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Physical attributes of multi-touch tables support collaboration 5

1.5 Outline

2.1.1 Physical attributes of multi-touch tables support collaboration 5

Entendemos que abordar as trajetórias de mulheres desenvolvidas no marco destes movimentos dá visibilidade à sua participação política e permite compreender essas experiências de participação enquanto processo. Assim, poderemos identificar as dificuldades que vão sendo enfrentadas, as alternativas de participação criadas, as aprendizagens desenvolvidas, as contribuições e saberes elaborados.

As trajetórias das mulheres pesquisadas serão apresentadas na forma de retratos biográficos (portraits), descrevendo os tempos presente, passado e a projeção em relação ao futuro. Nesses retratos, priorizamos o itinerário de participação política,

25 assinalamos as possíveis articulações com as dimensões familiar, profissional e social, e identificamos os eventos marcantes que indicam pontos de inflexão e/ou momentos de recomposição da trajetória. Cabe apontar que a metodologia da História Oral e o trabalho com a memória permitiram reconstruir momentos desse processo de participação política a partir de uma multiplicidade de vozes. As entrevistadas constituem-se em narradoras e, de acordo com as situações rememoradas, as vozes de outras pessoas envolvidas vão sendo colocadas como discurso indireto. As primeiras reações da família diante da “saída” de casa; as interações com políticos, produtores, legisladores, juízes e policiais, marcaram suas trajetórias como hoje marcam seu discurso. Elas compartilham o relato de suas próprias experiências de vida, e são portadoras das trajetórias de outras pessoas que, em algumas situações, atuam norteando e dando sentido à própria ação.

Vale apontar que contamos com diferentes informações coletadas para cada uma das entrevistadas. Para a construção dos retratos biográficos utilizamos como base seus próprios depoimentos obtidos em entrevistas semiestruturadas individuais e de grupo, mais uma ampla gama de materiais constituída, principalmente, por textos produzidos pelos movimentos ou a respeito dele (matérias de jornais, documentários, artigos acadêmicos, livros), fotografias e registros no diário de campo. Para a reconstrução das trajetórias, transcrevemos as entrevistas. Em seguida, identificamos nelas os momentos em que as entrevistadas referiam-se a eventos de sua trajetória pessoal e familiar, a partir dos quais realizamos uma primeira recomposição e organização cronológica do material, distinguindo os acontecimentos marcantes e os efeitos destes sobre a trajetória. As narrativas das entrevistadas são tratadas como representação (BECKER, 1994) das trajetórias e nelas tentamos identificar, fundamentalmente, como se desenvolve o itinerário político nos seus respectivos percursos de vida e apontar os possíveis entrelaçamentos desse itinerário com os campos familiar, profissional e social.

Ao empreender a reconstrução das trajetórias de nossas entrevistadas, utilizando também suas memórias, partimos de algumas considerações iniciais. A primeira é que o ato de lembrar envolve o trabalho de reconstrução das experiências do passado a partir das imagens e ideias de hoje. Assim, como Ecléa Bosi afirma, as lembranças são imagens construídas “pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual” (BOSI, 1979, p.17). Nossa segunda consideração diz respeito à colaboração, no sentido de trabalho conjunto da pesquisadora nesse processo de refazer experiências. Assim, julgamos oportuna a

26 reflexão de Alessandro Portelli a respeito da natureza dialógica da História Oral. Ele destaca que esse discurso dialógico é criado pelo que os entrevistados dizem, pela nossa presença em campo e a posterior apresentação do material (PORTELLI, 2001, p.10). Portanto, revela-se a natureza ambivalente da História Oral, que é dita para ser escrita. Dizer e escrever que começam a ser construídos simultaneamente no encontro da pesquisadora e os sujeitos de pesquisa, tendo em vista os propósitos do trabalho.

A reconstrução das trajetórias de participantes dos movimentos citados é realizada sob a ótica de suas experiências e memórias. São trajetórias marcadas pela condição de mulheres de suas protagonistas e, portanto, problematizam questões vinculadas ao gênero. Entendemos trajetória como o encadeamento temporal das posições sucessivamente ocupadas pelos indivíduos nos diferentes campos do espaço social (BATTAGLIOLA et al., 1991). Assim, esta noção inclui, além da classe social, o gênero e a raça/etnia, que são diferentes modos classificatórios dos indivíduos no espaço social. Nos depoimentos de nossas entrevistadas explicita-se, em várias ocasiões, a relevância da família na construção de seus percursos de vida. Portanto, destaca-se que as trajetórias individuais estão indissociavelmente ligadas à trajetória familiar. Como Battagliola et al. (op. cit., p.144) assinalam, as características e sucessos sociais transmitidos de uma geração para outra, são objetos de práticas de apropriação e transformação pela geração seguinte, na construção da trajetória própria. No mesmo sentido, os efeitos dos acontecimentos familiares são diferentes, consoante uma trajetória feminina ou masculina.

A própria noção de trajetória implica deslocamentos em um espaço sujeito a múltiplas transformações. Portanto, é preciso apontar que, quando pensamos em trajetórias, não existe linha reta com tempos sucessivos nem predeterminados, senão que os indivíduos ocupam simultaneamente diferentes posições constituindo um conjunto de itinerários. Porém, há certos fatores com capacidade de impacto na produção de novos deslocamentos, influindo, assim, na trajetória dos indivíduos. Segundo Bourdieu (1998, p.190), para compreender uma trajetória deve ser considerado o próprio campo social onde ela se desenvolve e o conjunto de relações objetivas que unem (e/ou confrontam) o agente com outros agentes nesse campo. No caso de nossa pesquisa, o contexto no qual se desenvolvem os itinerários políticos das mulheres pesquisadas é a Argentina da década de 1990, caracterizada pela intensa implementação do modelo neoliberal.

27 Portanto, Battagliola et al. (op. cit.) e Bourdieu (op. cit.) fornecem respectivamente elementos para considerar que a produção de uma trajetória diferenciada pelo gênero não pode ser abstraída daquela do grupo familiar no qual se inscreve e do contexto mais amplo (social, político, econômico e cultural) onde se desenvolve. Considerando estas questões, a trajetória mostra-se mais adequada que a história de vida, pelo fato de incluir o contexto familiar e social. Porém, outro conceito que vem ao nosso auxílio para compreender como se estabelece a relação entre essas condições objetivas e os sujeitos que não apenas as vivenciam, senão que também podem atuar sobre elas, é o conceito de experiência.

Em seu texto “A invisibilidade da experiência”, Joan Scott retoma os diferentes usos do termo na tradição anglo-americana apresentados por Raymond Williams. Segundo ele, “experiência” refere-se ao “conhecimento reunido de eventos passados, seja por observação consciente ou por consideração e reflexão; e um tipo particular de consciência, que pode em alguns contextos ser distinguida de „razão‟ ou „conhecimento‟” (SCOTT, 1998, p.306). No século XIX, o termo implicava uma percepção completa e ativa e incluía sentimentos e pensamentos. Já no século XX, adquiriu outra conotação, ao considerar influências externas aos indivíduos como condições sociais, institucionais, formas de crença ou de percepção às quais estes reagem. Para Thompson (1981, p.112), a experiência é um termo médio necessário entre a estrutura e a consciência social e remete à ação do sujeito:

Os homens e mulheres também retornam como sujeitos, dentro deste termo – não como sujeitos autônomos, “indivíduos livres”, mas como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos, e em seguida “tratam” essa experiência em sua consciência e sua cultura (as duas outras expressões excluídas pela prática teórica) e em seguida (muitas vezes, mas nem sempre, através das estruturas de classe resultantes) agem, por sua vez, sobre sua situação determinada. (id. ibid., p. 182)

28 Refletindo a respeito do conceito de experiência thompsiano, Silva (2006) aponta que inseridos nessas relações sociais, os indivíduos “reelaboram sentimentos, maneiras de pensar, de ser, de agir, a partir do universo cultural ao qual pertencem” (id. ibid., p. 41). Nesse sentido, as trajetórias das mulheres pesquisadas são reveladoras de processos de ressignificação e, também, de mudança em diferentes planos da vida. Porém, em virtude da ordem patriarcal de gênero (SAFFIOTI, 2004), na qual estão inseridas, o desenvolvimento dessas trajetórias implica processos de empoderamento.

Este conceito surge na década de 1960, nos Estados Unidos, vinculado às reivindicações do American Blacks por direitos civis, em pró do final do preconceito e das discriminações. Nos anos setenta, passa a ser usado pelo movimento feminista. Segundo Cecília Iorio,

É na interseção com gênero que o conceito de empoderamento se desenvolve tanto em nível teórico como instrumento de intervenção da realidade. Nos anos 1970 e 1980, feministas e grupos de mulheres espalhadas pelo mundo desenvolveram um árduo trabalho de conceitualização e de implementação de estratégias de empoderamento, com o qual buscaram romper com as diferentes dinâmicas que condicionavam a existência e impediam a participação e a cidadania plena das mulheres (IORIO, 2002:21)

A autora assinala a existência de duas abordagens do empoderamento no marco do movimento feminista: a instrumental e a processual ou generativa. A primeira esteve vinculada ao grupo Women In Development (WID), que se orientava na ideia de “poder sobre” e preconizava o empoderamento das mulheres para “conquistar espaço nas estruturas econômicas e políticas da sociedade e, dessa forma, vir a participar do processo de desenvolvimento” (id. ibid., p.22). Essa perspectiva de um poder transferível, “tomável” e finito, implicou uma clara ameaça para os homens, sem propor mudanças estruturais nas relações de poder. A segunda abordagem, focalizada no processo, aponta as diferentes formas que o poder assume: poder para (“que cria possibilidades e ações sem dominação”), poder com (“envolve um sentido de que o todo é maior do que a soma das partes”) e poder de dentro (“base da autoaceitação e do autorrespeito”). O empoderamento, nesta perspectiva, não implica necessariamente a perda de poder de outros. Porém, implica mudanças nas estruturas que geram a situação de subordinação das mulheres. Iorio (op. cit., p.24) considera ambas as abordagens como complementárias, em virtude de que tanto o controle e poder sobre recursos externos quanto a transformação interna (poder de dentro) levam ao empoderamento e se reforçam mutuamente.

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Definimos “empoderamento” como um processo em que pessoas ou grupos que

possuem uma parcela pequena de poder e, portanto, veem limitadas e/ou anuladas suas possibilidades de escolha, decisão e ação, adquirem parcelas maiores de poder que lhes permitem o exercício de uma cidadania mais plena (id. ibid.). Quando utilizamos este conceito estamos reconhecendo a distribuição desigual de poder em nossa sociedade e, principalmente, a necessidade de desenvolver estratégias que possibilitem mudar essa situação. Alguns autores e autoras feministas consideram que o empoderamento, por transformar as relações de gênero, é uma precondição para a obtenção da igualdade entre homens e mulheres. Refletindo a respeito das relações de sexo/gênero, a autora citada salienta:

Quando uma mulher consegue estabelecer uma relação baseada no mútuo respeito e com responsabilidades compartilhadas, as melhoras atingem tanto a mulher quanto o homem. O marido perdeu o poder de impor sua vontade unilateralmente a sua mulher, mas aquele poder o tornava menos humano e diminuía suas próprias capacidades como resultado da sua relação violenta com sua mulher. Nesta mudança houve um ganho para ambos os lados. (id ibid., p.25)

Contudo, é importante salientar que se trata de um processo não linear, com avanços e recuos, e que por ser “moldado para cada indivíduo ou grupo através de suas vidas, seus contextos e sua história” não implica em um final igual para todas as mulheres (DEERE & LEÓN, 2002, p.55). As trajetórias de nossas entrevistadas revelam, muitas vezes, processos de empoderamento a nível individual, mas que ao mesmo tempo se refletem no social.

Várias de nossas entrevistadas relataram que quando começaram a participar em movimentos enfrentaram discriminações e desqualificações por serem mulheres. Às vezes, esses tratamentos reforçavam a crença de que não estavam preparadas para a ação política, principalmente, no caso das mulheres que não tinham militância prévia. Sentiam que estavam onde não deviam e que careciam dos conhecimentos necessários para lidar com essa situação. Ouvir relatos de experiências de companheiras que conseguiram reverter essas crenças, compartilhar uma ação de luta, conseguir fazer cumprir seu direito etc., pouco a pouco as foi tornando conscientes de sua capacidade e de que o que não sabiam poderia ser aprendido coletivamente, na própria práxis.

Segundo Brumer & Anjos (2007, p.2), o empoderamento pode ser percebido em diferentes dimensões: econômica, pessoal, social e política. Na dimensão econômica “consideram-se as perspectivas de aumento da renda, da quantidade e qualidade

30 nutricional dos alimentos e da qualidade de vida da família, assim como o controle das mulheres sobre os resultados econômicos de seu trabalho” (id. ibid.). Precisamente quando explorarmos essa dimensão econômica é possível identificar diferentes vias de empoderamento que as mulheres constroem, e as articulações entre as dimensões do empoderamento.

Ao refletirmos sobre as articulações entre as dimensões do empoderamento percebemos a possibilidade de que estas se reforcem mutuamente. Contudo, algumas pesquisas alertam-nos para o fato de que o empoderamento conseguido, por exemplo, na esfera pública nem sempre se traduz em empoderamento individual transferido à esfera privada (ANTUNES, 2006, p.147). A pesquisadora assinala que o processo deve ser percebido nas diferentes arenas de luta, nos diferentes papéis que as mulheres ocupam, pois cada uma se apropriará e utilizará o poder de forma diferenciada, segundo a situação de vulnerabilidade que vivencie em cada espaço, no intuito de lidar e transformar os desequilíbrios de poder.

Cecília Iorio assinala que o empoderamento “não pode ser feito em nome das pessoas que necessitam ser empoderadas”, mas que atores ou agentes são necessários nesses processos e funcionam como catalisadores (IORIO, 2002, p.26). Esses agentes podem ser externos (ONGs, agências de desenvolvimento, governos etc.) ou ser parte do próprio grupo, no caso dos movimentos sociais.

O conceito de empoderamento passou a ser muito utilizado pelas agências de financiamento internacionais como a panaceia para os problemas suscitados pelas desigualdades. Nesse sentido, Saffioti (2004) chama a atenção para os limites do empoderamento individual que transforma as mulheres empoderadas em mulheres-álibi no discurso neoliberal:

Se a maioria das mulheres não conseguiu uma situação proeminente, a responsabilidade é delas, porquanto são pouco inteligentes, não lutaram suficientemente, não se dispuseram a suportar os sacrifícios que a ascensão social impõe, num mundo a elas hostil (SAFFIOTI, 2004, p.114).

A pensadora destaca a necessidade de estudos sobre mulher (es), em virtude de que a atuação delas sempre foi pouco registrada. Considera que essa história precisa ser “descrita para que haja empoderamento, não de mulheres, mas da categoria social por elas constituída” (SAFFIOTI, 2004, p.103). Salienta que a consequência do desconhecimento por parte das mulheres da própria história e a história de suas lutas faz com que se considerem “incapazes de se mover no seio da macropolítica”. Porém, quando percebem:

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que há uma profunda inter-relação entre a micropolítica e a macropolítica, elas podem penetrar nesta última com grande sucesso. Na verdade, trata-se de processos micro e processos macro atravessando a malha social (...) E as mulheres sabem como tecer a malha social, operando em processos macro e em processos micro. (id. ibid., p.81)

María Del Carmen Feijoó assinala que “as lutas olvidadas pela historiografia oficial estão de alguma maneira presentes e operando na memória das mulheres, na determinação das ancoragens de sua identidade e no imaginário coletivo” (FEIJOÓ, 1994, p.321, TN). Assim, podemos compreender que essas lutas sejam retomadas com a presença e protagonismo feminino enfrentando e lidando nos processos de crise de diversa índole (econômico, bélico, social, político etc.). Contudo, a autora questiona a respeito da “posterior retração” dessa atuação, salientando que as características pendulares da participação feminina podem se dever aos regimes políticos, mas também ser “consequência do mesmo discurso das mulheres e da lógica e a legitimidade a partir da qual as mulheres constroem e argumentam sobre as modalidades de sua participação nos períodos de crise construindo uma lógica específica de gênero” (id ibid., p.320, TN).

Nosso trabalho pretende se debruçar a respeito dessas questões a partir da abordagem de trajetórias femininas que refletem a história recente e as lutas que as mulheres empreendem ao percorrer um itinerário político, no marco do movimento social, num contexto caracterizado pelas consequências do sistema neoliberal implementado.