4 S IVILE SAKER I KONFLIKTRÅD
4.2 Skille mellom sivile saker og straffesaker
Whitaker (1995) pontua que algumas mudanças que ocorrem no casamento podem influenciar diretamente o funcionamento individual de seus membros. Segundo o autor, o casamento pode provocar, como se fosse “[...] uma espécie de experiência existencial obrigatória” (WHITAKER, 1995, p. 25). No caso de Bruna, esta experiência obrigatória mencionada pode ser relacionada com uma tentativa de fugir da violência que ela sofria dentro de casa:
“Esse meu primeiro casamento, assim, cada dia mais eu me decepcionava com o meu pai e eu conheci esse rapaz, e namorei 3 meses com ele e ele pediu pra casar comigo” (Bruna).
Ao se unirem, os parceiros se comprometem em construir uma história em comum, na qual o comportamento de um irá afetar o do outro e vice-versa, e cada um projetará no futuro companheiro, sentimentos, crenças e expectativas que se encontram relacionadas ao modelo originário (ÂNGELO, 1995; PENSO, 2003; FÉRES-CARNEIRO, 2009). Em seu primeiro casamento, Bruna desempenha o modelo de esposa que se submete às vontades do marido, semelhante ao que fora vivenciando por seus pais. Tem comportamentos semelhantes aos de sua mãe no sentido de se anular enquanto indivíduo e submeter-se ao seu primeiro marido, permitindo seus atos violentos para com ela.
“No começo, até uns quatro anos, foi tranquilo. Depois ele começou com ciúmes doentio, entregou-se a bebida. Eu não podia sair de casa, não podia ter amigos e amigas porque se eu tivesse amizade com mulher eu era sapatão, e se eu tivesse amizade com homem, eu tava traindo ele. Então se eu ficasse doente, eu não podia ir no médico, só se não tivesse jeito. Eu tinha que falar pra ele o que eu tava sentindo, ele ia no médico, falava com o médico, passava o remédio e ele trazia” (Bruna).
O lugar que Bruna ocupava neste relacionamento era de total dependência do seu ex-marido, que mantinha seu poder de dono da mulher, cometendo violência verbal, caluniando a esposa, ignorando o fato de Bruna ser um sujeito que tinha vontades próprias e necessidades físicas e psicológicas (SAFFIOTI, 1997; MILLER, 1999; CHAUÍ, 2000). Portanto, este relacionamento teve como base a utilização de
diversas violências (físicas e psicológicas) por parte do seu ex-marido, a fim de este manter o poder, o controle e a submissão da esposa perante os seus desejos de marido (WALTERS, 1994; SAFFIOTI, 1999; BANDEIRA, 2012).
Segundo Chauí (1985) a violência é uma intenção de quem detém a supremacia de anular o outro em sua condição de sujeito, colocando-o no patamar de submissão aos seus desejos. No caso de Bruna, a violência se manifestou também, no isolamento do contato social que ela sofria devido ao ciúme exacerbado de seu marido. Segundo Narvaz e Koller (2006a), esse isolamento é a forma do masculino exercer o poder sobre o feminino, pois fragilizar a rede social da mulher é uma maneira de deixá-la vulnerável, o que favorece seu controle.
Pode-se inferir que o comportamento de Bruna ao se submeter às violências sofridas por parte de seu primeiro marido poderia, também, ser proveniente de outros fatores como o de encontrar-se atrelada economicamente a ele ou de se preocupar com a preservação e cuidado para com sua família (RAMOS; SANTOS; DOURADO, 2010; FIGUEIREDO; PENSO; ALMEIDA, 2012). Mas o fator que nos chama mais atenção é o lugar que ela, como sua mãe, ocupava na relação. Lugar este de total anulação de si como sujeito, sendo passiva e inerte, submetendo-se às vontades e desejos do ser superior: seu marido! Este, por sua vez, utilizava da dominação e da opressão, colocando-se hierarquicamente acima de sua esposa, coisificando-a (CHAUÍ, 1985; ANDRADE; FONSECA; 2008). Bruna poderia ter reagido de qualquer outra forma, como fugir deste marido ou denunciá-lo, mas permitiu-se permanecer neste lugar de completa anulação de si, esvaziada de sentimentos e desejo.
Diniz, Pondaag (2004) e Saffioti (2004) discutem que o silêncio por parte da mulher e a sua subordinação à violência recebida de seu companheiro constitui uma estratégica de organização e manutenção da opressão e dominação do patriarcalismo. Assim, segundo as autoras, a violência passa a ser silenciada por ser um exercício do direito do homem sobre a mulher. Este fator da naturalização da violência é visível na atitude de Bruna, em sua narrativa, quando ela afirma que não podia ter amigos e/ou sair de casa. Portanto, Bruna, neste primeiro relacionamento, tem um comportamento semelhante ao de sua mãe que, enquanto esposa, se posicionou de forma a acostumar-se ser coisificada e anulada em seus desejos. Além disso, o relato de Bruna mostra que somente quando a violência é excedida ou
quando se relaciona a maus tratos extremos no corpo é que os familiares e/ou o estado intervém (SAFFIOTI, 2001).
“Aí a história começou a ficar sufocante, daí começou as agressões (física). Daí pra frente só piorou. Ele tentou me matar uma vez e dessa, quando ele tentou me matar, foi aonde a gente veio embora pra cá. A minha avó, mãe da minha mãe, ligou pros meus pais aqui explicando a situação como que estava, né?” (Bruna)
Este controle somente é quebrado quando surge um poder maior que é o pai de Bruna, que também é um poder masculino, ao qual, Bruna continua sendo subjugada. Ou seja, ela por si só não consegue se desvencilhar desse marido, necessitando do posicionamento de seu pai para resolver sua questão conjugal.
Compreendemos que, por mais que seu pai estivesse agindo com a finalidade de proteger sua filha, sua atitude, pensada em um contexto social macro, continua sendo aquela do modelo patriarcal em que um poder, no caso, o poder masculino, precisa se materializar para resolver as questões matrimoniais. “[...] e aí meu pai expulsou ele de casa, mandou ele embora. Aí ele não queria ir” (Bruna).
Bruna, contaminada por este modelo baseado no poderio masculino de divisões e controle, se submete à tomada de decisão de seu pai, o poder maior:
“Aí meu pai foi e falou pra mim que se eu voltasse, eu podia esquecer que eu tinha família e meus irmãos também. Aí não voltei. Aí ele sempre ficou me ligando, me ameaçando e eu tive que sair de lá de onde eu morava, mudar de endereço” (Bruna).
Observa-se que é o pai de Bruna que decidiu expulsar de sua residência seu ex-genro (1º marido de Bruna) determinando o fim do casamento de sua filha. Esta postura exercida por seu pai foi introjetada por Bruna, legitimando a ordem patriarcal de gênero. Esta se encontra relacionada à crença sobre a incapacidade da mulher versus a capacidade do homem em resolver os problemas de forma geral. No caso de Bruna, ao ter permitido e aceitado a interferência de seu pai em seu casamento a fim de resolver o problema da violência e decidindo por sua separação, ela autorizou e legitimou esta ordem patriarcal: “[...] inclusive eu só me separei do primeiro por causa dele (pai de Bruna), porque foi ele quem tomou atitude” (Bruna).
Obviamente que o pai de Bruna tomou esta atitude para livrá-la de um contexto de violência extrema. No entanto, ele a colocou em xeque ao determinar para a filha que ela teria que escolher entre sua família ou este homem que a agride. Paradoxalmente, ele a defendeu e a qualificou enquanto sujeito-filha, ao mesmo tempo, a destituiu de sua autonomia e capacidade de decisão, ou seja, de ser autora de suas decisões.
Em resumo, a legitimidade do pai-patriarca foi introjetada e sempre esteve presente na historia de vida de Bruna, pois as decisões sempre foram deliberadas por intermédio de um outro masculino. Quer seja quando seu primeiro marido a convidou para morar com ele - convite que ela aceitou para sair da casa de seus pais -, quer seja quando seu pai tomou decisões sobre sua escolha de se separar de seu primeiro marido. Parece que Bruna incorpora sua herança de submissão aos homens, não questionando tal situação e atribui ao masculino a capacidade de resolver questões para as quais a mulher, por sua ‘fraqueza emocional’, ‘não tem competência’. Nesse sentido, Bruna internaliza sua dependência aos homens atribuindo e legitimando ao masculino total poder e dominação sobre sua vida.