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Conhecer e levar em conta a cultura na qual se insere o paciente confirma a hipótese da interface entre a inovação e ampliação do self e o resgate da cultura, seja a cultura original, seja a cultura institucional. Em nosso caso esta ampliação possibilita novos diálogos para as pessoas em processo de formação para a vida religiosa. Hermans e Kempen (1993, p. 78) consideram o self como:

um fenômeno altamente contextualizado, está ligado a delimitações culturais e institucionais. Relações de dominância não estão presentes apenas no mundo externo; pelas suas intensivas transações elas organizam também o mundo interno. Isto implica que um rol de posições imaginadas são não somente organizadas mas igualmente restringidas pelo

46 Cf Cavalcante, 2007, p. 311. O autor mostra que mesmo Santo Agostinho ‘revisou’ sua auto- biografia em Retratações “para que estivesse inteiramente concorde com a doutrina da Igreja”.

processo de institucionalização (ex: família, escola, igreja, serviço militar e vida comunitária). Algumas dessas possíveis posições são aprovadas. Outras são desaprovadas ou mesmo rejeitadas. Uma importante implicação é, finalmente, que dependendo da extensão da dominância nas relações dialógicas, algumas posições são fortemente desenvolvidas, enquanto que outras são suprimidas ou mesmo dissociadas.

À psicoterapia nada pode escapar. Tudo o que surge no setting terapêutico deve ser levado em conta sem qualquer a priori. Dissonâncias na corporeidade, falas impessoais ou em terceira pessoa, posturas que soam de modo desarmônico ou restritivo devem ser investigadas à exaustão. Nenhuma forma de espiritualidade deve camuflar o encontro intrapessoal imprescindível para quem se propõe a uma vida de serviços ao próximo, à Igreja e, em última instância, ao diálogo permanente e definitivo com a transcendência.

Bruner (1997, p. 159) afirma que as narrativas trazem os encontros –reais ou imaginados- do passado para o presente, permitindo que os enfrentemos e inovemos o self. Assim fazendo damos o compasso para a cultura que molda esses encontros. É este o fardo ontológico que carregamos: realizar a tarefa de auto- construção do self. Não é nada fácil e, nas palavras de do autor, “talvez seja, como afirmou Kierkegaard, que a vida é vivida encontro a encontro mas a construção do

self é feita meta-cognitivamente”.

O setting psicoterapêutico em primeiro lugar organiza e disponibiliza este celeiro de recursos para permitir o aproveitamento máximo das estórias que comporão a história de vida do jovem que, aparentemente aleatórias, são oferecidas ao psicoterapeuta para serem interpretadas como textos em que o leitor pode entrar e re-criar as tramas. Em um segundo movimento, traz para o presente as oportunidades oferecidas pela instituição que quer se atualizar através da reconstrução do instituído/instituinte.

O cruzamento da pesquisa sistemática da cultura original do paciente e da cultura institucional demanda três tarefas: a) escutar as narrativas dos clientes e dialogar de modo hermenêutico com as mesmas (tarefa clínica), b) servir-me da metodologia proposta por uma Psicologia da Religião que respeita a origem histórico-cultural da sub cultura (sub grupo) pesquisado (tarefa investigativa) e c) validar os resultados pelo parecer dos próprios sujeitos de pesquisa (tarefa conclusiva). Se, além disso ainda servir como guia técnico para a especialização em psicoterapia de pessoas religiosas, esse empreendimento se justificará.

O capítulo seguinte mostrará em detalhe as narrativas clínicas que serviram como divisores de água da continuidade do ser. Não cabe à psicoterapia elaborar uma biografia do sujeito e sim abordar certos focos de sua história de vida afetivamente carregados. Ainda mais por se tratar da psicoterapia de pessoas religiosas a caminho da ordenação sacerdotal pela Igreja Católica, o que a sujeita a um final no momento da ordenação. O candidato a padre católico tem como tarefa também a de adequar-se à cultura institucional, com sua seqüência de etapas e seus rituais referentes às mesmas. Aos que lerem as narrativas cabe embarcar no enredo circunstancial que levará – supõe-se – a uma travessia, uma inovação e um certo grau de amadurecimento do self múltiplo e em constante expansão. É de Bruner (1997, p.157) a afirmação que segue:

A narrativa, como se sabe, começa com uma implícita ou explicita indicação de um estado estável, canônico do mundo, e então vai para um aporte do quão isto foi rompido, elabora então uma versão sobre a natureza e conseqüências desse rompimento, e termina com um aporte de esforços para restaurar o estado canônico inicial. Ou re-vestir (reeditar) a violação [da continuidade]. Narrativas são próprias para lidar com problemas criados por quebras de legitimidade, um meta- gênero que dá conta de sustentar os momentos de perigo [da continuidade do ser].

Para finalizar este primeiro capítulo quero trazer três observações que recordam bem algumas de minhas intuições. Encontrei-as em autores que considero meus guias e mentores. A primeira é de natureza psicoterapêutica. É de Figueiredo (2010, p.146), orientador de minha dissertação de mestrado em Psicologia Clínica, a quem dou hoje inteira razão:

A experiência clínica [....] Inclui a clínica , fora do consultório, em comunidades, por exemplo, ou diante de fenômenos sócio-culturais. O que o psicólogo faz, principalmente nessas condições, não é jamais a aplicação da teoria. Ainda que existam e nos sejam úteis teorias gerais do funcionamento psíquico individual e coletivo, cabe-nos a tarefa de construir teorias sob medida, articuladas às nossas práticas e enraizadas nas experiências com nossos objetos, em circunstâncias particulares de trabalho.

O dito por Figueiredo ajuda a ‘limpar o terreno’ para então partir para a pesquisa dos aspectos idiográficos indispensáveis para situar e ordenar os saberes oferecidos pela Psicologia Narrativa e pela Psicologia Cultural da Religião. Se quisermos entender o mundo subjetivo de alguém é necessário que as “ciências do

espírito” à diferença das “ciências da natureza”, conforme postula W. Dilthey) aprendam, nas palavras de Belzen (2003, p.11) a:

....detectar se, porque e em que medida um ou vários relacionamentos com significantes religiosos constituem uma parte essencial da construção narrativa do mundo de alguém, o que este lugar é na organização geral de seu self e porque, como e quando tais posições do EU se desenvolverão .

J. Valsiner (2007, p. 24) que muito ajudou a expandir meus horizontes de

psicoterapeuta em um livro baseado em pesquisas de campo, escreve como psicólogo que:

Os seres humanos (...) do nascimento à morte (.. ) agem sob a influência de sugestões sociais codificadas em campos semióticos muito heterogêneos e redundantes. Os seres humanos não são, contudo, recipientes passivos de tais sugestões mas, sim, participantes ativos de uma reconstrução das ordens sociais. Essa ordens acham-se em boa parte incompletas e, em conseqüência, há sempre algumas pessoas que as observam, enquanto outras tentam resistir às formas e fatos novos que nelas emergem. É devido ao fato de viverem de acordo com as ordens sociais que as pessoas assumem seus distintos papéis sociais e, por essa via, as podem transformar. As pessoas fazem distinções e agregam valores às distinções que vão criando. É através deste seu fazer semiótico, construído sobre os valores que agregam, que elas agem como se fossem elas próprias.

O que quero sublinhar com estas três últimas citações é que os fatos pessoais bem como os culturais e históricos nos quais eles se acham completamente enfronhados são tão inerentes às nossas construções narrativas que o nosso self se adapta a eles ao mesmo tempo em que podem, igualmente, ser geradores de novos sentidos, num contínuo jogo de mútuas influências.

Isto se tornará mais claro no capítulo II através das histórias/estórias construídas pelas narrativas dos três jovens protagonistas do capítulo em circunstâncias e contexto a um só tempo reais e metafóricas. Costuradas entre si habilitam-se a provocar uma inovação do self.

CAPÍTULO III

3. A LEGITIMAÇÃO DA TSD NA PRÁTICA PSICOTERAPÊUTICA A PARTIR DE TRÊS NARRATIVAS CLÍNICAS

Quero lembrar o Menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e contemplar com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro. (São Francisco de Assis)

O capítulo que se inicia consta de três narrativas clínicas nas quais utilizei de maneira mais sistemática alguns conceitos-chave desenvolvidos pela TSD. Através de conceitos como os de posição, contra posição, meta-posição, inovação do eu e

depositioning (eu receptivo) pude abordar com mais propriedade três aspectos da

Vida Religiosa Consagrada dos quais tenho me ocupado nos últimos anos de pesquisa, a saber os conceitos de espiritualidade, de sexualidade e de vida em comunidade. Valendo-me das narrativas ouvidas dos três jovens - aos quais darei os nomes fictícios de Melcquior, Balthazar e Gaspar - enfocarei sucessivamente os três aspectos acima mencionados, acentuando, porém, desde o início, que essas três vertentes correspondem a experiências e valores - religiosos e não religiosos - que se interconectam e provavelmente se encontram presentes em cada um dos três casos por mim selecionados como exemplares para demonstrar a aplicação da TSD na condução do diálogo psicoterapêutico com clérigos católicos. Acentuo, contudo, que nos numerosos outros casos que acompanhei pude constatar que as memórias, sonhos e conexões trazidas e reavivadas pelos demais clientes tocavam, cada qual à sua maneira, essas mesmas três vertentes. São, provavelmente, vias ou eixos heurísticos que facilitam a busca de sentido e a integração humano-espiritual do que eles me narravam de seu caminho de vida, independentemente das peculiaridades de cada narrativa47.

Nos três casos levei em conta o momento e as circunstâncias em que o material surgia e pincei as narrativas que funcionavam como divisores de água no processo de amadurecimento humano dos jovens atendidos. Foram escolhas ancoradas, de um lado, na minha própria experiência clínica e, de outro, nos três aspectos que privilegiei por vê-los ocorrer regularmente no discurso de jovens que

47 Cf também Morano, 2003. A vida religiosa é um conjunto articulado de valores, linguagem própria etc que configuram a vida e a construção de identidade das pessoas que nela se inserem.

almejam o sacerdócio. Mesmo sabendo que a ênfase nesses aspectos ecoa o que a Igreja diz sobre a formação de seus presbíteros48, estou convicta de que eles representam pontos de força com os quais os seminaristas têm que aprender a lidar de maneira eminentemente pessoal.