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1.5 Outline

2.1.3 Gamification

Cabe assinalar que a doutrina neoliberal surgiu como reação ao modelo keynesiano, que atribuía um papel preponderante ao Estado no desenvolvimento econômico. Segundo Rosenmann (2006) a primeira iniciativa neoliberal foi a criação, na França, do Centro Internacional de Estudos para a Renovação do Liberalismo, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Em 1944, um dos precursores da doutrina, Friedrich Hayek publicou “O Caminho da Servidão”, em que denunciava as limitações na dinâmica do mercado produzidas por um Estado Intervencionista e de Bem-Estar. Em 1947, Hayek, que participara da primeira associação neoliberal, formou a Sociedade de Mont-Pèlerin junto a renomados intelectuais, opositores ao New Deal norte-americano e ao Estado de Bem-Estar europeu, visando combater o keynesianismo e o solidarismo e preparar as bases de outro tipo de capitalismo (ANDERSON, 1995).

32 Num contexto de pós-guerra e de crescimento do capitalismo, as ideias neoliberais permaneceram num nível teórico frente à hegemonia keynesiana. Porém, com a crise do capitalismo na década de 1970 a doutrina neoliberal começou a ganhar terreno (id. ibid.). Hayek apontava que as raízes da crise estavam no poder adquirido pelos sindicatos e na tendência a aumentar o aparelho do Estado. Assim, o remédio seria manter um Estado forte para romper com os sindicatos e controlar o gasto social. A restauração de uma taxa “natural” de desemprego se apresentava como desejável, pois criaria um “exército de reserva”, diminuindo o poder do movimento operário, e assegurando a acumulação capitalista (id. ibid.). Essa acumulação também seria garantida pela redução de impostos sobre rendimentos altos. O ideário neoliberal incluía o anticomunismo, fazendo-se mais atraente ainda no contexto da Guerra Fria.

Um dado interessante apontado por Marcos R. Rosenmann (op. cit.) é que enquanto entre 1930 e 1970 “os centros de produção de conhecimento, os empresários e a elite se socializaram na linguagem keynesiana” (id. ibid., p. 848), na década de setenta os centros acadêmicos redefiniram planos e programas de estudos e “a formação dos economistas assumiu um perfil crítico em relação às doutrinas intervencionistas do Estado de Bem-Estar” (id. ibid., p. 850). Nessa década, a comunidade científica legitimou o discurso neoliberal, outorgando o Prêmio Nobel a seus principais representantes Friedrick Hayek e Milton Friedman, em 1974 e 1976, respectivamente.

Essa doutrina produzida para sociedades de capitalismo avançado encontrou na América Latina o território propício para sua implementação inicial. Assim, a experiência neoliberal pioneira se desenvolveu no Chile, orientada pelo documento

Bases de la política económica del gobierno militar chileno, mais conhecido como “El

ladrillo” (O tijolo), cuja autoria intelectual se adjudica a Sergio de Casto e Arturo Fontaine. Assim, no contexto latino-americano, a virada neoliberal esteve acompanhada pela quebra das ordens constitucionais e por uma involução política antidemocrática, como afirma Rosenmann (op. cit.),

as mudanças ocorreram sob os regimes militares, o assassinato, o cárcere, o desterro, o exílio e as demissões foram a resposta para eliminar os opositores. Seus próprios ideólogos não ocultaram esse princípio articulador do neoliberalismo na América Latina, interpretando-o como qualidade específica. Assim, apresentaram as Forças Armadas como instituições comprometidas com a modernização neoliberal, concebida como “projeto libertário” (id. ibid., p. 851).

No caso argentino, com o golpe militar de 24 de março de 1976 iniciou-se o

33 economia e lutar contra a subversão (DE RIZ, 1980, p.71). Vinculado ao primeiro objetivo, os militares optaram por um modelo de acumulação. Esta opção, segundo De Riz (1980), manifestou uma das especificidades do regime militar. A política implementada buscava produzir transformações profundas na estrutura econômica argentina, e respondia a um contexto de crise registrada nos países industrializados, criando as condições para uma nova divisão internacional do trabalho orientada pelo neoliberalismo (id. ibid., p.73).

O plano econômico contou desde o começo com o apoio do governo dos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que com empréstimos “ajudou” a recompor as reservas do país (AYERBE, 1998, p.44). Com José Martínez de Hoz como Ministro da Economia, mudou-se o padrão de acumulação, da industrialização substitutiva para a valorização financeira. O endividamento externo e fuga de capitais iniciaram um ciclo de “rentismo financiero”, que consistia na rotação dos capitais sobre si mesmos, criando interesses sem respaldo na produção real (RODRÍGUEZ, 2004). Os ganhos obtidos no mercado financeiro local eram remetidos ao exterior. Esta fuga de capitais representou 71,8% da dívida externa até 1982 (id. ibid.). Portanto, a situação caracterizou-se por processos inflacionários, desvalorizações sucessivas e/ou criação de nova moeda, incremento da dívida externa, aumento da especulação e um crescente déficit das empresas nacionais, orientando o caminho para a desnacionalização.

As políticas adotadas beneficiaram as grandes empresas de capital nacional e estrangeiro, e eliminaram as empresas medianas e pequenas. Definindo, assim, um processo de “massiva mobilidade descendente” que, embora tenha raízes anteriores ao

Proceso (termo com o qual costuma se referir à ditadura), acentua-se e aprofunda-se

com as medidas executadas a partir da metade da década de 1970 (MINUJIN, 1992). Segundo Beccaria (1992), a queda dos salários e a distribuição mais desigual acentuaram-se a partir de 1975, mas ganhariam força com as medidas repressivas implementadas pelo regime militar. A neutralização do movimento sindical realiza-se de diversas formas. Por um lado, a Confederación General del Trabajo (C.G.T.) e a

Confederación General de Empresarios (C.G.E.) foram interditadas e eliminaram-se as

convenções coletivas. Por outro, aplicaram-se medidas de ajuste e de diminuição do salário real, que chegou a 50% (DE RIZ, 1980). As medidas econômicas são entendidas, pelos autores consultados, como forma de disciplinar a classe trabalhadora. Dessa maneira, os trabalhadores não somente viam anuladas as possibilidades de negociação

34 pelo poder sindical, senão que também se enfrentavam com um contexto que priorizava a especulação financeira e era incapaz de gerar novos empregos.

O retorno à democracia, em 10 de dezembro de 1983, esteve marcado pela chamada “crise da dívida externa”, a consolidação estrutural da valorização financeira e a condução do sistema econômico por setores em expansão (grupos econômicos locais, conglomerados estrangeiros e a Bolsa), com base na redistribuição dos salários dos trabalhadores (BASUALDO, 2002). Essa redistribuição realizou-se de maneira direta reduzindo os salários e, de maneira indireta, através dos impostos e das privatizações.

Perry Anderson assinala que nenhum dos governantes eleitos democraticamente mostrou sua cara “neoliberal”, muito pelo contrário “prometeram exatamente o oposto das políticas radicalmente antipopulistas que implementaram nos anos 90” (ANDERSON, 1995).

Se em princípio, segundo os governantes, a venda ao setor privado das companhias estatais de eletricidade, água, telefone, aviação, minério e dos setores industrial e financeiro permitiu aos países contar com liquidez e passar a imagem de Estado eficiente, “saneado e sem déficit”, por meio de uma contabilidade de curto prazo, a idílica situação de superávit acabaria por entrar em colapso. (ROSENMANN, 2006, p.852)

Segundo o autor, a desarticulação e desmonte de estruturas produtivas fundadas no processo de industrialização das décadas de 1930 e 1940, geraram maior dependência industrial, tecnológica e financeira. As estruturas produtivas da região passaram a ser mais primário-exportadoras do que há meio século (id. ibid., p. 852). Considerando essa configuração, Silva (2008) denomina este novo processo de acumulação do capital global como “fase da refundação/reinvenção da colônia”.

Na década de 1990, Perry Anderson fez um balanço provisório do neoliberalismo nos países desenvolvidos, considerando que se tratava de um movimento ainda inacabado. Assim, afirmava:

Economicamente, o neoliberalismo fracassou, não conseguindo nenhuma revitalização básica do capitalismo avançado. Socialmente, ao contrário, o neoliberalismo conseguiu muitos dos seus objetivos, criando sociedades marcadamente mais desiguais, embora não tão desestatizadas como queria. Política e ideologicamente, todavia, o neoliberalismo alcançou êxito num grau com o qual seus fundadores provavelmente jamais sonham, disseminando a simples ideia de que não há alternativas para os seus princípios, que todos, seja confessando ou negando, têm de adaptar-se a suas normas. (id. ibid.)

Rosenmann, avaliando indicadores sociais de 1980 a 1999, afirma que o neoliberalismo fracassou, pois trouxe maior desigualdade, miséria e exploração.

35 Aumentou a pobreza8 e o desemprego, caiu o salário real, nossas sociedades tornaram- se mais desiguais, o meio ambiente se deteriorou assim como “a qualidade de vida de mais de dois terços da população mundial” (id ibid., p.850). Contudo, no começo do século XXI, o autor observa uma tendência contrária a permanecer “na trilha neoliberal”, motivada pelas sucessivas crises e pelo aumento das lutas democráticas de diferentes movimentos sociais surgidos na década de 1990.

Precisamente, o itinerário político das mulheres pesquisadas se desenvolve nesse contexto criado pelas condições objetivas que o modelo neoliberal impõe e pelas possibilidades de resistência urdidas pela ação coletiva de diferentes sujeitos, em diferentes espaços. Giarracca (2003a) afirma que, pouco a pouco, todo o território nacional foi cenário do protesto social, motivado pela perda de direitos sociais, em virtude da implementação das políticas neoliberais. A autora aponta que se trata de lutas de “defesa” e “preservação” dos “direitos sociais adquiridos no século XX” (id. ibid., p.195).

direitos sociais adquiridos no século XX, tais como: condições de trabalho, salários, educação pública; preservar pequenos patrimônios familiares, como no caso de pequenos e médios produtores agrários ou industriais ameaçados por dívidas), demandar um ingresso mínimo diante da perda do trabalho remunerado (a luta dos desocupados), etc. (GIARRACCA, 2003a, p.195, TN).

Nesse sentido, é pertinente pontuar que nenhum dos movimentos pesquisados surge a partir de reivindicações consideradas tradicionalmente “femininas” como, por exemplo, a reivindicação de creches, a igualdade salarial e outras levantadas pelo feminismo ao longo de sua história de lutas. As motivações são, inicialmente, outras que poderiam ser consideradas como “masculinas”, o sustento familiar, a defesa da propriedade familiar, a obtenção de justiça, entre outras. Quando começam a se mobilizar a questão de gênero fica evidente, na medida em que a mesma se espalha por todo o contexto social dessas mulheres: no espaço doméstico; na relação com o próprio marido e os filhos; no espaço público; na relação com as pessoas que estão no movimento (homens e mulheres) e também com as instituições.

Os próximos capítulos referem-se aos retratos biográficos de: Laura Padilla; Emma Martín; Norma Durante; Eleuteria Segovia; Graciela Centurión e María Tereza Rosario, frutos da reconstrução de suas trajetórias de vida. Nesses retratos damos

8 Até os anos 90, mais de 200 milhões de latino-americanos viviam em condições de pobreza e extrema

pobreza, 70 milhões a mais do que em 1970, o que equivale a quase 47% de toda a população (id. ibid., p.854)

36 visibilidade à participação política para o melhor entendimento de suas experiências de engajamento, identificando as dificuldades que vão sendo enfrentadas, as alternativas de participação criadas, as aprendizagens desenvolvidas, as contribuições e saberes elaborados. Também, levantamos alguns fatores e práticas que geram exclusão para a participação política das mulheres, assim como os que a favorecem, no contexto de suas trajetórias biográficas, tecendo algumas discussões vinculadas ao universo teórico- metodológico das questões de empoderamento e das relações de gênero.

As trajetórias destas seis mulheres, por momentos, se encontram. Por estarem inseridas em uma trama, fundamentalmente, dialogam entre si. Elas sentem-se parte dessa trama e dela se valem não apenas para “resistir”, senão também para “tecer política”. Assim, à guisa de síntese, compomos o mural “Fios de Ariadnes”, a partir de um mural criado por Graciela Centurión e nosso registro imagético. Recriando o mito de Ariadna, Laura, Emma, Norma, Eleuteria, Graciela e María Tereza tomaram em suas próprias mãos o novelo, às vezes, dissimulando, às vezes, convidando outras “a tecer”, e se adentraram nessa espécie de “labirinto” que a política representa para os/as que nela se iniciam. Seus itinerários, como os próprios fios de Ariadne, deixam patente que não é através de ações teleológicas que conseguem respostas às suas reivindicações, senão que é possível proceder de diversas maneiras, utilizar todos os meios disponíveis, recriar e criar novos repertórios de luta. A herança da luta, acreditamos, são seus itinerários de participação política que foram mapeando possibilidades e limites, procurando novas alternativas.

Antes de apresentar os retratos biográficos das participantes, apresentamos os perfis de cada uma delas.

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