Parafraseando Luciano Gruppi (1995) em tudo começa com Maquiavel neste tópico, sustenta-se que a nova ordem unipolar/multipolar começa com a Perestroika e a Glasnost, de M. Gorbachev, em 1985, então secretário-geral do PCUS da URSS e comandante supremo do Exército Vermelho.
Nesse sentido, com exceção de Vacca (1996), desconhece-se outro autor que tenha reconhecido a importância de M. Gorbachev para a inteligibilidade dos arranjos de poder, em direção à compreensão das tendências sociais do mundo que se abriram com o fim da bipolaridade.92
Os efeitos devastadores do processo reformista no interior das sociedades de “socialismo real” vieram com o levante no leste europeu em 1989 o que culminou com o Golpe e contragolpe na própria URSS, em 1991, cuja conseqüência foi o conhecido fim do “socialismo real” com a queda de Gorbachev e a ascensão de Yeltsin, antigo membro do PC (Partido Comunista), agora um ator chave nas mudanças das instituições burocratizadas pelo carcomido sistema político anterior na contramão do processo capitalista, já algum tempo instaurado na URSS.93
92 É verdade que CASTELLS (2001, p. 49) menciona a relevância do papel da União Soviética nos dramáticos
acontecimentos do último milênio. Entretanto, a análise do sociólogo espanhol caminha para identificação da revolta dos Estados membros da Confederação Soviética como fator determinante para o colapso da URSS. Ademais, o professor David F. Carvalho, na informalidade, reiterou a importância de Gorbachev nesses eventos.
93 Para a tese de que desde os anos cinqüenta, a URSS vinha trilhando o caminho de retorno ao capitalismo em
Gorbachev não é apenas mais um daqueles líderes mundiais de destaque no cenário político; suas idéias políticas e seu pensamento estratégico influenciaram os acontecimentos da última década deste fin de siècle. O mundo e as sociedades teriam sido diferentes se Gorbachev tivesse conseguido sucesso com a sua própria Perestroika,94 meta política difícil, mas não impossível. 95
O marco histórico da virada sobre os rumos da sociedade soviética remonta à reunião plenária do CC do PCUS, em abril de 1985, quando se chegou à conclusão que o país estava à beira do colapso. Na mensagem de fim de ano, em 31 de dezembro, Gorbachev (1986, p. 127), sintomaticamente, prenuncia o que iria acontecer:
Estamos no início do caminho traçado pelo Comitê Central do Partido Comunista em sua reunião de abril. Diria que estamos no início de um trabalho difícil, de grandes mudanças, que exigem de nós maior perseverança, dedicação, coragem para renunciar às coisas retrógradas, a inércia mental, aos esquemas e análises habituais hoje inúteis. Hoje precisamos de intensa atividade social, do trabalho criador, intolerância perante as insuficiências, apoio decidido a tudo o que a época engendra de novo e progressista. (GORBACHEV, 1986, p.127)
Daí em diante implementava a Perestroika entendida como uma revolução nas estruturas administrativas e gestão política que motivaria a democratização do Estado e da sociedade soviética. Em seguida a Glasnost acompanhando o curso revolucionário atingiria a estrutura econômica e reorganizaria o método de gestão das empresas visando torná-las mais eficientes e competitivas.
Ambas, portanto, partem de um só processo de reestruturação econômica, política, social e cultural da sociedade. Importante destacar que Gorbachev (1987) tinha plena consciência de que a mudança desencadeada não traria impacto positivo ao mundo socialista como nos países do ocidente, pois acreditava que o que aconteceria na União Soviética repercutira em todo mundo, independentemente das conotações valorativas, o que de fato aconteceu. O mundo nunca mais seria o mesmo depois da Perestroika e da Glasnost.
URSS ascensão e queda: a economia política das relações da União Soviética com o mundo capitalista. São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 1991. 220 p.
94 GORBACHEV, M. Perestroika: novas idéias para o meu país e para o mundo. 13a ed. São Paulo: Editora Best
Seller, 1987.
No livro que escreveu, Perestroika, com subtítulo novas idéias para o meu país e o mundo, já mostra a ambição do autor: realizar uma profunda reflexão intelectual a fim de responder politicamente aos desafios do mundo mergulhado numa crise civilizatória.
M. Gorbachev (1987), do ponto de vista da segurança global, com repercussão na política externa dos países ocidentais, especialmente dos EUA, mas também da própria URSS, vaticina que a corrida armamentista aumentou demasiadamente a ponto de chegar a uma impossibilidade lógica: a humanidade vir a ser destruída várias vezes, embora tecnicamente viável, a quantidade de ogivas nucleares tornasse possível. Entretanto, quando exorta que “é hora de esquecer qualquer aspiração imperialista em termos de política externa” (GORBACHEV, 1987, p.159), afasta-se do realismo para cair no romantismo.
Porquanto, sabe-se hoje, que isso não foi e não será possível haja vista a tendência dos Estados para organizarem-se no intuito de manter suas influências no plano econômico, político, cultural e militar. A rigor, permanece, ao contrário do que dissera Gorbachev, a possibilidade de confronto nuclear. Mas, concretamente tinha razão quando exorta que “A normalização das relações internacionais referentes à economia, informática e ecologia deverá basear-se na mais ampla internacionalização”. (GORBACHEV, 1987, p.159) De fato, esse princípio é atualmente defendido por personalidades políticas e representantes de ONGs no mundo inteiro. Profeticamente mostrou-se profundamente informado sobre as tendências que, embrionariamente, se apresentavam nas relações internacionais:
Do ponto de vista da segurança, a corrida armamentista é absurda porque sua própria lógica interna leva à desestabilização das relações internacionais e, eventualmente, poderá levar a um conflito nuclear. Na mediada em que desloca recursos de outras áreas prioritárias, a corrida armamentista acaba por fazer baixar o nível de segurança. (GORBACHEV, 1987, p. 163)
Dir-se-ia que as possibilidades relatadas da corrida armamentista ainda permanecem no horizonte das relações internacionais. Apensa-se que o modelo econômico e político do neoliberalismo, ao propugnar a retirada do Estado, na versão xiita, de algumas de suas funções anteriores para cumprir o ajuste fiscal, conduz também a um grau nunca visto de insegurança com a ameaça global e regional de conflitos e da exacerbação do terrorismo em escala planetária.
Quanto à política externa, Gorbachev tinha uma visão singular dos acontecimentos históricos e sociais dos quais estava participando. No período em que fora o “homem forte”
da URSS, o mundo experimentara diversos ensaios sobre os diagnósticos dos principais problemas que viriam se destacar no repertório da agenda global. Na política externa soviética, uma forte virada no sentido de depreciar as tensões entre as duas grandes potências acenando insistentemente para os acordos de redução dos números de mísseis balísticos no mundo e, em particular, na Europa. Essa posição advogada pela URSS colocou em xeque, para a opinião pública mundial, os intentos dos EUA na continuidade de megaprojetos voltados para a militarização do continente, assim como de lançar-se unilateralmente na corrida armamentista no espaço. Ronaldo Reagan, com quem Gorbachev dialogou, havia recrudescido a política externa norte-americana e, propositadamente, contribuído para minar a economia soviética.
Se, por um lado, as idéias do então dirigente soviético causou expectativas positivas para um novo contrato na sociedade mundial, mobilizando, para isso, ativistas antinuclear na Europa e fora dela, e concertadamente favorável à inclusão dos países periféricos ao acenar para a relação Norte-Sul e inserir a temática ambiental no roteiro da agenda política mundial; por outro lado, suas reformas foram objeto de crítica especialmente na União Soviética. Embora ligada ideologicamente ao ditador J. Stálin, Nina Andreieva, uma professora de química do Instituto Tecnológico de Leningrado, escreveu uma Carta que fora reproduzida por jornais do país, a qual repercutiu na sua opinião pública.96 Nina Andreieva desmontou a estrutura do pensamento de Gorbachev que expôs no livro Perestroika. No entanto, quanto aos fatos narrados por este, o documento revela a exatidão das opiniões no que se refere à ebulição das idéias causada na juventude soviética.
Como muitos outros tenho sob meus cuidados um grupo de estudantes, depois de um período de apatia e parasitismo intelectual, aos poucos começam a se engajar na energia das mudanças revolucionárias. Naturalmente, surgem discussões sobre os caminhos da „perestroika‟, sobre os seus aspectos econômicos e ideológicos. A “glasnost”, a abertura, a eliminação de áreas proibidas à crítica, a exacerbação emocional na consciência das massas, especialmente entre os jovens, freqüentemente se manifestam também na exposição dos problemas que numa ou noutra medida foram „murmurados‟ pelas rádios ocidentais ou por aqueles nossos compatriotas que vacilam em suas concepções sobre a essência do socialismo. E sobre o que não se falou? Sobre o sistema multipartidário, sobre a liberdade de propaganda religiosa, sobre o abandono do país para morar no exterior, sobre o direito de tratar os problemas sexuais na imprensa, sobre a necessidade de
96 Ver Revista Princípios. São Paulo, n. 17, p. 7-14, jun. 1989. Na URSS, saiu na edição de 13/03/1988 do
descentralização na direção do setor cultural, sobre a abolição do serviço militar obrigatório. (ANDREIEVA, 1989, p.8)
A longa citação justifica-se por dois motivos. Primeiro porque reforça o diagnóstico feito por Gorbachev quanto à crise da sociedade como se referiu anteriormente. Segundo porque revela com nitidez a desconfiança quanto à amplitude das reformas que não atingem setores importantes jungidos ao sistema político, por exemplo.
Um evento que evidencia as mudanças na onda da Perestroika, embora não tinha relação direta, mas com conseqüências importantes para a cadeia de eventos que conformaria um quadro histórico-social determinante, foi a proposta dos países europeus influenciados pela política externa norte-americana de iniciar uma discussão para a formação de Comunidade Européia integrada: política, comercial e financeiramente. Em 1985, decidiram a unificação a ser concluída em 1992.97 Paralelamente a esse evento, o Pacto de Varsóvia e a OTAN deram início às conversações sobre a redução de armas estratégicas e convencionais através de acordos bilaterais.
A evolução desses acontecimentos leva a supor que, a sociedade em escala global, passava por alterações substanciais em seu modo de encarar os problemas econômicos, sociais, políticos, ambientais e, sobretudo, com a entrada na agenda dos debates da questão dos direitos humanos.