• No results found

A prática clínica é até hoje considerada um desafio para os teóricos da Psicologia e ciências afins. Que teorias têm bases sólidas? Que subsídios podem de fato as teorias dar à esfera do manejo e das técnicas? Como refletir a clínica e ampliar os conhecimentos científicos ligados a essa esfera tão intrinsecamente

humana: o cuidar no contexto da clínica psicológica? São eficazes os treinamentos e as várias modalidades de formação para psicoterapeutas? As teorias hoje vigentes (algumas favoráveis e a maioria ainda distanciadas e hostis à religião) dão o tratamento adequado à dimensão religiosa quando essa emerge na vivência e nas narrativas dos clientes?

Estas e outras questões mais específicas têm me ocupado desde os primórdios de minha formação e se consolidaram na dissertação de mestrado24, publicada em forma de oito narrativas. (MASSIH, 2000). Relatei resumidamente minha própria história e os caminhos que me levaram a ser a psicoterapeuta que hoje sou. As demais sete histórias foram contadas por mim a partir de diálogos clínicos com pacientes considerados difíceis, e nos quais fui amadurecendo a idéia de que não há técnica alguma que se sobreponha à peculiaridade do cliente que temos diante de nós. Seus ‘problemas’, sua história de vida ou ainda, o modo como este cliente as ordena e configura é que comanda o uso e o exercício da intuição. Vamos desdobrar o que já é enunciado já no título do livro25 do seguinte modo: O que é agir terapêutico? Agir é para mim, em primeiro lugar, movimento. Movimento interno certamente e, às vezes, movimento visível externamente, tais como estender a mão, olhar em direção aos olhos do cliente, telefonar em circunstâncias especiais tais como cirurgia, perda de um parente querido, formatura, casamento, divórcio, nascimento de um filho, ordenação, viagem urgente devido a ordens superiores ligadas a trabalho e variadas circunstâncias outras em que atos concretos de apreço ajudariam o cliente a sentir-se fortalecido e acompanhado. Em outras palavras, se este ato for entendido como terapêutico.

Mas em si o que significa propriamente o adjetivo “terapêutico”? No âmbito da psicoterapia a diversidade de práticas consideradas terapêuticas é tamanha que há quem defenda o uso da expressão no plural. O Conselho Federal de Psicologia dedicou o ano de 2009 à reflexão em torno da Psicoterapia26. Os debates foram organizados em três grandes eixos. O primeiro discutia a constituição das psicoterapias como campo interdisciplinar; o segundo buscava identificar os

24 O título da dissertação enquanto tal (defendida na PUCSP, em 1998) era: Sobre a prática clínica:

Configurações de um modo possível de cuidar. Fui orientada pelo Prof. Dr Luis Cláudio Mendonça

Figueiredo e estiveram presentes em minha banca, tanto na qualificação quanto na da defesa os professores Dr Paulo Albertini (USP) e Dr Alfredo Naffah Neto (PUCSP).

25 O título do livro, por sugestão de Edenio Valle, já fala de meu posicionamento diante do outro: “O

agir terapêutico. Um modo possível de cuidar”.

parâmetros técnicos e éticos para a formação e o exercício da psicoterapia pelos psicólogos e o terceiro, enfim, abordava as relações dos psicoterapeutas com os demais grupos profissionais que reivindicam o exercício da cura psicoterapêutica.

Os três eixos me interessam por levantar questões que desde sempre se imiscuem na prática clínica. Filósofos também podem ser terapêuticos, médicos de pronto socorro podem ser terapêuticos, orientadores espirituais, conselheiros e, igualmente nós psicólogos, podemos ser terapêuticos ou, ao contrário, profundamente anti-terapêuticos! Constato esta realidade ao receber clientes com seqüelas referentes a certos procedimentos que mais desorganizam que equilibram a dinâmica emocional e afetiva destas pessoas. Pois que as mesmas buscam o cuidado terapêutico por viverem estados de insuficiência em sua capacidade de reagir aos fatos da vida. E nem sempre encontram suporte para complementar- ao menos temporariamente- o que lhes falta. Ser terapêutico implica fornecer algo a alguém.

Vamos em frente e pensemos na expressão ‘um modo’ presente no título do livro. Afirmo minha convicção de que não há o modo. Cada terapeuta é uma pessoa peculiar com história, formação humana e/ou técnica variada e seu agir está motivado e é acionado por valores vindos de sua cultura original. Ética, amor ao próximo, preocupação genuína, solidariedade e tantos outros valores morais e afetivos que norteiam a existência e são imprescindíveis ao fazer clínico não são facilmente transmitidos em uma formação técnica.

Quanto à expressão ‘possível’, esta se refere aos limites e fragilidades do humano e nela se inclui a vocação para o cuidar. O que nos faz abraçar esta profissão, por que desejamos ou somos chamados a cuidar do outro com desvelo e continuidade? Que caminhos nos levam a este cuidar tão específico, o do contexto da psicoterapia?

Fazemos o que nos é possível, nossa eventual onipotência é interpelada a cada dia com o recuo diante de dores insuportáveis como a perda de um filho ou dos pais em idade precoce. Ou com as catástrofes naturais, as guerras sem sentido, as mortes prematuras geradas pela violência gratuita. Vemo-nos impotentes sobretudo diante de fracassos psicológicos como a pedofilia, os abusos sexuais de toda ordem, violência contra menores e/ou idosos, etc. Fazer o possível é fazer o possível no limite humano. E ainda assim, devemos dizer que cuidamos do outro, exatamente por operarmos no limite. E talvez seja este o nosso princípio ético crucial: dar o

melhor de nós mesmo, sem economizar e estar e sentir com o outro como se fosse conosco.

Como se forma um psicoterapeuta? Esta questão aborda um dos temas do debate. Estamos avançando neste terreno e nos damos conta de que todo o cuidado é pouco no que se refere a colocar um profissional do cuidar no mercado.

Estas indagações ou meditações foram se configurando nas narrativas das experiências clínicas contadas no meu livro, seja em artigos de revistas especializadas a partir do momento em que passei a pesquisar o tema das peculiaridades que encontro na interface entre Psicoterapia e Religiosidade (MASSIH, 2004; MASSIH, 2007; MASSIH, 2009). No último destes artigos, o de 2009, já se anuncia meu empenho em aplicar a Psicologia Narrativa na perspectiva da TSD.

Se não existe manual seguro para o exercício da psicoterapia, então é preciso contar para possibilitar o uso de uma capacidade fundamental da consciência de si e do mundo: a de interpretar os fatos vividos. A expressão “se e então” dificilmente voltará a acontecer daqui em diante por não refletir a postura epistemológica apropriada para o exercício do cuidado em psicoterapia (MASSIH, 1997; FIGUEIREDO, 2010). Tampouco a postura ‘ou-ou’ norteará as narrativas. O que se dá no contexto da clínica psicológica se dá na ordem da poesia, da literatura e a postura filosófica do ‘e-e’ mostra-se apta para conduzir apropriadamente a interpretação dos diálogos clínicos e a reflexão a posteriori dos mesmos. .