TEMA UNDERTEMA
4.4 Å bli styrt av økonomi og effektivitetshensyn
No decorrer da formação de José Oiticica percebem-se intercessões de seu pai em suas escolhas de atividades profissionais, destacando-se a opção pelo curso de Direito e depois a docência em História e Português. A sua inclinação ao estudo dos idiomas, o seu gosto literário pela poesia, pelo teatro, a sua colaboração na imprensa foram também estimulados pelo ambiente familiar. Pode-se aferir em seu manuscrito biográfico, “aprendeu a ler com a sua mãe”, “estudou idiomas com o seu pai” e fundou o Colégio Latino Americano “por conselho e auxílio de seu pai”.
Essas observações não devem ser compreendidas como linearidades de causa e efeito, pois uma escolha supostamente individual traz em si os conteúdos de seu tempo e dos lugares sociais encarnados em seus pertencimentos. Além disso, há incontáveis aspectos que fazem cada indivíduo e, ainda, cada escolha terem caráter único e contraditório, seja em sua essência, seja mesmo em sua aparência. Mais do que questionar, mensurar ou julgar as preferências de José Oiticica, o objetivo aqui perseguido é apresentar o contexto em que se deram as suas escolhas. Parte-se do pressuposto de que a família de José Oiticica foi o seu primeiro lugar social. Por isso a pesquisa pautou-se na importância da contraposição e/ou apresentação de alguns elementos que concorreram para as tomadas de decisões de José Oiticica em sua trajetória e itinerário de formação.
Era recorrente a perspectiva da elite em tornar os seus filhos homens de letras, o que se intensificou significativamente a partir do final do período imperial, quando os ares do liberalismo tentavam oxigenar o projeto de organização do Estado nacional brasileiro. O pertencimento à categoria dos homens letrados, diplomados era um signo de poder e forjava as condições necessárias para a construção de um lugar de destaque na hierarquia social.
24 Ver: José Murilo de Carvalho (1998) e (2004) pesquisas que tratam do cenário do Rio de Janeiro em seus aspectos culturais, econômicos, sociais e políticos.
30 Lançar-se aos estudos bacharelescos, e assim compor essa categoria, era, portanto, uma posição de poder na sociedade da cidade das letras.25
Os itinerários daqueles que passavam pelos estudos das chamadas profissões liberais26 conduziam, em geral, aos cursos cujas carreiras possibilitavam pleitear a ocupação de cargos públicos, de se tornarem políticos, ou então juristas, médicos e professores. Essas trajetórias são confirmadas pelo exame das carreiras profissionais do avô, do pai e dos irmãos de José Oiticica.27
O avô de José Oiticica, o Coronel Manoel Rodrigues Leite da Costa, foi o iniciador da família, adotando o sobrenome Oiticica. Formou-se em Humanidades, em Maceió, e em Medicina, no Rio de Janeiro. Era conhecido da população local por ser médico e senhor de engenho na região. Mais tarde tornou-se comendador da ordem de Cristo. Não era o seu desejo que o seu único filho se dedicasse somente às questões rurais, por isso encaminhou o pai de José Oiticica ao curso de Direito. Esse comportamento era considerado uma espécie de padrão para as famílias das elites agrárias.
O Dr. Francisco de Paula Leite e Oiticica, pai de José Oiticica, titulou-se como Bacharel, em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Recife, no ano de 1872 e dedicou-se ao estudo de línguas. Ele lecionou História no Liceu de Artes e Ofícios de Maceió e Alemão no Liceu Alagoano. A carreira pública foi a vereda optada pelo patriarca. Ele ocupou os cargos de promotor público, no interior alagoano, de juiz municipal, em Minas Gerais, e de chefe de polícia no Governo Republicano de Alagoas. Na política, ele foi deputado provincial, na legislatura de 1874; e senador da República, em 1891, voltando depois a ser chefe de polícia em Alagoas.
O jornalismo também foi uma área de atuação do senador Francisco. Ainda no período em que era aluno do curso de Direito, ele participou da imprensa acadêmica e, tal como consta no memorial de família, ao longo de sua vida profissional nas carreiras jurídica e
25 A modernização e urbanização da cidade do Rio de Janeiro são compreendidas tal como Angel Rama (1985) pensou esse processo nas cidades latino-americanas, ou seja, no contexto da internacionalização do capitalismo e do avanço da divisão social do trabalho. Na obra A cidade das letras (1985), discute a origem, a formação e o desenvolvimento das cidades latino-americanas no quadro da modernidade capitalista, tendo em vista a relação entre a cultura letrada e as culturas populares; analisa o lugar ocupado pelas elites letradas no exercício das linguagens simbólicas da cultura na formação das cidades latino-americanas que ajudam a compreender a crença nas profissões que davam anel como signo de poder; questiona o papel do intelectual, no que diz respeito a sua interpretação e a sua intervenção nas análises e ações políticas do processo de objetivação do capitalismo na América Latina.
26 Termo empregado por Edmundo Campos Coelho (2004, p.24) em seu estudo As profissões imperiais no Rio de Janeiro 1822-1930.
27José Oiticica tinha quatro irmãos: Francisco de Paula Leite Oiticica Filho, Luiz Leite Oiticica, Manoel Rodrigues Leite Oiticica e Álvaro Leite Oiticica, que se tornaram bacharéis em Direito e em Medicina. Sobre as duas irmãs Francisca Leite Oiticica e Celsa Leite Oiticica, não há informações no memorial de família, mas a pesquisa supõe que eram letradas, pois a mãe de José Oiticica teve a incumbência de ensinar os filhos a ler.
31 política, ele foi colaborador do jornalismo da grande imprensa, publicando crônicas, artigos, sonetos e também duas peças de teatro.28
A formação de José Oiticica coincidiu, em alguns aspectos, com a de seu pai. Tal como ele, ao longo de sua formação, empenhou-se no estudo de idiomas, escreveu peças teatrais e atuou no jornalismo. Ainda ambos ministraram aulas de História.
A convivência familiar teve peso fundamental na sua formação. Quando observamos aspectos como a criação musical, a literatura, o estudo de idiomas, a produção jornalística, o teatro e a docência, percebemos as recorrências das trajetórias de pai e de filho. No entanto, mais que as similitudes, foram as diferenças entre os caminhos de formação e de atuação profissional de um e de outro que elucidam a compreensão sobre o seu itinerário de formação. O pai optou a partir da formação em Direito se encaminhar a magistratura, a câmara como deputado do Império, senador da República e chefe de polícia. O filho recusou-se a seguir qualquer ramo do Direito, investiu no magistério, nos estudos de Filologia, na autoria de livros didáticos, opúsculos e ensaios sociológicos. Tornou-se professor, autor, jornalista e militante da propaganda social anarquista.