A Alta Gastronomia, no início de suas publicações, mantinha um discurso que afastava os chefs de cozinha de um público comensal. O leitor que quisesse identificar na revista o estabelecimento no qual o chef atuava, para desfrutar de uma refeição produzida por ele, teria dificuldade para conseguir tal informação. Para tanto, seria preciso que o sujeito atentasse a detalhes expostos junto à imagem do chef, na tentativa de encontrar, por exemplo, um
logotipo que estivesse impresso, ou bordado, no uniforme do profissional, identificando-o a um estabelecimento ao qual ele estivesse vinculado (FIG. 34). É pertinente lembrar que esses modelos de chefs, ora posicionados em um Olimpo, estariam distantes da realidade, ou seja, do próprio mercado de trabalho. Mas, nas publicações de 2005 e 2010, o modelo de profissional divulgado começa a ser outro e as informações do mercado, como a dos lugares onde os chefs trabalhavam, passam a ser mais explícitas (FIG. 35). Assim, ainda que o enunciador tenha mantido em todas as publicações o foco no gênero das receitas, ele passa a convocar o enunciatário a frequentar os espaços dos restaurantes em que os chefs atuam.
Figura 34- Os chefs Leo Filho e Patrick Ferry. Ambos usam toque blanche, a parte do uniforme em que está exposto o nome do estabelecimento onde ambos atuam como profissionais, respectivamente, Hotel Macksoud Plaza e Sofitel.
Figura 35- Divulgação dos restaurantes em que atuam os chefs. Junto às receitas são explicitamente expostos os lugares onde o leitor pode provar as iguarias sugeridas e produzidas pelos chefs.
Fonte: Alta Gastronomia (n.45, maio de 2005, p.58 e n. 94, maio de 2010, p.46). Acervo do próprio autor
A revista dispõe os chefs de cozinha em destaque em todas as edições. Eles sempre aparecem em uma fotografia antes ou ao lado das receitas que sugerem (FIG 28, 33 e 34). Essas imagens ajudam o leitor a reconhecê-los, aproximando-os da condição de celebridades. Ao considerá-los assim, é pertinente trazer como referência uma afirmação de Prado (2011), para quem, no mundo contemporâneo, as celebridades fazem parte dos processos simbólicos como modelos de consumo de vida, e que em torno delas circula o consumo de produtos, serviços e valores a elas agregados.
Entendendo-se os chefs como um modelo de consumo e de vida, e como parte dos processos simbólicos na área do mercado da gastronomia, o que se nota nas publicações mais recentes da Alta Gastronomia é uma construção para que esses profissionais tornem-se protagonistas de um cenário: o dos restaurantes.
Como visto, na revista de maio de 2005, junto às receitas sugeridas por cada chef, está impresso, em uma nota de rodapé, o nome e o lugar do estabelecimento onde eles atuam. No número 94, de maio de 2010, assim como nas outras edições que seguiram o mesmo modelo desde o número 50, ainda há a uma chamada em tom imperativo: fale com o chef (FIG. 35).
Junto a essas informações há um quadro junto à receita com um enunciado, outro dispositivo que euforiza a figura do chef: a dica do chef (FIG. 36). No conjunto, as imagens dos chefs são mantidas (FIG. 33).
Desse modo, a imagem dos pratos, trazida em todos os números da revista, e apresentada para encantar o leitor, mantém-se vinculada à presença de um chef, que, por sua vez, é o autor das referidas obras, é quem as propõe. Ainda que nas primeiras edições ele fosse o personagem que de maneira presunçosa era colocado próximo a um Olimpo, em 2010, se observado pelo ângulo do mercado contemporâneo, ele será tão importante quanto antes, pois o enunciador dá a ele o papel de especialista nas publicações. Prado (2011) nomeia como especialistas aqueles profissionais que, ao serem procurados pelos meios de comunicação, expõem seus discursos tecnologizados, com orientações que constituem um pacote discursivo, para atingir um público específico. Ainda expõe que, em grande parte, são as celebridades que endossam, com suas vozes, os resultados positivos alcançados em relação às promessas do enunciador.
Figura 36- Dica do chef- destaque da receita ilustrada na capa.
Fonte: Alta Gastronomia (n. 94, maio 2010, p. 46). Acervo do próprio autor
O enunciador, ao apresentar um chef que esteja próximo do mercado dos restaurantes e dessa realidade como um trabalhador, aproxima-o dos sujeitos comuns, que passam a estimá- lo por ele manter essa condição humana, mas é alguém que alcançou o sucesso. Rojek (2008, p. 20), que analisa o fenômeno das celebridades, aponta que “o reconhecimento de que elas
são humanas muitas vezes intensifica a estima pública”. Junto a isso, ao oferecer o poder da fala ao chef, e em tom imperativo, o discurso desse personagem ganha poder de convencimento em relação ao enunciatário, que o tem como um exemplo a ser seguido, posto ele ter sido também exposto na condição de especialista.
Desse modo, o sujeito que produza um prato sugerido por esses profissionais, ou que tenha a oportunidade de encontrá-los em seus restaurantes, goza ao sentir-se mais próximo da conquista do sucesso alheio. Segundo Prado (2011), no mundo contemporâneo, os valores são mapeados para isso, ou seja, para que os indivíduos atinjam o sucesso, tenham vitória na carreira e busquem constantemente o prazer. E, segundo o autor, esses princípios são valores endossados nos discursos midiáticos pelas vozes de personagens que alcançaram bons resultados.
Nesse mapa, criado pela Alta Gastronomia, o público, na ilusão de estar mais próximo ou na mesma condição do chef de sucesso, é convocado não só a se aproximar, mas também a replicar os valores ditados por eles. Justifica-se essa afirmação ao tomar Rojek (2008, p. 39) como referência, quando o autor aborda o tema celebridades. Justificando-se ter como base o pensamento de Morin, ele afirma que as “relações de vida no capitalismo constituem um estado de coisas ilusório” e complementa, explicando que “o capitalismo nos aliena tanto uns dos outros, e de nossas próprias naturezas, que projetamos nas celebridades as nossas fantasias de pertencimento e satisfação”.
2.3 O papel dos especialistas no discurso da construção da comida brasileira