadamente em Atenas e Roma. Landry (2000) atribui o mesmo papel a cidades como Florença, Roma e Veneza, durante o Renascimento.
A Cidade Medieval é, por sua vez, uma cidade murada, em permanente estado de vigília, assente numa lógica de organização comunal. Este modelo de organização da vida urbana projectou-se no futuro, quer em termos de estrutura física quer social, jurídica e administrativa, tendo chegado aos nossos dias moldada pela história e actualizada nas suas diversas dimensões. Sem espaço para o convívio social, a cidade medieval desenvolve-se em torno do lar e da vida privada, sendo que as esferas política e religiosa se mesclam de forma quase indissociável. Na Idade Média, a rua exercia um fascínio interessante sobre os cidadãos, desempenhando uma multiplicidade de funções: de local de passagem a local de comércio, de local de espectáculos a local onde decorriam procissões e se praticava a justiça.
Nas sociedades islâmicas a organização familiar com a casa virada para o pátio interior, e o factor religioso conferem à cidade uma fisionomia especial. Este modelo é traduzido numa malha urbana feita de pequenas ruas e ruelas, estreitas e sinuosas que abrem caminho através de uma “complexa e compacta edificação imbricada” (Goitia, 2006: 14). A praça, com as suas funções é substituída pelo pátio da mesquita, um espaço de meditação religiosa. Neste tipo de cidade, o mercado surge como um lugar de encontro e de convívio, convertendo-se no elemento central da vida urbana. Este retrato, ainda que pouco detalhado e esvaziado de conteúdos culturais, sociais, políticos, urbanísticos, económicos ou mesmo religiosos, remete-nos para certos espaços de algumas cidades europeias.
No fim da Idade Média a modernidade e o triunfo da evidência e da razão ganharam protagonismo. A propósito das cidades, afirmava Descartes no seu Discurso do Método (cit. in Goitia, 2006) o seguinte: “aquelas cidades antigas, que ao princípio foram apenas vilórias, e que se converteram, através dos tempos, em grandes cidades, estão em geral tão mal arrumadas que, ao ver as suas ruas curvas e desiguais, dir-se-ia que o acaso, mais do que a vontade dos homens usando a razão, as fez desta maneira”. As cidades, enquanto construções da história dos homens, são produtos pouco racionalizados na medida em que, geralmente, não obedecem a planos de urbanismo racionais e organizados segundo uma determinada lógica racional. Nos séculos XVII e XVIII prevaleceram tentativas de racionalizar a cidade.
Desde o Renascimento que arquitectos e teóricos faziam estudos e planos para melhorar as cidades, numa tentativa de criar “cidades ideais”. Assim nasceu “a cidade como facto artístico” (Goitia, 2006: 26), com praças simétricas, ruas de traçado regular, prevalecendo o sistema da quadrícula (a quadrícula já era utilizada pelos gregos, numa época de idealismo, e pelos romanos, levados pelo seu senso prático). As grandes praças deste período acolhiam os monumentos e as estátuas mais notáveis.
Na época barroca, a cidade absorve o desenvolvimento da perspectiva como concepção do espaço artístico e acolhe o poder absoluto do príncipe, ligado à economia de consumo da corte. Surgem as cidades principescas, onde o luxo e o esplendor são notas dominantes e a vertente sensorial e exuberante ganha expressão. Nas ruas impera uma dimensão visual e decorativa, plena de efeitos estéticos, cujo ponto alto é a água, a fonte e a escadaria. As procissões, os cortejos e as paradas são momentos de apoteose que ocorrem na rua, preparada como cenário. Para Sombart (cit. in Goitia, 2006) esta cidade, de base senhorial e eminentemente consumidora, é a origem das grandes cidades
ocidentais. Na época barroca, a cidade ensaia cenografias e desenvolve-se com o propósito de deslumbrar num período em que o turismo dá os primeiros passos.
Fruto da industrialização crescente do mundo ocidental, ganha forma um “longo e intenso movimento de concentração populacional em aglomerados urbanos, o que faz da sociedade ocidental uma sociedade fundamentalmente urbana”. A nova ordem económica, social e cultural introduzida pela Revolução Industrial reflectiu-se no urbanismo e na arquitectura que ganharam uma nova forma de expressão. Esta cidade, de perfil essencialmente inspirado na burguesia, traduz o gosto pela ostentação expresso em amplas avenidas e grandes praças ao que se contrapunha, por um lado, a proliferação de bairros operários, sem condições de habitabilidade, e com a decadência dos centros históricos, sobretudo quando estes também albergavam fábricas e operários sem meios para investir na sua manutenção.
A transição do século XIX para o século XX foi um período profundamente caracterizado pela mudança e suscitou muitas oportunidades de discussão e de reflexão sobre a temática urbana. A Sociologia dedicou-se à compreensão do fenómeno e, um pouco por todo o mundo industrializado, as concepções e teorias dos ideólogos influenciaram o urbanismo.
A iluminação da rua nas grandes cidades do início do século XX – Paris, Nova Iorque, Barcelona, Londres – permitiu o surgir de uma nova economia da noite. Remonta ao período industrial a frequência de cabarés, concertos, espaços culturais e comerciais, ou o simples acto de passear pelas ruas da cidade, a vida boémia, a cultura do café enquanto espaço de tertúlia, onde a criatividade e a vida cultural se desenvolviam. O consumo surgiu como um elemento fundamental de expressão social (Simmel, 1997) e a cidade é simultaneamente um lugar de produção industrial e de comércio. É neste
cenário que se construíram e se desenvolveram as experiências proporcionadas pela cidade. Os centros das cidades actuais e as suas principais ruas de então eram os centros comerciais e culturais que, ainda hoje, constituem pontos de forte atractividade, frequentados quer por residentes quer por turistas
No final do século XIX e início do século XX, o Pós-Romantismo veio introduzir uma nova ordem no desenho urbano das cidades europeias. Admiradores da cidade medieval os seus defensores enalteciam os edifícios antigos e apoiavam os valores revivalistas. Este modelo de cidade preconizava a aposta numa cidade em contacto com o meio rural, a qual deveria desenvolver-se em função do contexto natural onde estava inserida. Já a cidade medieval, irregular e sinuosa, traduzia um exercício de adaptação às condições do meio. Por esta época, Ebenezer Howard (1850-1928) propunha o conceito de
cidades-jardim, podendo ser considerado o pioneiro de uma ecologia urbana. Esta nova
forma de compreender e projectar a cidade influenciou fortemente, no norte da Europa e, em particular, na Grã-Bretanha, as classes mais favorecidas que passaram a escolher como local de residência os lugares mais afastados do centro, onde o jardim era um espaço privilegiado. Estes princípios projectaram-se em alguns bairros de Londres e de Glasgow. O Pós-Romantismo representa um momento importante da história do urbanismo, não apenas porque representa uma reacção contra a cidade industrial, mas também porque é nesta altura que nasce, no Reino Unido e em Portugal, o movimento pela conservação tendo-se também definido o conceito de planeamento. Camille Sitte, Auguste Pugin, John Ruskin, William Morris e Viollet-le-Duc contribuíram para o aparecimento de “movimentos de defesa do património”, tendo influenciado a própria “evolução dos centros históricos” (Ferreira, 2003: 14).
A partir das últimas décadas do século passado, a cidade evidencia sinais de algum enfraquecimento, sintomas de uma crise que parece generalizar-se (Ashworth e Voogd, 1995; Porter, 1995; Kotler, 1999; Peixoto, 2000, nomeadamente excesso de população (produzindo economias de desaglomeração), crime e violência, degradação paisagística, urbanística e ambiental, decadência de infra-estruturas, declínio da economia industrial, aumento do desemprego, excesso de trânsito e escassez de estacionamento, degradação do parque habitacional e marginalidade.
A desindustrialização crescente das economias industriais, a partir dos anos 70, o crescimento acentuado do sector terciário e a emergência da cidade pós-industrial, a globalização das economias e dos mercados, a concorrência intensa num cenário globalizado, a abolição de fronteiras, as auto-estradas da informação, a crescente degradação ambiental e o decréscimo dos níveis de qualidade de vida decretaram a emergência de novos padrões de desenvolvimento urbano. Daqui resultaram inúmeras situações de declínio, conduzindo as cidades contemporâneas para um novo cenário de mudança.
De acordo com Selby (2004), à medida que as cidades perderam a sua atractividade enquanto centros de produção industrial ganhara competências crescentes enquanto centros de consumo, com impacto no desenvolvimento económico e na regeneração urbana. Braun (2008: 14-15) sintetiza os factores que, no seu entender, influenciam o perfil de desenvolvimento urbano da cidade contemporânea:
1) Globalização e internacionalização das economias, traduzidas em impactos ao
distância geográfica entre as cidades perde acuidade no estabelecimento de relações supranacionais;
2) Evolução das tecnologias da informação e da comunicação, responsáveis pela
fluidez com que se estabelecem as relações, a vários níveis, entre lugares geograficamente distantes. A emergência da sociedade da informação tem, para Hall (2000), sobretudo a partir dos anos 80 do século passado, um dos maiores impactos no perfil da cidade contemporânea.
3) Novas regras no quadro geopolítico global baseadas em parcerias e acordos
tendentes ao desenvolvimento de processos de integração (União Europeia, é um dos exemplos) com impacto na mobilidade e na economia das cidades;
4) Ameaça terrorista presente no quotidiano, sobretudo, das grandes cidades, que se
reflecte no desenho das rotas turísticas internacionais e na imagem das cidades;
5) O poder dos mass media contribuiu para a importância crescente do simbólico
na vida da cidade com impacto na formação das percepções que os turistas (e os próprios residentes) têm da mesma;
6) A evolução da alta velocidade e do low-cost introduziram alterações no domínio
dos transportes com impacto no desenvolvimento do turismo urbano;
7) A emergência da economia das experiências, ensaiada por Pine e Gilmore
(1999) no campo empresarial, veio abrir novas perspectivas às cidades e aos destinos turísticos em geral, preparadas como se de um cenário se tratasse.
Todos estes factores, associados à crescente mobilidade de pessoas, bens e capital,
contribuíram para a emergência de uma economia do conhecimento1 (Dahlman e
Andersson, 2000 cit. in Braun, 2008: 17), fortemente dependente de recursos humanos qualificados, compatíveis com elevados padrões de qualidade de vida e exigentes em termos de ambiente urbano (Braun, 2008). Questões como o multiculturalismo e a
inclusão social, colocam-se às cidades contemporâneas com crescente acuidade2. Neste
cenário a cidade contemporânea é ainda fortemente marcada pela influência de factores como a globalização, a busca de vantagem competitiva como condição para a sobrevivência, o papel crescente da cultura, da criatividade e do turismo nos processos de desenvolvimento urbano reflectidos na adopção de novos modelos de gestão.