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Lysimaco Ferreira da Costa teria ingressado na Maçonaria em 1907, na Loja Maçônica Luz Invisível, fundada, em Curitiba, em 20 de setembro de 190050. Uma das características marcantes dessa Loja Maçônica foi a de uma acentuada postura anticlerical51.

Sabe-se que, em 1902 funcionavam em Curitiba as seguintes lojas maçônicas: Fraternidade Paranaense, Luz Invisível, Unione e Fratelanza, Acácia Paranaense, Filhas da Acácia, Apóstolo da Caridade e Electra. Nenhuma outra Loja em funcionamento naquele momento, em Curitiba, combateu tão veementemente a Igreja Católica quanto a Loja Luz Invisível.

No Paraná, foi significativo o crescimento do número de lojas em fins do século XIX e início do século XX, conforme se observa no quadro a seguir:

50 A base da estrutura organizacional maçônica é a Loja, que deve ser entendida como o local

onde os maçons se reúnem. O termo “Loja” pode também significar um agrupamento ou assembléia de maçons, de uma determinada região, que praticam o mesmo rito. A Loja possui autonomia, podendo estabelecer seu próprio regulamento, desde que não contrarie os princípios gerais da Ordem Maçônica (Cf Barata, 1999). Encontra-se no Memorial Lysimaco Ferreira da Costa os recibos de pagamento de mensalidades e taxas para a construção de um templo, assinados pela Loja Maçônica “Luz Invisível”, desde 1907.

51 O termo anticlerical adjetiva aquele que é contrário ao clero, e não à religião. Sobre o

QUADRO 9– EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE LOJAS MAÇÔNICAS NO PARANÁ (EM QÜINQÜÊNIOS, 1886 A 1920)

LOJAS MAÇÔNICAS NO PARANÁ

1886 a 1890 1891 a 1895 1896 a 1900 1901 a 1905 1906 a 1910 1911 a 1915 1916 a 1920

9 9 23 27 22 22 22

Fonte: Barata (1999, p. 75)

Para ser admitido na Ordem Maçônica, o candidato deveria possuir alguns requisitos mínimos. No Brasil, de acordo com as várias constituições e regulamentos que vigoraram neste período, os requisitos eram: ter 21 anos de idade, instrução primária, ter reputação de bons costumes e de observar os deveres sociais, ter ocupação livre e decente e meios suficientes de subsistência, estar isento de crime e não possuir nenhum defeito físico (Barata, 1999, p. 42). Além disso, o novo membro precisava ser indicado por um maçom ativo, do grau de Mestre ou superior.

A proposta para admissão de um novo membro deveria ser submetida em assembléia da Loja, onde seria composta uma comissão de sindicância para verificar se o candidato possuía os requisitos mínimos para a admissão. Após a verificação, a comissão deveria apresentar os resultados à assembléia de maçons, que, através de votação secreta, decidiria pela admissão ou não do novo membro (Barata, 1999, pp 42- 43).

Considerando que Lysimaco Ferreira da Costa e Dario Vellozo, Grão- Mestre da Loja Maçônica Luz Invisível, trabalhavam juntos no Ginásio Paranaense, é possível que o próprio Dario Vellozo o tenha indicado.

Dario Persiano de Castro Vellozo nasceu no Rio de Janeiro em 1869. Após ter estudado no Liceu de São Cristóvão, iniciou-se como aprendiz de encadernador. Em 1885, tornou-se compositor-tipógrafo na oficina de Moreira Maximino & Cia. Em agosto daquele ano, transferiu-se com a família (pai e irmãos, pois sua mãe já havia falecido) para Curitiba. Na capital paranaense, começou a trabalhar como tipógrafo no jornal Dezenove de Dezembro, o primeiro a ser impresso no Estado (Denipoti, 2001, pp. 75-76).

A aceitação de Dario Vellozo na cidade não se deu de pronto. Alguns daqueles que se tornaram seus parceiros, admitiram que, “a princípio, acharam-no petulante, mas foram vencidos ou pelo maior volume de leituras que trazia em sua formação, ou pela rica biblioteca da casa de seu pai” (Denipoti, 2001, p. 76). A

biblioteca da família Vellozo foi considerada uma das maiores e seletas da cidade. Conforme a descrição de Tasso da Silveira52:

Num puxado [do Retiro Saudoso], a bibliotheca do philosopho, que reúne a mais admirável collecção de grandes obras de que se possa orgulhar Coritiba, a arte, a sciencia, a philosophia se alinham nas estantes vastas em volumes que o uso e o tempo envelheceram. Aqui e alli, curiosidades raras. Alguma velha edição da Bíblia, impressa em caracteres antigos. Sobre alta estante, o “sorriso de Voltaire”, em nítida gravura. Sobre outra, uma cabeça de Christo, levemente inclinada para baixo, em attitude de meditação (apud Denipoti, 2001, p. 76).

Interessado em ler e discutir as obras de Casimiro de Abreu, Castro Alves, Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, entre outras, Vellozo reuniu um grupo pequeno que, mais tarde, veio a constituir a associação literária denominada O Cenáculo, responsável por diversas publicações.

Sendo o grupo constituído por professores do Ginásio Paranaense, certamente que as discussões incluíam questões educacionais e pedagógicas. O próprio Dário Vellozo foi autor de livros de Pedagogia, e Lysimaco Ferreira da Costa publicou artigos sobre o ensino de Geometria em uma revista dirigida por Vellozo, conforme será visto.

Em 1895, o grupo liderado por Vellozo resolveu divulgar “seus próprios escritos, bem como os dos simbolistas que os inspiravam”. Fundou-se, então, um periódico batizado com o mesmo nome da associação (Cf. Denipoti, 2001p. 78).

Foi nas páginas de O Cenáculo que o grupo começou uma campanha contra a Igreja Católica, por entender que a imprensa não poderia cruzar os braços ante a questão do ensino ministrado pelo clero católico à infância (Balhana, 1981, p. 44).

O grupo de intelectuais liderado por Vellozo era composto por livre- pensadores, ateus, maçons, positivistas, bem como os espíritas, protestantes e, anos mais tarde, também os neo-pitagóricos, “cuja igreja teria sede mundial em Curitiba”.

Dentre os intelectuais que compunham o grupo, destacaram-se Júlio Pernetta, Emiliano Pernetta, Euclides Bandeira53, Silveira Neto, Sebastião Paraná54,

52 Tasso da Silveira, anos depois, passa a defender o “espiritualismo de linha católica” (Carollo,

1991, p. 154, apud Miguel, 1997).

53 Euclides Bandeira estudou na Escola Militar da Praia vermelha, no Rio de Janeiro, tendo sido

expulso, em 1895, juntamente com outros alunos, após um protesto contra o governo civil de Prudente de Morais.

54 Sebastião Paraná (1874-1938) bacharelou-se em Direito no Rio de Janeiro e foi “capitão

José Niepce da Silva, Ismael Martins, João Pamphilo d'Assumpção, Tasso da Silveira, Andrade Muricy, Leôncio Correia, Azevedo Macedo, Raul Gomes, entre outros55.

A inclusão de Lysimaco Ferreira da Costa nesse circuito certamente lhe abriu algumas oportunidades, dado que a ajuda mútua entre os maçons constituía a própria essência da instituição, consubstanciada no ideal da fraternidade.

Em 1907, um artigo de autoria de Lysimaco Ferreira da Costa, sobre “A Geometria – do seo Ensino Secundário e Normal”, é publicado em A Escola - Revista do Grêmio dos Professores Públicos, dirigida por Dario Vellozo. No mesmo número da revista (6 e 7, de junho e julho), Lysimaco Ferreira da Costa assina um Parecer, juntamente com João Podeleck Boué e Francisco R. Azevedo Macedo, favorável à publicação de um “Compêndio de Pedagogia” elaborado por Dario Vellozo, durante o tempo em que fora Lente de Pedagogia da Escola Normal. O parecer assinado pelos três professores, ao que tudo indica, contribuiu para a publicação da obra, que foi adotada por diversos estabelecimentos de ensino56. Naquele mesmo ano, outro artigo de Lysimaco Ferreira da Costa foi publicado em A Escola, (n. 10, de outubro a dezembro), sob o título “Meteorologia e Agricultura”57.

A Loja Luz Invisível pertencia ao Grande Oriente do Brasil, cuja “Constituição”, promulgada em 1907, estabelecia que a Maçonaria Brasileira,

instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem [..] por objetivo o aperfeiçoamento material, moral e intelectual da Humanidade, por meio da investigação constante da verdade científica, do culto inflexível da moral e da prática desinteressada da solidariedade. Considerando o trabalho, seja manual ou intelectual, como o principal dever de todos os homens, que só por ele se dignificam, a Maçonaria mantém a divisa – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – sustentando como seu princípio cardeal a mais completa liberdade de consciência, pela prática inflexível da tolerância, que se traduz pelo respeito à razão e às convicções individuais de cada um (Constituição do Grande Oriente do Brasil, 1907, p. 5).

Paranaense e na Escola Normal, onde exerceu também o cargo de direção das duas instituições. Foi sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, dirigiu a Biblioteca Pública e foi diretor da Instrução Pública do Estado do Paraná. Professor da Universidade do Paraná, foi membro da Academia Paranaense de Letras e do Centro de Letras do Paraná (Cf.

Dicionário histórico-biográfico do Paraná, p. 335).

55 Todos os nomes citados fizeram parte da Academia de Letras do Paraná, criada em 1923. Os

fundadores dessa instituição integravam um grupo maior de intelectuais ligados ao movimento simbolista no Paraná. Dentre esses, vários foram professores do Ginásio Paranaense.

56 Naquele mesmo ano, a obra de Dario Vellozo foi publicada. Existe uma cópia do livro no Memorial, a saber, Vellozo, Dario (coord). Compendio de Pedagogia. Coritiba, 1907.

57 Os exemplares da Revista “A Escola” foram localizados no acervo do Instituto Neo-

De acordo com Barata (1999) é inegável o papel da maçonaria na “formação de uma expressiva parcela da elite política do período”. O autor mostra também que a Maçonaria se mostrou estreitamente ligada à vida política do país, reunindo expressiva parcela da elite que influiu na estruturação do Brasil. Para tanto, esteve envolvida na defesa da liberdade de consciência, no fim da escravidão, no advento da República. Evidentemente, a participação e a identificação dos maçons nos movimentos citados apresentaram graus diferentes. A partir da crença na “universalidade da natureza humana e no racionalismo”, na “formação moral da humanidade”, na “liberdade de pensamento e a independência da razão”, a Maçonaria assumiu o compromisso das “Luzes” de combater as “trevas”, representadas pela ignorância, pela superstição e pela religião revelada (Barata, 1999, p. 92).

O projeto político da maçonaria fora bem definido por Quintino Bocaiúva, em 1897, por ocasião de sua posse como Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente do Brasil:

[...] se nós nos limitássemos a fazer a caridade, a dar pensões, a ser sociedade de beneficência, cairíamos no ridículo de uma organização tão complicada e tão aparatosa, com cerimonial tão minucioso de palavras, sinais, toques e passos, com sessões noturnas secretas, tão prolongadas, para fins tão insignificantes plenamente preenchido, sem tantas formalidades, por quantas associações, estrangeiras ou nacionais, que se acham, para esse fim, estabelecidas entre nós. É esta a contraprova da asserção, tantas vezes por mim afirmada nesta Assembléia. – A Maçonaria é uma associação altamente política. Mas qual é essa política? Tendes o direito de perguntar-me. Responderei, começando por definir os termos da controvérsia: - Política é a arte de educar o povo e dirigi-lo nas vias do progresso e do engrandecimento, até a consecução dos seus fins no seio da humanidade. É isto que nós Maçons chamamos de ALTA POLÍTICA; tal qual delineada na nossa constituição... (apud Barata, 1999, p. 116).

As Lojas Maçônicas foram lugares privilegiados para a discussão dos problemas nacionais. Para aquele grupo, pertencer à ordem maçônica era justamente, segundo Marchette (1999, p. 40), propugnar pelo liberalismo, especificamente na manifestação da livre consciência, justificando, ao mesmo tempo, a necessidade da maçonaria no mundo moderno. Mas a civilização só poderia se erigir num espaço nacional republicano laico. Sendo a ciência um dos vetores do progresso, deveria tomar o lugar ocupado pelos clérigos, que em nada contribuíam para o desenvolvimento da nação.

Na luta pela estruturação de uma nova identidade nacional, confrontou-se diretamente com a Igreja Católica, fortalecida pelo discurso conservador ultramontano. Seguindo uma tendência internacional, a partir de meados do século XIX, a Igreja Católica iniciou no Brasil um processo de reorganização interna, conhecido como romanização do clero católico. De acordo com Barata (1999, p. 100)

tal processo significou a condenação da Maçonaria, do Protestantismo, do Espiritismo e dos cultos de origem africana por parte da Igreja Católica, numa tentativa de consolidação das concepções ultramontanas no que se refere à sua organização interna e à sua ascendência sobre a sociedade. A romanização significou o fortalecimento da Igreja como instituição e é nesse contexto que o conflito entre a Igreja e a Maçonaria ganha sentido.

Uma das formas de se contrapor ao processo de fortalecimento da Igreja Católica, segundo Barata (1999), deu-se por meio de uma maior investida da Maçonaria nos campos da beneficência e da instrução, particularmente, a instrução voltada aos setores populares. Estava em jogo a capacidade de cada uma das instituições de influenciar a organização social.

Nas escolas laicas dever-se-ia ensinar: ciência, moral e civismo. Essa era a defesa feita pelo movimento anticlerical de Curitiba para restringir a ação da religião católica e seu ensino confessional aos limites da lei republicana.

Quanto à Igreja Católica, esse é o período do auge do processo de “institucionalização” iniciado desde fins do séc. XIX e marcado pela criação de várias dioceses nas principais cidades do país, começando a ganhar força na segunda década do século XX.

Em Curitiba foi crescente o número de colégios católicos, sobretudo a partir de 1895. Quanto às congregações femininas, a primeira a chegar foi a dos Santos Anjos, em 1895. Seguiram-se as Irmãs de São José (francesas-1896); as Missionárias Zeladoras do Sagrado Coração de Jesus (italianas-1900); as Irmãs da Divina Providência (alemãs- 1903); as Filhas de Caridade de São Vicente de Paulo (polonesas-1904); as Irmãs de Nossa Senhora do Sion (francesas-1906); e as Franciscanas da Sagrada Família Polonesa (polonesas-1906), fundando um número aproximado de 23 casas escolares [...] (Cf. Trindade, 1992).

Assim, frente à ameaça da clericalização da sociedade curitibana, republicana e laica, a preocupação dos “homens modernos” foi de colocar a “escrita a serviço da razão”, fazendo surgir o “movimento anticlerical e sua luta contra a

influência da religião nas esferas pública e privada, agitando a sociedade curitibana da época” (Marchette, 1999, p. 32).