KAPITTEL 3: INFORMASJONSGJENFINNING, IR
3.1 Indeksering
Na cidade contemporânea, ações cotidianas como morar e se locomover, ir ao trabalho ou voltar de um passeio, constituem, na sua totalidade, uma densa e extensa rede de fluxos os mais diversos. Essa rede torna-se possível a partir de um conjunto de infraestruturas instalado previamente, e pode ser caracterizada por uma tripla condição: alternativas de deslocamento, transposição de obstáculos, e várias opções de caminho para
131 um mesmo destino, e mesmo entre vários destinos. Portanto, andar a pé em um bairro ou entre bairros, dirigir um carro, utilizar um ônibus ou trem, atravessar uma passarela, uma ponte ou um viaduto, são atividades que se realizam em função das infraestruturas disponíveis.
Tal rede de infraestruturas urbanas responde condicionalmente a um sítio precedente, ao qual se instala mediante uma série de possibilidades e restrições, que variam ao longo do tempo. O sítio precedente ou original em questão, constituído de relevo e hidrografia, pode ser caracterizado como geográfico, no qual as ações humanas são indiferentes à sua constituição ou, antes, que ainda não se modificou determinantemente pela ação humana. Assim, os atributos originais desse sítio condicionarão a transformação do tecido urbano: o relevo, com sua superfície contínua, ondulando entre níveis altos e baixos de altimetria; e a hidrografia, fios d’água capilares que nascem nos ponto altos do relevo e sempre seguem abaixo, acumulando em cursos maiores, sendo como que o negativo do relevo, uma radiografia das suas cavidades, sejam essas encostas de colinas ou vales. No caso de São Paulo, um desenho chamado de “espinha de peixe”.
A rede de infraestruturas urbanas articula-se por elementos de transposição viária e hidrográfica, no caso pontes, túneis e viadutos, artefatos técnicos estes que possibilitam a formação de um sistema minimamente coeso, ramificado e aberto de entrada e saída de fluxos. Essas obras de arte de engenharia talvez sejam o primeiro indício de uma escala metropolitana das infraestruturas urbanas, uma vez que conjugam a superação do obstáculo físico, seja um rio, seja um entre morros, viabilizando a conexão entre duas localidades. Além disso, as próprias vias de fundo de vale, tornadas objeto de infraestruturas ao mesmo tempo viárias e de drenagem, condicionam a hidrografia a esse sistema de fluxos, na maior parte das vezes diminuindo drasticamente a permeabilidade do solo e procedendo por um estreitamento máximo do traçado.
Porém, a continuidade ininterrupta de fluxos da rede metropolitana se dá à custa de uma série de interrupções locais, mais ou menos abruptas, criando mesmo novas barreiras e obstáculos, os quais se fazem sentir, principalmente, nos deslocamentos de pedestres. Essa dicotomia entre impactos provocados por infraestruturas que foram implantadas em função apenas da escala metropolitana pode ser entendida como uma limitação ou insuficiência
132 projetual. Todo modo, implica um processo de fragmentação do território e mesmo uma irredutível complexidade. A estes últimos dois termos cabe, porém, certo cuidado. Para Indovina (2004, p. 20):
Na medida em que os fenômenos territoriais estão em causa, é extremamente importante olhar para a escala: por um lado, na base, está o ‘fragmento’. Esta é uma extrema simplificação (a qual pode ser consciente ou não): o assunto que está sendo analisado pode ser autônomo ou mesmo misterioso, como pequenos achados arqueológicos de uma civilização desconhecida. Neste caso o objeto encontrado não pode ser reconhecido e interpretado corretamente porque não pode ser relacionado com o seu contexto mais amplo. Por outro lado, no topo da escala nós encontramos ‘complexidade’, um conceito que não pode legitimar a existência de algo desconhecido e tenciona a necessidade para uma análise aprofundada. Tudo é um fragmento, mas nem tudo pode ser fragmentado. O fragmento é assim porque é parte de um todo; se tudo é um fragmento, nada é um fragmento. Complexidade não é caos: é uma ordem de múltiplas conexões e relações. A fim de entendê-las, suas funções e causas, é necessário entender processos, dinâmicas e especificações.
As várias causas que se sobrepõem quando de uma constituição específica de um tecido urbano são, portanto, fruto de uma diversidade de situações, que ocorrem tanto na escala metropolitana quanto na escala local. Nas palavras de Coelho (2014, p. 13-15):
O estado de um tecido num fragmento de tempo é tanto o resultado de idéias e materializações intencionais como de acontecimentos involuntários e pré-existências históricas e geográficas. Uma colina, um rei, um terremoto ou um regulamento desenham a forma da cidade, mas também as banais operações do dia-a-dia, como a simples construção de um telheiro que avança sobre a rua ou a mais insignificante parcela paralisada por uma disputa de propriedade. [...] Se a cidade contêm muitos tempos simultaneamente, há que perceber como estes se expressam. Esta questão está ligada a própria natureza do tecido e à sua constituição. Qualquer fragmento urbano é composto por distintas parcelas privadas, para além da parcela que as estrutura e que constitui, na cidade ocidental, o espaço público.
É o espaço público, portanto, que estrutura o tecido urbano e conecta suas várias parcelas, decompondo-se em espaços de circulação e permanência, definidos pelos diferentes tipos de traçado de infraestruturas e parcelário decorrente. No tecido urbano, essa categoria de espaço pode ser decomposta, basicamente, entre leito carroçável, calçamento e o conjunto de parcelas destinadas à ocupação pública, como praças e parques. Na interface entre esses dois componentes é possível perceber uma espécie de espaço intermediário, que permite uma observação pormenorizada dos conflitos existentes entre o
133 sítio precedente e os pequenos estratos de tecido local, e entre esse tecidos locais e a rede de infraestruturas metropolitanas.
O espaço intermediário, que se dá enquanto interface entre o leito carroçável e parcelas públicas, pode ser caracterizado a partir de aspectos observáveis na sua dupla natureza, que propicia o trânsito, seja de automóveis, seja de pedestres, e que permite ao mesmo tempo permanência. Assim, haveria caráter ora intersticial, que costura diferentes partes do tecido urbano e está adequado à escala tanto de trânsito quanto de permanência do pedestre, e um caráter ora residual, na qual tanto o trânsito quanto a permanência do pedestre se dá de maneira conflituosa e problemática. Nesse sentido, o componente traçado urbano, relevante para o estudo da interface entre infraestruturas e hidrografia, expressa uma natureza ao mesmo tempo oposta e complementar, e implica um aspecto regional e local ao mesmo tempo, conforme a escala de tecido analisada. Segundo Coelho (2014, p. 13):
Uma rua ou uma praça, ainda que numa abordagem analítica possam constituir um espaço uno e coerente, só podem ser verdadeiramente entendidos enquanto espaços dependentes do edificado que o define. Na mesma ordem das idéias, um quarteirão, como espaço de agregação de espaços privados, livres e construídos, também só pode ser verdadeiramente entendido a partir dos limites rigorosos impostos pelo espaço público, quaisquer que sejam os elementos urbanos que o configurem.
Fruto da decomposição do tecido urbano, o traçado contêm dois tipos de eixos: longitudinais, designando espaços regionais e de alcance metropolitano; e transversais, definidos por espaços locais. Tais eixos configuram as duas escalas de tecido urbano, macro e micro, e tem por figuras conceituais, respectivamente, a metrópole como um todo e a diversidade das localidades urbanas como parte mínima. Entre essas duas figuras, a microbacia hidrográfica funciona como escala intermediária ou de interface, e propicia, por sua configuração física e geomorfológica, um limite que permite o recorte de uma medida territorial objetiva. Configura-se assim, para um mesmo tecido, uma escala de urdidura, sobreposta verticalmente e longitudinal, uma escala de trama, transversal e justaposta horizontalmente, e uma escala da microbacia hidrográfica, que intercepta as duas primeiras e as unifica.
134 A análise do sítio geográfico precedente também se demonstra fundamental para a questão da temporalidade do tecido urbano, uma vez que condiciona as escolhas de assentamento e determina, doravante, sua posterior transformação. A década de 1930, seja para a região da Penha seja para o conjunto da metrópole de São Paulo, apresenta-se como emblemática frente às escolhas de expansão urbana e desenvolvimento metropolitano, onde o modelo rodoviarista e o axioma da indústria automobilística se impuseram como parâmetros definitivos e correspondem à atual estruturação do traçado urbano.