• No results found

Em junho de 1996, Laura foi uma das protagonistas dos piquetes que levaram todo o país a olhar a situação de crise da região petroleira, após a privatização da empresa YPF. Plaza Huincul e Cutral-có fundadas em 1918 e 1933, respectivamente, são cidades nascidas a partir do descobrimento e, posterior, exploração do petróleo. Entre 1991 e 1993, durante a primeira presidência de Carlos Saúl Menem, o processo de privatização também se levou YPF. Segundo Andújar (2005), a privatização da empresa teve efeitos nas condições materiais assim como nas subjetividades, afetando de diferente maneira homens e mulheres, em virtude dos seus papéis de gênero.

Esses primeiros piquetes foram o germe de uma nova forma de ação coletiva, que se espalharia pelo resto do país, gerando um novo sujeito social: o piqueteiro. Lobato & Suriano (2003) mostram dados que revelam as dimensões crescentes da utilização do piquete como forma de confrontação:

(...) em 1997 realizaram-se 140 bloqueios de pistas; em 1998 foram 51 e 252 em 1999. O aprofundamento da crise econômica e, possivelmente também a consciência da impossibilidade de modificar a política econômica e social impulsionaram o notável incremento das interrupções de trânsito. Assim, os 514 bloqueios do ano 2000 passaram a 1.282 em 2001 e 2.334 em 2002. Entre 2001 e 2002, quase todas as províncias tiveram uma pista ou caminho bloqueado. (id. ibid., p. 146, TN).

Cabe assinalar que a realização de piquetes, muitas vezes, era motivada pela reivindicação de subsídios do Estado. Delineando uma cronologia dos bloqueios nas rodovias e picadas de Cutral-có e Plaza Huincul (Neuquén), de 20 a 26 de junho de 1996, Paula Klachko, explicita que essa forma de protesto tinha sido utilizada antes, em 1991, na cidade de Sierra Grande (Río Negro). Contudo, em Neuquén adquiriu uma significação distinta, pois os manifestantes conseguiram sobrepor à ação das forças de segurança e obter grande parte de suas reivindicações, porém não a fundamental, que era emprego. A pesquisadora afirma que, em maio de 1990, o desemprego atingia 6,6% da população ativa, enquanto em maio de 1996 era do 11,6%, tendo alcançado o 16,6%

54 em outubro de 1995. A partir dos acontecimentos de Cutral-có e Plaza Huincul, o piquete se estabeleceu como principal modalidade de protesto. Neste sentido, Svampa & Pereyra (2004) assinalam que esses piquetes constituíram uma nova experiência social comunitária que:

tornou visíveis reclamos e insatisfações diversos a partir de, por um lado, a criação de um espaço de encontro que progressivamente se constituiu numa caixa de ressonância das reivindicações e no cimento de uma experiência comum ou comunitária e, por outro, na rejeição ou numa certa desconfiança aos mecanismos tradicionais de mediação e canalização dos conflitos (id. ibid., p.112, TN).

O relato da participação no levante de Cutral-có foi feito por Laura em diversas ocasiões e destinado para distintos ouvintes: jornalistas, imprensa, pesquisadores/as e também em cartas a amigos e registros no seu diário. Suas palavras aparecem em livros, páginas da Internet, artigos acadêmicos, matérias de jornais etc. Neste texto, interessamo-nos, no marco dos objetivos que orientam nossa pesquisa, na sua participação nos acontecimentos, entendida como o desenvolvimento de um itinerário político na sua trajetória. Trata-se de um conjunto de acontecimentos que têm uma influência sobre sua trajetória social ao ponto de reorientá-la. Ela é consciente da relevância de ter protagonizado um fato histórico, que a tornou “a primeira piqueteira”, “a mãe dos piqueteiros”. Entretanto esclarece, com a frase que intitula este item, que o levante é um ponto na sua trajetória: “En mi vida la pueblada es un hecho más”. Assim, também, o consideraremos neste texto que visa a reconstruir sua trajetória.

Vários detalhes de seu cotidiano podem ser consultados no livro de Javier Auyero, no qual foram transcritos diversos fragmentos do seu diário íntimo22, especialmente, os registros referentes ao primeiro dia do levante: 20 de junho de 1996. Era o Dia da Bandeira Nacional e, embora na época do levante não fosse feriado23, atos comemorativos realizaram-se nessa data. Cabe lembrar a relevância das datas e aniversários como conjunturas em que são ativadas memórias, mediante diferentes manifestações e comemorações na esfera pública (JELIN, 2002, p.52). Assim,

22 Consideramos, inicialmente, que se trata de um registro posterior ao levante, em que se referem fatos

de seu cotidiano, a situação de dificuldade econômica que vivenciava, etc. Talvez Laura tenha começado a escrevê-lo após o levante; o ponto de vista narrativo é como o de alguém que já tenha passado pelos fatos, ao tempo que as pessoas do seu cotidiano são apresentadas (recurso que não seria necessário se ela já levasse o diário há um tempo), como se ela estivesse construindo uma narração destinada a um leitor/a.

23 O dia 20 de junho foi a data escolhida na Argentina para celebrar o Dia da Bandeira, segundo a Lei

N°12.361, de 9 de junho de 1938, como comemoração da morte do General Belgrano, o criador do símbolo pátrio. Pelo artigo 4°, da Lei N° 24.445, promulgada em 11 de janeiro de 1995 pelo ex-presidente Carlos S. Menem, estabeleceu-se que os feriados de 20 de junho e 17 de agosto fossem cumpridos no terceiro domingo do mês. Esta medida visou à promoção do turismo interno e continua vigente na atualidade. Entretanto, houve um projeto de lei que tentou manter o feriado nessa data, mas sem sucesso.

55 entendemos que, nesse dia, a preocupação de Laura girava em torno dos preparativos para a participação de seus filhos nas comemorações da escola. O filho caçula de Laura iria fazer o juramento (costume quando as crianças estão na 4° série) e o outro dançaria. No registro de seu diário, isso é colocado como o diferente, o especial:

“en otro momento, con otra situación económica, eran acontecimientos dignos de sentir orgullo, pero yo tengo que enfrentar todo esto que es maravilloso, con un peso grande encima. No tengo dinero para poder disfrutarlos, y hasta la cinta del brazo de mi niño, con los colores de la bandera, son sólo una preocupación. Pero son tantas cosas para hacer en el día, que se hacen y no se piensan y apenas se experimentan” (AUYERO, 2004, p.55-56)

Ao longo desse dia, outro assunto foi ganhando relevância: a convocatória feita à população para se manifestar bloqueando a rodovia, em virtude do cancelamento do contrato para a instalação de uma indústria de fertilizantes na cidade. Laura foi informada do conflito por uma vizinha que tinha ouvido a rádio local Victoria. Mais tarde conversou com Jorge, seu colega de trabalho, que lhe fez uma explanação da problemática. Segundo ele, os políticos que convocavam ao bloqueio tinham sido vencidos nas eleições internas do MPN por Felipe Sapag, e estavam fazendo uso político do cancelamento do acordo. No final da tarde, sua filha chegou ao instituto e comentou que seus colegas de turma tinham ido para a rodovia. A esse respeito, Paula Klachko registra que, nessa tarde, os primeiros a chegar ao bloqueio foram os estudantes e professores.

Auyero (op. cit.) destaca a função-chave que a rádio local teve no conflito, desde que fora utilizada para convocar a população para o bloqueio da rodovia e suas mensagens são centrais nas lembranças das pessoas entrevistadas. A rádio estimulou o protesto de diversas formas, principalmente, anunciando que o cancelamento do contrato para o estabelecimento da indústria de fertilizantes teria funestas consequências para ambas as comunidades (Cutral-có e Plaza Huincul). Considerando as dificuldades vivenciadas pela população na região, após a privatização de YPF, o projeto de instalação da empresa canadense Agrium (Cominco) era uma esperança de novos postos de trabalho e melhoria. Também a emissora deu espaço para que as pessoas expressassem seu desacordo com a situação. Como Laura, muitos dos/as ouvintes se sentiram identificados/as com os depoimentos, as reivindicações, a raiva, a falta de expectativas etc., e alguns se viram impelidos, diante das dificuldades e necessidades que enfrentavam, a ir à rodovia e se manifestar por uma causa que consideravam justa.

56 Alguns fragmentos transcritos do diário de Laura refletem seus sentimentos vinculados a essa primeira noite de piquetes em que permaneceu na sua casa:

Yo me acosté con la radio al lado24, ya me había empezado a identificar con esa pobreza que existe en mi vida desde hace mucho, pero que no la había ni menos aun analizado y lloré después de tres años de soledad, de ponerle el lomo a la vida, de luchar por tres hijos que son motivo de mi seguir y seguir, y seguir, y nunca acabar, de luchar con una Justicia Injusta, humillante, que victimiza a quien no lo tiene que ser… Esa noche lloré […] Estoy mal y ésa es la verdad, lloré y me reflejé en esos mensajes de toda una comunidad. No tenía teléfono y me dormí (…) Soy pobre, sin posibilidades, sin salida y con 36 años sólo, aguantando que se compadezcan de mí.” (id. ibid., p.57)

No dia seguinte, conversou novamente a respeito dos acontecimentos com sua vizinha e decidiram ir juntas a um dos piquetes. Os políticos tinham disponibilizado taxis para fazer os traslados das pessoas até os diferentes piquetes. Neles, havia muita comida, pois a convocatória era feita sob a forma de convite a um churrasco. Esses detalhes têm relevância porque apontam para a situação de crise que se vivenciava: muitas pessoas desempregadas, sem renda, sem possibilidades de comprar produtos de primeira necessidade, sem gás, sem energia elétrica.

Nas entrevistas que nos concedeu, Laura repete, como outras vezes, que ela foi ao piquete para comer um churrasco. Dessa forma, salienta o papel do acaso na sua própria narrativa. Nesse sentido, Silva (2004, p.51-52) na reconstrução de trajetórias femininas no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), aponta o acaso como um dos fatores que levam mulheres a romper com sua situação de exploração incorporando-se ao movimento.

A respeito da conformação dos piquetes, Svampa e Pereyra (2004) esclarecem:

A fisionomia do bloqueio era então a de uma federação de piquetes (os testemunhos referem-se a um total de vinte um entre a rodovia principal e as secundárias) cujo eixo central era o piquete da Torre Uno, no qual convergiam claramente os dirigentes da política, da economia e profissionais da região. Na medida em que os piquetes se afastavam desse centro a presença tornava-se menos heterogênea. (id. ibid., p.112, TN)

Laura escolheu o piquete em Añelo, a 20 quilômetros da sua casa, por estar mais distante dos políticos. Em alguns depoimentos, expressa certa desconfiança,

24Num fragmento da transcrição do diário de Laura aparece que ela não tinha uma rádio: “no tenemos

radio” (AUYERO, 2004, p.56), e que as notícias dos acontecimentos na rodovia eram transmitidas por uma vizinha. Porém, em outros trechos, menciona-se que nessa primeira noite de piquetes dormiu ouvindo a rádio: “La radio era lo único que me conectaba con el mundo que me rodeaba” (id. ibid., p.58). Essa aparente contradição nos leva considerar que a escritura do diário foi realizada com uma certa distância temporal dos acontecimentos e que nessa reconstrução influíram as lembranças de outras pessoas que tinham ouvido a rádio.

57 insegurança de ir ao piquete, questionando-se a respeito das possíveis opiniões de seus pais. Porém, levou seus dois filhos mais novos. Mesmo sabendo que se tratava de um protesto organizado por políticos, sua decisão de se aproximar do piquete apresenta-se como inofensiva e vinculada ao lazer: “un día de campo a la ruta”.

Uma vez no piquete, encontrou pessoas conhecidas que, por ser professora, lhe pediram que conversasse com um grupo de adolescentes que tinham bebido a noite toda. Nesses piquetes mais afastados, os jovens dos bairros pobres sustentavam os piquetes pela noite, suportando temperaturas abaixo de zero grau e mantendo as fogueiras. Para contar com sua permanência no bloqueio, os políticos lhes ofereciam vinho. Laura conversou com jovens e conseguiu convencê-los de que, se parassem de beber, levar-lhes-ia alguma coisa para comer. Em seguida, com um grupo de mulheres, começou a organizar a refeição, distribuiu a lenha e os alimentos para que os jovens e o restante das pessoas pudessem comer.

A presença deles é destacada por Laura. Quando os jovens se aproximaram do piquete principal para comer, “empezó la fiesta. Trajeron música, radios, guitarras” (AUYERO, 2004, p.97). Cantando cumbias (música popular) contribuíram para tornar agradável o bloqueio, “Realmente te digo que estar en la ruta era algo placentero” (DÁVILA, 2006, p.23). Aponta assim um aspecto relevante: o piquete é um espaço de socialização e é agradável. Essa percepção também foi destacada pela pesquisadora Ludmila Catela, que na etnografia de um piquete no noroeste argentino, descreve:

Al interior del piquete, o sea, entre los que están de „este lado‟ de las llamas, la actividad es distendida y de intensa sociabilidad. Se toma mate y gaseosa. Las vecinas del barrio prosiguen sus charlas: los chicos juegan con palos y piedras al borde de la ruta; los bebés duermen en sus carritos o toman la teta o la mamadera. Tirados en el piso, recostados, sentados los jóvenes conversan en pequeños grupos, se ríen, cuentan chistes, hablan de política o simplemente de cosas personales. Con el pasar de las horas se distribuyen alimentos y bebidas. Bombos y redoblantes marcan un compás permanente. (CATELA, 2004) Javier Auyero, a partir da leitura do diário de Laura, refere-se à sua atuação nos seguintes termos: “A Laura se la percibe bastante como una especie de comodín para

todo servicio, la típica y subestimada ama de casa” (id. ibid., p.111-112). Andújar (op. cit.), analisando a participação dela e de outras mulheres nos piquetes, destaca a multiplicidade das atividades que desenvolveram, misturando “ações vinculadas com a extensão amplificada à escala coletiva de seus „naturais‟ papéis de cuidadoras do espaço doméstico”, com outras advindas de sua prática política/pública (id. ibid., p.8, TN). Desta maneira, a autora, embora também destaque o caráter “doméstico” das atividades

58 das mulheres no espaço do piquete, reconhece que as mesmas aparecem entremeadas com conhecimentos e experiências adquiridas em uma prática política prévia. Salienta, assim, que estas mulheres não eram “novatas” na ação política, ou seja, traziam alguma experiência anterior na luta por direitos. No caso de Laura, a autora recupera um dado que ignorávamos. Ela tinha liderado a constituição de uma comissão de bairro para exigir da prefeitura a conexão dos serviços públicos e a regularização da posse de moradias. Andújar (op. cit.) também destaca que outras mulheres contavam com experiência sindical ou de participação nos Encuentros Nacionales de Mujeres.

Observamos que as descrições da atuação das mulheres no protesto remetem à atuação delas no espaço doméstico. É frequente a interpretação da participação feminina no espaço público e, principalmente, em ações políticas como extensão das atividades domésticas, em termos de habitus (BOURDIEU, 1999). Assim, desconsidera-se o contexto da ação, o discurso, que manifestam o posicionamento que sustenta essas ações, e as implicações que essa atuação tem para o protesto. As autoras feministas alegam a necessidade de reformular os parâmetros de interpretação da ação das mulheres, incluindo atitudes e pensamento envolvidos, assim como identificando o caráter relacional dessas ações.

A participação de Laura no piquete é interpretada por nós como ação política, conceito entendido de acordo com o pensamento de Arendt (2007). No livro “A Condição Humana”, a autora define labor, trabalho e ação como as três atividades humanas fundamentais.

(...) a ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade (...). Todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente a condição – não apenas a conditio sine que non, mas a conditio per quam – de toda vida política. (id ibid., p. 15)

Devido à pluralidade humana, ação e discurso são indispensáveis para que haja

entendimento mútuo. Na ação e no discurso “os homens mostram quem são, revelam

ativamente suas identidades pessoais e singulares, e assim apresentam-se ao mundo humano”. (id. ibid., p.192). Porém, separar a ação do discurso implica destituir a primeira de seu caráter de revelação e, portanto, de seu sujeito.

Sem discurso, a ação deixaria de ser ação, pois não haveria ator; e o ator, agente do ato, só é possível se for, ao mesmo tempo, o autor das palavras. A ação que ele inicia é humanamente revelada através de palavras; e, embora o ato possa ser percebido em sua manifestação física bruta, sem acompanhamento verbal,

59

só se torna relevante através da palavra falada na qual o autor se identifica, anuncia o que fez, faz e pretende fazer. (id. ibid., p.191)

Como veremos, a ação de nossa entrevistada esteve acompanhada de discurso; aconteceu no espaço público, num “estar entre os homens”, e possuía esse caráter de revelação, apontado por Hannah Arendt, pois na ação e no discurso Laura se revelou aos outros. Arendt aponta que a ação inicia “algo novo”, funda e preserva corpos políticos, criando a condição para a lembrança e a História. Assim, segundo a pensadora vida humana e História resultam da ação (id. ibid., p.197).

Na ação de Laura, outros conhecimentos utilizados no protesto, com o intuito de evitar a manipulação política, estavam vinculados à sua trajetória pessoal, pontualmente à sua experiência de violência doméstica. Ela descreve:

“El alcohol era una de las primeras cosas que teníamos que combatir. Otra cosa, los violentos. ¿Cómo calmarlos? Al violento, cuando te acercás, y lo acariciás, le estás bajando los ánimos, los decibeles… yo eso lo había aprendido en los grupos de mujeres. Cuando una persona está ofuscada, hay que acercarse con la mayor ternura que puedas expresar, lo primero que tenés que decirle es „Te comprendo‟. Eso me lo dijeron en los grupos [contra

violência doméstica]. (…) Eran las técnicas que nos enseñaban para aplacar a un marido golpeador. Jamás ir al choque (...) Eso es lo que hacíamos cuando te digo que cuidábamos gente en los piquetes. (AUYERO, 2004, p.119-120) Grifo nosso

Esse intuito de evitar a manipulação fez, também, com que apenas fosse permitida a presença de políticos e funcionários “sem a investidura do cargo”, quer dizer, como cidadãos. Andújar (2005) expõe diferentes exemplos em que mulheres retiraram da cena políticos que tentavam aproveitar-se do levante para se auto- promover, como quando o senador Daniel Baum “se subió al improvisado estrado

intentando, según comentara Arcelia „arengarnos y decirnos qué hacer, una mujer lo agarró del fundillo del culo, lo bajó y lo pateó” (id. ibid., p.9). Assim, os políticos

apenas poderiam participar dos espaços de deliberação organizados como qualquer um e acatar as decisões da maioria. Esse é um dos exemplos de como, no espaço do piquete, as mulheres começaram a pôr em prática suas ideias organizativas, manifestando “uma leitura totalizadora e contra-hegemônica da realidade” (id. ibid., p.8). Reportando-se à atuação de nossa entrevistada, a autora destaca:

“en su piquete ella dinamizó la formación de subpiquetes entre los que se contaban el de los jóvenes y el de los borrachos. A uno y otro les acercaba comida o bebida, según las necesidades, a cambio de la garantía del cuidado y de la permanencia de esa barricada. Estas acciones no solamente evitaron conflictos internos y cohesionaron al grupo. También permitieron que Laura

60

se tornara visible y fuera depositaria de la confianza y el respeto do grupo que la convirtieron en una de las líderes de la pueblada.”(id. ibid., p.10) Grifo nosso.

Ela foi se aproximando dos diferentes grupos e, no momento em que pela rádio foram convocados representantes dos piquetes para uma assembleia na Torre Uno, um dos homens que estava organizando o piquete lhe sugeriu que, como sabia falar, os representasse. Disseram: “Andá, Laurita, vos que sabés hablar un poco más”

(CARABAJAL, 2002); “Andá y decíles que tenemos necesidades. Ninguno de nosotros

sabe cómo hablar”. O diferencial de Laura, nesse contexto, foi o domínio do discurso, ela sabia falar em público, pois era a professora.

Assim, participou da assembleia, mas se indignou ao descobrir que era um ato organizado pelos políticos, em que estes liam discursos e incentivavam os ouvintes a pedir a renúncia do governador Felipe Sapag. Ela afirma que, em nenhum momento, permitiram que os representantes dos piquetes falassem, nem perguntaram a respeito das necessidades que tinham em cada grupo. Por outro lado, ordenaram que os piquetes não obstaculizassem a passagem dos caminhões de gasolina. Essa ordem entrava em conflito com a determinação de que nos piquetes era proibida a entrada e saída de