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Bruken av uformelt barnepass og betydningen av et sosialt nettverk

5. Aleneomsorgen

5.1 Håndtering av aleneomsorg for barn

5.1.2 Bruken av uformelt barnepass og betydningen av et sosialt nettverk

2.1. O corso marroquino

A verdadeira dimensão da marinha de guerra marroquina é uma questão que atravessa toda a segunda metade do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX. A importância do corso no Império Alauíta está naturalmente relacionada com a sua posição estratégica, tanto no Atlântico como no Mediterrâneo que, tendo em conta os efectivos atribuídos por alguns historiadores à marinha xarifina, permitiu a sua prática a níveis de comprovada relevância.

Logo após a sua entronização, Muhammad ben Abdallah, colhendo a experiência dos seus antecessores, dedicou especial cuidado ao reforço do exército para o qual utilizou recursos provenientes do comércio de cereais. Dentro da mesma estratégia também usou receitas de taxas aduaneiras ligadas ao tráfico com as potências europeias para a aquisição de meios que possibilitassem o desenvolvimento da sua marinha de guerra e que passaram pela obtenção de peças de artilharia, munições e cinco dezenas de navios no Império Otomano, Inglaterra e países nórdicos63. Pensamos no entanto carecerem de alguma atenção dados que em nosso entender exageram a dimensão da marinha de guerra Alauíta entre 1757 e 1790, período do longo reinado de Muhammad ben Abdallah64. Segundo um dos muitos estrangeiros que se deslocaram ao Império Xarifino durante este período, William

63

Michel Abitbol, Histoire du Maroc, p. 271.

64Henri Terrassse na já clássica Histoire du Maroc des origines à l’etablissement du Protectorat français afirma que Muhammad III teria vinte grandes navios de guerra e trinta fragatas ou galeotas. Michel Abitbol na sua Histoire du Maroc secunda estes números, declarando que o sultão de Marrocos possuía cinquenta navios adquiridos junto do sultão otomano, Inglaterra e países nórdicos. Pensamos que a semelhança entre estes dois números advém do facto de terem sido recolhidos na mesma fonte redigida por Ahmad Al-Nasiri al-Slawi, Kitab al-Istiqsa li Akhbar Duwal al-Maghrib al-Aqsa. Desta obra existe uma tradução francesa Chronique de la dynastie alaouie du Maroc (1631 à 1894). Trad. E. Fumey, T. IX et X, 1906-1907. Magali Morsy na tradução da obra de Thomas Pellow relativizou a dimensão dos meios navais usados pelo corso saletino que na sua opinião nunca execederam mais de uma dezena e que apenas mitos literários e culturais tinham sobrevalorizado, in L’Histoire de la longue captuvité et des aventures de Thomas Pellow dans le Sud de la Barbarie, Traduction, introduction et notes de Magali Morsy, nota 8, p. 38.

Lempriere65, que na sua obra tem um capítulo no qual aborda esta temática – The Army of the

Emperor – how commanded – his Navy – o monarca Alauíta “Sidi Mahomet paid more

attention to military affairs than to his navy, though if any power refused, it was a suficient inducement for him to threaten a war”66.

Outra obra essencial para o estudo do Império Alauíta é a segunda edição do ano de

1822, “Corrected, newley arranged, and considerably enlarged”, do livro de James Grey

Jackson67, súbdito inglês, que viveu dezasseis anos em Marrocos, entre 1789 e 1806. Ali desempenhou funções como cônsul da Holanda e comerciante, primeiro em Agadir, depois em Mogador, fornecendo-nos talvez a descrição mais abrangente e pormenorizada da vida no Império Xarifino já que assistiu à morte de Muhammad ben Abdallah, à ascensão e morte de Mulei Yazid (1790-1792) e à subida ao trono de Mulei Slimane (1792-1822). Não se encontra todavia nesta obra, plena de detalhes sobre Marrocos, qualquer referência ao tão propalado interesse de Muhammad III pela actividade corsária da sua marinha.

Pensamos também que o sobredimensionamento atribuído à marinha de guerra Alauíta tem muito a ver com uma leitura demasiado literal de fontes marroquinas da época. Referimo-nos concretamente à tradução levada a cabo por Eugène Fumey, sob o título

Chronique de la dynastie alaouie du Maroc (1631 à 1894), da obra do cronista do Império

Ahmad al-Nasri al-Slawi e na qual se lê sobre o sultão alauita, “Il s’occupa beaucoup des

bateaux corsaires: sous son règne, il y eut jusqu’à 20 grands vaisseaux d’escadre et 30

frégates et galiotes; les reïs étaient au nombre de 60, ayant tous leurs bateaux et leurs marins;

65

William Lempriere, médico e militar inglês que no mês de Setembro de 1789, foi incumbido pelo governador britânico de Gibraltar de se deslocar a Marrocos com o fim de ministrar os seus cuidados a um dos filhos de Muhammad III em Tarudante. Depois franqueou o Atlas, cumprindo uma ordem do próprio sultão, e dirigiu-se a Marraquexe, sendo admitido no harém imperial com o fim de observar algumas das favoritas do monarca Alauíta. Meses depois regressará a território inglês onde comporá A tour from Gibraltar to Tangier, Sallee, Mogodore,Santa Cruz, Tarudant; and thence, over Mount Atlas, to Morocco: including a particular account of the Royal Harem, etc. Voltará novamente a Marrocos e desse retorno nos dará conta na segunda edição da sua

obra com “Additions and Corrections” que englobará dados mais circunstanciados sobre a morte de Mulei

Muhammad ben Abdallah e a ascensão ao trono do seu filho Mulei Yazid. Esta segunda deslocação terá estado relacionada com objectivos mais imediatos da política externa inglesa face à conjuntura europeia e às suas possíveis repercussões na regência de Argel e no Império Xarifino.

66William Lempriere, A tour from Gibraltar to Tangier…, p. 240. 67

An account of the Empire of Morocco, and the districts of Suse and Tafilelt; compiled from miscellaneous observations made during a long residence in, various journies through these countries. To which is added na account of shipwrecks on the western coast of Africa, and interesting account of Timbuctoo, the great emporium of Central Africa, second edition, corrected, newly arranged, and considerably enlarged, 1811.

comme marins, il y avait 2.000 Orientaux e 3.000 Magrebins, et, de plus 2.000 artilleurs.”68. O número de embarcações marroquinas tem, no nosso entender, que ser relativizado quando cotejado com a dimensão do corso argelino, tendo em conta que para igual período as autoridades da regência de Argel pensavam em mandar construir duas embarcações já de alguma dimensão no objectivo de tentar passar com mais frequência ao Oceano.

Louis de Chénier, cônsul de França em Marrocos entre os anos de 1767 e 1781, personagem não muito benquista junto do poder Alauíta, pela parcimónia com que gastava os dinheiros do seu país em presentes para Muhammad ben Abdallah, na descrição que nos legou sobre o tempo passado junto ao poder xarifino em Recherches historiques sur les Maures et

l’histoire du Maroc, no seu “Chapitre Troisième – Forces Militaires & Maritimes de l’Empire

de Maroc, & revenues de ce Souverain”, dá conta do interesse que o sultão marroquino votou

à sua marinha de guerra e à actividade de corso que pretenderia exercer:

Dans les premières années de son règne, se Souverain [Muhammad ben Abdallah] fit construire a Salé des armements de vingt-six jusqu’à trente-six canons, parce que le tremblement de terre qui détruisit Lisbonne, le premier Novembre 1755, donna à la passe de la rivière près de trente pieds de profondeur à haute marée: mais

l’ensablement faisant tous les ans nouveaux progrès, il fallu mesurer les armements à

la dificulté des moyens.69

Muhammad ben Abdallah aprofundou a estratégia de centralização do poder real, na tentativa de restabelecer a ordem num país em desagregação, que passou pela submissão de várias tribos guich. Esta política visando a regularização da situação interna do seu reino permitiu-lhe encetar uma política externa coerente, todavia dependente do grau de lealdade das tribos face ao makhzen70. O sultão marroquino, apesar de se considerar um combatente da

jihad, reduziu de forma significativa o corso suprimindo a sua práctica privada e

68Ahmad Ibn Khalid al-Nasri, Chronique de la dynastie alaouie du Maroc (1631 à 1894), p. 361. A vertigem do número que é uma das características das fontes alauítas deve ser tida em conta ao abordar estas e outras matérias. Um exemplo da verdadeira dimensão dos meios navais marroquinos transparece da obra de Thomas

Pellow quando este nos fornece as medidas tomadas pelo sultão ‘Abd Allah (1729-1757) face ao rompimento da paz entre a Inglaterra e o Império Alauíta no ano de 1733: “Les Maures ayant suffisamment renforcé leur

marine à ce qui leur paraissait, envoyèrent quatre bâtiments en mer. Il y avait le vaisseau amiral de vingt-quatre canons commandé par Anjour, un second, de vingt canons, qui n’avait jamais encore pris la mer, placé sur les ordres de Cassam Benicha, un troisième, d’égale puissance, sous ceux de Elle Ouad et un quatrième, de seize

canons, sous ceux d’Absolem Candeel ” in L’ Histoire de la longue captivité et des aventures de Thomas

Pellow dans le Sud de la Barbarie…, p. 117.

69M. de Chénier, Recherches historiques sur les Maures et l’histoire du Maroc,p. 236.

70Edward Szymansky, «Les tribus “Guich” et le Makhzen sous le règne de Sidi Mohammed Ben Abd Allah», in

transformando-o num negócio de estado. Muhammad III compreendera que comércio e corso, no caso específico do Império Xarifino, não eram práticas conciliáveis71.

Os números relativos à marinha marroquina armada em corso, constantes na crónica de al-Nasri e nos quais Michel Abitbol se baseia, estão sobrevalorizados, fundamentalmente se tivermos em conta que nos “anos Hamidou”, entre 1793 e 1815, período em que a actividade da marinha de Argel atingiu níveis desconhecidos desde o século XVII72, o corso desta regência possuía apenas cinco fragatas, sendo duas delas resultantes de apreensões e outras duas de construção recente.

O cônsul de França, Louis de Chénier, volta a dar-nos conta na sua obra que as embarcações mandadas construir por Muhammad III em Salé não inspiravam nenhum receio por serem pesadas sem proporções, soçobrando facilmente nas inexperientes mãos dos seus comandantes. Ainda segundo Chénier “Sidi Mahomet n’aguères que six a huit frégates de deux cens tonneaux de portée, percées pour quatorze & dix huits canons de six, & une dizaine

de galliotes”73.

A opinião do diplomata francês sobre a inexperiência dos comandantes da marinha de guerra xarifina ainda é hoje um argumento recorrente quando se parte para análise deste período do século XVIII marroquino, fruto dos preconceitos ideológicos dos representantes da Europa das Luzes, então em serviço nos vários postos do Magrebe, resultado de alguma historiografia eurocêntrica nos nossos dias. No entanto, noutra perspectiva, Leïla Maziane na sua obra de referência Salé et ses corsaires (1666-1727) aborda também o tema. Segundo esta historiadora marroquina os raïs de Salé, no século XVI e princípio do XVII, eram maioritariamente de origem europeia. Capturados por uma qualquer embarcação magrebina, ou recém-chegados a território Alauíta em busca de fortuna, estes aventureiros procuravam fundamentalmente riqueza e glória e na sua maioria encontravam-nas. Mas se a preponderância de convertidos é dificilmente questionável para a centúria de Seiscentos e primeira década de Setecentos, embora a historiadora marroquina nos dê a conhecer que no ano de 1671 em 12 capitães de navios corsários, 8 eram marroquinos, sabemos que a partir de

71Roger Le Tourneau, «Le Maroc sous le règne de Sidi Mohammed ben Abdallah», in Revue de l’Occident

musulman et de la Méditerranée, pp. 122-123.

72Lemnouar Merouche, Recherches sur l’Algérie à l’époque ottomane: II. La course mythes et réalité, p. 315. 73M. de Chénier, op. cit., p. 239. “Anos Hamidou”(1793-1815): designação dada ao derradeiro período de ouro

meados do século XVII os raïs marroquinos se tornaram cada vez mais numerosos. O comando dos navios marroquinos armados em corso evoluiu para um negócio de família, como foi o caso dos Ben Aïcha, dos El-Cortobi, durante mais de meio século, e depois no reinado de Muhammad ben Abdallah com os El-Mestiri.74

Na posse destas informações podemos questionar as afirmações de Louis Chénier. Como era possível invocar a inexperiência dos raïs marroquinos para o período concreto a que se refere? Como é que era possível ignorar o saber transmitido pelos convertidos europeus a homens como Abdallah ben Aïcha e Fennich, entre outros, que certamente o passaram aos seus compatriotas que fizeram escola a bordo das embarcações xarifinas? Chénier não sabia que seriam estes comandantes por ele considerados inexperientes que tomariam os primeiros navios americanos que cruzaram o Atlântico, dirigindo-se ao Mediterrâneo. O francês veiculava o espírito da época e antecipava um outro tempo de intolerância e arrogância europeia.

As fontes portuguesas são pródigas em informação que nos permite concluir pela existência de um corso marroquino activo e omissas em dados que levem à constatação de acções inerentes a uma marinha de guerra da dimensão daquela que nos é fornecida por al- Nasri. Na sequência das boas relações entre o Império Xarifino e Portugal que tinham sido consubstanciadas no Tratado Luso-Marroquino de 1774, o cônsul português em Marrocos, Jorge Colaço, num longo ofício, datado de Tânger de 30 de Janeiro de 1778, deu conhecimento às autoridades de Lisboa de deserções de portugueses de Ceuta, dos gastos feitos com estes, apensando-lhe uma lista de passaportes concedidos entre 1772 e 1777 aos

raïs marroquinos75:

74Leïla Maziane, Salé et ses corsaires (1666-1727), pp. 171-172. Sobre esta família Leïla Maziane informa-nos também que o raïs L’arbi el-Mestiri er-Ribâti foi promovido por Muhammad III a embaixador do Império em Inglaterra e Génova.

75

ANTT, MNE, Correspondência dos Consulados portugueses, Tânger, Cx. 299, Ofício de Jorge Colaço para Martinho de Melo e Castro, Tânger, 30 de Janeiro de 1778. Os passaportes permitiam garantir perante os navios da Armada portuguesa que cruzavam a zona do Estreito e o Atlântico Sul a nacionalidade marroquina

QUADRO III

Passaportes concedidos entre 31 de Julho de 1772 e 3 de Setembro de 1777aos corsários vassalos do Imperador de Marrocos