O hipertexto abriu novos horizontes quer ao nível da representação do conhecimento, quer ao nível do papel do utilizador face a essa nova representação. Estes sistemas, devido à forma como organizam a informação e às possibilidades que dão ao utilizador, apresentam dois problemas já identificados por diversos autores: a desorientação e a sobrecarga cognitiva. Assim, Carvalho (1999: 99) refere que “a sobrecarga cognitiva que é imposta ao utilizador e a sensação de estar perdido no hiperdocumento podem acarretar sentimentos de frustração (…)”.
Jonassen e Mandl (1990) referem que por vezes os hiperdocumentos têm centenas ou milhares de nós, podendo acontecer que o utilizador facilmente se perca, não sabendo de onde veio, para onde deverá ir ou até como sair da parte do nó em que se encontra. Estas situações provocam sentimentos de ansiedade, podendo inclusive o utilizador ter-se esquecido de qual o propósito do uso do hiperdocumento.
Com o surgimento dos primeiros computadores, a usabilidade da interface era deixada para um segundo plano. No entanto, Eberts (1994: 5) afirma:
“In recent years, for a product to sell or be used, the interface must be well designed. (…) Whereas a few years ago users would be content with a program containing the needed functionality, even though it was difficult to use, this is no longer the case.”
Jonassen e Mandl (1990) defendem que não se consegue conhecer totalmente os utilizadores finais. Assim, devem-se usar, se possível, protótipos e efectuar-se uma
avaliação da interface com futuros utilizadores e o quanto antes. O objectivo será o de fazer readaptações de acordo com o feedback recebido.
Malone et al. (1984) considera que avaliar a Interface depois de construído um documento tem a vantagem desta ser avaliada em todos os seus aspectos. No entanto, ao se esperar para que todo o processo esteja concluído, será mais difícil fazer alterações. Assim, o autor defende claramente que a avaliação deve começar mais cedo e tão cedo quanto possível.
Carvalho (1999; 2001) também refere a importância dos testes de usabilidade, os quais deverão ser implementados ao longo de todo o processo de produção do documento. Para uma fase inicial propõe o teste exploratório. Também para uma fase inicial ou para depois do acima referido, o teste de avaliação. Numa fase mais adiantada, o teste de validação ou verificação. Finalmente, numa qualquer fase de desenvolvimento do processo, o teste de comparação. Os vários testes a efectuar dependem do objectivo do hiperdocumento e do estudo e podem medir vários aspectos.
No que concerne aos testes de usabilidade, Nielsen, num artigo publicado em Jonassen e Mandl (1990), defende a necessidade de se fazer previamente um plano com os seguintes parâmetros, entre outros: objectivo do teste, quem se vai submeter ao teste, quantos utilizadores se vão submeter ao teste, descrição das tarefas a propor, definição de quando se pode decidir que o teste terminou, que tipo de ajudas são permitidas (nenhuma, manual, on-line, …) e que ajudas pode dar o autor (normalmente nenhumas).
Nielsen (1990) apresenta-nos cinco parâmetros para medir a usabilidade de um documento hipertexto, nomeadamente:
1. Fácil de aprender, isto é, o utilizador possa rapidamente trabalhar com o sistema, aprendendo os comandos básicos de navegação;
2. Eficiente de usar, ou seja, depois do utilizador aprender a trabalhar com o sistema, possa encontrar rapidamente a informação pretendida;
3. Fácil de lembrar, de modo que o utilizador que esteja algum tempo sem trabalhar com o hipertexto, não tenha de reaprender a funcionar com o mesmo;
4. Pouco sujeita a erros, para que poucos erros possam ocorrer e os que ocorram não sejam de suma importância;
5. Agradável de usar, de tal modo que quem interage com o sistema sinta satisfação por estar a fazê-lo e o prefira a outros modos de apresentação da informação, como o papel.
Para Hix e Hartson (1993), a usabilidade, prende-se com a eficiência e eficácia da interface e com a reacção do utilizador a essa interface. Para estes autores, a naturalidade que a interface apresenta ao utilizador também é um aspecto importante a ter em conta relativamente à usabilidade.
Carvalho (1999; 2002a: 236), depois de uma análise a esta questão protagonizada por diversos autores, alguns dos quais aqui referidos, considera que um hiperdocumento “deve ser fácil de aprender a usar, deve ser fácil de utilizar e deve provocar satisfação no utilizador”.
Tendo em consideração a importância da realização de testes como forma de avaliar a interface, foram efectuados testes de usabilidade à WebQuest desenvolvida por especialistas das áreas de Matemática e de Tecnologia Educativa e por sujeitos provenientes da população dos futuros utilizadores (Carvalho, 2002a).
3.4.1 Testes realizados por especialistas
Da avaliação feita por especialistas ou avaliação heurística (Carvalho, 2002a) surgiram alterações pertinentes para que a WebQuest melhorasse tanto a nível de interface, como a nível de linguagem adaptada às necessidades dos alunos.
Foram realizados testes por especialistas da área da Tecnologia Educativa e da área da Matemática. Dos testes realizados por especialistas da Tecnologia Educativa, surgiram propostas de alteração a nível de interface. Mais concretamente, a nível da informação a incluir nos rodapés, na organização estética da informação das diversas páginas da WebQuest e no espaçamento exagerado utilizado no menu entre as páginas da entrada e da ajuda em relação às páginas da WebQuest propriamente ditas.
Dos testes realizados por especialistas na área da Matemática surgiram também alterações que foram implementadas, nomeadamente: alteração do título de uma página de “Produto de um monómio por um polinómio” para “Produto de um monómio com um polinómio” e alterações a nível da abordagem da matéria em questão, através da introdução dos polinómios com forte ligação à componente de áreas.
Todas as propostas recebidas foram implementadas, tendo as mesmas contribuído para uma melhoria na organização da informação.
3.4.2 Testes realizados com sujeitos do público-alvo
Relativamente aos testes de usabilidade desenvolvidos junto do público-alvo, a amostra integrou quatro alunos do oitavo ano. No entanto, apenas dois testes foram considerados válidos, um de um indivíduo de género masculino e outro de género feminino, uma vez que os outros dois alunos, apesar de se terem oferecido para voluntariamente realizarem o teste, não o fizeram na totalidade, pois só durante o teste se aperceberam que teriam de estar concentrados, pois não era uma brincadeira como pensavam inicialmente.
Com a realização deste teste pretendia-se verificar se os alunos conseguiam navegar com agilidade na WebQuest e se percebiam o que lhes era pedido em cada página. Para o efeito desenvolveu-se um questionário (Anexo 1).
Houve o cuidado de se verificar, antes do início do teste, que o utilizador se sentia relaxado, sendo bem frisado pela investigadora que o que estava a ser avaliado era o site e não a prestação dos alunos (Carvalho, 2002a).
Para que os alunos não se sentissem constrangidos, ao invés da observadora lhes ir colocando questões à medida que percorriam o hiperdocumento, optou-se por entregar um questionário sobre a WebQuest aos alunos (Anexo 1) para que eles utilizassem o tempo que consideravam necessário em cada página, sem haver pressões exteriores. O questionário, de acordo com os objectivos do teste, integrava informação ao aluno antes deste iniciar o teste e doze questões sobre a navegação implementada e sobre os conteúdos das páginas, sendo que a última era constituída por duas alíneas.
As primeiras três questões eram a respeito da página de entrada, sendo as duas primeiras sobre informações da página e a terceira sobre hiperligação para a página seguinte. Esta terceira questão constituiu um problema, pois os alunos não conseguiam encontrar a hiperligação de acesso à página que se seguia.
A quarta questão referia-se às páginas que eram apresentadas, não tendo nenhum dos alunos referido a página de entrada nem a da ajuda.
Na quinta questão perguntava-se aos alunos como faziam para percorrer as páginas da WebQuest e se haveria mais de uma maneira de o fazer, tendo ambos respondido que era “clicando nas páginas para abrir”, ou seja, apenas utilizando o menu, não tendo nenhum referido a possibilidade de navegação linear do final de cada página.
A sexta questão era acerca das tarefas que eram propostas, tendo os alunos respondido que era procurar e compilar informação num portefólio (um deles chegou a
mencionar todos os temas das actividades) e fazer uma apresentação em PowerPoint para os colegas e professor.
As três questões que se seguiam eram de resposta rápida. Perguntava-se onde encontravam indicações acerca do trabalho a fazer, onde encontravam toda a informação necessária para desenvolver os conteúdos pedidos e como os alunos sabiam como iriam ser avaliados. Os alunos responderam correctamente.
Na décima questão, perguntava-se quem avalia os alunos. Um dos alunos respondeu correctamente que era o professor, os colegas de grupo e os colegas da turma, tendo o outro apenas respondido o professor, apesar de ter percorrido a página e de ter visto outras avaliações além da do professor.
Na décima primeira questão a resposta foi unânime, quando questionados acerca da possibilidade da existência de alguma dúvida, ambos referiram que se devem dirigir à ajuda.
A última questão referia a existência de uma hiperligação na página da conclusão, perguntando qual era essa hiperligação e a que página se acedia. Um dos alunos não respondeu a essa questão e o outro preparava-se para fazer o mesmo. Nessa altura a investigadora apercebeu-se que a palavra hiperligação não era familiar aos alunos. Quando explicou ao segundo aluno o que pretendia com a pergunta, ele de imediato respondeu correctamente.
Da realização dos testes de usabilidade, surgiu a necessidade de se efectuar uma alteração na página de entrada da WebQuest, pois como já foi referido, os alunos não sabiam como prosseguir além da página de entrada. Assim, foi acrescentada a frase “Clica na imagem ou em polinómios para entrar”, de forma a facilitar a identificação das hiperligações disponibilizadas.
A única alteração que se achou pertinente fazer foi a referida, pois mais nenhum aspecto da WebQuest constituiu entrave para a navegação e compreensão do site pelos alunos.