Background Subtraction
5.7 GPU implementation
5.7.3 ZXY optimization of Zivkovic on the GPU
A catequese e a educação seriam geradoras de muitos frutos em prol do empreendimento missionário para fundar em Goiás novas sedes provinciais, seguidas pelo despertar de vocações religiosas, meios pelos quais essas raízes se tornariam sólidas e permanentes.
Dentre as frentes da ação missionária estariam a Catequese, a Educação Escolar e a Assistência Hospitalar. A principal e a mais urgente das ações seria a condução das escolas paroquiais, assim justificada na Correspondência Oficial:
Uma das necessidades Católicas urgentes aqui são as escolas primárias. Em cada cidade tem uma escola pública primária de uma espécie, e há muitas pequenas escolas privadas. Mas a religião não é ensinada em qualquer uma delas - ou se é, é muito superficial. Os pais, naturalmente, são incapazes de ensinar a seus filhos, e são seguidos pelo mau exemplo (CARTA 1 de 16/02/1945).
Tais urgências não eram gratuitas e tinham correspondentes nas preocupações antecipadas por Dom Emmanuel, quando dos primeiros contatos com a Província de Nova
York, cerca de três anos antes. Segundo Azzi & Klaus (2008, p. 143), “O projeto de recristianização da sociedade desenvolvido pela hierarquia eclesiástica considerava como sua alavanca principal a promoção da vida familiar”. Se as famílias goianas, pelo distanciamento dos sacerdotes, mantinham um culto religioso nos moldes do catolicismo luso-brasileiro, isso poderia representar uma fragilidade na observância das regras dogmáticas da Igreja Romana e uma possível dispersão do rebanho em direção a outras crenças.
A instalação do Estado leigo, a ausência do ensino religioso nas escolas públicas, a presença dos inimigos da Igreja, aqui representados pela ideologia comunista e os protestantes americanos, constituíam nas principais preocupações do prelado e das Ordens Religiosas e a urgente instalação da obra missionária nos domínios da diocese. A família era, portanto, o alvo a ser alcançado pelas ações missionárias.
A estabilidade da família era considerada um elemento básico para a manutenção da ordem social. Assim sendo, o principio “até que a morte nos separe” devia servir de norma para todos os casamentos, sendo o vínculo matrimonial considerado indissolúvel pela teologia católica (AZZI; KLAUS, 2008, p. 149).
Nos registros encontrei diversos fatos e eventos que tratavam sobre aspectos da família e da necessidade de fazê-la participante do culto e dos sacramentos da confissão e da comunhão, além do empenho em santificar a vida familiar pela via do sacramento do matrimônio.
A aproximação entre a hierarquia eclesiástica e o poder político ocorrida a partir dos anos 1920 permitiu que os prelados avançassem um pouco mais em suas metas de sacralização da sociedade, solicitando que o próprio rito sacramental fosse reconhecido com os necessários efeitos civis para a legitimação do casamento perante o Estado (AZZI; KLAUS, 2008, p. 342).
Mas as famílias goianas tinham suas práticas e cultos religiosos vivenciados com ou apesar da ausência dos representantes da Igreja Católica. Ao abordar a forma como se caracterizava a chamada religiosidade popular, Azzi & Klaus (2008) explicita como estes cultos eram conservados entre as populações brasileiras, desde a época colonial:
É bastante comum, sobretudo em cidades do interior, ver imagens ou estampas de santos colocadas nas paredes das casas para serem objetos de veneração. Nas residências de maior posse, um pequeno nicho ou ordário50 de madeira abriga a
estátua de um ou mais santos de devoção popular. Nas fazendas e engenhos era costume destinar um quarto especial para esse culto, ou mesmo construir uma capelinha dedicada ao padroeiro (AZZI; KLAUS, 2008, p. 639).
50 O registro de ordário foi mantido tal com se encontra na obra de Azzi, mas no contexto deste fragmento
Uma preceptora alemã que veio ao Brasil na última década do império, ao presenciar um batizado cristão concedidos às crianças negras como dádiva dos seus senhores, descreve como as elites rurais do período, conservavam em casa os ícones da simbologia religiosa cultuada por uma família católica.
Ao meio dia, abriu-se na grande sala de costura, um importante armário parecido com um buffet, cujo conteúdo já me havia intrigado, aparecendo lá dentro a Mãe de Deus com o Menino Jesus, fitas, grinaldas, coroas, braceletes, colares e brincos. O preto Felício, que me acostumara a ver como alfaiate na máquina de costura, todo paramentado, ajudou o padre como coroinha. Tudo isso parecia tão estranho à minha alma evangélica. Então, uma após a outra, vieram as mães pretas com seus rebentos mais novos todos muito bem vestidos e enfeitados com fitas de diversas cores; alguns tinham até vestidinhos brancos bordados [...] (BINZER, 1994, p. 41).
Nesse relato, é possível perceber que as práticas religiosas cultuadas no Brasil, ao estilo do catolicismo luso-brasileiro, atravessaram os séculos e se mantiveram especialmente no interior do país. Um aspecto que desperta a atenção na caracterização deste ritual de batismo, feita por Binzer (1994), são os elementos de sincretismos que aparecem no ambiente, tanto na decoração do oratório na casa grande, quanto no preparo dos catecúmenos para a cerimônia: junto da veste branca, símbolo católico dos novos filhos de Deus, a presença de fitas coloridas, típicas dos cultos de origem africana.
Estima-se que mais de noventa por cento da população do Brasil (e há cinquenta milhões deles) é católica. Mas uma grande percentagem raramente vê um padre, não tem quase nenhuma oportunidade para a formação religiosa. Eles têm, no entanto, a fé em sua própria maneira infantil, mesmo sabendo pouco sobre ela (ANAIS DA PROVÍNCIA, vol. XI, 1954, p. 72).
As irmãs, ao prepararem sua viagem para o Brasil, recebiam a instrução de que “Há poucas coisas que o brasileiro ama mais do que um cartão de santo ou uma medalha. Portanto, se você tiver uma oferta poderá trazê-los” (CARTA 09 – 03/12/1945).
Ainda sobre as manifestações da fé popularmente cultivada nas mais distintas e longínquas localidades do país, segundo Azzi & Klaus (2008), remontariam ao catolicismo típico dos tempos coloniais avivado especialmente pelo culto aos santos.
Numa reflexão de índole mais teológica, poder-se-ia dizer que essas celebrações do dom da vida constituem uma vertente popular da afirmação da graça divina. De fato, através das manifestações do culto, o povo celebra a presença amorosa de Cristo, de Maria e dos Santos na existência de cada um. Em última análise, as festas religiosas representam a antecipação simbólica da felicidade do paraíso (AZZI; KLAUS, 2008, p. 641).
A superação desta fé considerada ingênua deveria ser incentivada, porque as manifestações da religiosidade popular mantinham os fiéis desgarrados da igreja romana
institucionalizada. As orientações eclesiais, difundida pelos prelados junto às diversas paróquias de sua jurisdição apontavam ações nessa direção.
Incentivada e organizada pela Cúria Romana, a segunda evangelização tinha como finalidade específica enquadrar o tradicional catolicismo luso-brasileiro dentro do modelo eclesial tridentino, com seu enfoque ultramontano. O projeto visava reformar o caráter devocional e leigo da crença popular, mediante a ênfase no aspecto sacramental e no poder clerical. Era também sua meta colocar a Igreja do Brasil sob a estrita dependência da Santa Sé (AZZI; KLAUS, 2008, p. 383).
Esta fé considerada ingênua, na verdade, é a mais genuína expressão das manifestações da religiosidade popular brasileira, um traço marcante da cultura regional, cujas práticas não se vinculam necessariamente à instituição Igreja Católica. Combatê-la seria um esforço de direcionar o culto orientado pela hierarquia e pelos rituais padronizados pela Igreja Católica Apostólica Romana. Neste caso, a “conversão do gentio51” goiano se daria nos acordos e mediações promovidas pelos franciscanos entre as práticas religiosas locais e a introdução gradativa da observância dos mandamentos, da participação regular no culto e da entronização dos sacramentos, mediante a formação catequética.
Foto 12 – Devoções populares