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The Holocene

Ainda marginal há uns anos, o conceito de RSE aparece largamente difundida, seja na literatura académica ou no mundo das empresas. Faz parte de uma longa tradição de reflexão sobre o papel da empresa, dos seus dirigentes e da natureza das suas organizações perante a sociedade. (Acquier et al., 2011). A Teoria dos “ takeholders” também é tomada como base para o desenvolvimento de políticas de RSE, se bem que o inverso não seja propriamente verdadeiro como se pode ver na parte 2 do presente capítulo, pelo decorrer da explicação do fundador da teoria e seus discípulos.

Para melhor compreender a evolução histórica da RSE como um paradigma, existiram várias fases de elaboração teórica e conceptual da RSE, construídos no campo dos estudos de gestão (Pasquero, 2005). As fases mais importantes que contribuíram para a construção do conceito surgem a partir do fim do século XIX até aos nossos dias. A tomada em consideração do interesse generalizado pela gestão aparece a partir dos anos de 1880 por intermédio das atividades filantrópicas que eram efetuadas pelos abastados homens de negócios e num país com enorme propensão ao rápido crescimento, os EUA. Nos anos de 1920, existe uma proliferação de discursos e declarações de homens de negócios americanos sobre as suas responsabilidades públicas e a necessidade das empresas privadas tomarem-nas em consideração. As suas declarações eram dominadas maioritariamente por dois conceitos: o serviço público e a tutela do dirigente (Heald, 1970).

O economista, Howard R. Bowen, frequentemente identificado como o pai fundador da disciplina de RSE (Carroll, 1979, 1999); (Wood, 1991), no seu livro de 1953, Social Responsibilities of the Businessman (SRB), apresentado como a obra inaugural, antecipa e estrutura as abordagens teóricas na matéria de RSE. Neste livro raro, está inscrita a primeira definição de RSE com a apresentação das primeiras responsabilidades sociais dos homens de negócios: são responsabilidades mais dirigidas a obrigações “de tomar as decisões e seguirem as linhas de ação ue são desejáveis em termos de objetivos e de valores pela nossa sociedade” (Bowen, 1953: 6 em Acquier e Gond, 2007).

Nos anos de 1960, surgem novas iniciativas de definição da RSE com particular interesse a de McGuire (1963). De acordo com Igalens Jeremy (2008), McGuire afirma: “a ideia da responsabilidade social supõe ue a empresa não tem unicamente

obrigações económicas e legais mas também um conjunto de responsabilidades face à sociedade ue vão al m das suas obrigações” (1963: 144).

De facto, são vários os autores que se dedicaram a este exercício, propondo várias tipologias de teorias fundadoras de RSE. O quadro seguinte apresenta um conjunto de definições de referência. São exemplos de autores com as suas interpretações sobre as teorias fundadoras de RSE

Quadro nº1: As definições de Responsabilidade Social da Empresa

Fonte: Akremi et al., 2008: 70

Se o conceito RSE se demonstra difícil de definir, esclarecer, e modelizar, é sem dúvida, graças à sua evolução. RSE foi construída de forma complexa e contínua hoje a alimentar debates académicos. Isto deve-se basicamente a dois contributos: um histórico que permite construir a sua definição ao longo de debates teóricos e de reencaminhamentos sucessivos; e um outro empírico e de gestão, ao acompanhar as atividades das empresas (Ballet e de Bry, 2001). Esta forma de construir deu origem a

outras referências empíricas nomeadamente a impossibilidade de afastar os fundamentos exteriores à academia do pensamento, pelo aparecimento de uma variedade de quadros teóricos que favorecem um nascimento de ambiguidades e fraquezas na sua própria literatura académica. Esta dificuldade de interpretação é agravada porque os modelos clássicos aplicados, também estes, apresentam limites reconhecidos pelos próprios autores, nomeadamente Carroll (1991), de Wartick e Cochran (1985).

Mas façamos uma análise histórica para bem compreender o resultado desta situação. Segundo o autor Frederick, a RSE foi adotando definições diferentes ao longo dos anos. Nos anos de 1970 surgem dois principais conceitos que fazem alargar o domínio da pesquisa no campo de Business & Society: a sensibilidade social da empresa Corporate Social Responsiveness da Escola de Harvard, e o desempenho societal da empresa CSP (Corporate Social Performance). Estes dois conceitos respondem às críticas colocadas à definição da RSE relativas ao seu conteúdo vago em nada operacional (Sethi, 1975). Pela análise de Frederick (1978), esta década foi assim caracterizada pela terceira fase da evolução da pesquisa no campo da Business & Society com a passagem para a Corporate Social Retitude (CSR3) com o interesse em ultrapassar o aspeto vago e subjetivo das definições anteriores.

A corrente RSE, para se tornar mais pragmática, mais consensual e mais orientada para as empresas, avança para a construção de um modelo de CSP, Corporate Social Performance, traduzido em modelo de desempenho social da empresa. No fundo, concentra-se nos três desafios da RSE: a responsabilidade económica, a responsabilidade pública e sensibilidade social. O autor, Archie B. Carroll, inaugura o conceito no ano de 1979 (Carroll, 1979) e defende que a ideia de Friedman, com a sua Teoria de Capitalismo (1962) é inconsistente. Apresenta, então, um modelo capaz de ligar a empresa aos princípios da RSE perante um olhar atento da organização e dos seus esforços reais na satisfação das obrigações da sociedade. Ao agregar estas três ações, económica, pública e social, o modelo fornece um quadro válido para a globalidade das análises de negócio das organizações. A partir daqui, duas grandes linhas foram desenvolvidas durante os anos de 1980, nomeadamente a Ética nos Negócios e a Teoria dos “ takeholders”. Mais tarde no ano de 1985, Wartick e Cochran (1985), avançam com a noção de Carroll e investigam o SIM (Social Issues in Management) como uma dimensão complementar pertencente à RSE e concluem

que o modelo de RSE é valido para estudos de Business & Society e que este fornece um paradigma neste campo. Ao mesmo tempo, são lançadas iniciativas públicas que contribuem para elevar a noção de RSE, sendo-lhe introduzido no ano de 1987 pela Comissão sobre o Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, um caráter fatual para o caminho estratégico desenvolvido pela noção de DS. No ano de 1991, Carroll avança com o seu estudo e apresenta a sua “Teoria da Pirâmide”, como forma de detalhar a C P no âmbito seguinte: “...o foco de desempenho social dá ênfase à preocupação de uma ação corporativa e seu cumprimento junto da esfera social. Com a perspetiva de desempenho, é claro que as empresas devem formular e implementar objetivos sociais e programas bem como integrar uma sensibilidade ética perante as tomadas de decisão, políticas e ação.” (Carroll, 1991: 40). Donna J. Wood no ano de 1991 avança também com um modelo de CSP, denominado Corporate Finantial Performance, que é utilizado como instrumento organizacional para apresentar e avaliar estudos que aplicam medidas específicas de CSP. Anos mais tarde, Wood revisita o modelo de CSP de Carroll e o seu modelo para afirmar a necessidade de se reestruturar a literatura deste domínio, dirigindo-a para a evidência, segundo o autor, “...para os “ takeholders” e a sociedade e incorporar literaturas relevantes de outras correntes.” (Wood, 2010: 50). No fundo, o autor reconhece essas fraquezas do modelo CSP admitindo que somente os resultados de políticas societais efetuadas pelas empresas podem ser considerados como mensuráveis, colocando de lado os princípios morais, bases de toda a política organizacional em matéria de processo de sensibilização societal.

Mesmo que faça objeto de uma literatura abundante, RSE tem dificuldade em tornar- se uma identidade devido à sua diversidade de definições, do estilo global ou, então, pelas interpretações e abordagens diversas e vagas, longe de se tornarem unânimes (Igalens, 2008). Uma vez que se trata de um consenso não unânime, é uma oportunidade para os investigadores e práticos da corrente, poderem manter análises sobre esta temática. Uma forma de voltar ao início da sua base fundadora com Voltaw ue, no ano de 1973 dizia, (citado por Clarkson, 1995) “o termo brilhante em si, significa algo, mas que nunca é a mesma coisa para toda a gente. Para uns transmite a ideia de uma responsabilidade legal e de responsabilidade jurídica; para outros, é sinónimo de comportamento socialmente responsável, no seu maior sentido ético; para outros ainda, a mensagem é causal: responsabilidade de, muitos o consideram no

fundo, simplesmente, como algo caritativo” Hoje, trinta anos mais tarde, pouco ou nada se alterou pois o seu principal defensor, Carroll, o considera como estando ainda “em curso de definição” (Carrol, 1999: 292).

Segundo os autores Gond e Mullenbach-Servayre, (2004), ao resumirem as noções e fontes de inspiração, também estes concordam que a RSE transmite um caráter controverso e complexo nas diferentes abordagens que constituem este domínio de estudo, mas que apesar de todas as críticas, tem o seu espaço no meio empresarial. Junto destes autores que analisam a relação da RSE/DS e a Teoria dos “ takeholders”, Gond e Mullenbach- ervayre, (2004), dizem o seguinte: “a Teoria dos “ takeholders” defende ue a atividade da empresa toca um mundo de pessoas, diretamente ou indiretamente, e nem sempre de forma voluntária. Esta confere, como consequência, à firma, responsabilidades alargadas, mais vastas que as de maximizar o lucro ou das prescritas pelas leis. Nesta ótica, a RSE aparece, portanto, como o corolário de uma BOA gestão, isto é, de uma gestão simultaneamente estratégica e ética, reconhecendo as necessidades de todos os atores interessados na empresa e avaliando as conse uências dos seus atos” (2004: 12).