Conforme relatado acima, o projeto piloto, apesar de imensamente relevante para a minha formação enquanto pesquisadora e professora, não poderia ser objeto de um estudo de mestrado por diversas razões, dentre elas pela minha relação profissional com a aluna-participante e as intrínsecas relações de poder dela decorrentes e por se tratar de um caso muito específico. Era preciso ampliar o contexto de coleta. Quando tomei conhecimento da parceria entre o Instituto Rogacionista e o meu grupo de pesquisa, LACE, por meio do projeto com oficinas temáticas coordenado pela Profª. Drª. Fernanda Coelho Liberali, decidi que lá seria um local de coleta muito interessante para estudar as questões que recentemente
me intrigavam.
O Instituto Rogacionista foi fundado na cidade de São Paulo – SP, no dia 02 de agosto de 1969, com a finalidade de propiciar educação, assistência e ensino aos jovens pobres. Suas atividades tiveram início em 23 de março de 1970. É uma associação civil, de natureza confessional, beneficente, filantrópica, de caráter educacional, cultural e de assistência social, sem fins econômicos e lucrativos, constituído sob a inspiração dos ensinamentos e do carisma de Santo Aníbal Maria Di Francia. Sua missão está baseada no carisma rogacionista e voltada para a promoção das crianças, dos adolescentes, dos jovens e dos adultos que vivem em situação de vulnerabilidade social, em sintonia com a Lei Orgânica da Assistência Social, o Estatuto da Criança e do Adolescente, e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Na sua história, o Instituto Rogacionista viu crescer a sua ação transformadora socioeducacional. No seu início, as ações eram voltadas para crianças e jovens. Agora, desenvolve serviços de educação infantil, proteção social básica e proteção social especial, na zona oeste da capital paulista. Atende diariamente, de maneira institucional, um número significativo de pessoas e, de forma não institucional, está presente nas diversas mobilizações e organizações sociais: comunidades, lutas dos direitos das minorias, movimentos populares e políticas públicas. Na sua organização, estabelece parcerias com os setores governamental, empresarial e outras entidades de seu campo de atuação e faz parte da rede das obras rogacionistas presentes no território nacional e internacional.
Fotografia 2: Fachada do Instituto. Fotografia 3: Alunos do Instituto.22
22 Disponível em: http://www.institutorogacionista.org.br/ e http://www.institutorogacionista.blogspot.com/. Acesso em: 26 fev. 2010.
O Instituto conta com cinco unidades onde diversos núcleos coexistem, mas a pesquisa aqui descrita foi desenvolvida em apenas uma das unidades, a sede do Instituto, chamado Núcleo Santa Marina, dentro do Centro de Desenvolvimento Social e Produtivo (CEDESP). Essa unidade atende diariamente, de forma gratuita, 450 crianças e jovens, em dois turnos de quatro horas. Possui dois programas distintos: um voltado para crianças e adolescentes (de 6 a 14 anos) e o outro para jovens e adultos (15 a 29 anos), durante os quais as crianças e jovens são alimentados e participam de atividades educativas, lúdicas, profissionalizantes e esportivas.
Esse núcleo tem o objetivo de oferecer proteção social, assegurar espaços para as relações que garantam a sociabilidade e convivência em grupo, ampliar o universo cultural, o aprimoramento da linguagem oral e escrita, a promoção da consciência socioambiental e o acesso à tecnologia. A unidade objetiva contribuir para o desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida, estimular a participação na vida pública em comunidade e o reconhecimento do trabalho como direito de cidadania, investindo na formação profissional. O seu quadro de colaboradores é constituído por dois gestores, dois coordenadores pedagógicos, um assistente técnico, oito educadores sociais e nove educadores de apoio. Conta, ainda, com apoio de voluntários da comunidade e de fora dela e a população atendida é, na sua maioria, da comunidade local, mas abrange, também, outras regiões da cidade de São Paulo.
Para esta pesquisa, trabalhamos com o público jovem de 15 a 29 anos que segue cursos em oficinas profissionalizantes oferecidas pelo Instituto, em horários alternados aos seus horários escolares. Essas oficinas oferecem cursos profissionalizantes teóricos e práticos de culinária, eletricista residencial, computação/informática e técnica administrativa (RH e departamento financeiro).
O Instituto tem como mantenedores a congregação dos padres Rogacionistas e a Província Rogacionista Latino Americana e firma convênios com a Secretaria de Assistência Social do município de SP e com a Secretaria Municipal da Educação.23
No primeiro semestre de 2009, nós, pertencentes ao grupo EM, organizamos
23
Disponível em: http://www.institutorogacionista.org.br/ e http://www.institutorogacionista.blogspot.com/. Acesso em: 26 fev. 2010.
reuniões semanais do projeto, sob a coordenação da Profª Dra. Fernanda Coelho Liberali, durante as quais trabalhamos a concepção pedagógica de oficinas que viriam a ser ministradas a partir do segundo semestre do mesmo ano no Instituto Rogacionista Santo Aníbal, onde iniciamos a segunda fase de coleta de dados.
Ainda no final do primeiro semestre de 2009, promovemos uma tarde de oficinas para os educadores do Instituto que trabalhavam com nossos futuros alunos nos moldes das oficinas que colocaríamos em prática meses mais tarde, com o intuito de apresentar-lhes a nossa ação no Instituto.
Fotografia 4: Oficina em francês para os educadores do Instituto.
Após seis meses de preparação, finalmente, em agosto de 2009, iniciamos as oficinas temáticas desenvolvidas em LI, a minha especificamente em língua francesa. Essas oficinas seguiram a estrutura do Projeto EM já apresentado. Para iniciar o projeto, elegemos dois temas “Quem somos nós?” e “Com quem convivemos?”, que guiaram as escolhas didáticas. A escolha desses temas foi pautada em reunião com a coordenadora geral do Instituto, que relatou os problemas de identidade dos alunos que frequentavam o Instituto e moravam em duas favelas da região (Água Branca). O que ocorreu de fato foi que houve um processo de desapropriação, por parte do governo, de casas de uma das favelas. Essa desapropriação levou vários moradores a mudarem para a outra favela, criando-lhes inúmeros problemas, já que se sentiram ameaçados e sem condições
de assumir uma identidade, frente à nova posição social que ocupavam após a desapropriação de suas casas.
Os conteúdos, pertencentes às diferentes áreas do conhecimento acima evocadas, foram articulados durante as aulas por meio de uma metodologia de trabalho baseada no conceito de Atividade Social, teoricamente explicitado no capítulo 2 (páginas 69 a 74). Assim sendo, foi escolhida a Atividade Social “Viagem à Paris (para participar do programa Star Academy)” como ponto de partida para a prática em sala de aula, como detalhou-se abaixo. As oficinas, como dito anteriormente, aconteceram de agosto a dezembro de 2009, uma vez por semana, com duração de duas horas, como ilustra o quadro a seguir.
PERÍODO ATIVIDADE
fevereiro - dezembro 2009 Reuniões de Planejamento EM agosto - dezembro 2009 Oficinas temáticas em francês
14 de novembro de 2009 Evento All Stars Múltiplos Mundos Show Quadro 3: Calendário do Projeto EM para 2009.
A seguir, o Quadro 4 resume os conteúdos trabalhados em cada aula filmada da oficina temática em LI no Instituto Rogacionista.
As aulas em vermelho foram objeto de análise linguístico-discursiva, como apresentado no capítulo 5 – O Fazer da pesquisa.
Objetivos comunicativos da unidade: Falar de si, apresentar-se, apresentar um colega, falar de seus
gostos, de suas aspirações, de onde mora, descrever alguém.
Instrumentos linguísticos: presente do indicativo, números, nacionalidades, países, cidades, capitais,
as preposições, continentes, oceanos, profissões
Objetivos Culturais: trabalhar com mapas, famílias, hábitos gastronômicos, unidade/diversidade,
alunos/comunidade, eu/nós.