Na compreensão da identidade do velho algo essencial é o modo como ele reconstrói e atualiza no presente, o sentido da sua identidade. Ao narrar, busca em seu passado referências para o seu futuro.
Para Ecléa Bosi (2005, p. 43): “A arte da narração não está confinada nos livros, seu veio épico é oral. O narrador tira o que narra da própria experiência e a transforma em experiência dos que o escutam”. O velho ao narrar sua história de vida o faz com riqueza de detalhes, associando a sua experiência feitos e conquistas até mesmo imaginários. Sua narração, aparentemente, é desprovida de servir de imitação para outrem, mas na verdade ela se apresenta, na maioria das vezes, cheia de conselhos e indicações a serem seguidos ou refutados.
O velho tira de sua trajetória histórico-social a compreensão de sua própria identidade. Ao narrar sua história de vida, seus feitos e acontecimentos, ele apresenta um conjunto de informações que, por si só, trazem um complicador, as quais deverão ser sanadas pelo ouvinte e pela vibração do narrador. Nos dizeres de Bosi (1987, p. 44):
A arte de narrar vai decaindo com o triunfo da informação, não permitindo que o receptor tire dela alguma lição. Os nexos psicológicos entre os eventos que a narração omite ficam por conta do ouvinte, que poderá reproduzi-la à sua vontade: daí o narrador possuir uma amplitude de vibrações que falta à informação.
Da mesma forma, podemos dizer que o velho, ao narrar seus feitos, conquistas, papéis exercidos, traz um conjunto de informações marcadas por saltos e mapeamentos, muitas vezes, subjetivos, as quais se tornam dignas de serem ouvidas pela carga de vibração com que são narradas. No modo de narrar os feitos e acontecimentos é possível perceber como foi direcionada a construção da sua identidade. Neste caso a memória se torna o lugar de dizer como foi o passado para poder construir o presente. Assim, a narrativa que era desprovida de pretensão de ausência de “imitação”, “de crítica” ou “de atualização da história” acaba assumindo uma condição de provocadora de mudanças no ouvinte, como por exemplo: na forma como as pessoas compreendem a si próprias e aos outros.
Na produção das narrativas é possível ao velho, ao "ouvir" a si mesmo e ao teorizar a sua própria experiência, aproximar-se de seu projeto individual de vida. O fato de poder recriar teoricamente, em seu imaginário, o seu passado, proporciona-lhe
um sentimento de distanciamento do presente. Tal modo de se deslocar, pode significar a dificuldade de adaptação do velho às transformações do presente.
A possibilidade de o velho poder aproximar o passado e o presente em sua narrativa pode representar um processo profundamente emancipatório para a noção de sua identidade. No fato de ele poder pretender fazer a aproximação entre passado e presente acaba havendo uma nova aprendizagem na construção e reconstrução da sua própria história. A narração de seu projeto de vida acaba, assim, autodeterminando a sua trajetória presente. E, como afirma Ferrari (2006), neste processo narrativo, que pode acontecer num intervalo curto de tempo, novas redes de relações são constituídas como importantes pontos de apoio na construção da sua identidade.
A integração do velho na contemporaneidade se dá pela possibilidade de ele ser reconhecido como capaz de construir novas redes de relações com a sociedade, e que pode se tornar uma possibilidade de o velho vir a ser um agente de mudanças em muitos campos de sua atuação. Como por exemplo: no plano previdenciário, no plano médico, no plano educacional e outros. Este processo só é passível de acontecer se houver um reconhecimento do velho por parte do “outro”. Somente desta forma, ele poderá apresentar suas contribuições. Reconhecê-lo como sujeito de ação e de fala é permitir que ele não seja visto somente como um “objeto” ou personagem “nulo” ou alguém ultrapassado. Este processo permite o reconhecimento do velho como capaz de intersubjetivamente apresentar sua contribuição, isto é, possibilitará sua participação e intervenção na realidade social, transformando antigos modelos em novas possibilidades.
Para tanto estas possibilidades requerem algumas condições. É preciso que no caso o velho, objeto de nosso estudo, esteja disposto a analisar criticamente a si próprio, sua história de vida, enfim, a construir/desconstruir seu processo histórico para melhor poder compreendê-lo. Na narração de sua história tem-se como pressuposto que o velho, ao aprofundar as lembranças e imagens, torna possível carregar do passado para o presente a memória individual e coletiva.
Mas qual a função da memória? Para Bosi (1987, p. 47) o velho, ao fazer memória de sua vida, não reconstrói o tempo, tampouco o anula. Na verdade, o que passa a haver no processo de fazer memória do velho é, possivelmente, a aparente tentativa de quebra da barreira que separava o presente do passado. Se isto acontece a memória se torna assim o “lugar” de onde se lança uma ponte entre o mundo dos vivos e o do além. Nessa perspectiva, recorrer à memória, atualmente, pode ser uma tentativa do velho para encontrar estabilidade diante das mudanças e da reordenação espacial e temporal do mundo. Desta forma, a própria memória pode ser entendida
como um “lugar” importante para essa dinâmica do mundo contemporâneo como também para esse entrevistado-velho.
Para Ferrari (2006) apud Delleuze & Parnet, até pouco tempo atrás as narrações se constituíam, juntamente com as transmissões do parentesco, filiação e demais forças verticais (instituições como a família, o Estado) os processos de ligação mais possíveis entre presente e passado. Neste caso a memória feita através das narrações tinha simplesmente a função de reproduções similares de modos de vida, retirando quase todas as possibilidades de novidades, como que “negando” para o presente a possibilidade de mudança. Com a tentativa de colocação do velho como sujeito de transformação social e não simplesmente como um objeto passivo, a memória deve ganhar novo sentido, isto é, “lugar” possível de fazer a ligação do passado com o presente em vista da continuidade da história. Como o velho é o grande senhor da memória, se torna possível, através dele, fazer a ponte entre passado e presente. Mas agora não simplesmente como recordação do passado ou tentativa de possível “negação do presente”, e sim, como ponte entre passado e presente em vista das transformações do futuro.
Concluindo, podemos dizer que existe uma relação entre a memória do velho e a identidade coletiva. No processo de envelhecimento, a memória tem lugar privilegiado na construção de sua identidade e de suas estratégias de afirmação nos espaços sociais. Daí a importância de o velho poder rememorar, narrar e experienciar, de falar do passado e até mesmo de fantasiar e repetir tais lembranças. Tal mecanismo se torna uma forma privilegiada que o faz firmar-se como membro da sociedade, fazendo a ligação do passado com o presente com vista ao futuro.