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Ao tratar da atividade do artista que cria utilizando ferramentas tecnológicas, Arlindo Machado fala da noção de graus de contribuição (Machado, 1993). Isto é, de acordo com a proposta poética por trás de uma determinada obra, bem como as ferramentas e métodos empregados na sua produção, podem ser identificados diferentes graus de contribuição (ou influência) para cada um dos elementos e aspectos que participam, direta ou indiretamente, do processo criativo. Machado também propõe a desconstrução de uma série de críticas à arte realizada em meios tecnológicos, entre elas, a afirmação de que a máquina (ou a tecnologia de uma maneira mais ampla) define a arte produzida por meio dela. O autor denuncia que o mesmo pode ser dito de qualquer processo cultural da humanidade, em qualquer tempo - isto é, se um aplicativo gráfico pré-determina a atividade do designer que atua no meio digital, a argila tem influência semelhante sobre um escultor. O mesmo se aplica à escrita - segundo Roland Barthes, é a língua que “se escreve” através do escritor.112

Umberto Eco explica que a alienação em relação ao meio é inevitável, e mesmo desejável, pois representa entrega e harmonia com o objeto em questão, desde que se preserve uma “desconfiança protetora” (Eco, 2003).113 Assim, o artista não deve negar a alienação, mas sim aceitá-la,

tendo consciência de sua existência, dos significados e implicações a ela associadas. Ao mesmo tempo, deve transformá-la constantemente (através do uso subversivo do meio, por exemplo), em um processo de desalienação que inevitavelmente leva a uma nova alienação, em um ciclo virtualmente interminável.114

112O nível de determinação também depende do repertório do artista, e do seu conhecimento e domínio sobre as

ferramentas empregadas (Tavares, 1995:99). De qualquer maneira, em algum nível ou aspecto do processo criativo sempre atua algum tipo de pré-determinação.

113Para a definição do conceito de “alienação”, consulte o glossário (pág. 190).

114Edmond Couchot compara esta entrega a um “transe”, resultado de um processo comum às práticas artísticas

de uma maneira geral, mas que se vê amplificado no contexto do meio digital (Couchot, 2003). Michel Bret afirma que faz parte da função do artista ter em mente esta questão, e garantir a manifestação da sua proposta criativa, acima das pré-determinações do meio (Bret, 1988).

Além do mais, a influência do meio ou da ferramenta empregada no ato criativo não se trata de um elemento externo. Pelo contrário, consiste em uma parte integral do processo, inclusive afetando as próprias intenções estéticas do artista. Pensamos e criamos de acordo com as ferramentas que usamos e conhecemos, mesmo quando não as temos em mãos. Pierre Lévy chega a questionar o valor de um pensamento que não se deixa transformar pelo objeto agido, e afirma:

[M]uitas vezes deixei a técnica pensar em mim ao invés de debruçar-me sobre ela ou criticá-la. (Lévy, 1993:11)

Reflexão Informada

Ao considerar as diversas contribuições e influências sobre os diferentes elementos e aspectos do processo criativo, é possível realizar investigações e reflexões sobre as práticas, obras e artistas a partir de uma perspectiva informada e objetiva.

Não se trata de uma tentativa de formalizar a criatividade em si, ou de forçar práticas criativas, artistas e obras em categorias rígidas e absolutas. Assim como é possível produzir arte e poesia a partir de elementos objetivos (como tinta, pedra e palavras), a abordagem sistemática sobre o estudo do processo criativo também pode servir como um recurso investigativo, base para valiosas reflexões e análises (5.1.2:154).

Abordagens semelhantes podem ser encontradas em autores como Max Bense, que propõe equações para medir o “estado estético” de determinadas produções artísticas (Bense, 1971), e Vilém Flusser, que sugere a possibilidade de uma quantificação da arte, propondo modelos baseados em equações de termodinâmica.

Nesta era da computação, estamos começando a aprender que a compreensão teórica exata não é necessariamente menos “humana” do que a intuição, e que quantidades mensuráveis de ruídos não são necessariamente menos “belas” do que anjos ter- ríveis. (Flusser, 2002:51-52)115

Perceba como o autor relaciona conceitos aparentemente distantes, e mesmo contrários - de um lado, o conhecimento exato, do outro a intuição humana; de um lado a objetividade do mensurável, do outro a subjetividade da beleza. A perspectiva que adotamos nesta pesquisa é similar - antes de mais nada, e acima das questões lógicas e formais envolvidas, as práticas criativas procedurais que tomamos como objeto deste estudo são empreendimentos humanos.

115Grifo nosso. Texto original: “In this age of computation, we are beginning to learn that exact theoretical

understanding is not necessarily less ’human’ than is intuition, and that measurable amounts of noises are not necessarily less ’beautiful’ than are terrible angels.”

Meio Digital - Dimensão e Complexidade

Esta postura de investigação, marcada por uma tentativa de identificar e categorizar as dife- rentes contribuições e influências envolvidas no ato criativo, é particularmente útil e relevante na análise da expressão artística em meio digital. Principalmente considerando a dimensão e complexidade dos processos e mecanismos internos da máquina digital, que muitas vezes excede a capacidade da mente humana de percepção, armazenagem e processamento consciente de in- formações.116

O projeto e a construção de um computador envolvem uma infinidade de contribuições. Desde as mais diretas, como a do programador dos aplicativos ou do sistema operacional, até as mais distantes e fundamentais, como dos técnicos responsáveis pelo desenvolvimento dos microcir- cuitos e dos cientistas por trás dos conceitos, teorias e equações que lhes serviram de base. Como vimos anteriormente, a ferramenta, vista sob esse ponto de vista, existe como um “gesto humano depositado” (2.2:55).

Esta situação leva a questões interessantes - por exemplo, se uma certa função nativa de uma linguagem de programação for predominante na materialização da poética de uma determinada obra digital, faz sentido atribuir parte da autoria do trabalho a quem criou esta função?

A princípio, quanto maior é a complexidade das ferramentas e técnicas adotados pelo artista, maior é a possibilidade de que o processo criativo seja influenciado ou modificado por elas (Pareyson, 1989). De fato, os artistas em meio digital geralmente desconhecem os mecanismos por trás das ferramentas que empregam. Por exemplo, os codecs, algoritmos de compressão e descompressão de conteúdo, geram artefatos sobre os quais o usuário não tem controle direto, mas que influenciam diretamente a estética do produto final (Adrian Mackenzie In Fuller, 2008). São raros os artistas que tem consciência ou consideram estas influências. Por outro lado, é inegável que nas mídias digitais se ampliam e renovam as possibilidades expressivas à disposição do artista.

116Esta comparação entre a mente humana e a máquina deve ser considerada com cuidado, uma vez que tratam-se