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In document Lifting the Veil of Secrecy (sider 127-130)

Gostaria de contar, a seguir, um pouco da história dos alunos, além de como eles se comportaram durante as aulas de língua inglesa, como reagiram durante a coleta dos registros e como foi a reação de suas famílias frente a esta pesquisa.

Quanto ao comportamento dos três alunos durante as aulas, pude registrar as seguintes informações: Gustavo se mostrava tímido, mas muito aplicado e interessado, assim como bem entrosado na turma. Apesar da timidez, gostava de participar das aulas e correções e chegava a pedir, diversas vezes, para falar. Caíque parecia sentir medo durante as aulas, apesar de se interessar pelo idioma, e arriscava-se muito pouco durante as correções e atividades, pedindo, muitas vezes, no início da coleta, para não participar. Já Isabel era a mais tímida do trio e a que menos se relacionava com os colegas em sala de aula. Mostrava-se interessada, mas não queria participar das atividades e correções coletivas, pedindo, muitas vezes, para que eu não a chamasse. Percebi também que ela era, dos três, a que mais apresentava dificuldade durante as aulas.

Quando eles foram questionados sobre o que achavam a respeito de aprender inglês, os três responderam que consideram interessante, importante e “legal”. Isabel já havia freqüentado curso de inglês em uma escola de idiomas, Caíque iria se matricular em breve (o que de fato aconteceu) e Gustavo ainda não havia feito nenhum curso de inglês fora da escola, mas comentou várias vezes que a mãe estudava com ele em casa, fazendo exercícios e “provinhas” para ele estudar. Entretanto, Caíque relatou, numa breve conversa comigo durante a aula (não gravada), que nos anos anteriores suas notas eram muito ruins e os colegas já o chamavam de “burro” quando ele errava. Segundo Caíque “isso era normal”. Mesmo assim, ele se mostrava interessado em aprender inglês.

Um aspecto que pareceu-me ser muito importante, diz respeito à relevância do aprender inglês para estes alunos. Caíque e Gustavo já viam relevância no aprendizado de inglês. Para eles, a finalidade em saber o idioma era para jogar videogame ou falar com parentes que moram nos EUA. Além disso, acreditavam que o aprendizado da língua permitiria que eles se comunicassem com tranqüilidade em viagens ao exterior (a passeio ou profissionais). Já Isabel não via relevância no aprendizado de inglês em sua vida e comentou só ver utilidade na língua para viajar

a negócios quando tiver um emprego no futuro. Quanto à postura destes alunos em sala, eles se mostraram muito interessados em aprender o idioma.

Para poder iniciar a coleta no mês de maio de 2007, procurei a família deles com o intuito de explicar minha pesquisa e de obter a autorização para coletar os registros das experiências. Não houve retorno após o primeiro contato, realizado por meio de carta, entregue aos pais pelos próprios alunos. Tentei, logo após, um segundo contato, anexando juntamente com a carta (que explicava minha pesquisa em detalhes) os documentos de autorização, os quais deveriam ser preenchidos e assinados. Desta vez o retorno foi positivo e obtive todas as autorizações. Um fato bastante relevante, entretanto, deve ser mencionado. Fui procurada pela mãe de Isabel que me pediu para que não enviasse, por meio da filha, mais nenhuma comunicação ou documento referente à minha pesquisa e que também não comentasse em classe e nem com a própria Isabel a questão. A mãe da menina solicitou-me também para deixar na recepção da escola, qualquer documentação necessária relacionada à pesquisa, e que a avisasse antecipadamente, por telefone, para que ela pudesse retirar. Garanti à mãe de Isabel que não enviaria mais documentos/autorizações por ela e que não comentaria nada com os outros alunos ou com ela própria.

Conclui, então, que talvez Isabel não soubesse de sua dificuldade de aprendizagem, ou que esse assunto fosse delicado e não mencionado em sua casa. Conclui também, com base na atitude da mãe de Isabel, que talvez seus pais quisessem preservá-la de qualquer exposição a respeito de sua dificuldade de aprendizagem, achando que, com isso, estariam fazendo o melhor para sua filha.

É possível que Isabel nem imagine o que se passa com ela e o porquê de várias dificuldades no processo de ensino-aprendizagem na escola. Penso que ela deva imaginar coisas até piores do que a dificuldade de aprendizagem que ela apresenta (DPA), e que, talvez, este seja o motivo de tanta timidez, vergonha, reclusão e isolamento. É possível também que ela não tenha desconfiado, durante a coleta dos registros, do real motivo dos questionários ou das entrevistas.

Já os outros pais, de Caíque e de Gustavo, me pediram apenas que os filhos não fossem expostos em sala de aula perante os colegas, ou seja, que não fosse mencionada a dificuldade de aprendizagem que eles apresentavam e nem que minha pesquisa os tinha como foco.

As atitudes de Gustavo e de Caíque na devolução das autorizações e durante a coleta dos registros me levaram a pensar que a família desses alunos talvez lidasse de maneira diferente a questão da dificuldade de aprendizagem. Para exemplificar minha observação cito, a seguir, a fala de Gustavo, ao me devolver, no início de uma das aulas, a primeira autorização: “esse papel que minha mãe assinou é sobre o

problema que eu tenho, né?!” e algumas semanas depois, no momento em que eu

distribuía o questionário 1 para os alunos da classe, ele comentou: “ah...esse

questionário é por causa daquele papel que minha mãe mandou!” e virou para

outro colega e falou: “é uma pesquisa que ela tá fazendo por causa do meu

problema para aprender... que eu faço fono.”

Pelo modo dele agir, falando sem reservas sobre sua dificuldade de aprendizagem comigo e com os colegas, pude concluir que Gustavo sabia qual é sua dificuldade e isso me levou a pensar também que talvez ele conversasse com os pais a respeito. Outro fato significativo é que mandei o envelope lacrado por Gustavo e ele me devolveu aberto, sem lacre algum, tirando da mochila assim que chegou à sala de aula (naquele dia, a primeira aula deles era a minha). De forma que ele não abriu na escola escondido dos pais antes de me entregar, ele já veio aberto de casa. O que para mim significa que os pais não escondem o assunto do filho.

Caíque teve uma atitude muito parecida com a de Gustavo. Ele também entendeu que o questionário e as entrevistas eram relacionados à sua dificuldade e não se importou com o fato, comentando com alguns colegas que era uma pesquisa que eu estava fazendo. Percebi também, pelos comentários que ele fazia em sala de aula e pela conversa que tive com a mãe (na porta da escola) sobre esta pesquisa, que a família conversa com ele sobre o assunto e sabia o que acontecia com ele. Contudo, com base nos comentários de Caíque, nos quais afirmava que estudava, refazia os exercícios e elaborava o roteiro23 sozinho, conclui que, talvez, a família de Caíque não tivesse a mesma participação em casa que a família de Gustavo.

Apesar de estarem na mesma série, Caíque e Gustavo estudavam em horários diferentes, e, portanto, não tinham contato na escola, e nem fora dela, já que não eram amigos.

De acordo com os registros, os três alunos faziam acompanhamento com fonoaudióloga, semanalmente, desde que receberam o diagnóstico do distúrbio.

23

Caíque e Gustavo foram diagnosticados em 2005, quando estavam cursando o 4ª ano e Isabel em 2007, quando já estava no 7º ano. Apesar de Isabel só ter sido diagnosticada em 2007, ela já apresentava sérias dificuldades na escola nos anos anteriores. A orientação pedagógica da escola procurou a família, no decorrer desses anos, e indicou o encaminhamento de Isabel a profissionais especializados a fim de investigar as causas do baixo desempenho. Contudo, os pais não achavam que ela tivesse algum problema de aprendizagem e, portanto, não procuraram ajuda especializada.

No final de 2006, durante a última reunião do conselho de classe da escola, na qual eu estava presente, determinou-se que, devido ao baixo desempenho de Isabel também no 6º ano, a orientação pedagógica da escola deveria procurar os pais da aluna e pedir, de maneira mais enfática, uma investigação sobre possíveis problemas de aprendizagem. Foi então que no início das aulas em 2007, recebemos (os professores) a informação de que Isabel havia sido diagnosticada com DPA. A partir daí que Isabel, já com 12 anos, passou a iniciar a terapia com fonoaudióloga e os professores tiveram conhecimento sobre a dificuldade de aprendizagem dela.

De acordo com os registros, Caíque tem grau moderado de DPA, afetando os processos de codificação e decodificação, e Gustavo tem grau severo, afetando também os processos de decodificação e codificação. Já Isabel foi diagnosticada com grau severo e todos os processos foram afetados: decodificação, codificação e organização.

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