Na gestão de Caetano Munhoz da Rocha, a educação passou a ser priorizada, no sentido de expandir a rede escolar e melhorar a qualidade do ensino.
Desde o início do século XX, o Estado de São Paulo foi visitado por autoridades de ensino paranaenses para ver de perto o que se considerava experiência modelar (Abreu; 2003; Souza, 2004). Em relatório apresentado em 1903, o Professor Vitor Ferreira do Amaral e Silva, Diretor Geral da Instrução Pública do Paraná, faz referência à visita que realizou ao Estado de São Paulo, a fim de conhecer o funcionamento e a organização do ensino público paulista:
No Estado de S. Paulo, cujos mais importantes estabelecimentos de ensino tive a ventura de visitar ultimamente, em commissão do nosso governo, as condições são muito differentes. A plethora de recursos de annos atraz e a iniciativa de homens eminentes, da tempera do saudoso Dr. Cezario Mota, deram áquelle prospero Estado uma organisação modelo, mesmo luxuosa, que não se arreceia do confronto dos paizes mais civilisados (Rel. Inst. Pública de 1903).
No Paraná, os reformadores encontraram muitas dificuldades para realizar a desejada reorganização escolar. Assim, em 1907, o Governo do Estado designou uma comissão de professores, sob a responsabilidade da professora Carolina Pinto Moreira, para ir a São Paulo, conhecer a organização dos grupos escolares e estudar os métodos didáticos ali desenvolvidos (Oliveira, 1994; Abreu, 2003; Souza, 2004).
O envio de professores foi criticado pela imprensa paranaense (Abreu, 2003, p. 134). Desde 1914, Rubem do Amaral, contrário à idéia do governo de enviar um grupo de professores para estudar a organização do ensino em São Paulo, defendia a vinda de uma missão de professores paulistas para organizar o ensino público no Estado:
A missão de professores paulistas poderia reunir ao mesmo tempo, as duas vantagens do conhecimento perfeito do assumpto e da rapidez com que iniciaria sua obra, tão depressa quanto o quizessem os poderes públicos paranaenses. Há no magistério publico do visinho Estado verdadeiras capacidades profissionaes, que alliam a um sólido preparo principalmente pedagógico, um espírito constructor que muito collaboraria no êxito do inaudível emprehendimento. Não citamos nomes, para evitar omissões injustas, ou a idéia de que estejamos a fazer insinuações neste ou naquelle sentido. [...] é uma assimilação dos melhores methodos norte-americanos, suissos e allemães. Não seria coisa difficil moldar o ensino aqui pelas exigências locaes.
Este Estado não se deixaria distanciar neste ponto pelo de Santa Catharina, que está fundando sobre sólidos alicerces sua instrucção pública.
(Diário da Tarde, 05/01/1914).
Em outro artigo, publicado em 20 de março de 1914, o mesmo autor retoma a questão do ensino, insistindo na proficuidade da vinda de uma “missão paulista” para uma completa remodelação do ensino público no Paraná:
Reformas parciaes poderão ser úteis, mas não são completamente efficazes. Só uma remodelação “de fond em comble” será capaz de elevar o ensino público á altura das necessidades do Estado. E essa remodelação, poderá leval-a a effeito uma missão paulista chefiada por um Arnaldo Barreto, um João Lourenço Rodrigues, um Mariano de Oliveira ou outro dos illustres
pedagogos e educacionistas que têm feito o grande e justo renome da instrucção pública de S. Paulo.
Os debates no jornal continuaram acontecendo. Em 1916, o governo decide enviar outra comissão de professores para estudar o funcionamento dos grupos escolares paulistas (Cf. Abreu, 2003; Souza, 2004).
Diferentemente dos governos anteriores, a solução defendida por Munhoz da Rocha foi a de trazer um experiente educador paulista para ocupar a Inspetoria Geral do Ensino e realizar uma reforma na instrução pública paranaense. Lysimaco Ferreira da Costa, então diretor da Escola Normal e do Ginásio Paranaense, foi enviado para São Paulo para convidar um profissional capaz de reorganizar o ensino no estado.
O Estado de São Paulo foi o pioneiro a investir na organização e expansão do ensino público, elementar e normal, tornando-se uma referência para a remodelação do ensino em outros estados brasileiros. A criação dos grupos escolares, considerados uma das mais importantes contribuições das primeiras reformas educacionais republicanas, atraiu as atenções para aquele estado.
A crença de que os problemas sociais poderiam ser solucionados pela educação fazia parte do imaginário paranaense. Na década de 1910, o governo do Paraná já havia encaminhado algumas missões de professores a São Paulo, a fim de estudar a organização e métodos de ensino daquele estado para promover uma modernização na escola paranaense71. O envio de professores paranaenses para São Paulo não produziu o efeito esperado. Assim, coube a Lysimaco Ferreira da Costa a escolha de um professor paulista que pudesse contribuir para a organização do ensino público no Paraná.
Segundo Souza (2004), para ocupar o referido cargo, o primeiro nome cogitado foi o de João Lourenço Rodrigues, que não pôde aceitar o convite. As cartas trocadas entre João Lourenço Rodrigues e Lysimaco Ferreira da Costa revelam que muitos nomes foram cogitados, “como foi o caso da sugestão que João Rodrigues fez ao secretário geral de Estado do Paraná, Marins de Camargo, em favor de João Toledo, que declinou da oferta do cargo” (Souza, 2004, p. 50).
71 Segundo Gizele de Souza (2004, p. 40), que estudou a criação dos grupos escolares e jardins
de infância no Paraná, o então presidente do estado, Carlos Cavalcanti, era contrário à idéia da vinda de missão de professores paulistas ao Paraná para auxiliar o processo de reforma da instrução pública. O próprio Cavalcanti teria dado essa informação em entrevista ao jornal paulista O Estado de S. Paulo, comentada em artigo do Diário da Tarde. Para ele, seria mais proveitoso enviar professores do Paraná ao estado de São Paulo.
O educador que acabou por aceitar o convite foi o diretor da escola Normal de Pirassununga, César Prieto Martinez. Em carta datada de 19 de março de 192072, João Lourenço Rodrigues, confidencialmente, sugeria a Lysimaco Ferreira da Costa que
não entregasse seu cargo a Martinez; este deveria começar seu trabalho pela Escola Modelo e depois poderia até ocupar a cadeira de Psicologia Pedagógica e Métodos de Ensino na Escola Normal. Assim, aos poucos, na qualidade de inspetor geral do Ensino, Martinez deveria visitar as escolas da Capital, conhecer o pessoal e aproveitar os melhores elementos para quando chegasse a oportunidade. Além disso, Martinez deveria designar para pequenas turmas os professores, os quais precisavam visitar a Escola Modelo, e, em seguida, também deveria fundar grupos, baseados nos moldes da escola paradigma. Outra sugestão era que o professor Lysimaco não passasse “a vara ao Martinez sem verificar praticamente o seu critério” (Souza, 2004, p. 51).
As advertências de Rodrigues estavam pautadas no convívio que já tivera, “especialmente na condição de seu professor em 1898, com o professor paulista” (Cf. Souza, 2004, p. 51).
Os conselhos de Rodrigues a Lysimaco Ferreira da Costa indicam que o primeiro supunha que o educador paranaense, incumbido pelo Presidente do Estado do Paraná de escolher um educador paulista para auxiliar na reestruturação do ensino no Estado, exercesse autoridade suficiente para dirigir a ação de Martinez, impondo-lhe limites e concedendo-lhe espaço conforme o desempenho do professor paulista.
Em matéria de educação, a ascendência de Lysimaco Ferreira da Costa sobre Caetano Munhoz da Rocha é evidente, mas não pode ser facilmente explicada. Nas inaugurações dos prédios para a instrução pública, diversas vezes o Presidente do Estado abriu mão de seu discurso “em favor do apanhado técnico pedagógico de Lysimaco” (Cf. Moreno, 2003, p. 20).
A crítica ao poder conferido a Lysimaco se observa na imprensa:
O seu alto e nunca assaz prestígio junto à administração pública. [...] ...esse funcionário genuíno “Je sais tout” [...], com a sua mania de açambarcar a direção e orientação do ensino secundário, e, por outro lado de apresentar-se como orientador do governo em questões econômicas... (O Dia, 12/12/1923,
apud Moreno, 2003, p. 20).
72 A referida carta fazia parte do acervo do Memorial Lysimaco Ferreira da Costa. Foi, porém,
retirada de lá por D. Maria José Franco Ferreira da Costa, por julgar que as informações eram confidenciais e, portanto, seu falecido pai não gostaria de vê-las divulgadas. Essa atitude revela que, assim como a carta, outros documentos importantes para a compreensão do período não puderam ser acessados.
A presença de Lysimaco Ferreira da Costa em diversos espaços da administração pública é uma constante na década de 1920. Talvez por isso, a reforma do ensino no Paraná seja freqüentemente referida como empreendida por Lysimaco Ferreira da Costa. Na verdade, o professor Lysimaco Ferreira da Costa foi autor da reforma implantada na Escola Normal, a partir de 1923. A pouca referência a Martinez como autor da reforma da educação paranaense também foi provocada pela ausência de uma lei ou regulamento que as enfeixasse, dando-lhes um caráter orgânico. Apenas a Reforma da Escola Normal empreendida por Lysimaco Ferreira da Costa foi regulamentada e reconhecida oficialmente pelo governo.
Soma-se ainda o fato da presença de Martinez no Paraná ter sido marcada por questionamentos e oposição à sua ação por parte da imprensa paranaense. As críticas incidiam, em parte, sobre as medidas que pôs em prática nas escolas paranaenses, tais como: controle e normatização de procedimentos; unificação de material didático; o reforço da inspeção escolar entendida “como pivot, em torno do qual o apparelho escolar” se moveria73.
Em relação à inspeção escolar, Souza (2004, p. 34) aponta que
a tarefa que predominava na inspeção escolar [...] era a fiscalização do ensino, seja das condições de funcionamento dos estabelecimentos escolares, seja diretamente do próprio trabalho docente. [...] O entendimento era de que os inspetores técnicos assumiriam a tarefa de “porta-vozes” das “ordens” públicas, representariam o inspetor geral “em todos os actos” oficiais junto aos estabelecimentos de ensino, averiguariam e regularizariam os serviços administrativos escolares, fiscalizariam o trabalho docente e o funcionamento das escolas...
Além disso, muitos paranaenses não aprovavam a vinda de um técnico de outro Estado para reorganizar o ensino no Paraná, por acreditar que existiam paranaenses competentes e capazes de realizar a tarefa, sem a necessidade de trazer alguém de fora para isso.
A relação entre Lysimaco Ferreira da Costa e Martinez foi marcada por tensões e divergências desde o primeiro ano de trabalho do professor paulista no Estado. Em cartas trocadas com João Lourenço Rodrigues, fica evidente que Lysimaco Ferreira da Costa se afastara de Martinez, preocupado em preservar sua imagem política, diante de tantas críticas dirigidas à ação daquele professor.
73 Relatório do inspetor geral do Ensino, Cesar Prieto Martinez, ao secretário geral de Estado,
Em 1923, ano da Reforma da Escola Normal promovida por Lysimaco Ferreira da Costa, Martinez teria apontado as suas divergências em relação às bases da Reforma, durante o seu discurso como paraninfo, na colação de grau das normalistas. Em seguida, Lysimaco Ferreira da Costa pediu a palavra para responder às críticas de Martinez. O acontecimento teve grande repercussão na imprensa. Em A República, órgão oficial do governo, a atitude de Martinez foi seriamente repreendida. Numa direção oposta, O Dia censurava a postura de Lysimaco:
Não queremos tomar o partido do sr. Prieto Martinez mas o que é bem verdade é que aberra das mais comezinhas normas de delicadeza, o procedimento insólito com que o diretor da Escola Normal se permitiu, numa solenidade pública, refutar o seu colega, paraninfo da turma de normalistas, dando assim um bem-triste exemplo às novas educadoras de nossa mocidade. Esse funcionário [...] não suporta que se possa ter uma idéia ou uma opinião que destoem das que consultam os seus interesses. Com isso, compreenderá o Sr. Presidente do Estado, os únicos prejudicados são seu próprio governo e, o que é mais importante, os créditos do ensino secundário do Paraná. Não se pode ser, impunemente, ao mesmo tempo, diretor da Escola Normal, diretor do Ginásio, lente de física e química desses estabelecimentos, diretor da Escola Agronômica, lente de Universidade, industrial e, ainda, nas horas vagas, “mentor” das classes conservadoras e arquiteto de toda sorte de picuinhas contra seus colegas mais bonitos e menos ocupados... (O DIA, 08/12/1923).