2.5 First stitching pipeline prototype
2.5.2 Pipeline steps
Um dado interessante sobre Dom Emanuel, localizado em diferentes relatos e também na obra de Menezes, diz respeito à mobilidade do bispo que se ausentava da sede da Diocese para tratar das obras e do acompanhamento espiritual do Seminário Diocesano situado na cidade de Bonfim, (atual Silvânia). Apesar da distância, o prelado organizava a sua rotina de gestor eclesiástico dividida entre a Cidade de Goiás e Bonfim, sede do “Seminário Santa Cruz”, considerado por muitos literatos goianos como o berço de intelectuais e líderes de grande projeção no Estado.
Guardando n’alma o espírito de educador, herdado de dom Bosco, com a argúcia que era peculiar e ciente de que “é tão sublime governar as almas quanto formar os costumes dos jovens”, como ele mesmo afirmara, dom Emanuel, tão acertadamente cognominado Arcebispo da Instrução, não mediu esforços e nem sacrifícios para apoiar e incentivar as escolas existentes quando aqui chegou e para fundar novos centros educacionais onde a urgência o exigisse. Em decorrência da sua atuação, nove anos após, a realidade das escolas no estado apresentava-se mais otimista (MENEZES, 2001, p. 83).
O mesmo papa Pio XI, em 1932
[...] elevou a Diocese de Sant’Ana de Goiás à dignidade de arquidiocese e fez de dom Emanuel o primeiro arcebispo da nova província eclesiástica, cuja posse se deu na Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, catedral provisória da cidade de Goiás, no dia 16 de abril de 1933 (MENEZES, 2001, p. 18).
Assim, o 9º bispo de Goiás tornou-se o primeiro Arcebispo da Arquidiocese goiana e se transformaria em um dos importantes interlocutores do governo de Pedro Ludovico Teixeira, presidindo uma comissão composta pelo presidente da província para conduzir os estudos e a demarcação local onde seria instalada a nova capital do Estado.
A saga do bispo no campo educacional é descrita pela mesma autora, ao mostrar a abrangência e o nível de influência administrativa (não apenas espiritual) no encaminhamento de variados projetos.
Em Goiânia, os colégios Ateneu Dom Bosco, dos padres salesianos, Santo Agostinho, das irmãs agostinianas, e Externato São José, das irmãs dominicanas, nasceram e floresceram sob o olhar atento e o zelo amigo do Arcebispo da Instrução. O Colégio Santana, já existente na antiga capital quando da vinda de Dom Emanuel para Goiás, foi objeto de seu apoio e sua atenção. Em Goiânia, o Colégio Santa Clara, fundado em 1922 por irmãs franciscanas advindas da Alemanha, sempre contou com a presença amiga do arcebispo e com seu apoio e sua proteção.
Sua atenção se voltou, também, para o ensino profissionalizante. Ele propôs a criação de um departamento de ensino, de orientação católica, que criasse e supervisionasse outras modalidades de instituições escolares com um controle técnico orientado para o ensino especializado, que seria implantado particularmente nos centros de proletariado e nas zonas rurais.
Elaborou corajosos projetos nos quais firmava o propósito de levar o benefício da instrução a várias outras cidades da diocese. Foi na concretização desses projetos que surgiram o Ginásio Jesus Crucificado, em Ipameri, das irmãs missionárias de Jesus Crucificado; o Ginásio Madre de Deus, das irmãs agostinianas, em Catalão; o
Ginásio Planalto, em Formosa, das irmãs dominicanas; e o Ginásio Arquidiocesano, em Jaraguá (MENEZES, 2001, p. 98-99).
Sua larga experiência no campo educacional o favorecia no sentido de arregimentar esforços, buscar parcerias com o poder público e a iniciativa privada para criar instituições de ensino e de instrução técnica em diferentes pontos de sua jurisdição. Declaradamente um clérigo com poucas posses materiais, confirmado em seu testamente, era hábil em recorrer aos amigos e autoridades influentes para levantar recursos destinados às obras sociais e educacionais da arquidiocese.
Em sua espinhosa, porém, gloriosa luta, construindo escola e levantando templos, nunca esmoreceu na abençoada semeadura da semente da educação em todos os quadrantes de nosso estado. Enfrentava, com freqüência, a carência de recursos materiais. Porém, nada lhe servia de óbice ao prosseguimento de seu ideal, como se uma força superior, que não admite vacilações, o impulsionasse. Seus esforços, ungidos de idealismo e fé, foram a alavanca forte e firme que ergueu o nível da educação no coração do Brasil (MENEZES, 2001, p. 99)
Notadamente, sua habilidade política para mediar assuntos estratégicos e de interesse público, contribuiu para que a transferência da capital do Estado fosse conduzida sem grandes transtornos, evitando o acirramento de conflitos por parte dos contrários ao projeto. Outro feito creditado ao arcebispo antes de sua morte foi a de apresentar uma proposta para a criação de uma universidade em Goiás.
No Rio de Janeiro, o diretor do Ensino Superior, que examinou esse anteprojeto antes que passasse à apreciação da Assembléia Legislativa de Goiás, ficou impressionado com suas propostas, pois preconizava a criação de uma universidade de feição mista, reunindo estabelecimentos de ensino superior de várias categorias – particular, estadual e federal. Entusiasmado por essa proposta de universidade, sugeriu um anteprojeto “servisse de modelo para a criação de outras universidades, tal a modalidade especial encontrada, capaz de atender, por um lado, a mais alta perfeição do ensino e, por outro lado, o aspecto econômico”. (MENEZES, 2001, p.107)
Além mentor, assumiu a frente de elaboração do projeto e encampou a gestão política para que o mesmo fosse analisado nas instâncias do governo federal. Isso mostra que a capacidade intelectual, aliada à capacidade de articulação política e a possibilidade de trânsito e mediação que o cargo lhe conferia fez de Dom Emanuel um arcebispo estratégico e visionário para o seu tempo. De fato, contribuiu com um importante capítulo da história da igreja em Goiás, considerada nos seus diversos campos de atuação e influência, incluindo a educação e a expansão missionária.
2.2.2 O chamado para novas ordens religiosas: catequese e educação
Dom Emmanuel sempre incentivou a criação de escolas paroquiais, nas diversas paróquias de sua diocese. Aprendeu a dar valor a essas escolas com os americanos, pois, nos Estados Unidos, juntamente com a instalação de uma paróquia, costumam construir a casa paroquial e, ao lado, a escola paroquial (MENEZES, 2001, p. 99)31.
Menezes (2001), assim desenha as condições da educação em Goiás nas últimas décadas do século XIX:
Em 1879, assinalou-se a queda na Educação em Goiás. O presidente do estado, Luiz Augusto Crespo, negou aposentadoria aos professores. Quanto ao seminário, ele suprimiu as verbas que, em boa parte, garantiam sua subsistência. Nesta época foram fechadas 31 escolas primária em Goiás. O seminário também encerrou suas atividades, por falta de condições financeiras (MENEZES, 2001, p.51-52).
SILVA (1975)32, ao situar o movimento de mudanças na educação em Goiás, recupera um fragmento de reportagem no qual sinaliza as perspectivas educacionais do estado, mediada pela ação do Estado e da Igreja:
No século XX, a começar da segunda década, o quadro educacional experimentaria promissoras modificações. A igreja passaria à vanguarda da instrução com a disseminação de estabelecimentos de ensino, ‘em memorável empreitada, sob a esclarecida inspiração de Dom Emanuel Gomes de Oliveira’33. Na antiga capital,
homens e mulheres com arrojada tenacidade e forte sensibilidade educativa, procurariam nova sistemática para a instrução, a começar pela implantação de uma metodologia haurida na renovação científica da escola. Daí partiria um exemplo de renovação do ensino, o qual, mais tarde, teria oportunidade de vicejar, com maior força ainda, na nova capital, num processo gradativo de irradiação para o interior do Estado (SILVA, 1975, p. 48).
Já no século XX, em pleno período pós-revolução de trinta, Genesco Ferreira Bretas (1991)34 retrata a situação da rede escolar no estado, com poucas expectativas de expansão:
De 1930 até 1935, no governo revolucionário, o crescimento da rede escolar, no nível primário e no secundário, foi, pode-se dizer, vegetativo, isto é, não houve crescimento extraordinário para se dizer que a mudança de regime fosse benéfica
31 Fragmento do livro “Dom Emanuel Gomes de Oliveira, o arcebispo da instrução”, publicado pela AGEPEL,
Goiânia em 2001, no qual consta o empreendimento deste arcebispo na instalação do Comissariado Francisco em Goiás na década de 1940.
32 Esse trabalho é resultado de sua tese de doutorado defendida da FE/USP em 1975, transformada em livro:
SILVA, Nancy Ribeiro de. Tradição e Renovação Educacional em Goiás; Goiânia, Oriente, 1975.
33 COSTA, Lena Castello Branco Ferreira. As elites imaturas. In.: Mimésis (Goiânia-GO., 1 (1): 115-22; 1965.
Revista da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFG).
34 Professor e Inspetor da Educação em Goiás por várias décadas. Uma de suas obras: BRETAS, Genesco
Ferreira. História da Instrução Pública em Goiás. Goiânia: CEGRAF/UFG, 1991. (COLEÇÃO DOCUMENTOS GOIANOS N. 21).
para o ensino. O crescimento que se verificou guardou mais ou menos a proporção que se vinha notando nos últimos anos da primeira república. O número de escolas isoladas saltou de 161, em 1930, para 182, em 1935; o de grupos escolares, de 20, em 1930, para 31, em 1935. O número de escolas normais, reconhecidas pelo governo, subiu de 6, em 1930, para 11, em 1935 (BRETAS, 1991, p. 576).
É, pois, neste cenário que o Arcebispo Dom Emanuel Gomes de Oliveira assume a arquidiocese de Goiás e se depara com problemas de ordem social, religiosa e educacional, fatores que vão direcionar as prioridades de sua ação pastoral, confirmado pelas seguintes premissas:
[...] Diante da massa populacional inculta do sertão goiano, compreendeu que pouco poderia fazer pela religião se não priorizasse, nas suas ações, o instruir e o educar’. Destarte, a organização dos trabalhos pastorais mostrou que a instrução primária e secundária era, na prática, inexistente no estado e mesclou a política religiosa com cores, pode-se dizer, predominantemente educativas; ele criou e sustentou as escolas paroquiais. Foram elas, sem contestação, nas décadas de 1920, 1930 e 1940, as maiores responsáveis pela diminuição do analfabetismo em Goiás. (MORAIS, apud MENEZES, 2001, p. 9)35.
Ao adentrar a década de quarenta, o arcebispo de Goiás, Dom Emanuel, inicia gestão com a fim de conseguir missionários franciscanos da Província de New York para assumirem trabalho pastoral em sua diocese.
Dois fatores foram decisivos para este empenho do arcebispo: a saída dos franciscanos de algumas paróquias do território goiano que retornavam ao Mato Grosso e o visível avanço do protestantismo em algumas localidades do estado, motivos que despertaram a sua preocupação e o conseqüente pedido para que os missionários franciscanos da América aqui instalassem um Comissariado.
A fim de reafirmar a influência e o poder da Igreja Católica sobre a sociedade brasileira, conforme a linha mestra do projeto restaurador, os bispos esperavam contar com o apoio e a colaboração do poder político. Era através de uma ação do próprio Estado que a hierarquia eclesiástica sonhava readquirir o antigo prestígio e os privilégios de que gozava dentro do regime confessional vigente na colônia e no império (AZZI; KLAUS, 2008, p. 206).
Estes postulados de Azzi & Klaus (2008) se inserem num amplo movimento de reorganização do poder da Igreja Católica no Brasil no período Republicano, capitaneado pelo cardeal Leme, do Rio de Janeiro, cuja influência alcançou as mais longínquas dioceses e prelados36. Tais preocupações são confirmadas em correspondência da nunciatura de São Paulo com a Província do Ssmo. Nome de Jesus na América:
35 palavras da profª. Maria Augusta de Santana Morais na apresentação da obra de MENEZES, 2001, p. 9. 36 A obra de Azzi acima citada aborda alguns aspectos desta influência de Dom Sebastião Leme na rearticulação
[...] O Arcebispo quer que os padres venham logo, porque pretende começar logo um novo prédio para a escola e ginásio, mas agora quer deixar tudo nas mãos dos padres, para eles disporem o mesmo conforme eles mesmos quiserem. [...] Há outros motivos para um pouco de pressa: os protestantes americanos estão trabalhando muito em Anápolis e dão bastante trabalho ao Arcebispo. Ele acha que a presença dos Padres Franciscanos americanos seria a melhor maneira de obstar a propaganda dos protestantes. [...] Pelo menos um dos dois padres em Goiás precisa ir logo para o Mato Grosso. Não seria bom tirar os Padres Franciscanos de Goiás antes de virem os novos. Tudo está bem combinado aqui; não precisamos de negociações demoradas, e assim espero que de avião em algumas semanas os padres americanos estejam aqui. [...] (Fragmento da carta de Frei Mateus Hoepers – provincial SP ao
Revmo Padre Matias Faust – delegado geral da ordem dos frades menores em Nova Iorque – em 19 de maio de 1943, traduzida por WYSE, 1989, p. 308-309).
Como se observa, dentre as preocupações imediatas a serem resolvidas com a presença dos franciscanos em paróquias no interior goiano, já se antecipam possibilidades de expansão da ação pastoral, qual seja, a de assumirem instituições escolares, no que seriam favorecidos por aquisições realizadas pelo arcebispo antes mesmo de sua chegada.
Acrescenta-se a este contexto fatores como a precariedade das escolas públicas existentes e a incapacidade do governo em prover um sistema escolar em quantidade suficiente para todo o território goiano, onde havia considerável quantidade de analfabetos entre a população, bem como as dificuldades de acesso e comunicação interna, o que comprometia as vias de desenvolvimento no Estado e, por conseguinte, de difusão da fé cristã.
Se a salvação do Brasil dependia da religião católica, os bispos eram os seus mais categorizados representantes para orientar os governantes sobre as diretrizes morais a seguir, bem como para oferecer a colaboração da Igreja no que tange à manutenção da ordem social. A fim de implantar o projeto de recatolizar o país, os bispos decidiam solicitar a colaboração do poder político, em troca de um apoio declarado ao governo (AZZI; KLAUS, 2008, p. 191).
Assim, na política pastoral do bispado de Dom Emanuel, encontrar-se-á terreno favorável para a vinda dos franciscanos americanos para Goiás e a conseqüente criação das escolas paroquiais a partir da década de 1940, com prioridade para o ensino primário (nas escolas paroquiais) e o curso ginasial.
2.2.3 Contexto e espaço das Escolas Paroquiais em Goiás
É que no momento em que uma nova diretriz redefine as finalidades atribuídas ao esforço coletivo, os antigos valores não são, no entanto, eliminados como por milagres, as antigas divisões não são apagadas, novas restrições somam-se simplesmente às antigas (JULIA, 2001, p. 23).
A educação em Goiás, nas primeiras décadas do século XX compõe um cenário de iniciativas no âmbito da política estadual, do meio intelectual e religioso, desencadeadas desde o final do século XIX. Dentre as quais, destaco: o decreto de criação dos grupos escolares na década de 1890, que não se efetivou de imediato, pois o presidente do Estado somente encaminharia a construção das primeiras escolas graduadas por volta de 1918; diferentes reformas empreendidas na década de 1920; a mudança de governo pós- revolução de 1930 que imprime novas ações no plano educacional ao longo da década; a realização do 8º Congresso Brasileiro de Educação37, recepcionado pelas autoridades políticas na nova capital em 194238, evento no qual as questões educacionais de Goiás foram colocadas em evidência através da iniciativa de diferentes instâncias.
Por ocasião deste Congresso, a professora goiana Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro, ao tratar da educação primária fundamental para o alto sertão, indica as preocupações centrais da educação em Goiás:
[...] sendo o nosso Estado de grande extensão territorial e pequena densidade de população, possui vastas zonas de sertão. Daí interessar a Goiaz, intensamente, o estudo do problema, que é o seu magno problema – a educação nas zonas de alto sertão. Pelo fato de sua colonização ter vindo do sul, de SP, tornou-se esta parte do Estado mais populosa. O norte goiano ficou com sua população mais reduzida, dispersa por uma superfície considerável. Sua densidade de população é de 0,6 habitantes por quilômetro quadrado. Este fato dificulta a distribuição das escolas. Interessa, pois, ao Estado procurar a solução do problema educacional na zona sertaneja (ANAIS do 8º CBE, 1942, p. 103).
Este descompasso entre discursos e práticas, entusiasmo e resistência vai perpassar a educação primária nas décadas da primeira metade do século XX em Goiás, a ponto de configurar avanços e retrocessos, constituindo o que denomino de lacuna na educação que será, em parte, preenchida pelas escolas paroquiais franciscanas.
O sudeste goiano serviu de porta de entrada para bandeiras e imigrações desde o século XVIII. Pela proximidade com Minas Gerais e Triângulo Mineiro e por se constituir em via de acesso a São Paulo, as cidades desta região foram as primeiras a serem beneficiadas, apesar da precariedade, com o transporte ferroviário que adentrou o estado na primeira metade do século XX. Mais tarde, ao ser definida a transferência da capital federal para o Centro-Oeste, o sudeste goiano novamente ficou na rota das vias de acesso ao distrito federal pela rodovia BR-050.
37 Consta nas publicações do Congresso que este evento teve como ponto alto o baile de gala, oferecido aos
congressista pelo Governador Pedro Ludovico Teixeira e primeira Dama Dona Gercina Borges Teixeira como recepção dos educadores na nova capital.
38 Embora a transferência da capital de Vila Boa para Goiânia tenha ocorrido em 1937, oficialmente o Batismo
Mapa 2.2.3 – Presença Franciscana na região Sudeste em Goiás