6. Opplevelse av å forsørge en familie på én inntekt
6.1 Hvordan mestre en knapp økonomi
Quando no dia 14 de Maio de 1798 morreu no seu leito, caso raro para os supremos governantes de Argel, Hassan El-Khaznadji, o Divan nomeou para lhe suceder Mustapha Pacha (1798-1805). Este dey que teve de enfrentar inúmeras dificuldades resultantes da conjuntura interna da regência (sublevações de tribos, secas, pragas e fomes), acabou por sucumbir vítima de motim anti-judaico desencadeado pelas tropas da milícia que o substituíram por um governante mais de acordo com os seus interesses. As fontes portuguesas registam uma das várias tentativas de assassinato deste dey que acabou por se consumar, na sequência do ataque à comunidade judaica de Argel, em Agosto do ano de 1805. Paulo Freire de Andrade218, capitão-tenente da Cisne, cativo português, transmitiu as consequências de uma dessas tentativas em carta dirigida ao visconde de Anadia:
O Deï desta Regencia, depois de ter sufrido, huma grande cura, desde o dia 17 de Março, em que o quizerão asassinar, os seus soldados; teve a furtuna do seu restabelecimento, não esperádo; acha-se com menos, huma orelha, e a carne
adjacente; sem dois dedos, n’uma mão; na outra sem dois emeio, e com treze
sicatrizes pelo corpo, signaes da sua soberba, avareza, e da dezumanidade, que exzerçita, com todos os seus suditos.219
218
Paulo Freire de Andrade – “Assentou praça de soldado, reconhecido Cadete, no Regimento de Peniche, 15- 11-1780 – Aspirante a Guarda-Marinha, 5-8-1788. – Guarda-Marinha, 24-12-1789. – Segundo-Tenente, 16-12- 1793. – Primeiro-Tenente, 10-9-1795. – Capitão-Tenente, 20-19-1796. De 1796 a 1801, embarcou nas fragatas, Tetis, Tritão, e Cisne, naus Príncipe Real, Medusa e Maria I. Comandou o bergantim Boa Ventura, 1801. (…) Este oficial aderiu à causa brasileira, sendo então Capitão de Mar e Guerra graduado. Foi reformado dentro em pouco, 7-4-1823”, in Comisão dos Centenários Portugueses, Os Portugueses na Marinha de Guerra Brasileira, 1940, p. 371.
219AHU, Fundo do Norte de África, Cx. 404, Carta de Paulo Freire de Andrade ao visconde de Anadia, Argel, 24 de Maio de 1805. Paulo Freire de Andrade dará também em carta enviada ao visconde de Anadia, datada de Argel de 26 de Outubro de 1805, uma curiosa versão dos acontecimentos que tinham estado na origem do assassinato de Mustapha Pacha. Segundo este oficial da Armada, as intrigas dos judeus francos da Regência, que teriam recebido avultadas somas dos cônsules de outras pequenas potências europeias no sentido de fazerem gorar as negociações de Lázaro José de Brito para o resgate dos cativos e paz com Portugal, despoletaram um violento motim anti-judaico e consequente morte do dey em funções. Afirmava Paulo Freire:
“(…) descubertas as entrigas dos hebreos, conhecida a somma que elles receberão dos consules, para evitar o
Foi nesta complicada conjuntura interna que surgiu um dos mais famosos raïs de Argel e foi também dela tirando proveito que os seus futuros governantes souberam potencializar o desenvolvimento da actividade corsária. O último fôlego do corso argelino esteve intimamente ligado a uma mudança de estratégia que passou pela definição do Atlântico como território privilegiado de actuação dos seus corsários. Quando falamos em Atlântico será necessário ter em conta, neste caso, todo um espaço que vai desde os mares dos Açores até às águas das costas peninsulares, passando pelo litoral marroquino. Esta eleição de um novo território de caça não foi para o corso magrebino e sobretudo para o mais importante dos seus componentes, o argelino, fruto do acaso. A opção atlântica do corso de Argel foi resultado de decisões bem congeminadas e geridas com base em informação recebida e tratada de modo a potencializar as conjunturas muito próprias da Regência entre 1793 e 1815 e a situação internacional com que esta se confrontou.
Já vimos que a partir da década de oitenta do século XVIII, sobretudo na documentação portuguesa, podem detectar-se sinais muito fortes da vontade de passar para um estádio superior da actividade corsária com a intenção expressa pelo dey de Argel, segundo o autor do Resumen de las Fuerzas maritimas de Argel oy dia 31 de Deciembre de
1785 e posteriormente de Jacques Filipe de Landerset, entre outros, em encetar a construção
nos seus estaleiros de duas fragatas de 36 e 40 peças de 12 libras cada, de acordo com o primeiro e de 36 e 38 peças se considerarmos as informações do oficial português.
Na realidade o apelo do Atlântico ecoava por todo o Magrebe mediterrânico e ao contrário do que se possa pensar ele não era apenas ouvido pelo corso da regência de Argel. Em Fevereiro de 1793, Henrique Ribeiro Neves deu conta para o Reino das informações que lhe tinham chegado através do cônsul português em Gibraltar220. Para além da não muito normal referência a navios da regência de Tunes na documentação portuguesa, encontramos pela primeira vez a menção a um navio de alguma dimensão, uma fragata. Todavia devemo- nos interrogar perante fontes de outra origem que não a portuguesa, se este já era um dos navios que Argel pensava mandar construir, segundo as informações enviadas para o Reino pelos seus representantes relativas aos activos do corso argelino nos anos de 1785 e 1786. dezordem em que se achão as Provincias de Titre, e Tremessem, e pella grande exportação que os dittos hebreos tinhão delle feito, sendo este commercio só delles: foi a cauza da perdissão total aqui dos hebreos, e da morte do Dey Mustafa Baxa”(AHU, Fundo do Norte de África, Cx. 425, Carta de Paulo Freire de Andrade ao visconde de Anadia, Argel, 26 de Outubro de 1805).
220AHU, Fundo do Norte de África, Cx. 416, Oficio de Henrique Ribeiro Neves a Martinho de Melo e Castro, Cádis, 22 de Fevereiro de 1793.
Aqui levanta-se a sempre eterna questão das várias leituras quanto ao efectivo poder do corso da Regência, tanto quanto ao número dos seus navios como à sua dimensão técnica.
Albert Devoulx, no Registre des Prises Maritimes, insere, referente às presas efectuadas durante o ano de 1798, a contabilização de um navio napolitano carregado de madeira para queimar:
Nº305. La frégate d’El-Hadj Yacoub, la corvette du raïs Hamidou, la Betache
(corvette) du raïs Kara Danguezli, le chebec du raïs Mohammed ou Ali et la barque (chitia) du raïs Tsakirdarli, ont pris un navire napolitaine, chargé de bois à brûler. Il y a dix mécréants. Prélèvements et répartition. 15 moharrem 1213 (29 juin 1798). Produit 12,699 fr. Chaque part: 19 rial, 6 huitièmes et 9 dirhem.221
Mas o mais importante estava guardado para a nota que Devoulx inseria a respeito
deste mesmo artigo “Il s’agit ici, non du petit navire à rames, mais bien dun grand bâtiment à
voiles carrées, portant une quarantaine de canons répart dans deux batteries, dont l’une couverte. Cette frégate moderne est première qu’aient possédée les Algériens”222. Em Junho de 1798 o corso argelino registava assim a primeira presa para a qual tinha contribuído um dos seus navios destinados a actuar fundamentalmente no Atlântico.
Daniel Panzac desvia-se um pouco do Registre des Prises… e informa-nos todavia que a primeira fragata argelina, provida de 44 peças, foi construída em Argel no ano de 1791, sob a direcção de um espanhol; Tunes possuiu a primeira embarcação deste género em 1796 e Tripoli em 1799.223 Estamos aqui novamente perante a questão que surge com frequência e está ligada a alguma discrepância quanto aos dados que nos são fornecidos pelas várias fontes que tratam de assuntos relacionados com o corso de Argel. Como pode uma embarcação desta importância estratégica para a Regência, construída no ano de 1791, só ter surgido na mais relevante fonte para o estudo do corso argelino em 29 de Junho de 1798? Devoulx menciona na obra que dedica à biografia do Raïs Hamidou duas fragatas construídas por um carpinteiro espanhol, Mestre António, e acrescenta que este último deixou a Regência pleno de recompensas depois de ter construído a fragata de Hamidou Ibn Ali e uma outra grande fragata cujo primeiro comandante foi o raïs Ali Tatar224. Pensamos que a informação, sem referência às fontes onde foi colhida, que nos é transmitida por Panzac não se encontra 221
Registre des Prises Maritimes, p. 64.
222Idem, p. 64.
223Daniel Panzac, Les corsaires barbaresques. La fin d’une épopée 1800-1820, p. 43. 224Albert Devoulx, Le Raïs Hamidou, p. 75.
correcta quanto ao ano de construção da fragata de Mestre António, de outra forma não se explicaria a desmesurada apetência na década de noventa do século XVIII por materiais de
construção exigidos como pagamento do “tributo” à Regência por parte das pequenas
potências europeias e que irá estar na origem de conturbadas relações com os Países Baixos nos primeiros anos do século XIX.
A ideia que perfilhamos da passagem do seu corso ao Atlântico, com caracter permanente, ser uma opção desde há muito nos planos das autoridades turcas de Argel, radica na leitura que fizemos das suas escolhas em matéria de política externa, potencializando os
“tributos” em géneros que lhes chegavam das pequenas potências com as quais tratavam
numa lógica de custo/benefício os mais variados acordos diplomáticos. Se por um lado a alguns países, como Portugal, eram exigidas avultadas quantias para a assinatura de acordos traduzidos em Tratados de Paz ou Tréguas, ou a efectivação de resgate de cativos, no caso das potências do Norte da Europa essas exigências tentavam materializar-se no fornecimento de bens estratégicos ligados à construção e reparação naval, bem como ao armamento e munições necessárias a um tipo de guerra marítima que se pretendia novamente elevar a uma dimensão só praticada nos anos dourados do século XVII.
Frei João de Sousa no documento, já citado, que nos primeiros anos de Oitocentos enviou a D. Rodrigo de Sousa Coutinho permite-nos aquilatar dos géneros exigidos às pequenas potências do Norte da Europa para que as suas embarcações de guerra e mercantes pudessem navegar com toda a tranquilidade no espaço mediterrânico. Forneciam as potências nórdicas: a Suécia, balas de diferentes calibres, madeira para construção, mastros e mastaréus, vergas e pólvora; a Dinamarca, os mesmos géneros da Suécia aos quais acrescentava lonas para velas e óleo de linhaça; a Holanda, a mesma qualidade de materiais destinados a construção e reparação naval.
O caso da Holanda merece uma particular atenção nas suas, nem sempre lineares, relações com a regência de Argel, pois este foi de alguma forma um exemplo que com facilidade podemos transpor para as outras realidades políticas norte-europeias. No ano de 1785, desde a sua chegada em Abril, o cônsul da Holanda, Antoine Pierre Fraissinet, distribuiu em presentes às autoridades da Regência um valor superior a 21.000 florins, uma parte do montante de 50.000 que era usual despender com Argel. Este procedimento por parte dos holandeses não impediu que o dey tivesse ordenado aos seus funcionários a abertura de uma conta-corrente cujo saldo era permanentemente vigiado pelas autoridades argelinas que o
tentavam equilibrar com constantes solicitações de material de construção e reparação naval. Estas levaram o cônsul holandês a invocar perante o poder em Argel o estatuto de soberania do governo dos Estados-Gerais que não devia ser confundido com uma qualquer empresa comercial pronta a satisfazer solicitamente os pedidos dos seus clientes.225
No final do século XVIII e aproveitando a conjuntura europeia os homens de negócio argelinos e os seus representantes desenvolveram relações comerciais com a Holanda. Em 1786 um navio dinamarquês afretado por um comerciante de Argel, Sidi Mustafa226, aportou àquela cidade transportando material para construção e reparação de navios. No ano seguinte uma outra embarcação, carregando cerâmica de Delft que o mesmo comerciante encomendara por conta do agha, chegou também ao principal porto argelino. A importação da cerâmica holandesa revelou-se um verdadeiro sucesso, o que levou o cônsul Fraissinet a escrever que o ministro da marinha de Argel227 lhe tinha encomendado a compra de 25.000 azulejos da mesma cerâmica e que no seguimento deste pedido, um tio do dey, Umar, deslocara-se aos Países-Baixos para supervisionar o seu transporte. Por esta altura o comércio com a Holanda intensificou-se, razão pela qual eram normais as deslocações mais ou menos regulares de comerciantes da Regência a este país. Em 1795 estes afretaram um navio sueco para efectuar o transporte de dezanove caixas de armas de fogo e 1.500 pranchas de madeira para construção naval e em 1807 uma embarcação americana de comércio ao serviço de homens de negócio argelinos deixou também o porto de Amesterdão rumo ao Magrebe228.
Foi todavia depois de um incidente com o Concordia, navio mercante holandês
transportando o “tributo” do seu país, entretanto atracado ao porto de Argel em Dezembro de
1793, que as relações com os Países-Baixos atravessaram um período de alguma instabilidade. A pressão junto das pequenas potências levou o dey Baba Hassan a declarar guerra à Suécia, e embora não tivesse sido apresado pelo corso argelino qualquer navio sueco,
esta não resistiu à pressão da Regência e pagou um “tributo” de 350.000 florins aos quais
juntou a promessa dos habituais presentes anuais. O sucesso obtido nas negociações conduziu à procura de uma razão que pudesse justificar a quebra dos acordos com a Holanda e a carga
225Gérad van Krieken, Corsaires et marchands. Les relations entre Alger et le Pays-Bas 1604-1830, p. 112. 226Pensamos tratar-se de Mustfâ ben Mrâbit apontado como um dos dois principais negociantes de Argel ligados
à cúpula do poder cujo inventário após a sua morte, efectuado em 1825, lhe atribui bens no valor de 32.939,25 Patacas, in Lemnouar Merouche, Algérie à l’époque ottomane I. Monnaies, prix et revenues 1520-1830, p. 243. 227Vekil hardj segundo designação usada por Venture de Paradis em Tunis et Alger au XVIIIe siècle.
do Concordia proporcionou o motivo ideal. Esta era composta pela habitual cerâmica de Delft e também por material de construção naval, na sua maioria mastros para navios. A cerâmica naturalmente foi do agrado geral, mas os mastros revelaram-se a fonte de muitos problemas pois eram de má qualidade e em número inferior ao acordado entre as duas potências. O dey Hassan demonstrou o seu desagrado ao cônsul holandês e comunicou-lhe que decidira declarar guerra à Holanda. Fraissinet e sua família partiram então para Livorno a bordo do navio de guerra holandês que tinha comboiado o Concordia na sua viagem para Argel. Em Agosto de 1794 Fraissinet regressou à Regência na sequência de uma missão de paz do seu compatriota Pieter Melvill, comandando uma pequena esquadra de três navios de guerra, tendo acordado o aumento do presente anual holandês para 50.000 florins ao qual juntaria o envio, também anual, de munições e material de construção naval.
As relações da Regência com os Países-Baixos decorreram entre trocas comerciais e
o fornecimento, a título de “tributo”, de materiais estratégicos. Frequentemente estas entregas
foram afectadas pela conjuntura europeia como foi o caso do ano de 1797, no mês de Julho, quando o cônsul Fraissinet foi enviado a Haia pelo próprio dey na tentativa de apressar a entrega dos presentes habituais, transportando uma mensagem deste último na qual afirmava não necessitar de dinheiro mas sim de munições e cordame. De regresso, ao aportar a Argel, o
cônsul holandês depois de distribuir o “presente consular” referente ao ano de 1796 informou
o dey Baba Hassan da impossibilidade da entrega de mastros, tendo em atenção o estado de guerra do seu país com o reino inglês. Neste momento ninguém seria capaz de prever que os materiais de construção naval recebidos em Fevereiro de 1797 tinham sido os últimos a ser entregues pelo governo de Haia à Regência. Depois de várias vicissitudes diplomáticas e na sequência de um incidente do dey Ahmed Khaznadar com o cônsul da Dinamarca, George Ulrich, Fraissinet que intercedera por este último foi chamado no dia 29 de Abril de 1808 à presença do governante argelino. A intenção era o representante diplomático dos Estados- Gerais ler-lhe uma carta acabada de chegar de Haia. A leitura não podia ter corrido pior, já que através desta, Ahmed Khaznadar tomou conhecimento que não era sequer abordada a
eventualidade da chegada de qualquer “grande presente” ao qual estariam inevitavelmente
associados os bens estratégicos ligados à construção naval e tão necessários na presente conjuntura aos arsenais argelinos. Perante a situação, o dey ordenou que o cônsul holandês fosse levado ao banho onde permaneceu três dias, só sendo libertado após reiterados protestos dos outros cônsules europeus. Fraissinet nunca conseguiu recuperar desta permanência no
banho da Regência e acabou por morrer em Setembro desse mesmo ano229. Mais uma vez historiadores destas matérias como é caso de Gérard van Krieken atribuem de forma apressada algumas atitudes dos deys de Argel a causas patológicas do foro físico ou psíquico que redundariam em mudanças súbitas de humor. Na realidade o que se passava era que Mestre António estava em pleno processo de construção de duas fragatas destinadas ao corso argelino, no âmbito da sua nova estratégia de guerra marítima, e a perspectiva de não darem entrada nos arsenais os materiais necessários para a consecução dessa obra era um revés que deixaria furioso qualquer governante, fosse ele o responsável de uma regência magrebina,
“barbaresca” na terminologia da Europa das Luzes, ou de uma qualquer potência europeia do
final do século XVIII.
Estas eram as atribulações pelas quais passavam geralmente os cônsules das pequenas potências do Velho Continente, nomeadamente aquelas situadas a Norte, ricas em madeiras de qualidade para a construção naval, produtoras de metal necessário para canhões e munições, fabricantes de tecido essencial para o velame das futuras fragatas de Mestre António ou de outras que o poder argelino entendesse por bem mandar construir, gerindo ambiguidades, entalados entre a mudança de paradigma do corso de Argel e a necessidade de manterem activo um florescente comércio mediterrânico.
Em Setembro de 1795 Argel assinou um Tratado de Paz com os Estados Unidos que se revelou muito oneroso para a nova nação americana, lançando alguma apreensão nas potências europeias, tendo em conta o perigoso precedente que uma negociação fechada sob semelhantes condições podia vir a significar para futuros acordos com as regências magrebinas. A 23 de Junho de 1797, o presidente John Adams na sua mensagem ao Congresso informou-o que o dey de Argel, no âmbito do Tratado, tinha solicitado a construção de dois navios de guerra que, segundo Adams, o poder argelino se comprometera a liquidar. Os navios pedidos apenas seguirão em Dezembro de 1798, juntamente com os novos representantes diplomáticos dos Estados Unidos em Tunes e Trípoli, e não serão duas mas três as embarcações que a nação americana acabará por remeter a Argel: o brigue Hassan
Pacha e as escunas Skjoldebrand e Lelah Eisha.230 O poder argelino continuava assim a sua demanda de meios para pôr em marcha uma nova estratégia para o seu corso.
229Idem, ibidem, p. 126.
No ano de 1801 a situação das marinhas das pequenas potências face ao corso argelino agravou-se ao ponto de Jorge Pedro Colaço, de Tânger, fazer circular a informação a todos os mestres das embarcações de pesca que cruzavam os mares do Algarve e do litoral atlântico de Marrocos: “(…) se faz precizo que vossas mercês imediatamente que receberem o prezente avizo se retirem destas Costas com prevenção que se algum não o fizer será responsável dos damnos e prejuízos, que possão sobrevir de que se lhe fará formal cargo a seu tempo”231.
Em finais do século XVIII o porto espanhol de Cádis e a praça de Gibraltar eram locais onde afluíam e se traficavam todo o género de informações. Portos das mais variadas gentes onde tudo se comercializava. Um exemplo do cosmopolitismo do porto espanhol do Sul da Península é-nos fornecido pelo “Mapa dos Estrangeiros que residem em esta [Cádis]” enviado para o Reino pelo cônsul português. Segundo o nosso representante viviam na cidade espanhola no final do século XVIII as seguintes nacionalidades: franceses, 2701; italianos, 5048; portugueses, 351; ingleses e irlandeses, 272; alemães e flamengos, 277; hamburgueses, suecos, russos e polacos, 115232. Tudo gente que na sua maioria aguardava a chegada das grandes embarcações provenientes da América do Sul, trazendo nos seus porões as ricas