Segundo Mariano,73 a expansão do pentecostalismo é um fenômeno de amplitude mundial e vêm crescendo de forma considerável em várias sociedades em desenvolvimento, como o sul do Pacífico, da África e do leste e sudeste da Ásia.
Entretanto, no Brasil, o crescimento do pentecostalismo foi muito mais além do que o verificado nessas outras regiões. O Brasil se destaca como o maior país protestante da América Latina,com aproximadamente 50 milhões de evangélicos. 74
Mariano esclarece que a palavra evangélica, na América Latina, é utilizada para as denominações cristãs nascidas ou descendentes da Reforma Protestante europeia do século XVI. Portanto, a palavra evangélica é empregada tanto para as Igrejas Protestantes históricas, as quais cabem mencionar as Igrejas Luterana, Presbiteriana, Congregacional, Anglicana, Metodista e Batista, como as Igrejas Pentecostais, entre as quais a Assembleia de Deus, a Congregação Cristã no Brasil, A Igreja do Evangelho Quadrangular, O Brasil para Cristo, Deus é Amor e Casa da Benção, entre outras.
Passos75 define o pentecostalismo como um segmento do cristianismo que adota uma interpretação e uma prática marcadas pelo que consideram ser uma experiência do Espírito Santo, iniciada pelo batismo no Espírito Santo e confirmada pelos dons das línguas, a glossolalia, e das curas divinas. A sua característica principal é a centralidade na experiência emocional, com culto de louvor efervescente, a tendência à leitura literal dos textos bíblicos e a prática do exorcismo.
73
MARIANO, R. Neopentecostais, Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2005, 2ª Edição. p. 9.
74 Mariano utiliza esses números em sua Obra de 2005, cujos dados foram obtidos de Martin (1990:60).
Ricardo Mariano, por sua vez, descreve o pentecostalismo como surgido nos Estados Unidos, no começo do século vinte, sendo herdeiro e descendente do metodismo wesleyano e do movimento holiness.76
Para Mendonça77, do ponto de vista teológico, o pentecostalismo moderno tem sua origem nesse movimento de santidade, sendo que este, por sua vez, deve muito ao conceito wesleyano de perfeição cristã como segunda obra da graça, distinta da justificação.
O foco mais preciso do movimento pentecostal foi a escola Bíblica de Topeka, nos EUA, onde Charles Fox Pahram defendia a ideia de que o falar em línguas, conforme dado pelo dom do Espírito Santo, era um dos sinais que acompanhavam o batismo no Espírito Santo.
Romeiro78 informa que William Joseph Seymour, filho de ex-escravos, aprendeu por si mesmo a ler e a escrever, tornou-se pregador e foi aluno de Pahram.
Pela simpatia que nutria pela Ku Klux Klan79, Pahram proibiu William Joseph Seymour de frequentar a mesma sala de aula sobre seus ensinamentos a respeito do batismo do Espírito Santo, com pessoas cuja cor de pele eram brancas, mas permitiu que Seymour ouvisse do lado de fora da sala.
76 Segundo Passos, trata-se de um grupo norte-americano denominado santidade, do início do século XX, p.18.
77 MENDONÇA, A.G.; FILHO, P.V. Introdução ao Protestantismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1990.p. 47.
78
ROMEIRO, P. R. Esperanças e Decepções: Uma análise da Prática Pastoral do Neopentecostalismo na Igreja Internacional da Graça de Deus, sob a Perspectiva da Práxis Religiosa, Tese, 2004, p.45.
79
Ku Klux Klan (também conhecida como KKK) era o nome de várias organizações racistas dos Estados Unidos que apoiavam a supremacia branca e o protestantismo, em detrimento das demais religiões.
O pregador Willian J. Seymour, discípulo de Pahram, após ser expulso da Igreja da evangelista Nelly Terry, em Los Angeles, por pregar a mesma ideia de Pahram, começou a promover reuniões de casa em casa e, no dia 6 de Abril de 1906, um menino de oito anos falou em línguas, seguido de outras pessoas. Iniciava-se pelo menos formalmente, o movimento pentecostal.
Após assistir aos ensinamentos de Pahram e entendê-los, Seymour alugou em Los Angeles um antigo templo metodista na Rua Azuza – 312. Nesse local, começaram os fenômenos que atraíram muitas pessoas. As experiências eram sempre acompa- nhadas de manifestações de línguas, profecias, orações em voz alta e ao mesmo tempo cânticos espirituais.
Apesar do contexto social extremamente hostil à raça negra, William Joseph Seymour viveu o que compreendia ser pentecoste, que era mais do que falar em línguas, significava amar, a despeito do ódio. Enfrentou o racismo e o ódio de uma nação, mas demonstrou que o Pentecoste era algo muito maior e diferente do es- tilo de vida americano de sucesso.
Esse pastor batista80 acreditava que um novo pentecostes iria unir negros e brancos, em uma época em que, nos EUA, havia forte preconceito e discriminação racial. Os negros deviam ceder seus lugares nos ônibus aos brancos e havia até bebedouros de água diferenciados para os negros não usarem o mesmo dos brancos.
Entretanto, as pressões foram tantas que, nos EUA, surgiram Igrejas pentecostais negras e brancas. Mas, ainda assim, isso não impediu o movimento de se espalhar de Los Angeles, chegando a Chicago e de lá para diversas partes do mundo.
Também no Brasil, Chicago exerceu grande importância na exportação do fenômeno. De lá, três pregadores vieram para o nosso país: Louis Francescon,
fundador da Congregação Cristã, Daniel Berg e Gunnar Vingren, fundadores da Assembléia de Deus.
Mendonça considera como sendo três as vertentes do pentecostalismo brasileiro, partindo do núcleo comum de Chicago: a Batista, a Presbiteriana e a Metodista.81
O pentecostalismo desconstrói as devoções santorais tradicionais. Passos declara que, na base do discurso inoclasta pentecostal, que renega o poder da imagem do santo, estão uma iconoclastia histórica, a perda da função social do santo e a busca de um novo sagrado, vivo e eficaz. Por esse motivo, os pentecostais afirmam a exclusividade de Jesus e de seu poder que, segundo Passos, cumpre a mesma função dos santos católicos, pois ele é o mediador entre Deus e os homens, capaz de resolver todos os problemas da metrópole, assim como interpretá-los.82
João Décio Passos também adota a expressão pentecostalismo, para designar todo segmento cristão, originado do ocorrido em Azuza Street e que se desdobrou em inúmeras denominações no Brasil.
Segundo o entendimento desse autor, para os adeptos do pentecostalismo, Deus todo-poderoso faz-se presente e atuante por meio de algumas mediações que possibilita aos fiéis uma relação de contrato e aliança, de forma a operar interferências no curso da natureza humana e da história, realizando milagres na vida dos fiéis.
No pentecostalismo, a Bíblia é a palavra de Deus e presentifica sua força. A Bíblia é usada como objeto hierofânico, que manifesta o sagrado. Da mesma forma como não há catolicismo popular sem a imagem do santo, não há pentecostalismo sem Bíblia. Contudo, a Bíblia sofre, no pentecostalismo, a mesma manipulação do santo pelo fiel. Seja abrindo uma pagina da Bíblia ao acaso para que Deus fale, seja
81 MENDONÇA, A.G.; FILHO, P. V. op.cit., p. 48. 82 PASSOS, J.D. op.cit., p. 104.
usando gestos de colocar a mão sobre a Bíblia, ou colocar contribuições entre suas paginas.83
Passos, ressalva que o pentecostalismo brasileiro tem vários começos no Brasil, a partir de sua chegada no início do século XX, construindo fases, linhagens e denominações, além da implantação de novas práticas.
Segundo Mariano, a principal diferença do pentecostalismo para o protestantismo estão expostas nas definições do pentecostalismo já descritas por Passos, à qual apenas acrescenta o discernimento de espíritos. As diferenças são baseadas na Bíblia, no seu livro de Atos, no capítulo dois.
Os pentecostais, ao contrário dos protestantes, acreditam que Deus, através do Espírito Santo, por meio de Cristo, continua agir hoje da mesma forma que no cristianismo primitivo, curando enfermos, expulsando demônios, distribuindo bênçãos e dons espirituais, realizando milagres, dialogando com seus servos, concedendo infinitas amostras concretas de seu supremo poder e inigualável bondade.84
As Igrejas pentecostais estão mais concentradas nas capitais e regiões me- tropolitanas, arrebanham as camadas mais pobres e menos escolarizadas da sociedade, as quais buscam superar as precárias condições de existência, organizar a vida, encontrar sentido, alento e esperança diante da ineficiência do Poder Público.85 Entretanto há Igrejas que direcionam com relativo sucesso seu evangelismo às classes médias.86
83
Ibid., p.107.
84 MARIANO, R. op. cit., p.10. 85 Ibid., p.12.
Ricardo Mariano cita uma pesquisa feita pelo Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, que indica que de cada dez templos evangélicos criados no período, nove eram pentecostais.87
Esse crescimento foi tão notório que obrigou a Igreja Católica, acomodada pelos séculos de dominação religiosa no Brasil, a reagir ocupando mais espaços na TV com a Rede Vida, a maximizar o uso das suas quase 200 emissoras de rádio, incrementar a participação dos leigos nas celebrações, revalorizar tradições populares e as pastorais sociais e de saúde. Além de renovar ainda mais sua liturgia, para além das inovações concebidas pelo Concilio Ecumênico Vaticano II, abrir novas pastorais, tornar sacerdotes mais disponíveis, acolhedores e atentos as necessidades dos fiéis e conceder espaços a expressividade emocional nas missas.88
Mariano menciona que, nos EUA, é comum utilizar a metáfora marinha de ondas para classificar distintos movimentos de renovação da linha pentecostal. Cita ainda que David Martin (1990) distingue três grandes Ondas: a Puritana, a Metodista e a Pentecostal, e que a maior façanha desta última foi espalhar-se pelos mundos anglo e hispânico em larga escala.
O pentecostalismo no Brasil foi dividido por Mendonça em duas fases89. Conside rou como sendo os primeiros anos do século XX o surgimento do pente- costalismo clássico, e a década de 1960 como o surgimento do neopentecostalismo, da renovação carismática católica e das agências de curas divinas.
Paul Freston dividiu o movimento pentecostal em três Ondas, a partir de um corte histórico institucional e da análise dinâmica interna do pentecostalismo brasileiro, a qual, acrescentada pelas recentes pesquisas de Mariano e Passos, entre outros,
87 Ibid., p.11. 88 Ibid., p.14.
retrata melhor o fenômeno, ao contrário de outros autores que dividiram o movimento do pentecostalismo em apenas duas fases distintas.
1.11.1 A PRIMEIRA ONDA OU PENTECOSTALISMO CLÁSSICO
Para Paul Freston, a primeira Onda do pentecostalismo brasileiro inicia-se no período de 1910, com a chegada da Congregação Cristã, seguida pela Assembleia de Deus em 1911. Mariano classifica esse período como Pentecostalismo Clássico.90
Essa primeira Onda pentecostal é marcada por certa linearidade e regularidade, constituindo um período longo e com um crescimento lento. A Congregação Cristã é marcada pela imigração italiana, sendo seu fundador um italiano, Luigi Francescon, no bairro do Brás em São Paulo.
Francescon passou pelo presbiterianismo avivalista norte-americano, integrou o movimento holiness em Chicago, em um grupo coordenado por um pastor que presenciou os fenômenos de glossolalia de Los Angeles, juntamente com Seymour.91
A Assembleia de Deus vem da mesma raiz pentecostal norte-americana, mas constitui bases teológicas muito diferentes da Congregação Cristã. Também nasceu do querigma missionário dos holiness. Essa Igreja foi fundada por dois imigrantes suecos vindos de Chicago, que afirmavam ter recebido orientação divina para fundar a Igreja em Belém do Pará.
Passos informa que foi em 191092 que ocorreu a vinda dos suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg para o Brasil. Congregaram inicialmente em uma Igreja Batista de
90 MARIANO, R. op. cit., p. 29. 91 PASSOS, J.D. op. cit., p.88. 92 Ibid., p.90.
Belém. Porém suas pregações pentecostais provocaram um cisma após sete meses e desencadeou na fundação da Assembleia de Deus.
Contudo, esse pentecostalismo das duas Igrejas, Congregação Cristã e Assembleia de Deus, reinou de forma absoluta até 1950, desde a fundação das Igrejas até sua difusão para todo o país. Inicialmente, seus integrantes eram pessoas simples, de baixa escolaridade.
Essas pessoas eram discriminadas pelos protestantes históricos e perseguidas pela Igreja Católica. Tinham a crença na volta iminente de Cristo, na salvação paradisíaca e um comportamento de radical sectarismo e ascetismo, de rejeição do mundo exterior.
Essa primeira Onda abrange o período de 1910 até 1950.