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Bevisets stilling er avgjørende for mange overgrep mot barn

7. Fra overgrep mot barn – til dom?

7.6. Bevisets stilling er avgjørende for mange overgrep mot barn

Rezava no missal empertigada, os lábios se movendo quase silenciosos, os olhos transparentes. Total beatitude. (...) Em meio da leitura imperturbável, pousou a mão na testa de Ana Clara:

― Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona ei reqiem sempiternam. ― Lorena, tenha juízo e pára com esse teatro, entende. Você vai chamar Madre Alix e eu vou desaparecer (...) não posso ficar nem nas imediações quando essa morte explodir e a polícia se instalar nessa mansarda! Conforme os jornais ela morreu devido a uma dose excessiva de barbitúricos, sabe o que isso significa, não sabe? (...) ― Você é perfeita, as freiras são santas mas e eu? Deixamos o corpo lá no quarto, não chamamos ninguém, melhor ainda, carregamos o corpo... Não posso continuar (...) Ana Clara já virou corpo. Nomes,

apelidos, tudo desapareceu e ficou só o corpo. Eu disse o corpo. Aceitei sua morte. E Lorena tomando providências sem maior aflição

(...) toda composta acendendo seu incenso e pedindo calma.

― Lógico que você precisa sumir, querida. Deixa o resto por minha conta.

― Que resto?

Ela sopra a brasa. O incenso começa a escapar em fios tênues pelos furos da ânfora dourada.

(...)

Abriu o armário e está escolhendo um vestido. Então a idéia maravilhosa é vesti-la? Evidente que não, deve vir mais coisa por aí, o modo como me olhou com aquele ar de sacerdotisa. A voz de vitral.

Lorena estendeu na cadeira um longo preto com bordados

prateados que começam na gola alta e descem com a fileira de botõezinhos até a barra. (AM, p.243). (...) já separou a meia-colante cor de fumaça e o biquíni de renda.

(...)

― Tive a intuição. Disso que aconteceu, digo mais ― murmurou ela pondo as mãos sobre o vestido. Está lívida: ― Meu irmão Remo que me mandou este Kaftan de Marrocos, eu juro que pensei, é Aninha que vai usar isto não vou usar nunca nem me serve, imagine. Quem vai usar é a Aninha. Para sempre, intuí. Tive um estremecimento enquanto fechava a porta do armário, era como se estivesse fechando seu caixão.

Pronto, começaram as iluminações. Desvio o olhar de Lorena. ― Podre de chique, hein, Ana Turva? Marrocos.

― E combina com os sapatos dela , pobrezinha. Pena que não tenha argolas de prata.

Ela disse argolas? Vai fazer-de-conta que Ana está viva. (AM, p.244). (...)

― Mas o que você vai fazer?

Não era preciso perguntar, seus gestos são nítidos. Ordenados.

Tirou o creme-base rosado e começou a maquilar Ana Clara. (...)seus

cansaço, sem desfalecimento prepara o freguês como se não tivesse feito outra coisa na vida.

― Venha, Lião, venha ver. Ah, como ela está ficando bonita. Ajoelhada

na cabeceira da cama, Lorena está sombreando de verde a pálpebra de Ana Clara. Às vezes se afasta um pouco para ver melhor o efeito. Parece satisfeita, o pincel na mão esquerda e a caixinha na direita, é canhota. Luminosa sob a base rosada,a face me

parece agora mais distante. Desinteressada. Será só impressão minha ou a meia-lua dos olhos diminuiu? Está ligeiramente encoberta, como se a névoa da noite tivesse chegado até ali. Não me lembro de tê-la

visto tão bem vestida e tão bem maquiada como nesta hora. Na poltrona, as correntes de prata.

― e os colares? ― pergunto.

― O vestido já tem muito bordado, fica mais fino assim (...) Os cabelos. Atenção especial para os cabelos. Vou buscar o frasco de perfume, faço questão de trazer o perfume. (...) não me seguro mais. Respiro bem fundo antes de falar: ― Você está exagerando, entende. Você sabe que está exagerando, não sabe? Estamos aqui feito duas dementes completas, presta atenção, Lena: vão botar ela numa

padiola ou sei lá o que e daqui vai reto pra autópsia, sabe o que é autópsia? O médico vem e retalha tudo e depois costura. Fim. Tudo

isso que você está fazendo vai ser desfeito na mesa de mármore, não

tem sentido, Lena. Não tem sentido!

― tem sentido sim. Me solta, querida, estamos atrasadas.

― Mas ela não vai pra festa!

Apanhou no chão os sapatos de fivela e delicadamente calçou-os na morta (...)

― Lena, daqui a pouco amanhece, tenho que ir embora antes que amanheça, certo? Mas não quero te deixar sozinha, diga logo qual é essa sua idéia e eu ajudo mas depressa, depressinha que no seu relógio já passa das três!

― Sim, vamos imediatamente ― murmurou ela entrando no banheiro, o chambre vermelho apertado contra o peito.

― Vamos, Lena. Essa bolsa atrapalha, você leva depois. Mas a bolsa tem que estar com ela, querida.

― Na cama?

― Mas ela não vai ficar na cama ― disse Lorena. Encarou a amiga: ― Ana Clara não vai ficar na cama.

― Não?

― Lógico que não. Ela não vai ser encontrada no quarto, ela não morreu no quarto, morreu noutro lugar.

―Onde?

― Numa pracinha. Mas por que você pensa que fiz esses preparativos todos? Vai ficar numa pracinha, tem um banco debaixo de uma árvore, é a praça mais linda que existe (...) ― veja que as coisas todas vão se

ajustando, o carro, a neblina. Nunca vi uma neblina tão providencial, a noite estava claríssima, lembra?. (AM, p.248-9).

Nos trechos destacados evidencia-se a tensão entre duas forças, dois vetores simbolizados pelas falas das duas personagens, Lia e Lorena. O primeiro vetor está representado em Lia, personagem que “aceita” a morte e gera um movimento para a separação, o distanciamento (grande espaço da morte); o segundo vetor tem em Lorena o valor que puxa para a presença, co-relação/co-munio (grande espaço da vida). O corpo de Ana Clara funciona como o vórtice poético que concentra essas duas forças relacionais.

No plano da linguagem, esses dois vetores presentificam uma prerrogativa da linguagem literária como expressão que:

De um lado, reserva-se aos medos e desejos humanos em articulação com as experiências e os modos adotados por uma cultura; de outro, seu poder para desafiar as normas vigentes dessa cultura, contradizer e gerar tensões dialógicas dentro de si mesma, sabendo ser a linguagem essencialmente diálogo (PALO, 2004, p.5).

Além dessa primeira observação, é possível ver que o corpo morto de Ana Clara abandona-se aos cuidados de Lorena, artífice que tem consciência de sua técnica e de seu método, conforme os trechos destacados em negrito. Podemos ver nessa consciência do artifício a presença do alegorista, para quem a visão da transitoriedade das coisas e a preocupação de salvá-las para a eternidade estão entre seus temas mais fortes (BENJAMIN, 1984, p.246).

Há, também, nesse embelezamento da morte operado pela personagem Lorena, a presença de uma deliberação artística reveladora de que o artista é aquele que, em vez de imitar a natureza, se permite retocá-la para corrigir suas imperfeições. Também o poeta se torna, assim, um poderoso interventor capaz de tudo remodelar a seu bel- prazer. Sobre essa tarefa do artista, Baudelaire declarou que ‘será sempre útil mostrar

os benefícios que a arte pode extrair da deliberação e mostrar ao mundo que trabalho exige este objeto de luxo que se chama poesia. (JUNQUEIRA, 2003, p. 38).

Esse “abandono do corpo” a uma técnica compositiva - vestuário, maquilagem etc - é explicado por Santaella (2004), como um movimento que possibilita ao homem lançar ao exterior suas funções,

se desprender do aqui e agora das circunstâncias, das imposições do meio ou das urgências vitais e projetar o que não estava aí. Desse modo, não é o corpo nu ou natural que estabelece a mediação ou fronteira entre o homem e o mundo, mas um corpo atravessado, modulado pela técnica, não sendo por acaso que esta se define como mediação. (...) Ao disseminar suas funções no espaço externo, nem o corpo nem o mundo permanecem os mesmos – o interior e o exterior, bem como a mediação entre eles, ganha novos contornos (p. 56). A técnica do artifício, presentificada na ornamentação do corpo da personagem, está relacionada à teatralização porque, analogamente à arte cênica, gera uma duplicação: da trama da vida pela trama do drama, do espaço físico pela cena e do ser humano pelo ator. Além disso, seu sentido primordial é

... dar visibilidade ao invisível, expô-lo como máscara e encarnação. A exteriorização – os elementos, as moldagens e as ações que a tecem – é sua anteface pública. Mas ela só pode existir, pela sua própria natureza projetiva, por uma relação orgânica e, no entanto, não poucas vezes opositiva, com sua outra face: a interioridade – alma, sentimentos , emoções, experiências íntimas e páthos de seu agente-paciente.. (GUINSBURG, 2001, p. 7).

A atitude de Lorena parece metaforizar também a atitude (re)criadora do artista, em sua luta contra o curso inexorável e “natural” do tempo, pois, conforme Gagnebin o artista “tenta, por assim dizer, adiantar-se ao tempo pela rapidez, criando imagens ao mesmo tempo efêmeras e duradouras que dizem a junção do temporal e do eterno” (2004, p.49).