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A psicoterapia foi desde sempre uma atividade que se estende para além das sessões concretas no consultório do psicoterapeuta. Grande parte do processo se dá no ‘entre uma sessão e outra’. Igualmente através de vários meios. Um psicoterapeuta que trabalhe em São Paulo pode fazer uso de mensagens no celular (SMS) que agilizam a comunicação e permitem que certas emoções sejam partilhadas em tempo real. E assim foi quando da morte da avó de Melquior. Recebi esta mensagem: “Hoje não venho à sessão. Estou na casa de meus pais. Minha avó morreu. Estou triste. O enterro foi lindo”.

Ao ler esta mensagem imaginei que ele tivesse podido ao menos fazer uma oração de despedida. E assim foi. No dia em que voltou contou-me emocionado a sua fala na qual dizia que “os pequenos rios buscam um rio maior que os leve para o mar. No fundo é o que desejam de fato: chegar no mar. Era isto que esta mulher amorosa e solidária almejava: chegar ao mar Deus e lá viver para sempre. E de lá cuidar de todos que ama”.

Seu pai chora de emoção ao ouvir o filho encomendar a morte da avó. Mas não só o pai, toda a comunidade de onde saiu há quase dez anos atrás agora o autentica como representante da Igreja, como ‘homem de Deus’. Sentem-se valorizados e consolados pela perda de sua melhor rezadeira, a benzedeira que curava por telefone e até mais do que isto: bastava encomendar sua reza através do celular da neta, irmã de Melquior que, recentemente, havia me contado o seguinte fato: Deveria ir ao médico em função de uma íngua que aparecera em seu pescoço. A caminho da consulta, algo forte se passou dentro dele. “Será que preciso mesmo ir ao médico?” Lembrou que sua avó fazia sempre visitas aos doentes da localidade e que os mesmos esperavam por sua presença. Liga para sua irmã enquanto anda

pela Avenida Paulista e pede a ela que vá até a casa da avó para que ela ‘benza’ à distância. Desiste de enfrentar o hospital, volta para casa, vai descansar e fica aguardando o resultado. Acorda no dia seguinte sem dor e sem a íngua. Diz: “é assim mesmo, minha avó cura com a fé dela”.

Ao voltar de sua cidade contou-me que a avó, preparando-se para morrer, escolheu sua acompanhante de quarto. Tratava-se de uma tia de Melcquior que era forte, enquanto que sua mãe foi advertida: vá para casa cuidar da comida de seu marido que eu estou muito bem aqui (no hospital) e amanhã recebo alta. A ‘alta’ referia-se a ‘ir para o céu’. A mãe de Melcquior teria saído chorando do hospital por duas razões: por perceber que haveria o desenlace em breve e pela falta de credibilidade que tinha na família. A fala familiar e da comunidade confirmava a última frase da avó. Todos diziam: ”ela recebeu alta e foi morar no céu”. Ouvi esta estória de Melcquior sempre com muita emoção e lágrimas em seus olhos chegando a soluçar. Enfim, parecia finalmente valorizada e feliz com sua nova morada de onde cuidaria de seus filhos, netos, agregados e toda a comunidade que precisava dela.

Com a devida aprovação de Melcquior, o resumo de seu caso é publicado e então lido por ele, que assim se manifesta via email:

Querida Eliana,Nossaaaaaa é geniallllllllllllll... Nem sei o que dizer!

Parabéns!!! O artigo é sensacional!Teve o mínino detalhes e observações importantes.Todos os que leram ou irão ler, não sentirão muito coisa, ou nada sentirão...mas eu senti tudo, comose tivesse revivendo agora... Sou tudo isso que está escrito.Agora eu entendo, nem tudo, o que aqueles personagens e as história significam pra mim.Chorei, chorei muito, mas muito mesmo. Ainda mais minha santa avó tem tudo haver com isso...Eu sou ela hoje, ou desejo ser!!! T ô ainda anestesiado...

Obrigado...abraço...

A posição de eu benzedeira, que sempre almejou, agora é parte de sua identidade. A alegria que demonstra mostra a positividade da posição desejada. Melcquior sai do esquema “não quero ser como meu pai” cuja contra-posição é “quero ser padre e não sou capaz” e embarca em novo eu, pronto para decolar. Herbert Mead já havia afirmado em 1913 (apud HERMANS, 1999, p. 74):

Quando um problema essencial aparece, ocorre uma desintegração e diferentes tendências aparecem no pensamento reflexivo como vozes diferentes em conflito uma s com as outras. Num certo sentido o velho self se desintegrou e, além de qualquer processo moral, um novo self irrompe.

Não significa que a coisa parou por aí. O self em contínua evolução apenas deu o start para a flexibilidade. Algum tempo depois novo email confirma a mobilidade de posições de eu de Melcquior:

Boa noite, Eliana!!!

Tudo em nossa vida é uma correria...Fiquei muito feliz pela sua ida a Atenas...espero que tenha resolvido as burocracias que estavam existindo. Mais que um trabalho seu, acredito numa recompensa pelo trabalho

rigoroso que é estar numa fase de completa transição na vida das pessoas, assim como estou. Hoje eu sou Melcquior, amanhã faço votos e sou frei Melcquior.. Depois serei diácono...e, depois, padre...são as identidades que assumimos, os "selfs"(sic) da vida.

E assim são as transições na vida que queremos assumir.Pessoalmente falando, na família muitas mortes, muitas separações matrimoniais, muitas decepções,complicações em nossa província...mas a esperança é um fator que nos acompanha...uma luz...então ontem recebi a notícia que meu irmão N (gêmeo comigo), vai ter um bebe, fiquei muito emocionado...parece que também vou ser pai, pois desta vez pra mim é diferente. Essa é alegria depois de muita escuridão...

Bom é isso... Que Deus recompense imensamente o seu trabalho, que é ajudar quem somos e o que queremos ser...Obrigado...e boa sorte!!! Um abraço... M de Jesus....

Como podemos ver, Melcquior pilota agora uma nova posição de eu no diálogo que estabelece com o futuro pai, seu irmão gêmeo. Melcquior poderia ter se tornado um Caim62 que aspira vingança por não ter sido o melhor e mais desejado/reconhecido pelos pais. Porém, fez diferente: há esperança e alegria em sua narrativa e novas posições de eu querendo decolar surgem a partir de diálogos com o irmão. No entanto, o que inaugura de fato a meta-posição que o ajudará daqui para diante é o email que se segue e com o qual concluo o relato. Parece que ele aprendeu a transitar em sua própria polifonia:

Boa noite, querida Eliana!!!

Estou falando da casa de (e diz o nome da cidade), onde hoje sou formador do Postulantado. Estou me preparando também ‘pra’ ser ordenado diácono dia 1º de maio, ás 10h00 na (diz aqui o nome da igreja) em (diz aqui o nome do estado).

Também estou fazendo uma especialização Lato Sensu, no período de férias, com o tema "Formadores da Vida Religiosa". Futuramente assumo a Paróquia, depois da ordenação presbiteral. Meu irmão ‘gêmeo’ acabou de se tornar papai...chama-se Y (menina), serei o padrinho...meu irmão me disse que padrinho também é "pai".

Eu fui as (sic) pressas vê-la, ainda grávida me senti pai desta criança, como jamais senti por outros ‘subrinhos’...no fundo, nela eu realizo uma vontade

62 Cf Drewermann, E, 1994, p. 175. O autor, teólogo e psicanalista de grande prestígio na Alemanha e crítico acerbo da Igreja e do clero, refere-se a Leopold Szondi que notou nos juízes e eclesiásticos, ou seja, nos representantes de profissões ‘sagradas’ , uma contradição pulsional que ele descreveu como a luta contínua da reivindicação de Caim para ser reconhecido e a exigência de Abel de permanecer sendo visto como o melhor, o preferido.

de ser pai...ela é linda!!! Tem uma pinta linda no lado esquerdo do rosto..."minha filha"!!!Vai em anexo uma foto de uma pessoa que sempre permanece em meus sonhos: a senhora Y (a benzedeira)...ela sempre está presente em minha vida...ela é muito especial...por isso quis mostrar a foto pra você vê-la...nesta foto ela aparece como sempre ela é linda por dentro e por fora.

Lembro sempre de vc no curso de especialização, pois Prof. X é fantástico!!! Melquior está fazendo sucesso...rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs...estou muito feliz, apesar das limitações e da falta que sinto da minha avó, cada dia que passa, sinto que a dor é sempre a mesma, afinal, ela não foi minha avó, mas foi e sempre será minha mãe!!!Essas são minhas novidades, há dias que queria dizer isso pra vc, porque és muito especial para mim!!!Obrigado por ajudar Melcquior a sobreviver. Tenho tudo e não sou nada!!! Abraço, sem mais, fraternalmente, Melcquior.

O fato é que Melcquior aprendeu a desenvolver diálogos reais e imaginários com as entidades de sua infância, com o imaginário bíblico etc sem recorrer a sintomas (crises místicas, digestivas, comportamentos obsessivos). Os outros com quem sempre dialogou simbolizam o personagem de fundo central de todas as narrativas: Deus. O que desejava mesmo era acessar a divindade a partir da fé. Como se ele fosse o centro do mundo, a vida na instituição deveria reparar a anterior, vivida com seus pais carentes de recursos afetivos e intelectuais. E mais, como centro do mundo, precisava materializar a divindade em si mesmo, não realizando o diálogo necessário com as alteridades dentro e fora de si. Seu pai deveria ter sido bom para que acreditasse e confiasse em Deus pai.

Não sabia ainda como crescer na espiritualidade e aspirava por vivências religiosas límpidas (por que conversar com o possesso? por que esperar pela graça, entregar-se?) que o salvassem de cima para baixo, sem sujar as mãos, sem arar a terra.63 Queria livrar-se da imagem do pai ‘bruto’ e ascender a um lugar perfeito. Ouvir-se narrando suas próprias histórias em confronto com a escuta de alguém de fora o tirava desta construção enrijecida que não dava voz às posições represadas de seu eu. As ‘experiências místicas’ cristalizadas não se mostravam mais suficientes, ele próprio duvidava delas e percebia-se inconsistente. Faltava terreno para que se sedimentassem. Nas palavras do teólogo Torres Queiruga (1993. p.108): “Deus remete não à fantasia, mas à história efetiva, ao ‘princípio da realidade”.

63 Cf Del Fraro ( 2008. p. 633-634 ) fala de uma espiritualidade que vem de baixo a partir dos atos cotidianos e não aquela das afirmações dogmáticas e impessoais que restringem a corporeidade.

Mais ainda, de posições de eu ‘cheias’ (meu pai, a benzedeira, a avó) Melquior passa a transitar na não posição que paradoxalmente o inclui em todo o universo de pessoas e mundo. “Tenho tudo e não sou nada”.

Entendo que os conceitos de posição e contra-posição de eu ajudaram-me –e ao cliente- a formalizar em palavras o desconforto que ele sentia por guardar tantos personagens dentro de si. Seu corpo era um baú de informações e recordações que por vezes me suscitavam a já batida metáfora da caixa de Pandora. De outro lado me ocorria a veracidade da apropriação do mito para seu caso: sobrou a esperança de que algo se organizaria e geraria um futuro estado de equilíbrio. O sonho da vida em comunidade, todos preparando os alimentos juntos, a liderança de sua avó, a estabilidade emocional da benzedeira, a insuficiência da mãe, a grosseria do pai, tudo estava marcado em seu corpo. Não há uma explicação para termos conseguido reverter este estado de alma a não ser pelo diálogo honesto que fomos conduzindo ao longo dos encontros. A posição de eu terapeuta não valorizou nenhuma das posições de eu de Melcquior e tampouco rejeitou outras. Coloquei-me a seu dispor e aguardei a emergência de sua espontaneidade. A perda da avó, não aceita no auge da emoção, reverteu em ganho espiritual real. O péssimo pai reverteu na incorporação da imagem de Deus cristão. No paradoxo foi se construindo uma fé madura.

Tendo os conceitos da TSD internalizados em mim, tentei fazer uso dos mesmos sem ser didática ou pedagógica. O que se espera dos encontros dialógicos advindos da psicoterapia é que o conhecimento se dê a partir de outras vias. Sempre se aprenderá algo, seja da parte do cliente, seja da parte do terapeuta. As conversas vão ocorrendo metodicamente e em algum momento do processo uma experiência se destaca e ocorre o insight.

Dizer que ambos, psicoterapeuta e cliente, aprendem juntos não exclui o fato de que se trata inicialmente de um diálogo de dominação. Quando o cliente se coloca sob os cuidados de um psicoterapeuta, a suposição ética é de que o último seja mais amadurecido que o primeiro (MASSIH, 2000).Trata-se de um desnível que pode ser considerado eficaz: o psicoterapeuta tem o objetivo de descongelar os núcleos doentios e o cliente voluntariamente se dispõe a entrar no jogo.