O trabalho de campo é uma experiência pessoal, complexa e histórica. Na coleta e no processamento das informações, as pessoas do pesquisador/pesquisado estão presentes, dados e sujeito não se separam, ou seja, a qualidade das notas revela o autor. Ele olha, ouve, vive e escreve.
Clifford (1991) procura sintetizar o conceito de relatos de viagem como um texto separado e produzido pelo trabalho de campo, com base em dados essencialmente descritivos, que mais tarde serão sintetizados e elaborados teoricamente. O outro ressalta que as notas de campo são escritas em vários momentos e diferentes situações, e, assim, as distingue:
A inscrição é o momento em que o pesquisador toma nota imediatamente de um fato vivido ou presenciado por meio de alguma palavra ou frase mnemônica. A inscrição de notas curtas e rápidas permite fixar a observação e a fala nativa, não perdendo a originalidade e possibilitando ativar a memória num tempo futuro. Na transcrição, o antropólogo participa de uma visão como espectador, escrevendo, depois os aspectos significativos. A descrição representa o terceiro momento, em que se observa a realidade cultural, para muito depois escrever e interpretar os dados coletados . (MEYER, 2008 p 45)
Esses momentos de escritura regulados pelo tempo (imediatamente, depois e muito depois), na realidade, misturam-se através das percepções e interpretações do pesquisador, ao longo do trabalho em campo. Os registros podem variar também de acordo com situações em que se encontra o pesquisador, ligadas ao clima, às condições meteorológicas, local, transporte, todos determinando e influenciando o ato de tomar notas.
As notas de inscrição, segundo Clifford, já não registram algo puro, o pesquisador possui seu ponto de vista, suas leituras de mundo, seu imaginário, sua cultura arraigada, como já se disse neste estudo:
As notas de inscrição não registram uma coisa crua, pura. Antes mesmo de irmos ao campo, construímos um modelo imaginário, um objetivo e carregamos nossas leituras e textos arrumados numa bagagem intelectual. Durante o período de permanência no campo todo esse material se mistura com as outras bagagens coletadas. A inscrição é intertextual, figurativa e histórica. Isso quer dizer que a percepção não é imediata como pareceria ser. Assim, a escrita é mais que um registro, é tradução e diálogo. (MEYER, 2008, p 46)
A transcrição é o momento de traduzir o que se vê, o que se ouve, e o que se viveu. Todo o tempo há, por parte do observador, interpretações, seleções, assim, não existe o texto puro, e a descrição ultrapassa a dimensão de texto interpretativo, é dialógico.
De acordo com Meyer (2008 p. 46), as notas são únicas e impregnadas do jeito de ser do pesquisador, não havendo nelas pureza de dados, todo material coletado é interpretado e traduzido por ele, como o faz Rosa ao registrar a presença de pássaros pelo seu canto ou determinar a qualidade de um carro de bois pelo ranger de suas rodas. Sua bagagem de leitura atua sobre seu olhar, direcionando a visão para a seleção dos dados e informações, estabelecendo uma relação de intertextualidade entre registros e leituras que giram em movimentos de idas e voltas.
Citado por Meyer (2008, p.46), Lederman se posiciona dizendo:
As notas de campo são consideradas como parte de fazer o trabalho de campo e do escrever a etnografia, elaboradas por dois movimentos: ida e volta, ou seja, partem do discurso acadêmico e a ele retornam diferentemente.
Não se pode dizer que tomar notas seja apenas um ato mecânico de simplesmente apontar coisas vistas e vividas. Consiste mais numa conversa silenciosa que se alia a outras leituras que o pesquisador trás consigo, além de pensamentos e sentimentos.
Para Meyer, (2008, p.47), as notas de campo nem sempre são escritas em campo, e o fundamental, neste trabalho, é a vivência testemunhal e, como são registros pessoais e particulares, podem encobrir fatos, além disso, quando são redigidas longe do campo são diferentes das escritas no local, no calor da hora, em que a memória está recente, e impregnada dos acontecimentos. Com o passar do tempo, com a memória não mais tão recente, os acontecimentos podem ter outra interpretação e as notas podem ser alteradas.
As notas têm vida breve e longa: breve quando representam um fato aos olhos do observador que pode mudar a compreensão e alterar os apontamentos e alterar os apontamentos, longa, quando permanecem intocadas e representam uma parte da memória construída pelo pesquisador. As notas são documentos pessoais vivos e intransferíveis, impregnados de momentos apreendidos da realidade e da visão de mundo do pesquisador. Elas revelam fatos que descobrem um determinado período histórico, fornecendo o fio da memória em construção de um país e de um povo. (MEYER, 2008, p 47)
A leitura das notas de campo tem a capacidade de remeter o observador para o campo novamente, resgatando cores, odores, falas, gestos, tato, sabores. Elas preservam uma tensão entre o pesquisador e os interlocutores, como algo vivido.
Geralmente são registradas em cadernos ou cadernetas, há anotações em folhas pautadas, quadriculadas, ofício, fichas, papéis avulsos. As notas geralmente são escritas à mão, com lápis ou caneta. O deslocamento e os meios de transporte determinam o material para o registro, já os instrumentos ficam a critério do pesquisador.
A função das notas de campo oscilará de acordo com o objetivo e com a profissão do pesquisador. Possuem valor individual e é fonte primária de pesquisa. No caso de um antropólogo, a releitura das notas de campo permite reconstruir um evento, reviver e refletir sobre os fatos. Enfim, elas servem como memória de uma experiência viva e, portanto, revelam uma forma
ambígua, aqui e lá, dentro e fora do campo. O pesquisador aqui (casa), lembra de lá (o campo). “A Boiada 1” e “A Boiada 2”, dentre outras que Rosa escreveu, a exemplo da caderneta de sua viagem à Itália (ver anexo 4, p. 193), entram nesta menção, a forma como são redigidas, levam o pesquisador a reviver e a refletir a experiência vivida em campo, geralmente elas apresentam descrições e até desenhos, na tentativa de não permitir que detalhes caiam no esquecimento do observador (Ver anexo 3 p. 192) .
Não se pode ignorar que as notas de campo estão sujeitas a todo tipo de imprevistos. As situações mais adversas, em geral, são mencionadas (chuva, temporais, calor, frio, picadas de cobra, de insetos, fome, cansaço).Todos eles interferem na escrita e na documentação.
Além das notas de campo, Meyer aponta para as notas de cabeça, que são aquelas gravadas apenas na memória. A este respeito temos:
As notas de campo permanecem iguais, escritas no papel, mas as notas de cabeça continuam a evoluir e modificar como aconteceu durante o tempo no campo. Ou seja, a diferença se estabelece no momento da escrita. As notas de campo tornam-se documentos imutáveis, e as notas de cabeça continuam modificando-se enquanto dura o trabalho de campo. As notas de cabeça são mais importantes. Só depois que o antropólogo morre é que as notas de campo são fundamentais.(MEYER, 2008, p.52-53)
O sentimento percebido é apreendido numa situação testemunhal e vivencial, é pessoal, intransferível e temporal. O pesquisador pode resgatar o momento, mas não pode revivê-los, a não ser pela via das lembranças. Como a percepção associa-se à vivência, as palavras não conseguem fixar exatamente a sensação vivida. É o mesmo que sentiu Lévi-Strauss ao afirmar:
Se eu conseguisse encontrar uma linguagem que me permitisse fixar essas experiências simultaneamente instáveis e rebeldes perante qualquer tentativa de descrição, se me fosse possível comunicar a outros as frases e articulações dum fenômeno único que nunca se reproduziria da mesma maneira, então atingiria, julgava eu, os mistérios da minha profissão; deixaria de haver qualquer experiência bizarra proporcionada pela pesquisa etnográfica cujo sentido e alcance eu não pudesse um dia fazer sentir a todos.Depois de decorridos tantos anos, conseguirei eu voltar a encontrar-me neste estado de graça? Conseguirei reviver esses momentos febris nos quais eu anotava, de caderno em punho, segundo por segundo, a expressão que viria talvez a permitir-me imobilizar essas formas evanescentes e sempre renovadas? (LÉVI- STRAUSS, 1986, p.56.)
Meyer ressalta também as reflexões de Smith (1991) a respeito de um outro aspecto que deve ser considerado a despeito das notas de campo, que é a questão das vozes. O pensador considera as notas de campo dos pesquisadores, repletas de vozes, uma polifonia no lugar, pela via da leitura, e acrescenta que conhecer o local facilita a leitura e a compreensão destas notas. Smith faz isso diminuindo a presença poderosa do etnógrafo, ou pesquisador, conferindo ênfase para a multivocalidade inserida nas notas.
Cabe ainda ressaltar que o registro de campo é um documento de fatos ocorridos num contexto histórico imutável, num tempo cronológico definido. A leitura é que possui o poder transformador, o leitor cria outros contextos, muda a versão dos fatos. O fato tem sua existência garantida e selada, já os fatos produzidos pela leitura dão margem a interpretações mutáveis. Cada leitura pode levar a outras interpretações, de acordo com o ponto de vista do leitor.
Os relatos de viagem, na busca de levantamentos de dados, buscam um trabalho de cunho imparcial, mas é aí que se percebe o quanto o relato carrega em si os valores arraigados da cultura do viajante, de sua maneira de ler o mundo.
Para discutir esse aspecto dos relatos de viagem, Lévi-Strauss (1989, p.78) afirma que o autor do relato sabe que é impossível conhecer o diferente e chegar à sua essência sem alterações significativas por conta de seu olhar viciado, e assegura ser impossível nos distanciarmos de nossos valores e crenças ao contatar o diferente e registrar situações diversas sem as marcas de traços subjetivos do narrador.
Incapazes para sempre de escaparmos às normas que nos modelaram, nossos esforços para pôr em perspectiva as diferentes sociedades, inclusive a nossa, seriam mais uma maneira envergonhada de confessarmos sua superioridade sobre todas as outras. (LÉVI-STRAUSS, 1996, p.364)
Os relatos de viagem carregam o tempo todo o ponto de vista e marcas de subjetividade do narrador, e estes sofreram, ao longo do tempo, transformações significativas do inferior e bizarro para ganhar a consciência dialógica da alteridade, que marca a reflexão a respeito da diferença.
É posto, como se disse, que as anotações de viagem trazem no seu bojo o ponto de vista do viajante e que o gênero sofreu transformações, mas, ainda assim, são narrativas testemunhais.
Esta evolução temática é acompanhada por uma profunda transformação das modalidades narrativas da literatura de viagem: a relação pseudo-objetiva de um narrador-personagem-testemunha perde progressivamente vigor e pertinência, para dar lugar à narrativa pseudo-subjetiva de um narrador-personagem-ator: seu propósito não é mais apresentar um universo novo e desconhecido, mas o de dar conta dos ecos deste universo na individualidade que viaja e observa. (NITRINI, 1998, p.53, apud GONÇALVES, 2010, p.36)
Se, por um lado, os relatos se constituem de linguagem informativa e testemunhal atrelada ao emprego de uma linguagem sensorial e impressionista, por outro, de acordo com o parecer de Clifford (2002, p.67), devem definir-se também como registros científicos porque os campos visitados em viagem devem ser tomados como espaço de pesquisa interativa.
O que ocorre é que os textos de viagem constituem-se em gêneros híbridos, fronteiriços, agregando particularidades de outros gêneros, em especial da literatura. Podemos verificar isso através das afirmações de Gonçalves:
Vê-se então, que os viajantes exploradores possuíam uma espécie de profissão que reunia múltiplas habilidades, desde as relacionadas diretamente à viagem em si até as concernentes ao relato, as quais correspondiam à habilidade de escrita e de desenho e ainda ao conhecimento da ciência para conseguirem fazer um trabalho sério e eficaz. Assim, os viajantes buscavam o conhecimento de botânica, zoologia, geografia, etc. Conclui-se, então, que os viajantes exploradores faziam, além do trabalho literário, um trabalho científico, pois relatavam as várias características do lugar, do clima, do povo, da geografia, da sociedade em geral, ajudando, assim, a construir uma nova consciência planetária. (GONÇALVES, 2010, p.37):
O viajante estrangeiro que interage com o viver cotidiano do observado pode, através da comparação com sua própria cultura, obter maior nitidez dos dados que pesquisa, além disso, da possibilidade do encontro das diversas alteridades, pode atestar o complexo discurso das narrativas de viagem.
Considerando os registros de campo como tradução e diálogo, não podemos deixar de encaminhar nossa reflexão para a presença, nestes
documentos, das interpretações, seleções, percepções, pontos de vista, imaginação, leituras de mundo, enfim, da subjetividade do observador, impregnando-o.
Ao termos acesso às cadernetas de campo “A Boiada 1 e A Boiada 2” (Ver anexo 9, p. 200), de Guimarães Rosa, tornou-se possível perceber aspectos de sua subjetividade, através de seus relatos e observou-se o que o escritor priorizou e escolheu registrar, como no exemplo que segue:
A fazenda santa Catarina fica perto (junto do) céu – céu de azul pintural – de Pisa ou Siena - com nuvens que não se removem (B2, p.16) ...A beleza do céu. 5 horas da tarde: nuvens extensas, enormes, estranhamente suspensas, de diferentes pinturas: geleiras alpinas, e monte branco, icebergs – escarpasnelas, banquisço, outras de azul, porcelana, de Copenhague; outras, acima, quase torvas, tempestuosas, fingidas. Delas é que vêm os periquitos! Entre todas, aquele suave céu toscano, e indiferente ao passar das horas.(B2, p.19)