Melcquior iniciou o processo psicoterapêutico segundo seu próprio desejo. Era muito exigente consigo próprio e com os demais colegas e superiores. Tinha mania de limpeza, não comia ‘qualquer coisa’, estava sempre às voltas com a cozinheira para ensinar como se faz receitas bem brasileiras: pamonha, polenta, bolo de milho, feijão bem temperado, arroz no ponto. Havia aprendido a cozinhar com sua avó materna.
Desde pequeno sentia que estava fora de lugar. Passou grande parte da infância se mudando para a casa dos avós maternos e voltando para sua casa à revelia e por exigência de seu pai. Já havia feito o pedido de acompanhamento há algum tempo porém o que fez o formador aceitar foram algumas conversas com o mesmo em que “confessou” não ter condições de perdoar seu pai, de quem guarda péssimas memórias. O formador confirmou que não era possível fazer os votos perpétuos com essa falha em sua espiritualidade.
“Como posso representar Deus como pai, se não gosto de meu pai?” Em outras ocasiões o verbo ‘gostar’ não lhe pareceu suficiente para exprimir seus sentimentos em relação ao mesmo e usou a palavra “ojeriza”60 “Se devo ver Deus como pai, como posso ser fiel?” Esta pergunta o paralizava de tal modo que havia pensado em sair da vida religiosa por julgar-se incapaz de perdoar. Temia que suas orações fossem artificiais e externas. Tinha ojeriza também, a meu ver, a certos alimentos preparados por sua mãe (frituras, comidas fortes, feitas para seu pai) e pela cozinheira na casa de formação. A esta última foi se apegando e construindo novos diálogos. Via o modo amoroso com que se dedicava à tarefa de cozinhar “para os padres” e foi convidado pelo formador a ensinar-lhe novos pratos mais ao gosto da maioria. Aí é que passou a influenciá-la com receitas bem brasileiras e
60 Cf o Mini Aurélio. Dicionário da Língua Portuguesa, a palavra “ojeriza” é definida como “ S.m. aversão, antipatia a pessoa ou coisa.”.
mesmo aquelas vindas da presença italiana no Brasil como a polenta. “Melhor dizer angu”, assim orientava a cozinheira. Apesar de ter nascido no interior de São Paulo, nota-se também a presença mineira em seus gostos e sabores.
Sua religiosidade o caracterizava passando por vias não transitáveis no seminário. Ninguém “abria a boca” para julgá-lo mas o fato é que os pedidos que fazia à avó para que o benzesse por telefone não eram muito bem aceitos pela comunidade de padres. Segundo Melcquior, seus colegas o entendiam mais e sabiam da força da oração de sua avó. Certa vez me disse: “Salve Rainha é muito forte, ela (a avó) só usa para casos muito difíceis”. À posição do cético que deveria acolher a religiosidade do povo como se fosse ‘do outro’, do pobre, do inculto se contrapunha sua posição natural do crente (aquele que crê), carente dos serviços de benzimento da avó e de outra benzedeira, cuja narrativa contarei mais adiante.
Suas doenças eram muito freqüentes e, quase sempre se associavam a problemas estomacais e intestinais, que o ‘tiravam de campo’. A ojeriza a pessoas, alimentos e situações era uma constante em sua corporeidade. A repulsa à pessoa do pai também se refletia nas crenças religiosas que lhe davam suporte nos momentos de crise.
Desde pequeno recebeu benzimento por parte da avó e de uma vizinha ‘cabocla’ que só apareceu na narrativa clínica após cerca de 4 meses de diálogo comigo.Seu pai referia-se à mesma como ‘cabocla’, porém de modo pejorativo. Já Melcquior, desde tenra idade a via como mãe e esposa ideais, sempre ao lado do marido e às voltas com seus filhos e vizinhos. As festas aconteciam em seu quintal, lugar que também acolhia a população que buscava seus serviços de cura e benzimento. Neste ambiente externo cozinhavam, acendiam as fogueiras (causadoras da enurese noturna, segundo visão popular) e viviam experiências de milagre e sanção. Em certo momento relatou que esquecia-se sempre de contar-me mas ela estava sempre presente em seus sonhos, parecendo tão natural que lá estivesse que sequer pensou em incluí-la na narração. O fato é que ela não tinha
status algum de modo que não seria apresentada como personagem de suas
estórias. A cabocla benzedeira é uma posição do eu de Melcquior que contrasta com aquela requerida pela cultura da formação. O elemento sagrado feminino contido na eficácia da reza de sua avó e de sua vizinha eram menosprezados pela representação da divindade requerida para ser um bom padre. À posição externalizada de Deus como pai se contrapunham duas posições de eu: a avó e a
vizinha cabocla. Os excessos imaginativos que compunham sua personalidade: presença do saci-pererê temido e desejado, experiências místicas (nada mais que crises causadas por um sistema nervoso em formação) desvelavam posições de seu eu nunca reconhecidas ou legitimadas.
Os sonhos em si não poderiam ser fonte e forma de legitimação alguma se nós humanos fossemos lógicos ou racionais. O fato é que na circularidade do pensamento onírico ele se auto-descreve e comprova. A inculta cabocla não era trazida para o diálogo clínico porém estava inscrita em sua imaginação e corporeidade. Como contava Melcquior: “O saci-pererê acariciava seus cabelos bem pretos”. Ela não temia esse contato e tampouco negava os ditames da religião instituída. Ao contrário, foi com ela que Melcquior aprendeu a ir à missa, a rezar, a solicitar ajuda ao seu anjo da guarda, devotar-se à Maria. Nestas posições e contra- posições do eu habitava um jovem que refletia externamente a cultura institucional e mantinha intacta a experiência de raiz. A contra-posição feminina da benzedeira era de uma realidade tão aderida a seu corpo e seus afetos, que dela nem se lembrava. Era como tentar separar os ingredientes de um bolo já pronto. Sonhar, viver estados alterados de consciência ou experiências denominadas anômalas61 são modos de existir no mundo e na relação com Deus. A tarefa precípua da psicoterapia baseada na TSD é desvelar as posições ocultas aí expressas. O sonho revelador foi composto da narrativa a seguir:
Estou do lado de fora da casa (de sua infância) e vamos fazer comida em fogão a lenha. Minha avó coloca o arroz lavado para secar no muro. X, que é uma vizinha, mulher muito piedosa, está lá.... parece que vamos almoçar todos juntos... sempre gostei dela, nem sei porque nunca te contei dela já que está sempre presente em meus sonhos. Gosto de ver minha avó cozinhando, sempre com muito cuidado, até sei o que ela vai fazer a cada passo: lavar o arroz, deixar secar, refogar o alho... o cheirinho...mexer o
61 Cf Valle (2008 p.91). O autor, aceitando uma distinção que é de Cardeña, Lynn e Krippner (apud Almeida e Lotufo, 2003, p. 22) distingue “experiência anômala” (EA) de “estados alterados da consciência” (EAC). Empregam o termo EA para dedignar um experiência incomum (ex.: alucinação, sinestesia) que embora relatada por muitas pessoas (ex. vivências interpretadas como telepáticas), acredita-se diferente do habitual e das explicações usualmente aceitas como realidade. Não há uma relação com patologia ou anormalidade”. Quanto aos EACs goza de aceitação o que é dito por Charles Tart: “são alterações qualitativas no padrão global do funcionamento mental que o indivíduo sente serem radicalmente diferentes do seu modo usual de funcionamento” (apud Almeida e Lotufo, 2003, p. 22). São situações anômalas nas quais “um mesmo conjunto de dados ou informações pode ser processado de formas muito diferentes e gerar saídas bem diversas”. (idem, ibidem). Valle relaciona ainda o que D’Aquili e Newberg chamam de “mystical mind” e Helminiak de “ scientific
spirituality” ao que aparece nas EACs e EAs, mas toma cuidado para não reduzir a a experiência
mística apenas à essa extensa gama de dimensões do organismo humano: a fisiológica, a psique e a mental.
arroz, acrescentar água, um pouco de sal...provar a água já salgada. X está por perto e sua presença é tranquia, ela benze e dá conselho para quem pede...mas não ‘se mete’ não, só fala quando pedem. É pessoa de fé. É alta, tem 3 filhos e se dá bem com o marido, homem simples e bom. Incrível como nunca te contei que sonho com ela sempre.
O momento de encontro com esta posição guardada no fundo de si inaugura a saída do diálogo de dominação. Para ser um padre da Igreja, tamponou suas raízes e quis aderir a algo aparentemente imposto de fora. Ocorre que esta sensação não é totalmente verídica, há nele também a vivência e o sentimento incluso nas representações de Deus cristão que o embeberam desde sempre. As palavras é que o confundiam por não se adequarem às sensações do corpo que pulsava rancor em relação ao pai. Pedi-lhe que conversasse com a mãe nas férias, que a fizesse repetir o que ele mesmo me contava sobre sua infância. Na volta das férias ambos, eu e ele ficamos muito tocados com o relato a seguir:
Eu era um bebê que chorava muito, chegando quase a perder o fôlego. Minha mãe então me carregava e eu dormia em seu colo. Meu berço era de balanço e ficava ao lado da cama de casal. Uma noite, meu pai ficou muito nervoso e me jogou no berço...e o berço quebrou...e eu não parava de chorar. Ele proibiu minha mãe de me carregar e ela ouviu eu chorar por muito tempo até dormir exausto. Foi muito duro para ela mas ela era submissa e não desobedeceu... Era sempre assim , ela nos obrigava a cumprimentar meu pai no Dia dos Pais, nem eu e nem meus irmãos suportávamos isto. Até hoje a critico por isto, não entendo porque ela fazia assim mesmo sabendo que ele é ‘grosso’. Agora vive doente,é um carente e minha mãe viaja com as amigas e irmãs.Nas férias fiquei sozinho com ele em casa e tive que fazer comida para ele e meus irmãos que são ‘sem iniciativa’. Avisei que nas próximas férias só vou se ela ficar em casa, nada de jogar a bomba ‘pra mim’.
“Jogar a bomba para mim” era expressão comumente usada por Melcquior e apontei-lhe o fato assim que nos recuperamos do impacto desta narrativa. Melcquior tomava para si as tarefas dos demais colegas da casa de formação, de forma que parecia alocar-se em lugares que não lhe pertenciam. Sem ter consciência do fato, re-editava aqui e ali este enredo insatisfatório. Esta posição do eu tinha lugar destacado no conjunto de seu self. A rigidez com que repetia os mesmos gestos e dizia as mesmas palavras eram sempre denunciadas pelos colegas. Igualmente seu excesso de rezas e normas, algo superado pelos atuais seminaristas, o tornava alvo de bullying.
Depois de escutar esta narrativa em 3ª pessoa (Melcquior não se lembrava pessoalmente dos fatos, sua mãe é que funcionou como memória) compreendi que
na construção de seu self a posição do bebê jogado, marcada em sua corporeidade estava diretamente associada ao diálogo com dois ‘outros’ significativos: seu pai, pela violência do gesto e sua mãe, pela omissão de cuidados ao obedecer o marido. O diálogo que se edita no tempo presente do jovem seminarista se dá entre ele e a representação de Deus recebida da religião instituída e da própria cultura original. Sua mãe o obrigava, como a todos os irmãos, a reverenciar o pai. Ela mesma havia aprendido de sua própria mãe a respeitar o marido, pai de seus filhos. Parece algo sem fim: não se vive a realidade tal como se apresenta e sim a realidade simbólica da cultura da qual todos provêm. E neste contexto, Deus é pai. Sempre foi assim: Melcquior, seu pai, sua mãe, seus avós ad infinitum estavam enredados neste referencial.
A biografia incidiu no que estamos nomeando espiritualidade: se Deus é pai, como posso estar sendo sincero, fiel? Incide também na formação para o presbiterato: como posso ser padre se não partilho da crença comum e central do cristianismo de que Deus é pai?
Como psicoterapeuta entro em sua vida no tempo presente, percebo a posição de eu que deseja ser padre e a contra-posição de eu: não posso ser padre, não me vejo como padre. Como Melcquior não se encontrava comigo nas narrativas do passado e tampouco naquelas ligadas à sua vida institucional, poderíamos inovar diálogos no tempo presente com um outro (eu mesma, a psicoterapeuta) e gerar novas posições de eu. Exemplificando: eu- jovem em formação; eu amigo que confia; eu sonhador. E assim passei a vê-lo como alguém que precisava recomeçar.
Deveria haver mais outras posições de seu eu escondidas no passado e que não se encaixavam no enredo que ele permitia ser encenado. Conversávamos de fato sobre isto tudo, mesmo que de modo indireto: ele dizia ‘acalmar-se’ quando vinha às consultas, eu lhe dizia que parecia mais tranqüilo de fato.Modos rígidos de sua corporeidade começam a mudar. Certo dia chega com nova calça jeans e conta que foi presente de sua irmã estilista. Relata ainda nesse dia suas restrições quanto à vida pessoal da mesma. Diz: “Ela é separada!”. Pergunto a ele: “Separada de que?”. Ele responde rindo: “Do marido”. Digo então: “Ah, mas não nasceu grudada”. Melcquior retruca: “Nem eu nasci grudado no Y” (seu irmão gêmeo). E após uma pausa, mostrando compreender minha observação, diz: “Preciso aprender a separar as coisas”.
Melcquior tem também dificuldade de selecionar roupas para colocar na mala quando viaja. O mais comum é que leve tudo o que tem, alegando sempre que “pouco possui” em função de sua escolha de vida. Novamente aqui se torna alvo de chacotas tendo recebido até o apelido de ‘prima donna’ em função da quantidade de bagagem que carrega consigo. O fato é que, sem ter tido um lugar no mundo até hoje, ele carregava em seu corpo suas posses, caricatura do que William James (1890) definiu como o self de alguém. Melcquior não possuía conta bancária (uma de suas questões: a pobreza), poucos amigos de fato (o ‘outro’ caipira era um deles), uma comunidade que, por vezes, o recordava de sua família de origem. Achava que não era respeitado em seu modo de ser, que não valorizavam suas qualidades. Em verdade, seu formador acumulava funções na instituição, não tinha tempo para se ocupar das nuances do sentimento de Melcquior. Não dava limites para seus exageros, reclamações e mesmo seus recorrentes problemas digestivos, os quais necessitavam de escuta por se tratarem de sintomas do desconforto que vivia como futuro padre em casa de padres. O que Melcquior tinha de fato era o sonho de tornar-se padre. No entanto, faltava-lhe a certeza de merecer ou ser digno de ser ordenado em virtude dessa dissonância entre a representação de Deus aprendida desde a infância e o péssimo diálogo que estabelecia com seu pai concreto.
As‘experiências místicas’ nada mais são que sua imaginação tentando corrigir falhas antigas. Já possui recursos para dar-se conta do desconforto em relação a seu lugar no mundo e com os outros. Seu grupo de colegas o interpela e exige um modo adulto de diálogo.