Laura Padilla nasceu em 24 de janeiro de 1960, em El Perdido, um povoado de menos de mil habitantes, pertencente ao município de Coronel Dorrego, na Província de Buenos Aires. Quando tinha um ano, seu pai foi contratado pela empresa YPF e a família se trasladou para General Roca. Nessa cidade, Laura foi criada. Sua mãe era dona de casa e também teve um pequeno comércio. Suas lembranças da infância se reportam à ausência do pai que, pelo tipo de serviço e, principalmente, por não se afiliar ao partido político local, era “penalizado” com traslados, devendo se afastar com frequência da família. Um depoimento, registrado no livro de Javier Auyero10, retrata as vivências dessa época:
“Yo viví toda mi niñez y mi adolescencia sin papá porque mi viejo se iba a trabajar al campo de obrero de sismográfica, y venía sólo los fines de semana. Mi papá nunca se afilió al MPN11, ni al sindicato, y por eso padeció mucho con
10 Em 2001, Javier Auyero, sociólogo argentino, Professor de Sociologia da Universidade Estadual de
Nova York, interessou-se pela história de Laura e sua participação nos piquetes de Cutral-có. Assim, desenvolveu um trabalho de campo orientado à reconstrução dos acontecimentos de junho de 1996, tomando como eixo a trajetória de Laura. A reconstrução do levante de Cutral-có foi publicada no livro “Vidas Beligerantes. Dos mujeres argentinas, dos protestas y la búsqueda de reconocimiento”.
11 O Movimiento Popular Neuquino (MPN) é um partido político provincial, fundado em 1961, em
virtude da proscrição do Peronismo. Formou-se a partir da vertente política e da sindical e governa a província de Neuquén até a atualidade.
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Sapag12. Lo trasladaban todo el tiempo. Yo me crié en una familia en que la política era un tema que estaba prohibido. El político, en mi casa, era un tipo sucio. A mí no me gustaban los políticos.” (AUYERO, 2004, p.79)
Andrea Andújar assinala que essa dinâmica laboral imposta aos trabalhadores da YPF imprimia especificidade nas relações de gênero, pois estas não são moldadas apenas pelo sistema socioeconômico e político.
o fato de que a organização da produção provoque que o ypefeano permaneça fora de sua casa de 15 a 20 dias, gera um tipo de vínculo particular com seu âmbito doméstico e as pessoas que o constituem. Portanto, as mulheres destes trabalhadores dispunham de uma “autonomia” maior que outras mulheres a respeito do uso de “seus” tempos e a tomada de decisões. Enquanto a presença dessas mulheres no que corresponde à criação de seus filhos/as, também era muito maior. (ANDÚJAR, 2005, p.5, TN)
A autora destaca que pertencer ao mundo ypefiano trazia seus benefícios, ao ponto de despertar “um profundo sentimento de pertencimento e de identificação” dos/as trabalhadores/as com a empresa estatal. Esses benefícios envolviam as mulheres, pois a empresa fornecia serviços tais como: escolas, creches, centros esportivos, escolinhas etc., e, assegurava a seus filhos a futura inserção laboral.
Reportando-se às suas origens, nossa entrevistada conta que a casa familiar foi construída pelo pai e pela mãe. Enquanto sua mãe realizava os trabalhos de alvenaria para levantar a casa, Laura aprendeu a fazê-los “porque desde chiquita que los vengo
haciendo”. Na sua narrativa, estabelece uma continuidade entre suas origens, seu trabalho e luta atual. Assim, o passado vai emergindo em fragmentos que saem à luz, justificando e dando sentido às ações do presente. Expostos aqui em forma cronológica para favorecer a leitura, suas memórias ganham força e sentido na vida atual da narradora. Assim, por exemplo, emerge a história da sua avó indígena:
“(…) yo tengo mi abuela que era india13 y durante añares todos es como que
hablábamos de la abuela india, la abuela que había abandonado a los hijos, porque mi abuelo, el papá de mi mamá, ellos son todos de ojos celestes. (…) Son más bien rubios de ojos celestes, ¿por qué? porque tienen una ascendencia alemana. Pero bueno el primer abuelo que vino con la Conquista14, cazó una
12 Felipe Sapag, político e empresário, um dos fundadores do MPN. Em três oportunidades eleito
governador 1962, 1963 e 1973 foi derrubado por golpes militares. Durante a ditadura do General Juan Carlos Onganía foi nomeado interventor de Neuquén e desempenhou-se de 1970 a 1972. No período democrático, governou de 1983 a 1987, e se reelegeu em 1995.
13 De origem mapuche, povo indígena da região centro-sul do Chile e da Argentina, conhecido como araucanos. Segundo a “Encuesta Complementaria de Pueblos Indígenas” (ECPI), de 2004-2005, realizada pelo Instituto Nacional de Estadísticas y Censos (INDEC), 113.680 pessoas auto-reconheceram- se como mapuches, sendo maioria de primeira geração (pai ou mãe mapuche). Disponível em <http://www.indec.mecon.ar/webcenso/ECPI/index_ecpi.asp>, consultado em 02 abr. 2008.
14 A cidade de General Roca foi fundada em 1 de setembro de 19879 durante a Conquista del Desierto ou Campaña Del Desierto, campanha militar que objetivava o domínio territorial das regiões pampiana e
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india, tuvo dos hijos, los soldados corrieron las tolderías y la abuela dejó esos hijos, porque esos hijos ni eran del grupo de los extranjeros, pero tampoco eran del grupo de los indios. Entonces, viste como yo después hago todo un trabajo como el que hice con los indios mocovíes. Con cuánto dolor se debe haber ido aquella mujer, porque sea como sea eran sus hijos, pero eran hijos despreciados en su propio país. Porque no eran de un grupo, ni del otro. (…)”
Segundo POLLAK (1992, p.201), os elementos constitutivos da memória individual ou coletiva são: acontecimentos (Conquista, origem familiar), pessoas/personagens (avó indígena e avô alemão) e lugares (fronteira15). Estes podem ser vividos ou conhecidos pessoalmente; “vividos por tabela”, quer dizer, pelo grupo ou coletividade de pertencimento; ou situados fora do espaço-tempo de quem lembra. Para o autor, quando estes últimos adquirem tal força na memória da pessoa, havendo identificação ou projeção com esse passado não vivenciado, fala-se em “memória herdada” (id. ibid.). Fruto de um trabalho familiar com o passado, “durante añares
todos es como que hablábamos de la abuela india”, a lembrança de Laura nos remete a um capítulo da história argentina muitas vezes silenciado ou, no melhor dos casos, conhecido na versão escrita pela mão dos poderosos, dos vencedores.
Essa narrativa coletada merece que abramos uma pequena janela, pois arroja fachos de luz sobre a situação de violência do processo de Conquista e Colonização e, principalmente, sobre a parcela dessa violência que vivenciaram as mulheres, neste caso, aborígenes. Costa (2000) refere que o tema da cativa esteve presente nos primórdios da literatura nacional, refletindo ideias e sentimentos em torno às relações entre os sexos.
Na confrontação de duas culturas, no âmbito instável da guerra de fronteiras entre espanhóis, criollos16 e indígenas, as diferenças e as relações entre os sexos se problematizaram, se observaram, se compararam. A questão de gênero teve um lugar inevitável nas reflexões e nas imagens criadas ao redor da longa guerra de fronteiras com os indígenas, conflito racial-econômico-político- militar, que gravitou enormemente na conformação de uma identidade subjetiva em termos de nacionalidade. (id. ibid., p.89, TN)
patagônica, pertencentes aos povos mapuche, tehuelche e ranquel, dirigida pelo Ministro de Guerra Julio Argentino Roca.
15 “A fronteira não é um limite e tampouco é somente lugar do conflito. Aparece como o espaço da
indefinição, onde se desenvolve uma vida peculiar, marcada pelas contaminações, as misturas, as transformações. Ali podem ocorrer desgraças e perdas irreparáveis. Também encontros milagrosos, resgates incríveis. Em fim, é um mundo com leis próprias, onde se confrontam e estão em contato permanente os dois mundos em pugna” (COSTA, 2000, p.96).
16 Filho de pais europeus nascido em qualquer outra parte do mundo, ou hispano-americano descendente
44 Segundo a autora, o rapto e cativeiro de mulheres indígenas, geralmente, passaram a serem práticas habituais e chegaram a ser consideradas “naturais” no território de fronteira. Estas cativas, maiores numericamente, tiveram diferente sorte às cativas brancas em poder dos índios, pois como no caso da avó de Laura nem ela, nem seus filhos pudera se inserir na sociedade dos brancos. Nesse sentido, Martins (1997) afirma:
O único grupo de raptores que não incorpora efetivamente o raptado, mantendo- o à margem, é o dos brancos. Mesmo quando submeteram os índios raptados a até sofisticados processos de ressocialização (...). Especialmente as mulheres raptadas quando crianças, mesmo educadas como europeias, não chegaram a casar e constituir família. (...) sem efetivamente entrar no circuito dos relacionamentos que implicassem aceitação e integração, como ocorreria por meio do casamento. Ou então, como ocorreu na Amazônia, como concubinas e mães de filhos bastardos, esposas não reconhecidas de seus raptores. (id. ibid., p.47-48)
A cativa índia foi rapidamente tirada da cena para priorizar a representação da cativa européia, invertendo “a situação de conquista e roubo: não era o homem branco quem despojava ao índio de suas terras, sua liberdade e sua vida, senão o índio quem roubava ao branco sua mais prezada pertença” (d. ibid., p. 89). No último capítulo, a partir de outro relato coletado, retomaremos a questão da cativa europeia. Por enquanto, vale considerar que a presença dessas narrações de acontecimentos, à primeira vista, distantes, longínquos no tempo, evidencia uma História que não acabou de ser escrita.
Em 1974, o pai foi transferido para Tostado (província de Santa Fe), e a família foi para o “norte”. Lá, Laura concluiu o colegial, “en aquel momento yo era una
adolescente, nada más, vivía para el Sui Generis (banda de rock) y la Fiesta del Día del Estudiante”. Disse ter vivenciado a época com medo, mas sem saber bem o que
acontecia, pois ninguém explicava nada. Hoje, essas lembranças da adolescência apresentam-se perpassadas por uma memória política; eram os anos da ditadura militar, dos desaparecimentos de pessoas. Desta maneira, num texto escrito posteriormente, essas lembranças foram reelaboradas de forma crítica:
“allá en Tostado, en Santa Fe, aprendí lo que era el miedo, época de muertos y desaparecidos y la mentira del gobierno de ese momento. Le tenía más miedo a un universitario que a un milico. El daño hoy en día está en los que quedamos vivos y fuimos testigos del horror, de la muerte y de esa mentira. De no ser por las Madres de Plaza de Mayo y la prensa.”
Por essa época, Laura iniciou o namoro com um jovem, agente da polícia “de
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“Este señor dice que se asustó, no sé qué. Las cosas no empiezan a andar bien, de hecho mi mamá me casaba porque eso (ficar grávida) era casarse. Y yo digo „No, yo no me voy a casar con un tipo por estar embarazada‟. El quilombo (confusão) que se me arma en la familia eso de estar embarazada, soltera, es… Pero bueno, me la banqué (aguentei) hasta donde pude, viste cuando vos decís…”
Teve sua filha Paula com dezoito anos e continuou morando com seus pais. Segundo ela, nunca foi perdoada por não ter se casado “es como que quedó la mancha a
la familia” (AUYERO, 2004, p.79). Este episódio de sua trajetória revela uma ruptura com os padrões tradicionais. Ela assumiu ser mãe solteira arcando com as consequências que implicava na época, e que ainda hoje implica. Em 1978, quando sua filha tinha entre quatro e cinco meses, voltaram a General Roca e Laura começou a trabalhar na Caja de Subsidios Familiares. Conheceu Juan, seu ex-marido, que na época trabalhava numa empresa de construção e estudava na universidade para Contador Público. Esclarece que, antes de se casar com ele, namorou durante seis anos. Disse “es
como que pasa todo un tiempo”. Os dois tinham bons salários e foram juntando o dinheiro para construir e mobiliar a casa.
Casaram-se em 6 de janeiro de 1984. Ela afirma que os problemas de relacionamento com o marido começaram já nos primeiros dias de casados. O primeiro motivo de conflito foi o fato da escritura do imóvel que ocupavam estar no nome dos dois “eso porque, en su familia, la tradición es que la casa está siempre a nombre del
hombre, no figura el nombre de la mujer en una escritura” (AUYERO, 2004, p.80). Em seguida, começaram as recriminações e os episódios de violência, “él le dio el apellido
a mi hija (Paula). Es como que tenía que decir gracias todos los días” (id. ibid.). Num dos episódios de agressão, foi expulsa da casa com sua filha, numa noite, enquanto nevava, por ter lhe “desobedecido”. Separou-se e deu início aos trâmites para o divórcio. Estava grávida de cinco meses. A ordem do juiz foi que o marido saísse da residência. Juan acatou-a, mas esvaziou a casa e quebrou tudo o que não conseguiu levar. Laura encarou novamente uma gravidez sozinha. O marido só reapareceu, pouco antes da primeira audiência, para pedir-lhe perdão. Nessa ocasião conheceu seu filho:
“lo abraza al nene, y yo super enamorada le digo que sí. Entonces fui a Tribunales y dije que no quería separarme. Los testigos se fueron todos a su casa, todos creyendo que yo cometía el peor error de mi vida; pero estaba él, que era mi marido, el papá de mis hijos” (AUYERO, 2004, p.81) Grifo nosso
Nossa entrevistada tinha um emprego estável que lhe proporcionava certa independência financeira, mas era frequentemente culpabilizada por não ser capaz de
46 manter o matrimônio que, pela situação financeira do marido, as pessoas avaliavam como “conveniente”. Neste sentido, Heleieth Saffioti atenta para um dos fatores dessa “ambiguidade” geralmente observada nos casos de violência doméstica: a pressão exercida não só pela família, pelos amigos, mas também pela Igreja “íbamos todos los
domingos a misa y yo al cura le confesaba que mi marido me mataba a palos. El cura me decía que lo perdonara y rezara por él” (AUYERO, 2004, p.84). Segundo Saffioti (2004), preservar a “sagrada família” como instituição importa mais do que “o que se passa em seu seio” (SAFFIOTI, 2004, p.88-89).
Voltaram a conviver, segundo ela, numa relação boa que durou um ano aproximadamente. Ela mesma esclarece que, nesse tempo, não podia visitar os seus pais, nem frequentar a casa de amigos e, assim, foi se isolando. O marido quis ter outro filho. Em dezembro de 1986, estando grávida de poucos meses, a Juan “le agarró otra
vez el patatún (ataque de nervos), por cualquier cosa se molestaba” (AUYERO, 2004, p.81). A pedido do marido, renunciou ao serviço, pois ele “decía que con tres chicos yo
no podía trabajar, de que iba a ser muy engorroso, de que no hacía falta porque estábamos bien” (id. ibid., p.81). Porém, numa de suas crises, Juan deixou de comprar os alimentos e quando ela num “acto de coraje” reclamou, ele foi embora da casa e não voltou mais. Assim, Laura passou os últimos meses da gravidez apenas com seus filhos. Esse tempo aparece no relato como o das “primeiras lutas” em que reivindicava a pensão alimentícia para os filhos.
Mesmo no processo de reivindicação do direito à pensão, começou a sofrer humilhações por parte do sistema judicial. As pessoas não acreditavam nela "porque es
como que creyeron más en esa imagen del coche, de la ropa buena, de todo eso, de lo que yo decía que me pasaba”. “En la primera audiencia del régimen de visitas, me
trataron de todo, de inmadura, de todo, de lo que te podés imaginar” (AUYERO, 2004, p.82). Heleieth Saffioti denuncia a complacência que a sociedade tem para com a violência doméstica, atitude esta tomada frequentemente por funcionários do sistema judicial, que carecem de qualificação em relações de gênero e que, quando implementam a lei, o fazem “com tal desprezo pelas vítimas, com tanto sexismo, que conseguem torná-la bem pior” (SAFFIOTI, 2004, p.93). Assim, a autora afirma que o patriarcado ou ordem patriarcal de gênero atravessa todas as instituições.
Nessa audiência, o juiz decidiu que as visitas aos filhos deveriam ser realizadas no lar. Assim, Juan obteve permissão para entrar na casa novamente. Na entrevista, Laura refere-se à decisão do juiz e às consequências do reingresso do ex-marido no lar,
47 na seguinte frase: “escucháme, en agosto del ochenta y siete yo fui una mujer violada
por una orden judicial”. Na primeira visita, ele ficou com seu filho na sala. Na segunda, foi armado e ameaçou Laura dizendo que ia matá-la e se matar depois. Ela o convenceu de que o amava. Juan ficou e, no dia seguinte, trouxe suas coisas e se instalou na casa novamente. O ato reflete o apontado por Saffioti que:
o homem, considerado todo-poderoso, não se conforma em ter sido preterido por outro por sua mulher, nem se conforma quando sua mulher o abandona por não mais suportar seus maus-tratos. Qualquer que seja a razão do rompimento da relação, quando a iniciativa é da mulher, isto constitui uma afronta para ele. Na condição de macho dominador, não pode admitir tal ocorrência, podendo chegar a extremos de crueldade. (SAFFIOTI, 2004, p.62)
O retorno do marido está marcado por um “voltar à normalidade”, no sentido de estar respondendo a uma norma. “Cuando él volvió yo pasé a ser la señora bien vestida
y callada la boca, muy bien vestida, y con una vida muy holgada, pero muy calladita la boca” (AUYERO, 2004, p.83). Voltar a ser “senhora”, ser respeitada (abandonar o negativo de ser a separada, a mulher sozinha) e, também, ter bem-estar financeiro "bien
vestida”. Porém, como ela mesma destaca, implicou a submissão “muy calladita la
boca”, com que se deparou nessa situação. O dinheiro negado em outras oportunidades para comprar alimentos é reposto, quando ela voltou em troca de sua sujeição, demonstrando o avesso do uso do patrimônio como mecanismo de sujeição e/ou intimidação.
Essa submissão exigida implicava a reclusão no lar e a dedicação exclusiva às tarefas domésticas: “Él ahí empezó a ser feliz”. Porém, os episódios de violência doméstica continuaram. Saffioti (2004) distingue a rotinização como uma das características mais relevantes da violência doméstica e afirma:
Que contribui, tremendamente, para a co-dependência e o estabelecimento da relação fixada. Rigorosamente, a relação violenta se constitui em verdadeira prisão. Neste sentido, o próprio gênero acaba por se revelar uma camisa-de- força: o homem deve agredir, porque o macho deve dominar a qualquer custo; e a mulher deve suportar agressões de toda ordem, porque seu “destino” assim o determina. (id ibid., p.85)
Essa co-dependência é possível porque a violência se intercala com momentos de demonstração de afeto, pedidos de perdão, justificativas, penalização e desculpas por parte do agressor. São relações afetivas, com múltiplas dependências recíprocas.
Em 1989, mudaram-se para Cutral-có em razão do trabalho de Juan; Laura esclarece que apenas acatou a decisão. Consideramos esse deslocamento relevante na construção de sua trajetória social, desde que os deslocamentos podem influir no sentido
48 da melhora das condições de vida ou podem também incrementar os riscos de precariedade (BATTAGLIOLA et al., 1991). As autoras também revelam que os efeitos desses deslocamentos afetam de maneira diferente as trajetórias dos cônjuges e patenteiam formas específicas da interação conjugal (id. ibid., p.191). Embora General Roca e Cutral-có sejam cidades muito próximas, a mudança implicou uma distância entre Laura, sua família e conhecidos. Em razão da violência sofrida, ela se tornou mais vulnerável ainda. Porém, o marido argumentou que longe das famílias estariam mais tranquilos.
Nessa cidade, ele também era conhecido e respeitado. Assim, embora Laura o tenha denunciado muitas vezes, as pessoas não acreditavam nela. O poder de influência do marido chegava até à polícia, em virtude disso “A los quince minutos que anuncié
que iba a ser una denuncia por golpes, él apareció en la comisaría. Los mismos policías le avisaron.” (AUYERO, 2004, p.86-87).
Num desses episódios de violência, houve a intervenção de um médico. Após ser espancada, o marido a jogou contra a geladeira, o que a levou ao desmaio. As crianças consideraram-na morta e pediram ajuda aos vizinhos dizendo que sua mãe tinha caído. Juan e os vizinhos a levaram ao hospital. Durante a consulta com o médico, Laura destaca que quando ele lhe disse “yo te creo, gorda”, sentiu pela primeira vez que alguém acreditava nela. O médico exigiu do marido que ela retornasse num prazo de 48