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4 Analysis

4.3 The Workshop

Desde tempos imemoriais os seres humanos se utilizam de fala poética e de histórias, de gestos e de danças, de pinturas e objetos para dar conta do sentido e complexidade do enigma da vida. Não basta viver a vida, é preciso contá-la e recontá-la. É preciso igualmente alocar-se em estórias já prontas para nos situarmos no mundo. Como afirma Bauman (2001, p. 183) a pós-modernidade nos coloca na desconfortável posição de construir a vida a cada momento, a cada ação no mundo. A pós modernidade, segundo este autor, faz com que de algo dado, a construção da identidade humana passe a ser uma tarefa. E a cada ação específica uma variante de self se desdobra e aparece ao mundo e ao próprio ser em desdobramento. Autor e ator constroem cena e cenário das estórias.

A TSD comporta e assume esta multiplicidade de selves em seu modo descentralizado de funcionamento. A cada diálogo estabelecido corresponde uma história que dá identidade ao indivíduo que conta, reconta e produz um novo sentido. A cada diálogo estabelecido, ambas as partes dialogantes se transformam e se conectam gerando novas perspectivas. Van Buren (1977, p.76) também afirma a não centralidade do discurso da pessoa religiosa e, referindo-se aos cristãos mostra

que “os mesmos sempre reconheceram o lugar central da linguagem em sua religião”. A fé judaica, segundo este autor ”é recebida ao ouvir a história de Israel, das promessas, das esperanças”. A religião católica pode ser entendida como uma atividade lingüística, entender os processos do discurso religioso equivale a compreendê-lo. Os livros, as histórias, aquilo que cotidianamente se fala, os testemunhos vão configurando a identidade destas pessoas que tem na espiritualidade cristã católica o foco central de suas vidas.

Mesmo a Palavra Deus só pode ser entendida no conjunto do discurso teológico já que se trata de um Deus que fala e cuja palavra é ouvida pelos humanos. Deus é um ‘Outro’ de quem se fala e com quem se fala. Deus é princípio de todo e qualquer diálogo (MASSIH, 2009). Para estender esta dimensão dialógica podemos também lembrar que o Deus dos cristãos fala sempre através de um ‘outro’ que o sinaliza e evoca

O amadurecimento das representações de Deus se dá a partir de diálogos que as pessoas estabelecem com o mundo desde mais tenra idade, seja com as figuras de cuidado (pai, mãe ou substitutos) seja com os eventos do corpo (sensações de dor e prazer, fome e saciedade etc) ou da natureza (fenômenos naturais e/ou grandes catástrofes). As narrativas a posteriori fazem as conexões de sentido entre aquelas (narrativas) ouvidas e a repercussão das mesmas na construção da identidade.

Nas passagens bíblicas Deus fala também via profetas, personagens femininos e masculinos, animais e objetos de uso (cajado, cálice, cruz etc) e não de outro modo senão via metáforas. O Deus dos cristãos é conceitualmente dialógico e dialogal porque se torna presente no e através do diálogo. Diz van Buren (1977, p. 83): “Ele é a figura central de uma narrativa complexa, a Bíblia, que tem uma certa estrutura narrativa dramática; esta história é considerada básica para o uso da palavra Deus”.

Todos os personagens que, na base, falam do diálogo possível com a divindade vão se juntando de modo a criar nossos mitos pessoais, nossas experiências religiosas e/ou místicas. Então caberá ao psicoterapeuta limpar o terreno para ‘filtrar’ a espiritualidade própria do paciente em psicoterapia.

Para Cassirer (2000, p.101) a estrutura do mundo mítico e do mundo lingüístico é determinada e dominada pelos mesmos motivos espirituais. Para se

compreender estas ligações precisamos dar um passo atrás e verificar que esta estrutura comporta uma única concepção mental: o pensamento metáfórico.

No espanto do primeiro homem que chamou de Deus a natureza que trovejava, que chovia, que amanhecia e anoitecia, já havia uma passagem do sentimento de medo e espanto para a palavra articulada Deus ou o som gutural Oh!!!

A metáfora expressa o humano que transfere algo vivido no corpo (ou corporeidade = corpo + afetos) para a comunicação lingüística (escrita ou oral) que fará para si mesmo. Trata-se aqui do TU que vive o que o EU relata. Relata para o ‘outro’: seu grupo social, sua comunidade, seu terapeuta. E há ainda a linguagem silenciosa, inaudível, a que precede os relatos imaginativos tão comuns nas expressões de religiosidade. Antes de contar ‘para fora’, contamos para dentro. Ou contamos para fora e então ouvimos dentro? São questões como esta que permeiam a prática da psicoterapia e colaboram na função do terapeuta de fazer reverberar esta comunicação intra-subjetiva. Espelhando-a ao cliente, transformando-a, metaforizando para que ela faça sentido, deixe de ser comunicação comum (‘profana’) e passe a ser restauradora (‘sagrada’). Nas palavras de Cassirer (2000, p.105) metáfora, como condição radical da verbalização (Sprachbildung) e da conceituação (Begrieffsbildung) míticas, exige uma transposição, uma transformação pela qual “uma determinada impressão é levantada por sobre a esfera do comum, do cotidiano e do profano, e impelida para o círculo do “sagrado”, do significativo do ponto de vista mítico religioso”.

A narrativa que apresento no tópico a seguir quer mostrar um pequeno exemplo do trabalho de ensinar a fazer passagens, transposições, transformações no contexto da psicoterapia com base no vínculo estabelecido entre terapeuta e cliente. Vínculo este fortalecido pelo conhecimento das estórias e da história de vida do paciente. Com isto pretendo ilustrar a opção por uma Psicologia Hermenêutica (BELZEN, 2010, p.61) que inclui a ação do pesquisador no acesso ao objeto. Para um objeto que sente, dá sentido, intui, deseja, interpreta, se constrói na história, faz- se necessário um pesquisador que, metódica e metodologicamente, faz o mesmo. A cultura se apossa do indivíduo e vai configurando seu corpo e seus símbolos. O indivíduo torna-se assim devedor e, igualmente, sustentador da cultura na qual se desenvolveu.