4.8 Design process Iteration 2
4.8.2 Workshop
Como vimos acima, a depoente dizia que, primeiro fez coisas, e depois, precisou aprender o quê fez, pois, para ela, eram vivências diferentes. Reflete, assim, o turbilhão de acontecimentos que lhe sucederam e como foi reelaborando esse processo no tempo e os convertendo em experiência, em saber. Neste sentido, o conceito de Thompson de experiência é pertinente, pois vincula as influências externas experimentadas pelos sujeitos e o tratamento dessa experiência em sua consciência e cultura (THOMPSON, 1981, p.182). Como destaca Scott (1998, p.309), para Thompson os sujeitos tratam suas experiências no âmbito do pensamento (como ideias), mas também como sentimentos (valores, crenças).
As reflexões de Joan Scott também contribuem para pensar a forma em que nossa entrevistada trata suas experiências, principalmente, quando pensarmos na relação
79 entre experiência e linguagem. Para Scott, a experiência é um acontecimento linguístico, pois remete a determinados significados. Portanto, escrever revela-se como uma forma de materialização, de processamento, de apropriação da experiência. As experiências podem confirmar o já conhecido, assim como também:
perturbar o que parecia óbvio (quando sentidos diferentes estão em conflito nós reajustamos nossa visão para tomar consciência do conflito ou resolvê-lo – isto é, o que significa “aprender com a experiência”, muito embora nem todos aprendam a mesma lição, ou aprendam da mesma forma, ou ao mesmo tempo). Experiência é a história de um sujeito. A linguagem é o campo no qual a história se constitui. (id. ibid., p.320)
A autora diz: “Olhar é a origem do saber. Escrever é reprodução, transmissão – a comunicação do conhecimento adquirido através da experiência (visual, visceral).” (id. ibid., p.300). Salientamos também a relação entre memória e experiência, em virtude da “permanente interação entre vivido e o aprendido, o vivido e o transmitido” (POLLAK, 1989, p.9). Assim, percebemos que os escritos de Laura refletem um processo de trabalho com memória e experiências, revelando as imbricações entre o privado e o público, o individual e o coletivo, o pessoal e o social, a memória e a história. Seus escritos, hoje utilizados como documentos de pesquisa, tiveram também seu protagonismo nos dias do levante, quando ela sempre levava consigo um caderno de anotações, o diário descrito por Auyero (op. cit). A existência desse diário sugere que ela era ciente da relevância de sua atuação no protesto e, portanto, tinha a intenção de que sua visão fosse registrada para o futuro. Ademais, a relevância desses escritos se baseia na articulação entre os acontecimentos “macros” e aqueles da vida cotidiana, os micros. Como afirma Saffioti (op. cit.), “Trata-se de microprocessos, assim como de macroprocessos, operando nas malhas fina e grossa, „uma sendo o avesso da outra, não níveis distintos‟” (id ibid., p.13).
Em 28 de julho de 2005, apareceu uma carta do leitor, publicada no jornal local
La Comuna, sob o título “Libertad de prensa o seguir ocultando la verdad I”. Neste texto, registram-se reflexões a respeito do levante, quase dez anos depois dos acontecimentos:
Cuando vendieron YPF era para que entráramos al primer mundo. No me olvido de la década del noventa, otra mentira y me convertí en piquetera, jamás creerle a un político. Hicieron que el pueblo se hundiera en la peor de las pobrezas, no sólo la desocupación nos afecta, la falta de educación, la que hace que te des cuenta, de salud y de justicia. No se cumplieron las actas que firmé cuando nacieron los piqueteros, los verdaderos. Y un día después desaparecí de los diarios regionales y junto conmigo los verdaderos piqueteros, entre ellos el pueblo que triunfó con la corrupción política un veintiséis de junio
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del 96. Los diarios regionales pusieron motivos, nombres y fotos de gente que jamás estuvo apoyando al pueblo. Mintieron y aún mienten y ocultan información, será porque no tengo ni tiene plata el pueblo, o será porque el poder no está en el pueblo como se dijo el día que cambió.
A partir da vivência do levante, Laura assumiu uma nova identidade: piqueteira, que se soma às outras que a definem. Assim, frequentemente isso será mencionado nos textos que escreve, aparecendo como assinatura após o nome “Laura, piquetera”, ou no corpo do texto e definindo aspectos/dimensões dessa identidade, no sentido do que seria ser piqueteira. No destaque do fragmento citado, aparece uma dessas condições: jamais acreditar num político. Em outro depoimento publicado, dizia que o ex-marido forçara- lhe a ser piqueteira: “No porque haya algo feo en serlo, sino porque me llevó a ese
extremo” (CARABAJAL, 2002). Podemos destacar dois aspectos do ser piqueteira: é uma identidade assumida diante de uma situação limite, e, por outro lado, não é negativa.
Num contexto marcado pela flexibilização laboral e as políticas neoliberais, que deixaram um contingente de desempregados e marginalizados, procuram-se outros caminhos para ter dignidade. Muitos piqueteiros são desempregados, mas também há muitos jovens que nunca conseguiram se inserir no mercado de trabalho. Porém, ser desempregado não é suficiente para ser piqueteiro. No discurso de nossa entrevistada, ser piqueteira e estar desempregada aparecem como dois aspectos separados: “hoy soy
piquetera especializada en violencia y desocupada y a mucha honra”. Também é salientado o valor de ser piqueteiro, pois para ela “significa dignidad, así lo siento.
Significa la verdadera soberanía del pueblo” (PADILLA & DÁVILA, 2006, p.7).
“Viste cuando vos decís, creo que muy pocas personas han tenido esto no, el honor de, escucháme negra, de ser piquetera, viste cuando vos decís de ser piquetera. Incluso a mí, viste cuando vos todavía estás. Yo todavía estoy feliz, es cómo me situé, como que yo estoy mirando la película ¿no? y yo estoy ahí, viste cuando todavía no lo podés creer, seguí pellizcándome no lo puedo creer [fala com um sonriso]”
Cabem ainda outras observações sobre o levante de Cutral-có. Pode parecer contraditório o fato de considerar esses eventos um ponto na sua trajetória e ocupar várias páginas neste trabalho. Entretanto, quisemos dedicar-lhe esse espaço por vários motivos. O primeiro é que a própria metodologia trouxe a temática, sem dúvida pela importância que tem para nossa entrevistada, ao mesmo tempo em que nos revela vários aspectos da dimensão de gênero e participação política, temáticas centrais deste trabalho. Considerando a questão metodológica, percebemos que as últimas palavras
81 relacionadas ao levante de Cutral-có ainda não foram ditas; há muitas reconstruções e estudos a respeito desses acontecimentos, a proximidade temporal fornece uma quantidade e diversidade enormes de recursos documentais. Mas, acima de tudo, como afirma Roger Chartier nas suas reflexões a respeito da história do tempo presente, contamos com a possibilidade de encontrarmos “com seres de carne e osso” que vivenciaram os fatos e são nossos contemporâneos. Assim, ele afirma:
O historiador do tempo presente é contemporâneo de seu objeto e portanto partilha com aqueles cuja história ele narra as mesmas categorias essenciais, as mesmas referências fundamentais. Ele é pois o único que pode superar a descontinuidade fundamental que costuma existir entre o aparato intelectual, afetivo e psíquico do historiador e o dos homens e mulheres cuja história ele escreve. (CHARTIER, 1998, p.216)
Trata-se da história recente que fornece os fatos para a construção da História, assim salientamos como fundamental nossa função nessa construção. Abrir um espaço para que nossa entrevistada pudesse fazer a narração de suas experiências era uma forma de registrar um ponto de vista dessa história, que nos parece estar sendo posta de lado, apagada. Nesse sentido, Chartier (op. cit.) valoriza os trabalhos que estudam a construção, institucionalização e expressão das memórias contemporâneas, desde que revelam “as formas múltiplas e possivelmente conflitantes de rememoração e utilização do passado” (id. ibid., p.216). Nesse processo, a mídia está desenvolvendo um papel importante, pois seleciona quem fala e, portanto, o que se fala. Assim, Laura manifesta que escreveu a história que nos foi relatada para uma jornalista, mas esta a jogou fora, “la versión mía de lo que pasó no la aceptó”.
Por outro lado, ela assinala que, ultimamente, quando se rememoram os acontecimentos de Cutral-có e Plaza Huincul, as pessoas que são chamadas pela mídia para contar sua versão da história são, geralmente, os políticos. Todavia, questiona que algumas pessoas se adjudiquem um lugar de protagonismo no levante, pois para ela foram:
“(…) un ingrediente más, un ingrediente más de los veinte mil ingredientes que hicieron la pueblada. O sea, acá nadie se puede decir que fue más que el otro, que tuvo más cabeza que el otro porque vos podés ser muy inteligente, pero si no teníamos las veinte mil personas no existís. (…) ponéle que diez mil estaban fijas, ponéle, ¿no? Pero a esas diez mil alguien les dio de comer. ¿Quién les dio de comer? El abuelito que preparó un guiso en su casa y que cuando pasó un jeep lo llevó a la ruta. Entonces ese abuelito, que no fue a la ruta, es fundamental, porque si durante seis días en pleno invierno no tenemos comida, ¿cómo hacemos para estar ahí? Entonces acá nadie puede decir que fue más importante que el otro.”
82 Nos casos em que esse protagonismo é “legitimado” com o argumento de uma trajetória de militância política anterior, nossa entrevistada os remete em questão a partir de sua própria experiência, salientando que ela, mesmo sem militância, teve um papel importante. O depoimento a seguir, explicita essa ligação entre memória e experiência.
“Bueno, pero vos fijáte que yo fui a comer un asado. Entonces esto que yo hice, de irme a comer un asado, enojarme y pelearme con un tipo porque me trató de inútil tiene tanta importancia como todo tu aprendizaje que has hecho durante años de militancia y qué sé yo cuántas mierdas más. Porque todos tus años de militancia sin esta pelea de mierda, no hubiera existido [riso]”
No retorno a General Roca, Laura enfrentou novamente dificuldades, implicando desenvolver estratégias de rattrapage, como em outras oportunidades em razão da separação conjugal. Ela estava sem emprego, recebia ajuda da mãe e seus filhos comiam no refeitório da escola. Apesar de vivenciar essa precária situação, em março de 1997, começou o curso de direito, na universidade, pois estudar para ela tornou-se uma via de empoderamento:
“Yo estaba segura que de mí no se podían burlar como se burlaron aquella vez. Todo lo que hice a lo largo de los años fue esto. Ahora como vos decís, yo estaba segura de esto, sin conocimiento, sin educación, sin las herramientas que te permite esto no podés salir a enfrentar nada.”
Rememora que gostava de acotovelar-se com alguns advogados, que conhecera durante sua demanda, “era como uma manera de decir yo estoy acá”. Porém, não conseguiu continuar os estudos de direito e, assim, decidiu fazer o curso de leiloeira:
“(…) fue tremendo para mí, pero fui me metí y me puse a estudiar de martillera, y me recibí de martillera para meterme dentro del sistema judicial. (…) yo quería putearlos, no sabía cuándo, pero con un título de ellos, o sea a yo quería algo judicial
Norma: Putearlos de igual a igual Laura: Y sí.”
O deslocamento geográfico, segundo Battagliola et al. (1991), impacta sobre as trajetórias sociais. No caso da mudança da nossa entrevistada, é possível perceber o impacto que tem no sentido de se deparar novamente com uma situação que parecia superada. A separação conjugal e suas consequências vis-à-vis o nível de vida voltam a ser tematizadas a partir das interações com as pessoas que ela conhecia. Nessas interações, novamente se sente “la que se separó y quedó pobre”. Pessoas que tinham escritório e a conheciam, sabendo que estava começando a carreira, chamavam-na para
83 realizar pequenos trâmites burocráticos, pelos quais recebia um pagamento inferior à média destinada a outros. Rememora: “Entonces yo hacía una notificación y a un oficial
cualquiera, o a un martillero capaz que le pagaban, no sé, trescientos pesos y a mí me pagaban veinte porque sabían de mis necesidades y yo les decía: Se van a acordar de mí”. Novamente, aparece o leit-motiv mencionado na sua narrativa, orientando seu processo de empoderamento. Uma dimensão central para conseguir se empoderar foi adquirir uma série de recursos que ela chama de “ferramentas”, para poder enfrentar o sistema judiciário.
Em 1998, foi vencedora na ação judicial contra o ex-marido, que foi condenado a dois anos e dois meses de prisão por ter declarado uma falência fraudulenta para evitar o pagamento da pensão alimentícia. Ela destaca a importância da sentença:
“Eso era un delito y no es lo mismo, porque parece que no pero después de esa sentencia penal, viste cuando te dicen él era un delincuente, y sí. Pero no es lo mismo el hecho de que lo digamos entre casa a que haya un sentencia por una autoridad.”
No ano de 2000, com um caderno, dirigiu-se a um bairro próximo da sua casa. Era um bairro muito precário, “favela”, e foi casa por casa perguntando às mulheres que a recebiam, se moravam sozinhas ou não; no caso de estarem separadas se o marido pagava a pensão alimentícia dos filhos etc. Assim, começou a organização do grupo “Por tu familia”, que se dedica a conter e dar assessoramento a mães e filhos vítimas de violência doméstica, auxiliando na realização de trâmites e gestões jurídicas e outras, destinadas à obtenção da pensão alimentícia.
Este tema, somado ao abandono dos filhos, chamou muito a atenção, pois existiam grupos que trabalhavam a questão da violência familiar, mas poucos que se dedicavam a lutar pela pensão alimentícia que é violência econômica. Mostrando o logotipo do grupo, descrevia: “es la mujer con la carga de los [filhos], me la hizo una
chica, como la carga de la mujer sola con los hijos que forma parte de creo que no acá en la Argentina, a nivel mundial es la pobreza de las mujeres”. A partir de suas atividades no grupo e das denúncias que começaram a ser encaminhadas, ela ganhou visibilidade novamente e terminou sendo convocada para trabalhar na Secretaria de Ação Social do Governo da Província de Río Negro. O vínculo, comenta, durou seis meses, pois ela mesma divulgou em cartazes as falhas do sistema de atenção às vítimas:
“(…) le puse „la policía no cumple con… las instituciones no cumplen con su función y entré a detallar todo lo malo que hace la policía y el juzgado, ¿no? Me sacaron a los dos o tres meses cuando se dieron cuenta de que les había empapelado Roca con eso, me llamaron y me dijeron „Sacá esos carteles, por
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favor, las instituciones somos nosotras‟, „Yo no saco un solo cartel‟, „Pero no podés. O sea, eso lo tenés que hacer fuera del gobierno, no lo podés hacer dentro del gobierno‟. Y viste cuando vos decís, me abrieron la puerta, yo ya pasé [gesto de dar um beijo], les agradezco que me odien y me echaron.”
O grupo “Por tu familia” continuou funcionando. Por um tempo, reuniram-se aos sábados à tarde, numa escola do bairro, perto de sua casa. Ela explica que no começo não havia conhecimentos legais “nada no sabía nada, sabía que tenía derechos
no sabía a qué”. Nesse sentido, Evelina Dagnino (1994) identifica um processo de “redefinição da ideia de direitos, cujo ponto de partida é a concepção de um direito a ter
direitos”, que não se limita a direitos existentes senão que também inclui a possibilidade de invenção/criação de novos direitos a partir das demandas e lutas (id. ibid., p.107- 108). Essa nova cidadania requer a constituição de sujeitos sociais ativos nos processos de reivindicação, definição e reconhecimento de direitos. Desta maneira, trata-se de “uma estratégia dos não-cidadãos, dos excluídos, uma cidadania „de baixo para cima‟” (id. ibid., p.108).
Laura explica que “Se empezaron a interesar otras mujeres periodistas y qué sé
yo, y empezamos a trabajar acá en la escuela, viste esa escuelita que veníamos ayer”.
Assim, foram conseguindo a participação e assessoramento de profissionais de diferentes áreas: psicólogas, advogadas, nutricionistas etc. Para essas profissionais era uma oportunidade de adquirir experiência e vincular seu nome às atividades do grupo (programas de rádio, publicações nos jornais locais, entrevistas, participação em eventos etc.). Porém, no momento de patrocinar as mulheres, as advogadas não o faziam.
“Acá vos querés trabajar para el grupo, sí, bueno muy bien, acá tenés cinco mujeres, las patrocinás y les hacés la demanda de alimentos si no no venís. Y te dicen „Y no pero nosotras le podemos dar la información legal‟, con esa información legal no alcanza, porque gente asesorando por derechos debe haber millones, gente comprometida con hacer que esos derechos se puedan gozar, no hay nadie.”
Os encontros, aos sábados, deixaram de ser realizados, porém ela manteve o contato com as mulheres do grupo, que continua funcionando atualmente. A rede já foi estabelecida, ela explica “cuando surge un caso, entonces ahí nos llamamos por
teléfono, nos, pero esa cosa de juntarnos todos los sábados no, no. A veces capaz que andamos mucho más en la calle, que antes ¿no?”. Todos os anos, de novembro a
fevereiro, Laura trabalha intensamente dando aulas de reforço, assim fica mais dedicada ao trabalho. Contudo, sem estar com um caso específico, as mulheres a contatam por
85 diferentes motivos: trazem roupas para doar, informam-lhe casos de violência, e às vezes, vêm à procura de conselhos.
“Esto ya habla del grupo, ¿no? de lo que estamos haciendo [lê] „y que permanentemente la herramienta de estas mujeres es la valentía y el amparo de un amplio marco legal que la mayoría desconoce y que paradójicamente las mismas instituciones que deberían reconocerlas no las llevan a la práctica‟. O sea, en definitiva esto es lo que estoy haciendo hoy.”
Destaca ainda que no processo de reivindicação, a pessoa pode transformar sua vida. Nessa luta por direitos, a pessoa se afirma. Na reivindicação, na luta por justiça, no reconhecimento dos direitos, as pessoas se empoderam. Desta maneira, ela salienta esse processo a partir de sua própria experiência:
“Yo cuando trabajaba con las mujeres, „Mirá la ley dice tal cosa, yo ya llevo veintidós años reclamando la ley y no me han dado bola. En ese reclamar dejé de ser mujer golpeada, pasé a ser una mujer, creo que libre, estudié, me capacité, me doy de comer sola, mis hijos han estudiado, tienen una calidad de vida a la que ellos están deseando llegar, ¿no? Si me vas a preguntar si yo logré del sistema judicial algo: No. Pero eso no quiere decir que yo tenga, insista en lo que a mí me corresponda. Ahora no me quedo de brazos cruzados con eso, porque yo estuve añares sin cobrar una cuota de alimento por parte del padre, pero mis chicos estudiaron, yo también estudié, comimos es como que sobrevivimos. Ahora lo que a mí me corresponde, eso sí lo reclamé.‟”
Em 2001, Javier Auyero, interessado pela história de Laura e sua participação nos piquetes de Cutral-có, contatou-a para reconstruir os acontecimentos de junho de 1996. O pesquisador menciona no livro “Vidas beligerantes. Dos mujeres argentinas,
dos protestas y la búsqueda de reconocimiento” que morou por várias semanas na casa de Laura, fizeram uma viagem a Cutral-có e tornou-se amigo dela e de sua família. Na leitura do livro evidencia-se que ela rememorou e narrou acontecimentos, mas também teve a oportunidade de voltar a Cutral-có, transitar pelos lugares do levante, reencontrar- se com pessoas que participaram dos piquetes e até contrastar suas lembranças com elas.
Nas entrevistas que nos concedeu, ela fez referência à visita do pesquisador revelando-a como um ponto importante na sua trajetória e apresentou-nos o livro de Auyero. Muitas vezes, seu relato iniciava com frases como "Cuando vino Auyero…”; “Bueno, después que vino Auyero”, entre outras. É pertinente, nesse sentido, destacar o reconhecimento recebido a partir do interesse acadêmico, mais ainda quando, segundo ela, o pesquisador veio “mientras nadie me daba bola”. Nessa época ninguém falava em piqueteiros, “Porque nosotros estábamos desaparecidos desde el noventa y seis hasta el
dos mil uno que viene Auyero y que se hace toda esta alharaca y que el libro se publica