4 S IVILE SAKER I KONFLIKTRÅD
4.3 Hva er egnete saker for konfliktråd?
Bruna e Jorge se encontraram já com experiências de relacionamentos anteriores permeados pela violência, como descrito anteriormente. Sobre o tema separação e recasamento, Féres-Carneiro e Diniz (2010) descrevem que, casais que se divorciam, o fazem devido seus membros acreditarem tanto na importância da união conjugal que não aceitam que ela não corresponda às exigências pré- estabelecidas. Por isto, voltam a se casar. Nesse sentido, o relato de Bruna é interessante. Ela afirma que, após o término de seu primeiro casamento, havia decidido não se relacionar com mais ninguém. Esta decisão foi imposta por seu pai, uma vez que ela escolheu sua família em vez do marido que a agredia.
“Porque ele (pai) não concordava. Se eu separei era pra eu ficar só trabalhando e cuidando dos meus filhos. Não era pra eu me envolver mais com homem, devido ao sofrimento que ele me viu passar com o primeiro” (Bruna).
Dessa forma, Bruna acatou o posicionamento de seu pai e internalizou para si que a opção mais sensata seria a de não se envolver em uma nova união:
“Eu estava saindo do meu primeiro casamento conturbado, então, no momento, eu não queria me envolver, me relacionar com ninguém e já estava muito decepcionada do meu primeiro casamento. Porque eu me casei com 16 anos e vivi 9 anos com meu marido, me separei dele, tive dois filhos do meu primeiro casamento. Então, eu não queria assim, não estava preparada para entrar em outro relacionamento” (Bruna).
Podemos questionar o que a decepcionou tanto. Nossa hipótese é que houve uma conscientização da impossibilidade de ter um outro que a ‘salvasse’ das opressões e violências sofridas, pois no decorrer de sua história de vida ela percebeu que, no seu desespero de se livrar da violência, deparou-se com violências piores. Ou seja, sua tentativa de fugir da opressão que sofria na convivência com seu pai a levou a uma situação de extrema violência e de opressões. Bruna assevera:
“[...] na verdade, acho que a minha vida sempre foi assim meio errada porque eu sempre tentava sair de um erro achando que ia resolver e entrava em um outro. Como eu era a mais velha (dos irmãos) eu nunca podia sair, nunca podia namorar. Era presa. Meus pais nunca me liberaram pra nada. Então, foi a época que eu vim embora pra Brasília com a esperança de poder estudar, crescer na vida, o que nunca aconteceu” (Bruna).
Jorge, por sua vez, após a separação de sua primeira esposa, relata ter abusado das suas finanças em passeios noturnos e diversos relacionamentos superficiais:
“Eu casei a primeira vez com 19 anos, 19 ou 20 anos. Então quando eu me separei eu falei: agora eu vou aproveitar tudo o que eu não aproveitei quando era novo. Então, em cada esquina eu tinha uma namorada” (Jorge).
Após três anos de separação, Jorge conheceu Bruna em seu local de trabalho. Ela havia sido admitida recentemente e ele se interessou pela forma reservada como ela se comportava. Sobre seu interesse por Bruna, Jorge declara:
“Foi o jeito dela. Eu chegava na empresa e a meninas ficavam tudo doida e eu não dava moral pra ninguém. Aí eu cheguei lá um dia e tem gente nova. Aí me interessei, né? É, ela não dava em cima de mim. Aí ela falou assim: ‘eu não caio em qualquer cantada’. Aí eu falei: ‘mas a minha não é qualquer cantada, a minha é a cantada’. Aí por aí foi” (Jorge).
Bruna, por sua vez, mesmo não acreditando em uma nova união e nem necessitando mais de um salvador, já que as opressões não existiam tanto em sua vida como antes, resistiu por um tempo, mas acabou cedendo às insistentes cantadas de Jorge. Ela relata:
“Então, eu não queria. Eu não estava preparada para entrar em outro relacionamento e ele foi, foi, foi [...]. Acho que devido eu estar assim magoada, sofrida, decepcionada. Eu falava que não e ele ficou insistindo, insistindo até que um dia a gente saiu junto” (Bruna).
Segundo Ângelo (1995), na escolha conjugal, o fato dos cônjuges se sentirem atraídos um pelo outro é determinado pelas percepções sobre os aspectos que cada um elege como sendo bons ou ruins. Estes conteúdos são compostos de aspectos da história de vida de cada um, valores e mitos, e de como a família de origem apresentou, aos seus membros, modalidades de enfrentar os processos de união. Sendo assim, existe uma complementaridade, um ‘encaixe’ das personalidades dos cônjuges que está intimamente ligado aos conteúdos inconscientes que cada um constrói sobre as características do outro, de modo a satisfazer suas expectativas implícitas nos elementos do mito (CALIL, 1987; ÂNGELO, 1995).
Neste sentido, podemos conjecturar que o fato como Jorge percebeu Bruna, com seu jeito reservado, além do fato desta não ter demonstrado interesse por ele, diferentemente do que, segundo seu relato, normalmente ocorria, fez com que ele se interessasse por ela. Este fator nos faz pensar que Jorge sentiu-se instigado a conquistar Bruna e insistiu até ela ceder. Bruna, por ter ficado muito frustrada com seu casamento anterior, não pensava em se relacionar novamente. Mas por Jorge ter insistido diversas vezes, ela acabou cedendo, dando início ao relacionamento do casal. Provavelmente, Bruna cedeu às cantadas de Jorge por criar uma expectativa de que com ele poderia ser diferente. Talvez, pela forma como ele demonstrava seu interesse para com ela, fez com que Bruna projetasse seu desejo de que, com Jorge, o relacionamento não seria igual ao que ela teve em seu primeiro casamento.
Para Willi (1995) ao dar início a um relacionamento amoroso, os cônjuges iniciam a construção de um mundo em comum onde a negociação de certas questões é fator importante para a relação conjugal. Segundo Costa, Penso e Féres- Carneiro (1992), o fator negociação, além de possibilitar a interação funcional entre os casais e sua comunicação, é fundamental para a qualidade do relacionamento conjugal. Parece-nos que no caso do casal desta pesquisa, Bruna, ao iniciar um relacionamento com Jorge, tentou se colocar, em uma posição completamente diferente da adotada em seu relacionamento anterior, tentando negociar e definir regras. Isso pode ser identificado na seguinte fala de Bruna:
“Sempre falei pra ele que, ‘se um dia eu namorar com você ou ficar com você, não vai ser assim, ficar hoje, termina amanhã’. Meu caso é: ‘se quer ficar
comigo tem que ser relacionamento sério, senão é melhor a gente parar por aqui’. Aí ele: ‘Eu quero um relacionamento sério com você’ ” (Bruna).
Diniz (2011) salienta que a construção da conjugalidade envolve negociações a fim de estabelecer um contrato que vai servir de base para que o relacionamento conjugal funcione. Dentro deste contrato, existem alguns fatores importantes como a comunicação, a sexualidade, a organização da vida a dois, além da necessidade de objetivos e expectativas de cada um. Esses elementos que constituirão a construção do contrato conjugal têm influência nos papéis que socialmente foram apreendidos por cada membro do casal sobre ser homem e ser mulher. Ao se posicionar, Bruna apresentou para Jorge suas condições para que ela aceitasse seu pedido de namoro. Jorge, por sua vez, acata às imposições de Bruna:
“Olha eu, eu gostava dela, amava ela, vou pagar o preço, né? Quando cheguei lá conversei (com os pais de Bruna), falei: ‘olha vocês me conhecem, sou assim, sou assado. Hoje eu estou pobre, mas já fui um cara bem de vida. E se ela me ajudar, a gente sobe mais rápido ainda’. E foi o que aconteceu, graças a Deus. A gente trabalhando lado a lado, ombro a ombro que estou aqui hoje” (Jorge).
Os cônjuges descrevem que sempre tiveram, desde o namoro, o projeto de ter uma casa, um carro e uma família diferente daquela vivenciada, por cada um, em seu relacionamento anterior. Este parecia ser o objetivo em comum para construir o mito familiar deste casal, e como Jorge, inicialmente se apresentou para Bruna como alguém paciente e atencioso e, em contrapartida, Bruna mostrou-se comportada e independente financeiramente, o relacionamento amoroso foi se consolidando:
“Aí quando o dinheiro tava quase acabando, acabando mesmo aí eu: ‘não, agora eu tenho que trabalhar’. Foi aí que eu conheci ela. Aí eu falei: ‘essa vida de gandaia não dá senão vou ficar velho e não ter nada porque tudo que eu tinha ficou com a minha mulher e esse negócio de ficar na gandaia não da certo’ ” (Jorge).
Segundo Osório e Vale (2009), ao se recasarem, cada parceiro traz consigo experiências de vida, expectativas não cumpridas e projetos individuais à espera de serem retomados e desenvolvidos, na perspectiva de haver, nesta nova relação, um
contrato conjugal, com divisão de tarefas compartilhadas, possibilidades de negociações e definição de papéis e regras.
Interessante observar que Bruna, ao iniciar o relacionamento com Jorge tentou estabelecer regras e negociar um modelo de relacionamento diferente, mas o comportamento atencioso e paciente de Jorge durou por pouco tempo. Após Bruna ter concordado com o namoro, Jorge, que inicialmente havia aceito as regras colocadas por Bruna, começou a agir de forma diferente, retomando o padrão de comportamento que tinha em seu primeiro relacionamento. Deste modo, este segundo relacionamento já iniciou com desavenças, como descreve Bruna:
“O namoro... Aí foi meio conturbado. Assim, porque ele fala assim, mas era muito mulherengo, ele bebia e eu, assim eu não gostava. E eu não concordava. Eu falava que ele tinha que decidir: ou viver a vida que ele tinha ou ficar comigo. Eu nunca fui de farra, nunca gostei de farra” (Bruna).
Jorge, ao ser questionado sobre as brigas desde o namoro, conta que Bruna sempre desconfiou da sua fidelidade e que muitas desavenças foram devido as suas crises de ciúmes:
“Aí eu falei pra ela: ‘a partir do momento que escolhi morar com ela, viver com ela, meu passado morreu’. Eu já tive, igual aquela música do Martinho da Vila, já tive mulheres de todos os jeitos, de todas as formas. Então, eu já esqueci o passado. Hoje eu quero só meu presente. Então eu canso de dizer pra ela: ‘minha vida é só ela’. Minha vida se resume a ela, aos filhos dela, que são meus filhos também, não é? (Jorge).
Pittman (1994), ao descrever sobre o ciúme, esclarece que os sujeitos ciumentos o percebem como sendo uma ameaça de perda, causando o medo do abandono e o aumento da sensação de desconfiança e de insegurança. Sobre este aspecto, podemos conjecturar que o ciúme demonstrado por Bruna pode estar ligado a dois principais fatores. O primeiro diz respeito à sua história de vida, que sempre foi permeada por frustrações nos seus relacionamentos com o masculino (o pai e o primeiro marido) o que proporcionou a ela experiências de insegurança, contribuindo para o desenvolvimento de uma baixa autoestima. O segundo
corresponde a certas atitudes que Jorge apresentava, tais como chegar tarde da noite em casa e não atender os seus telefonemas, que para Bruna, tais comportamentos soavam como possíveis traições. Para Pittiman (1994), o excesso de ciúme está correlacionado à ocultação de algo a respeito de si, gerando no outro, desconfiança e insegurança e proporcionando comportamentos de controle.
Jorge menciona que ao se casar, esperava que Bruna diminuísse seus ciúmes, fosse uma esposa mais acolhedora e que ela entendesse e aceitasse seu comportamento extrovertido e comunicativo para com as pessoas. Podemos perceber que Jorge, nesta nova relação, se posicionou de acordo com o modelo masculino de sua família de origem, no sentido de ser permitido, justificado e incentivado socialmente ao homem ter comportamentos diferenciados, pelo simples fato de ter nascido homem (SAFFIOTI, 1997; DINIZ, 2011). Dessa forma, os comportamentos de Jorge descritos por Bruna de infidelidade, agressividade, frequente ingestão de álcool, poderio e imposição de seus desejos, parecem ser percebidos por ele como normais e incompreendidos por sua companheira. No entanto, as tentativas de Jorge, de se posicionar como seu pai, encontraram em Bruna várias resistências. Diferentemente da mãe de Jorge, Bruna não adoeceu. Ao contrário, confrontou as atitudes de seu companheiro, o que ocasionou diversos conflitos entre o casal.
Os cônjuges relataram haver discórdias entre eles desde o início da relação. Ao serem questionados como eram negociadas as decisões, nesta primeira fase da relação até a data da entrevista, Jorge explica que as decisões eram e ainda são tomadas em conjunto:
“Avisava. Sempre avisei. Aí eu cheguei em casa, nisso eu tava querendo ir pra os Estados Unidos, aí ela: ‘não, se você for não vai dar certo e tal e tal e tal’. Aí eu: ‘então tá bom, eu não vou. Estamos junto, mas se contenta com a vida que você tá tendo’. Aí cheguei em casa, aí falei: ‘ó Bruna, o rapaz me chamou pra eu ir para o Paraguai’. Aí ela: ah, você não vai. Que eu não vou ficar aqui sozinha. Que isso e aquilo outro. Eu falei: ‘eu vou’ ” (Jorge).
Bruna contesta o marido dizendo que Jorge sempre decidiu tudo sozinho e, até hoje, decide por si e, no final, apenas comunica o resultado a ela. Sobre essa postura do marido, ela lembra: “Não, tipo assim, eu vou fazer isso e pronto e
acabou. Não importava se eu tava de acordo ou não” (Bruna). Segundo seu relato, Bruna expõe como se comportava e ainda se comporta quando quer propor algo para o casal ou para a família:
“Eu comunicava e perguntava. Ele nunca me dava uma força ou uma opinião positiva, sempre negativa. Toda decisão que eu ia tomar, o que eu queria: ‘não vai dar certo, você não é capaz de fazer isso’. Pra ele, eu nunca era capaz, nunca sou capaz de fazer alguma coisa” (Bruna).
Portanto, percebe-se que a negociação não é vista da mesma forma para os cônjuges. Jorge acredita que está negociando ao tomar as decisões de acordo com o que acha ser o melhor para si e para todos da família, e posteriormente, comunicar à Bruna. Porém, quando ela propõe algo, Jorge não aceita e Bruna, por sua vez, ao se posicionar de forma desfavorável às decisões de Jorge, os conflitos surgiam. Antes, nestas situações, o casal não conseguia negociar, proporcionando a emersão da violência física.
De acordo com Giddens (1993), dentro da dinâmica conjugal, os membros negociam seus papéis e esta negociação só é possível se houver um grau de flexibilidade dos pares em relação aos papéis sexuais e sociais de ambos. De acordo com o autor o oposto do diálogo, nesta perspectiva, é a violência.
Portanto, quando Jorge percebia que Bruna não acatava suas decisões, a desqualificava. Bruna, por sua vez, confrontava o companheiro. A desqualificação, de Jorge para com Bruna, era utilizada em situações em que havia oposições às suas ideias ou quando ela decidia realizar algo que fosse benéfico para si, como estudar, ir à academia ou abrir seu próprio negócio:
Eu queria estudar, aí ele falou ‘que depois de velho não aprendia mais nada’. Nunca me deu força pra eu estudar (Bruna).
“[...] ele chegou a me proibir, mas depois eu tomei a decisão e fui. Nem queria que eu trabalhasse fora e nem queria me dá as coisas. Aí ficou difícil. Aí tomei a decisão de montar a loja. Quando ele viu que eu tava atrás, ele falou: ‘eu vou fornecer a mercadoria pra você’ ” (Bruna).
O posicionamento de Jorge, frente às atitudes de Bruna, nos parece ser uma tentativa que ele encontrou, no intuito de controlar os comportamentos de sua esposa. Bruna, no entanto, não se permitia ceder à tentativa do controle de Jorge, e ele ao se deparar com o posicionamento resistente de Bruna se comportava de duas maneiras: ou a enfrentava, o que favorecia o aparecimento da violência, ou mudava de atitude e passava a apoiá-la em suas decisões.
Considerar as desigualdades existentes quanto às questões de gênero e o quanto estas influenciam e demarcam a forma como as relações conjugais são construídas, é fator importante na violência conjugal. Jorge tentava fazer valer seu poder de ‘homem’ e Bruna não aceitava. Segundo Wood (2004), o uso da violência pode ser utilizado pelos homens como forma de suprimir as manifestações de alguns comportamentos das mulheres que ameaçam sua masculinidade.
Socialmente a masculinidade é associada ao poder e à violência. Esse contexto da lógica patriarcal ordena às mulheres que se mantenham submissas, dependentes e inferiores, diminuindo suas próprias qualidades e exaltando às do companheiro, cumprindo assim a expectativa do social (SAFFIOTI, 2001; MEDRADO; LYRA, 2003). No entanto, Bruna não se submetia a este modelo e se posicionava ‘impondo’ seus desejos de trabalhar e estudar, mesmo que contrariasse Jorge. Este, por sua vez, percebendo as atitudes de Bruna, a enfrentava e a desqualificava. Na incapacidade de ambos entrarem em negociação, emergiam os conflitos e, consequentemente, os atos de violência.
Os conflitos entre o casal que, inicialmente, culminavam em discussões, foram se intensificando gradualmente, gerando as agressões mútuas (GRANJEIRO, 2012), como recorda Bruna: “Eu começava a cobrar, a falar... e ele é assim, se você começar a cobrar e a falar ele já se irrita, ele já vai em cima. E isso me irrita muito” (Bruna). Jorge tenta amenizar a fala da esposa explicando que: “[...] eu só botava o dedo na cara dela, sabe? E ela pegava meu dedo e queria quebrar” (Jorge). Mas ela
se mantém discordante e finaliza dizendo que: “[...] ele é assim. Ele sempre cria uma
situação que te tira do sério” (Bruna).
Ao se posicionar, Bruna transformou seu comportamento, abandonou o modelo de submissão – que assumiu em seu primeiro casamento, repetindo, tal como sua mãe, a condição de submissa, dependente e não sujeito -, e adotando a conduta de uma pessoa que impõe, a todo custo, seus desejos e vontades. Ou seja, no decorrer da relação com Jorge, Bruna vai se posicionando perante seu marido
como sujeito, diferentemente de como se comportou em seu relacionamento anterior, mas também, vai incorporando a violência como sendo a única maneira de se posicionar frente ao outro, passando a agredir Jorge.
O que antes era passivo passa a ser ativo. Bruna utilizou da violência como instrumento importante para ser vista e respeitada por um homem, enquanto indivíduo desejante, que sente e pensa. Internalizou que somente por intermédio de conflitos, utilizando a violência como forma de imposição de limites é que se obtêm respeito. O modo como Bruna apropriou-se da violência pode estar vinculada à transmissão geracional do comportamento violento, ao qual teve contato em sua infância, enquanto observante do modelo conjugal original e enquanto filha (BUCHER-MALUSCHKE, 2003a) Segundo Bowen (1978), modelos vinculares originários podem fornecer modelos implícitos para o funcionamento da dinâmica familiar futura. Neste sentido, podemos nos remeter a perpetuação de padrões violentos vivenciados na família de origem de Bruna, já discutidas na primeira Zona de Sentido.
Dessa forma, podemos conjecturar que Bruna ao utilizar da violência e agredir Jorge, tinha como intuito ser respeitada como um ser, um sujeito. Jorge, por sua vez, não aceitava os comportamentos agressivos de Bruna e, consequentemente, revidava ocasionando a reciprocidade da violência. Segundo Bruna, as agressões eram iniciadas por Jorge:
“[...] sempre começava dele. É isso que eu estou falando, dele pondo o dedo na minha cara assim. E eu pegava o dedo dele e puxava o dedo pra traz e mandava ele tirar, e ele não tirava. Aí quando eu fazia isso, ele já me dava um tapa. Sempre começava assim” (Bruna).
A respeito do relato de Bruna, Jorge discorda e afirma que as agressões eram realizadas e iniciadas conjuntamente: “[...] era os dois” (Jorge). O comportamento descrito pelo casal corresponde às colocações de Granjeiro (2012) sobre a agressão mútua.
A respeito deste tema, Granjeiro (2012), discorre a necessidade de se compreender a dinâmica do relacionamento conjugal de cada casal para que se entenda melhor a agressão conjugal mútua. Para a autora, é fundamental considerar, além da dinâmica conjugal, outros fatores como o meio social, cultural,
espaço ambiental e os estereótipos dos papéis masculino e feminino ainda presentes em nossa sociedade.
Concordamos com a autora quando esta descreve que o estabelecimento de conflitos de casais, que tem em sua relação a agressão mútua, é uma forma do homem manter a relação de maneira tradicionalista (mulher dependente e submissa) ou uma tentativa da mulher, de distribuição igualitária de poder. Este pensamento está de acordo com o observado na relação do casal estudado, pois Bruna quando se posicionava, esbarrava na resistência de Jorge e como eles não conseguiam negociar suas questões, os conflitos surgiam e transformavam-se em agressões físicas, como ela mesma assegura:
“[...] só que no final quem saia mais machucada era eu... porque, porque... tipo... era assim, eu sou uma pessoa que eu prefiro me machucar do que machucar o outro. mas quando eu vier a machucar o outro é porque não dá mais pra segurar”