4 S IVILE SAKER I KONFLIKTRÅD
4.1 Hva er sivile saker?
Minuchin (1982) pontua que o sistema familiar é composto pelos subsistemas conjugal, filial, fraterno, de gênero, entre outros. Estes subsistemas são responsáveis por diferentes papéis que são desempenhados por seus membros com
o intuito de organizar o sistema familiar, nutrindo cada um dos integrantes, estabelecendo as regras e suas interações com os demais subsistemas e o sistema familiar como um todo.
Féres-Carneiro (1992) descreve que as famílias que apresentam sintomas possuem algumas características em suas relações como regras não especificadas entre seus integrantes (sem flexibilidade e não explícitas); papéis familiares indefinidos e; fronteiras entre os subsistemas rígidas ou abertas demais em que evidencia-se uma relação entre os cônjuges de forma confusa. Corroborando com o pensamento da autora, Minuchin (1999) pontua que quando os padrões de autoridade de uma família são claros e flexíveis, seus membros consideram as opiniões um do outro. Em contrapartida, famílias com padrões menos funcionais tem maior propensão de surgirem conflitos entre seus membros, com discussões rígidas, em torno do ganhar ou perder.
Neste sentido, Falcke e Féres-Carneiro (2011) e Bucher-Maluschke (2003) afirmam que, ao manter uma relação direta com o sistema parental, os filhos são espectadores de situações vividas por seus pais sobre como estes se relacionam. O tipo de vínculo amoroso que os pais cultivam entre si e para com os filhos servirá como modelo para futuras gerações. Ainda para estes autores, a infância é a fase da vida que o indivíduo se encontra na dependência do que seus pais podem proporcionar em termos de afeto, carinho, educação. É nesta fase e no ambiente familiar que se iniciam as experiências acerca do compromisso e da negociação no casamento, que servirão como modelo para as gerações seguintes (ANDOLFI, 1995; BUCHER-MAKUSCHKE, 2003).
O relacionamento conjugal dos pais de Bruna era permeado por constantes desentendimentos e desavenças, e pela presença de violências praticadas pelo seu pai contra sua mãe. Assim, Bruna presenciou, durante sua vida, cenas de agressividade e diversos tipos de violências:
“Corda, pedaço de pau e porrada mesmo. Eu acho que nunca se resolveu. Era assim, eles brigava, ele batia nela e ela ficava toda machucada. Ele agredia ela na nossa frente, né? A gente não podia fazer nada na época porque era todo mundo criança. Chorava, ficava cada um no seu lugar. Quando a minha vó tentava interferir ou alguém da minha família, ele expulsava de lá da casa dele” (Bruna).
Portanto, Bruna descreve o relacionamento conjugal de seus pais como sendo organizado de forma não igualitária, uma vez que seu pai detinha uma autoridade absoluta, além de ser violento. Era o pai quem determinava as regras em casa, enquanto sua mãe acatava as decisões dele sem ter a escolha de opinar, sob o risco de ser agredida:
“Não sei nem como que te explicar essa relação. Eu sei que era uma relação muito conturbada. Até hoje ainda é. Meu pai traía minha mãe. E ele sempre batia na minha mãe, né? Batia. Ele era muito agressivo com a minha mãe” (Bruna).
Percebemos que, nesta relação, o homem tem a autorização de usar a força física a fim de prevalecer seus desejos (SAFFIOTI, 1992, 2001). A mãe de Bruna, além de ter acatado todas as decisões do marido, submeteu-se a esta violência por um longo período, como relata Bruna:
“Ele era muito agressivo com a minha mãe. Inclusive ele parou de bater na minha mãe acho que tem uns 12 anos, que foi quando meus irmãos revoltaram contra ele e reagiram, e assim ele expulsou todos de casa. Todos foram expulsos de casa porque não aceitaram essa situação. Depois que cresceram, não aceitaram” (Bruna).
De acordo com Carter e McGoldrick (1995), a família, desde sua formação inicial até a morte, é um sistema sujeito a mudanças, tanto internas quanto externas, que vão se movendo no tempo. Dos seis estágios descrito pelas autoras, buscando compreender o relato acima, focaremos no estágio quatro, ‘Família com filhos adolescentes’, que tem como processo emocional, aumentar a flexibilidade das fronteiras da família a fim de introduzir a independência dos filhos e a fragilidade dos idosos. Nesse sentido, a partir do relato de Bruna, podemos observar a rigidez dos papéis, regras e negociações que não se transformam ao longo do Ciclo de Vida Familiar, pois mesmo os filhos tendo passado pela adolescência, em que deveria ter ocorrido um processo de negociação, isso não ocorreu. E ao chegarem na fase adulta que, no caso, necessita da inversão dos papéis para que os filhos possam cuidar dos pais, o pai reage e os expulsa de casa. Ou seja, os filhos que já adultos poderiam proteger a mãe, são expulsos de casa e ela continua a mercê do marido
violento. Acreditamos que os filhos não conseguiram alcançar seu objetivo devido a rigidez familiar existente coadunada ao autoritarismo e domínio de seu pai.
Quanto ao fato de, mesmo com a saída dos filhos, a mãe de Bruna continuar com o marido, Figueiredo, Penso e Almeida (2012) elencam alguns fatores que influenciam na permanência das mulheres que sofrem violência em seus relacionamentos. Entre eles estão questões religiosas, falta de recurso financeiro ou ausência da figura paterna para os filhos. No relato de Bruna, percebemos que sua mãe se apegou à religião, como justificativa para permanecer com seu marido:
“E a minha mãe, na verdade, passou a ser evangélica. E depois que ela passou a ser evangélica, ela nunca quis se separar do meu pai. A gente sempre conversou pra separar, pra haver uma separação, mas ela nunca aceitou depois que ela passou a ser evangélica” (Bruna).
A partir da fala de Bruna, podemos entender que, ao se posicionar da forma descrita acima, sua mãe continuou aceitando os comportamentos do marido, resignando-se à situação e permanecendo na mesma posição de subordinação.
No caso de Jorge, este presenciou discussões entre os pais que, em alguns momentos, culminaram em agressões físicas de sua mãe para seu pai por esta não aceitar os comportamentos que seu marido apresentava:
“Tinha (desavenças) porque ele bebia muito. Ela falava que ele era uma pessoa boa, mas quando ficava bêbado chegava ligando o som na maior altura. E não ouvia baixo. Era pra toda a vizinhança ouvir. Aí eles brigavam. Ela ficava louca da cabeça” (Jorge).
Ao fazer uso da violência contra seu marido, a mãe de Jorge, diferentemente da mãe de Bruna, reage ao papel imposto tradicionalmente de mulher submissa. No entanto, as atitudes da mãe de Jorge não foram suficientes para modificar a desigualdade das condições entre o casal, possivelmente acarretando um sentimento de fracasso e frustração constantes. “Ela ficava triste, ela falava pra ele que ele não pensava em ninguém” (Jorge).
Retomando a família de Bruna, fica claro que sua mãe internalizou o lugar de subserviente, se colocando subjugada aos desejos e injunções que eram ditadas
pelo pai de Bruna, e, consequentemente, se anulou enquanto mãe, esposa, mulher e, sobretudo, como pessoa. Chauí (2000) afirma que ser sujeito é ser dotado de vontade, com capacidade de orientar seus desejos, reconhecer-se a si e aos outros como um ser existente, e, por fim, determinar a si mesmo suas regras. Mas a mãe de Bruna anula suas vontades. Assim, não se reconhece e nem se autodetermina, tornando-se um ‘não ser’, um ‘não sujeito’. Podemos supor, portanto, que, ao colocar-se neste lugar de submissão e de ‘não sujeito’, a mãe de Bruna acomoda-se aos comportamentos de seu marido. Ou, paradoxalmente, ao se acomodar aos comportamentos do marido, assume um lugar de não sujeito.
O relato de Jorge demonstra uma diferença do seu modelo familiar, se compararmos com o de Bruna. Enquanto o modelo apresentado por Bruna mostra a concepção da atribuição social que confere à mulher o espaço doméstico, o papel de esposa notável e de mãe exemplar em que o homem desempenha comportamentos característicos de poder do modelo patriarcal já descrito anteriormente, na família de Jorge, sua mãe não aceita este papel e nem o comportamento do marido, utilizando a violência física para tentar contê-lo e se colocar diante do poder masculino.
Na relação dos pais de Jorge, as agressões físicas que sua mãe cometia contra seu pai e seu constante adoecimento, ocorriam em função de uma retroalimentação de um circuito perverso, em que sem conseguir admitir os comportamentos de seu marido, ela, esposa, o agredia. Mas como isto não modificava a relação, ela adoecia.
Segundo Herman (1992), a violência pode afetar a saúde física das mulheres fazendo surgir alguns sintomas de adoecimento visíveis. A exemplo do que foi relatado Figueiredo, Penso e Almeida (2012) apresentaram uma pesquisa realizada no Distrito Federal, no ano de 2009, com mulheres vítimas de violência conjugal e que apresentavam problemas de saúde. As autoras concluíram que em algumas mulheres adoecem, constantemente, em decorrência de violência psicológica. O relato de Jorge sobre o comportamento do pai e, consequentemente, o incômodo de sua mãe exemplificam esta situação:
“Ela ficava triste. Ela falava pra ele que ele não pensava em ninguém, só queria saber de farra. Minha mãe falava que dia de domingo lá em casa, juntava todo mundo (amigos do pai de Jorge) e ela cozinhava pra todo mundo” (Jorge).
Jorge, ao mencionar os conflitos que ocorriam entre seus pais, entra em contradição. Em um primeiro momento relata ter presenciado algumas desavenças entre seus pais que resultaram em agressões físicas mútuas, mas que estas eram sempre iniciadas por sua mãe. Contudo, mesmo enfatizando que a violência era sempre realizada de maneira recíproca, Jorge se contradiz e relata que seu pai nunca agrediu fisicamente sua mãe e que somente esta o fazia: “Ele dava [...]. [...] batia nela não!” (Jorge). No entanto, ao escutar o relato do marido, Bruna, que se
encontrava ao lado de Jorge, o questiona:
“E como que ele tocou fogo nela uma vez? Teve uma vez que ele tocou fogo e até queimou o cobertor. Ela guardou o cobertor queimado” (Bruna).
Jorge contradiz a afirmação de Bruna e esclarece: “Não. Aquilo ali, ele que dormiu com o cigarro aceso. Não, ele dormiu com o cigarro aceso na cama, aí pegou fogo no cobertor” (Jorge).
Esse posicionamento ambivalente de Jorge nos possibilita pensar que, apesar de reconhecer os defeitos de seu pai, faz uma tentativa de preservar a sua imagem, sendo complacente com suas atitudes e camuflando seus atos de negligência e de violência. Essa postura de Jorge em minimizar as atitudes e comportamentos de seu pai, pode estar relacionada à sua identificação para com ele. Podemos inferir que há a necessidade de Jorge fazer esse movimento de desculpar seu pai para garantir sua própria estruturação psíquica e sua identificação com a linhagem paterna, sentindo-se vinculado a este pai. Segundo Penso (2003) o processo de identificação é necessário para a construção identitária do filho homem. Estes casais, cujo modelo de relacionamento é marcado pela violência, também, apresentam-se como pais violentos na relação com seus filhos. Para Falcke e Féres-Carneiro (2011), isto se deve a alguns fatores: um deles se refere às experiências vivenciadas na família de origem serem base para as futuras gerações, influenciando na escolha conjugal e na forma como o relacionamento amoroso será construído pelos futuros casais. Outro fator está relacionado aos filhos serem receptores de agressões pelos pais ou testemunharem as mesmas entre eles, deste modo, influenciando os relacionamentos futuros dos filhos. Segundo as autoras, estes fatores são os maiores precursores da agressão conjugal.
A respeito de como era o convívio com os pais, Bruna relata que as regras e as tarefas, estabelecidas pelos pais sobre o seu papel e o de seus irmãos na família, eram permeadas por violência. Portanto, a educação dos filhos era intermediada por contenções marcadas por violências físicas agressões físicas ou verbais, princípios e valores rígidos sobre certo e errado (BUCHER-MALUSCHKE, 2004).
“[...] apanhava muito. Tanto do meu pai quanto da minha mãe. É, tipo assim, me dava uma ordem pra fazer aquilo e se não fizesse aquilo rápido e de imediato, já era motivo de apanhar” (Bruna).
Dessa maneira, os pais de Bruna utilizavam, então, o que Bucher-Maluschke (2004) chama de aval da violência como educação e respeito, a fim de controlar e instruir os filhos.
Por ser a filha mais velha, Bruna tinha como tarefa cuidar dos irmãos e auxiliar nas tarefas domésticas:
“Tinha tarefas sim. Inclusive, como eu era a mais velha, eu que cuidei dos meus outros sete irmãos [...] tinha que dar banho, fazer mamadeira, colocar pra dormir, essas coisas” (Bruna).
Esse modelo, em que a filha mais velha é responsável em auxiliar sua mãe nos afazeres domésticos e na criação dos irmãos mais novos, é caracterizado pela divisão dos papéis apropriados pelo sexo (WALSH, 2005). Bruna relata que à medida que seus irmãos (meninos) cresciam, eles ajudavam seu pai na agricultura, enquanto suas irmãs auxiliavam a mãe e ela nos afazeres domésticos.
Parece-nos que, em relação à educação dos filhos, a mãe de Bruna igualava-se ao marido no uso da violência, perpetuando um ciclo perverso e complicado: “[...] ééé. Minha mãe, assim, ela brigava com meu pai. O que o meu pai fazia com ela, ela tipo descontava na gente” (Bruna).
Portanto, a mãe de Bruna, sem nenhum recurso para lidar com a situação conjugal, agredia os filhos, descontando neles a raiva que sentia do marido, e perpetuando a violência nas relações familiares (BUCHER-MALUSCHKE, 2003a; RIBEIRO; BAREICHA, 2008; FALCKE; ROSA; MADALENA, 2012).
Sobre a forma de educação utilizada pelos pais de Bruna, as autoras Ribeiro e Borges (2004) ressaltam que, no final do século XIX e início do século XX, a educação por intermédio da punição era avalizado socialmente. Assim, nesta época, a violência era acatada pela cultura e se fortalecia socialmente como uma prática de coerção e disciplina. Bucher-Maluschke (2004) complementa, afirmando que, apesar de ser um conceito de uma época distante, a utilização da violência como punição ainda se encontra normatizada pela cultura e presente nos dias atuais.
No caso de Jorge, por seu pai ser viajante e ausentar-se por longos períodos de sua residência, a educação dos filhos era de responsabilidade de sua mãe que, também, cuidava do lar. À medida que os filhos cresciam, os mais velhos passaram a cuidar dos mais novos, principalmente, porque a mãe era portadora de uma doença sem diagnóstico, o que a obrigava a ficar acamada por meses, pois sentia muitas dores e, por várias vezes, com crises intensas, ficava internada no hospital: “Os médicos até desenganaram dela. [...] a pele dela soltava, ficava babando”
(Jorge).
A situação familiar descrita por Jorge pode ter levado ao desenvolvimento de um sentimento de abandono, ou até mesmo de revolta ou insegurança. Seu modelo familiar não gerava segurança, uma vez que a maneira como seu pai se posicionava, proporcionava instabilidade emocional para a família, pois, além de ausentar-se por questões de trabalho, gastava tudo o que ganhava para satisfazer seus desejos pessoais:
“Torrava (o dinheiro). Ele não pensava no amanhã, achava que não ia envelhecer. Ganhava hoje, gastava hoje. Meu pai, se ele tivesse usado a cabeça, ele era muito rico, mas não usou a cabeça. Ficou pobre. [...] era muito mulherengo [...] eu me lembro, ele capotou dois caminhão por conta de cansaço e cachaça” (Jorge).
Quanto ao cuidado com os filhos, os modelos de família de origem de Bruna e Jorge apresentam semelhanças em alguns pontos, principalmente no que se refere à definição dos papéis estereotipados e regras rígidas atribuídas ao homem e à mulher. Contudo, Jorge teve um pai omisso enquanto Bruna teve um pai presente, apesar de ser dominador e violento. Os relatos de Jorge mostram a negligência de seus pais na relação com os filhos. A negligência que é também uma forma de
violência que difere da violência física, constatada na história familiar de Bruna, mas também, é prejudicial ao desenvolvimento psicossocial dos filhos. No caso de Jorge era uma violência velada em forma de omissão das necessidades emocionais e psicológicas (DELFINO; et al., 2005).
Em resumo, as vivências de Bruna na sua família de origem, sempre foram permeadas pela violência, considerada uma forma de contenção para corrigir um comportamento considerado errado ou, simplesmente, como maneira de educar ou resolver desavenças e conflitos (BUCHER-MALUSCHKE, 2004; RIBEIRO; BORGES; 2004). Ramos e Oliveira (2008) afirmam que quando os pais utilizam o abuso de poder para disciplinar, corrigir e educar seus filhos, eles perpetuam o modelo patriarcal em que os filhos são propriedades dos pais e usam a violência, na relação com o filho, por acreditarem que essas ações resultarão na formação de indivíduos melhores futuramente.
Jorge, por sua vez, foi criado em uma família na qual os filhos precisavam se auto-organizar para sobreviver, porque tinham um pai imaturo e sem condições de estabelecer uma relação de companheirismo e de apoio em relação à sua esposa. O pai de Jorge fazia o uso abusivo de álcool e tinha relacionamentos extraconjugais que geravam constantes brigas que culminavam em agressões físicas por parte de sua mãe para com seu pai. Esta, por sua vez, ao adoecer frequentemente, não conseguia se responsabilizar inteiramente pela ordem da casa e pelo cuidado dos filhos.
5.2 A HERANÇA FAMILIAR E A RELAÇÃO CONJUGAL: BUSCAS AMOROSAS E