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5.5 Developing Version 2

6.1.1 Discussion related to research question one

Em 2001, Laura vivenciou um período de crise descrita da seguinte maneira:

“(…) yo, me tildé29, estuve casi todo el 2001 tildada. No sabía si lloraba por

alegría, o sea, yo lloraba por alegrías y tristezas, no sabía que ojo me lloraba qué. Es como que me di cuenta que había sido muy bueno esto, pero también me di cuenta de una vida de mierda, es como que no la quería asumir, yo no quería asumir mi historia. La frené a la vida.”

Decidiu assumir sua própria vida, sua história. Uma das ações nesse sentido foi a realização do primeiro curso de Especialização sobre Violência Familiar. Para conseguir cobrir os gastos de passagem e comida, pois o curso era numa cidade próxima (Cipolletti, na Província de Neuquén), fez e vendeu macarrão e pão caseiros e, também, costurou para fora. Realizar esse curso permitiu que adquirisse os conhecimentos que hoje lhe permitem enfrentar o sistema judicial. Esses conhecimentos e o título recebido possibilitaram seu empoderamento. Conversando a respeito da participação das mulheres, ela destaca a importância da formação, do conhecimento na temática, não apenas para se posicionar diante do outro, senão também para conseguir mudanças:

“(…) me parece maravilloso que las mujeres salgan y la peleen y todo lo demás, pero si no tenés conocimiento de qué es lo que estás haciendo y por qué estás viviendo esa situación lo único que estás haciendo es fuerza y corriendo riesgos, no hay cambios, no hay absolutamente nada.”

Outro episódio relevante de sua trajetória, na verdade um encadeamento de fatos, foi introduzido quase no final da entrevista: “me falta esta historia”, disse. Este relato, como outros iguais aos apresentados, foi construído com lembranças e diversos

29 O verbo tildar, neste caso, faz alusão à falha no sistema operativo do computador, que provoca uma

88 materiais que ela foi expondo (textos, fotografias, matérias de jornal etc.). Começou em 2002, quando recebeu um convite para celebrar o 25° aniversário da formatura de sua turma de colegial. Nessa viagem para Tostado (Santa Fe), retomou o contato com colegas e amigos da juventude, e se inteirou da situação dos indígenas que habitam a região, os mocovíes30. Ao visitar a uma comunidade de mocovíes com outras ex-colegas, ficou chocada com a situação de precariedade em que os indígenas estavam vivendo. Os colegas perceberam seu mal-estar e perguntaram-lhe a respeito:

“(…) les digo „¿A qué van a misa?, ¿a pedir por quién?, tienen a los mocovíes ahí y no son capaces de ayudarlos‟, viste. Entonces les hago toda una historia de mi vida, de que yo también vengo de descendientes de indígenas, y qué sé yo, por eso me involucro en este trabajo.” Grifo nosso

Um amigo seu, apelidado de Tati, funcionário público da área de saúde, vinha trabalhando para a comunidade mocoví, havia apresentado projetos ao Instituto

Nacional de Asuntos Indígenas (INAI31), reivindicando terras, mas sem sucesso, “viste

que siempre todo el mundo manda proyectos y todo lo demás pero no le daban ni cinco de pelotas”. Outra pessoa conhecida durante sua visita foi o historiador Aldo Toledo, que promoveu um trabalho de pesquisa com alunos e alunas do colegial, refletindo a situação de marginalização que vivenciam os mocovíes da região e a indiferença da população. Tati e Aldo têm um programa de rádio em que trabalham a autoestima das pessoas e, aproveitando a presença de Laura, convidaram-na para participar de um programa. Ela escreveu um texto que foi, posteriormente, transcrito e inserido como prólogo dos resultados da pesquisa desenvolvida por Aldo e seus alunos/as.

Após a viagem, ela recebeu o dossiê e guardou-o. Quase um ano depois, quando foi convidada para um evento em Buenos Aires, junto a autoridades públicas, aproveitou a oportunidade e encaminhou o dossiê com uma carta dirigida ao Diretor do INAI.

“(…) yo me voy a Buenos Aires cuando me llaman para un [evento], esto de los 25 de noviembre, me voy a Desarrollo Social, al Ministerio y los lleno por todos lados. Y lo escribo, viste „Laura Padilla especializada en violencia [fala

muito rápido] los hechos existen no es para que se los pasen por el culo algunos

funcionarios que sólo duran un tiempo pero que se llevan la plata‟ [riso]. Vos no sabés, y les puse comunicarse con Tostado, con el doctor Ricardo Aldo

30 Segundo a enciclopédia Wikipédia, no século XV, os mocovíes ocupavam territórios correspondentes

às atuais províncias argentinas de Chaco e Santiago del Estero. Após a conquista, foram destinados às reduções indígenas dos jesuítas. Quando estas foram diluídas pela expulsão da ordem religiosa, os

mocovíes foram relegados ao sul do Chaco e ao norte da província de Santa Fe.

31 Este instituto foi criado pela Lei 23.302, em setembro de 1985, como entidade descentralizada com

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Genero, Secretaría de Salud, qué sé yo, o con el historiador Aldo, ¡No, [grita] con el intendente de Tostado ni nada con los políticos! y que sé sé yo [risos].

Algum tempo depois recebeu uma ligação telefônica de seu amigo Tati. Uma equipe do INAI tinha chegado à cidade de Tostado para comprovar a veracidade do dossiê e avaliar a situação dos indígenas. A repercussão da denúncia foi bem-sucedida, em pouco mais de um ano foram outorgadas terras cultiváveis para os mocovíes. Laura foi convidada pelo INAI para participar do ato de entrega das terras. Recentemente, inteirou-se, por meio de Tati, que começaram a surgir conflitos entre os mocovíes a respeito do destino de suas terras: construir suas casas, cultivar soja etc.

“Le digo „No importa, porque los aprendizajes son lentos (…) yo después te voy a mostrar el diario. Ahora, de acá a lo que ellos van a hacer, escucháme, vienen hace añares mal, tampoco podemos pedir que vayan y que tengan excelentes ideas. La mayoría, no hablan el castellano, hablan el mocoví, así que de ahí a que pidan un tractor van a pasar todo un… Y le digo, porque yo estoy convencida de eso, es despacito.”

Escrever para reivindicar direitos constituiu-se numa prática frequente, a partir de 2005. Nesse ano, recebeu uma notificação de que lhe tinham iniciado um juízo de execução de sua casa, por falta de pagamento do imposto imobiliário. Laura disse que não podia pagar os impostos e por isso sua casa seria leiloada. Assim, decidiu escrever uma carta do leitor ao jornal:

“(…) ya salí a decirles, por ejemplo, pero porque se cruzó, o sea un día lo escucho al del Alto Tribunal que dice que es una falta de ética llegar tarde, no cumplir los horarios y qué sé yo. Entonces, le escribo „Yo sé cosas que realmente se justifican como falta de ética‟, y le empecé a enumerar cosas que yo iba acumulando, porque a parte esto de trabajar con las mujeres y todo, me permitía ver cómo actuaban abogados, como actuaba todos, y me pararon el juicio.”

O sucesso da denúncia fez com que ela adotasse essa nova ferramenta. A mídia é recurso para estabelecer-se como interlocutora com o sistema judicial e seus/suas atores/as, com o objetivo de denunciá-los. Explica: “yo no les dirijo la palabra a los

tipos estos, ¿no? Así, como estoy charlando con vos, amablemente. Pero lo hago así

[escrevendo carta do leitor]”. Um exemplo, é a carta do leitor publicada no jornal La

Comuna, em 4 de abril de 2005, intitulada “Pido un monumento a la soberbia humana”, da qual apresentamos uns fragmentos a seguir:

“Soy Laura Padilla, piquetera de Cutral-có. (...) Con horror y con el „no me extraña‟ en estos momentos en que la corrupción ha ganado las batallas y también la guerra contra los honestos, me enteré de que el Dr. Roberto Joison estará al frente de la Escuela Judicial del Comahue. Me pregunto si este cargo es el premio por haber sido denunciado por mí por falta de ética y de

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responsabilidad en el cumplimiento de su labor de abogado y por delincuente. (…) De nada sirve reclamar a la Cámara de Apelaciones, porque allí está el „papi‟ juez custodiando los intereses familiares. (…) No sé cuánta plata se pagó para que pararan mi juicio por daños y perjuicios en violencia familiar, pero de que mi ex pagó no caben dudas. (…) este doctor está el negociado de mi pobreza y la de mis hijos, la que no perdono y por la que seguiré luchando. (…) Especializada en violencia familiar, maltrato y abuso sexual infantil, en la raíz de la violencia familiar e institucional, desocupada – el Dr Joison se ha encargado que así lo sea –, martillera y oficial de Justicia ad hoc. Y con el mayor orgullo que la vida me ha premiado, piquetera.” (p.6)

Por ocasião de uma entrevista televisiva, Laura foi questionada por um jornalista pelo fato de não participar dos atos em memória por María Teresa Rodríguez32 (professora assassinada durante a repressão nos piquetes realizados em abril de 1997, em Cutral-có). Diante desse questionamento, ela respondeu: “yo ya no corro riesgos,

pero yo escribo y escribo muchísimo, porque yo siempre digo ella fue la muerta pero pude haber sido yo”, fazendo referência às ameaças recebidas. Embora ela sinta que utilizando essa forma de expressão não corre mais riscos, suas amizades lhe fazem algumas advertências:

Muchos me aconsejan no exponerme tanto cuando hablo, pero si no hablo no existo, dejo de ser Laura Padilla, la madre de los piquetes. Y La Comuna me permite seguir siéndolo, es una manera de estar viva, una manera de existir, una manera sólo de ser madre y mujer, con qué orgullo, con qué honra en tiempos de corrupción.

Como mencionamos acima, os efeitos se fizeram sentir a partir das cartas que nossa entrevistada escreveu. Às vezes, as autoridades “escrachadas”33 reagiram e a

contataram. Nessas ocasiões, confirmou-se seu leit-motiv: “se van a acordar de mí”. Outro impacto foi a “censura” indireta, pois numa época o jornal deixou de receber publicidade institucional (da Prefeitura). Houve também repercussão na comunidade, pois costuma ocorrer que, nos dias seguintes à publicação de suas cartas, outras pessoas começam a escrever imitando seu estilo, no “estilo Laura Padilla”, isto é, “con la

misma dureza hacia el sistema judicial, hacia los políticos. O sea, como que la gente se anima a expresar lo que siente”. Esses escritos também deram visibilidade ao seu

trabalho no grupo “Por tu familia”, e assim ela foi convidada para participar de outras

32 Entre 9 e 18 de abril de 1997, houve um segundo levante em Cutral-có e Plaza Huincul,, iniciado por

uma greve de professores/as e outros grupos que se uniram ao protesto. A repressão foi implacável e a professora Teresa Rodríguez foi assassinada.

33 De escrache, forma de protesto criada em dezembro de 1996, pela organização Hijos por la Identidad, la Justicia, contra el Olvido y el Silencio (H.I.J.O.S.). Constitui uma ação simbólica, não violenta, de

reivindicação por justiça e reflete a condenação popular dirigida aos repressores da última ditadura militar.

91 organizações sociais, como a agrupação Sectores en Lucha, “es como que no podía

traer a las mujeres de mi grupo para la pelea mía, porque no todas están preparadas para enfrentar al sistema judicial así como lo estoy haciendo. Viste, cuando vas, o sea, empezás y después no la podés parar”.

Esse sentimento de “não poder parar” foi expresso também por outras entrevistadas, revelando como o engajamento, às vezes, se transforma numa carga difícil de conduzir. As atividades desenvolvidas e as responsabilidades assumidas com o movimento somam-se a uma dupla jornada (trabalho e tarefas no lar). Aos poucos, foi definindo novas formas de fazer, focalizando as reivindicações ao sistema judicial, “Un

país que no tiene justicia, un país que no tiene un sistema judicial que nos ampare nuestros derechos y que nos permita vivir en un goce de derechos es un país corrupto”.

Porém, quando é contatada por grupos ou pessoas com outras reivindicações, ela os assessora, fornece algumas ferramentas para que eles consigam veicular suas demandas (geralmente, escreve Recursos de Amparo), e deixa que o próprio grupo se organize. Esse procedimento pode ser observado no seguinte caso: em setembro de 2006, Laura foi contatada por pessoas do assentamento La Frontera, que precisavam de energia elétrica. Cabe esclarecer que esse assentamento formou-se, há mais de vinte anos, a partir da tomada de terras de um canto da estrada que separa os municípios de General Roca e Allen. A ocupação foi realizada por trabalhadores rurais e suas famílias e uma das razões aduzidas para realizá-la nesse local foi a proximidade com as propriedades agrícolas, nas quais trabalhavam como peões.

Quando nossa entrevistada visitou o assentamento, lá moravam vinte famílias que não contavam com os serviços básicos (água potável, saneamento, energia elétrica etc.). Tinha sido contatada por um senhor do bairro, “Él tiene un bolichito, tiene un

almacencito ahí en ese asentamiento, entonces él necesita la luz, porque él quiere vender cerveza fresca”. No assentamento, ela conversou com os moradores e, ao percorrê-lo, percebeu que a situação não era apenas uma demanda individual.

“Convengamos, la gente a veces se mueve porque tiene un interés atrás, y que pobrecitos los utilizan y todo lo demás. En base a ese reclamo de ese tipo, yo hago todo esto del pedido este de la tierra y de que pidan mejor calidad de vida, proyectos productivos. O sea, no sólo la luz, sino como que se amplíe. Y eso es lo que uno le puede asesorar al grupo general, como que tiene derechos. Tiene derecho a pedir esto, tiene derecho a exigir aquello.” Grifo nosso

92 Após inteirar-se da situação daquelas pessoas, ela redigiu um Recurso de

Amparo, que nos foi lido durante a entrevista. Nesse texto, inicialmente, é definido um nosotros, como sujeito da enunciação, apresentando as razões do assentamento:

Somos vecinos del barrio La Frontera (…) somos los trabajadores rurales, los que cobramos miseria por nuestro trabajo. Hemos ocupado esta tierra por razones de trabajo y de carencia económica, de hecho somos personas de trabajo rural, somos los peones que realizamos todo tipo de tareas en las chacras.”

Em seguida, aparecem explicitadas as manobras de políticos locais que até incentivaram a mudança de domicílio de moradores e moradoras, de Allen para General Roca, com o intuito de atrair seus votos. Denuncia também a indiferença, a invisibilidade social que vivenciam, embora eles também sejam a força de trabalho do sistema: “No existimos. Y eso es también lo que queremos, nos corresponde, somos

parte integrante de la familia rural”.

Apela-se ao juiz, receptor do texto, utilizando imagens do cotidiano no intuito de refletir uma situação que, muito provavelmente, é inimaginável para o funcionário “lo

que es en verano, sin agua fresca, no podemos conservar nada, además en la noche nuestra seguridad está en peligro”, “no estamos viviendo dignamente, al contrario,

estamos viviendo mal y corriendo riesgo de vida a todo momento”.Estão em risco pela falta de assistência. Assim, reclama-se ao juiz o cumprimento da lei:

“Esas leyes que usted conoce obligan a nuestras autoridades a mejorar nuestra calidad de vida. Le pedimos las haga cumplir y nos informe cuáles son, le pedimos que nos informe todas, nos entregue una copia de ellas, de a poco iremos aprendiéndolas, especialmente las de ayuda, para salir de la crisis que en nuestro caso viene repitiéndose de generación en generación, desde la conquista al Desierto.” Grifo nosso

O fragmento destacado é um dos principais argumentos que fundamentam a reivindicação: a identidade étnica dos/as demandantes, pois são descendentes de

mapuches, “[lendo] A nosotros, a los dueños de las tierras, porque si vamos a ser claros las tierras eran de nuestros antepasados y nos las han robado y no recibimos herencia, que según la ley es intocable [Pausa. riso]”. A alusão a essa identidade étnica não “apaga” a identidade nacional, de fato, o ser argentino manifesta-se no pedido de aplicação da lei em seu favor, pois “somos argentinos con derechos que nos niegan”. Assim, como afirma Stuart Hall “as identidades nacionais permanecem fortes, especialmente em relação aos direitos legais e à cidadania, mas as identidades locais regionais e comunitárias têm se tornado mais importantes” (HALL, 2006, p.73).

93 Porém, observamos que a identidade étnica continua sendo “solapada”, concretamente, quando o jornal local La Comuna informa a respeito da problemática dos moradores/as do bairro La Frontera. De fato, na primeira matéria publicada em 18 de setembro de 2006, é interessante constatar que uma frase da metade do texto foi suprimida. Significativamente, trata-se de um dos principais argumentos a respeito do dever das instituições em dar uma solução aos/as moradores/as, isto é, sua identidade étnica, expressa na frase: “A nosotros, a los dueños de la tierra”.

Essa identidade étnica omitida, apagada na matéria do jornal, evidencia-se nos sobrenomes de alguns dos assinantes como Caifual, Huilipan, e, como Laura mesma disse, poderia ser reconhecido ao olhar uma fotografia ampliada e a cores: “¿No ves?

son todos mapuchitos, son todos gente descendiente de mapuches.”

Fotografia 02. Moradoras e moradores do assentamento La Frontera e Laura Padilla. General

Roca, Setembro de 2006. Fonte: www.periodicolacomuna.com.ar.

Laura afirma que para ela a questão étnica é um sentimento. Assim, sua intervenção também se dá nesses termos, “yo lo siento así. Y como soy yo la que les

redacto los Recursos de Amparo”. Por outro lado, ela considera que o contexto atual possibilita veicular esse tipo de demanda desde que “tenemos nuevos derechos con los

indígenas y todo los demás, empecemos a asesorarlos por lo que ellos tienen derecho a exigir”34. Assim, uma vez feito o Recurso de Amparo entregou-o às pessoas para que

34 Na Reforma da Constituição Nacional de 1994, inclui-se o artigo 75, Inc. 17, constituindo um avanço

na política de reconhecimento da diversidade étnica e cultural da nação argentina. Porém, a lei é pouco conhecida e implementada. Seu texto regulamenta: “Reconhecer a preexistência étnica e cultural dos povos indígenas argentinos. Garantir o respeito à sua identidade e a uma educação bilíngue e intercultural, reconhecer a pessoa jurídica de suas comunidades, e a possessão e propriedade comunitária das terras que tradicionalmente ocupam e regular a entrega de outras aptas e suficientes para o desenvolvimento humano, nenhuma delas será inalienável, transmissível ou susceptível de impostos ou embargos, assegurar sua participação na gestão referida aos recursos naturais e aos demais interesses que os afetam. As províncias podem exercer concorrentemente estas atribuições.” Disponível em:

94 lessem e decidissem se fariam a apresentação ao juiz, “Ustedes tienen derechos, ustedes

tienen que pedir, no les quieren conectar la luz porque viven en una calle pública ¡qué les den tierras!”.

Em dezembro do mesmo ano, trezentas famílias de diferentes assentamentos se juntaram para reivindicar terras. Ela reconhece “A mí me da gusto que la gente reclame

derechos, será porque yo siento placer, eso no quiere decir que lo logre, pero esa cosa de estar ahí, de sentirse parte de todo esto”.

Aqui é importante explorar esta prática à luz da ética crítica de Dussel, discutida mais acima. Consideramos que é possível identificar na sua atuação alguns aspectos dessa ética geradora da mobilização posterior dos grupos. O primeiro passo, especificado por Dussel para o funcionamento dessa ética crítica, é que a vítima tome consciência de sua situação. No relato a respeito do procedimento desenvolvido, observamos a assunção da “negatividade material” apontada por Dussel:

“(…) sacá la cuenta la zona rural, la zona de chacras es muy amplia, entonces la gente es como que se va asentando en donde puede. Tienen trabajo, entonces por ahí tienen trabajo medio fijo en una chacra y como que empiezan a hacer el ranchito, viste una cosa así, después bueno, un ladrillito, otro ladrillito hasta que