Estamos vivendo um impacto quando nos deparamos com o termo “identidade”, pois associamos esta à crise, mudança de rumo, conseqüências da globalização, processos e abalos, impermanência. O que isto quer dizer?
Para diferentes autores, a identidade pessoal emerge da inter-relação entre o ambiente e o indivíduo, em termos de integração e de diferenciação. A identificação
com o contexto sócio-histórico e de certo modo a sua diferenciação são aspectos constitutivos do conceito de identidade. Esta só consegue existir quando uma pessoa pode ser compreendida na sua diversidade em relação aos outros, como única e insubstituível. Tudo isto significa que a identidade, como conceito dinâmico, exige certa dialogicidade e intersubjetividade. Ela, a identidade, depende também da capacidade de se articular a própria história de vida, de revê-la e de variá-la sob o impacto de novas experiências. A identidade cultural da pessoa, ou seja, a sua identidade étnica e nacional torna-se então uma expressão concreta disto.
Para Hall (2004): “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado”
E, assim perguntamos: e o velho, de que forma está vivendo novas identidades, novos papéis? Como fatos marcantes das sociedades pós-modernas, podem ser indicados os seguintes: o processo de individualização e de autonomização, a passagem dos valores materiais aos pós-materiais, a redução dos lugares e a ampliação dos não-lugares, etc. A pós-modernidade apresenta-se como um fenômeno ambivalente, porque por um lado favorece a multiplicidade e as diferenças, a fragmentação e a crise de unidade, a indiferença e a secularização e, por outro, favorece a crítica da absolutização da razão moderna e a valorização da pessoa concreta, do grupo e da vida quotidiana. No entanto, na pós – modernidade a identidade transformou-se em detrimento da modernidade que estabelecia um sujeito permanente, fixo, centrado no seu contexto histórico. A sociedade contemporânea está plenamente comprometida com um processo de globalização, dessa forma, o sujeito, determinado como tendo uma identidade unificada e estável, está se fragmentando; formado não de uma, mas de identidades, muitas vezes contraditórias ou não-resolvidas.
Todavia, Ciampa (2005) explica-nos que os personagens são fetichizados, modificam-se, apresentando-se como misteriosos e fantasmagóricos, em determinadas situações onde é quase impossível o indivíduo atingir condições de “ser- para-si”, ocultando a natureza da identidade enquanto metamorfose.
As identidades, que estabeleciam os códigos sociais e que asseguravam uma subjetividade com as necessidades objetivas da cultura, estão se diluindo, com todas estas mudanças estruturais e institucionais do mundo globalizado. No seu sentido econômico originário, a globalização indica os atuais processos capitalistas dos Estados Unidos da América, do Japão e da União Européia, destinados a integrar controlar e tornar interdependentes o mercado e os recursos financeiros disponíveis para massificar o lucro em escala mundial.
Esta globalização tem como protagonistas não as nações, mas os sujeitos sociais multinacionais (empresas e agentes financeiros), que agem livremente, mais ou menos desligados das suas próprias nações. Como processo complexo, a globalização adquire também outras formas: política, cultural, informática, tecnológica, ecológica. Por um lado, o complexo processo de globalização contribui para a formação da chamada “aldeia global” e, por outro, as forças locais demonstram-se cada vez mais vivas e agressivas. Observa-se certa dialética entre a globalização e a localização. A um crescente processo de inclusão e de integração corresponde um processo de exclusão e de marginalização, que condena uma boa parte da sociedade à depauperação e ao desespero.18
Conforme Concone (2007) aponta-nos: as mudanças na composição etária da população mundial e nacional serão o fator mais significativo para mudanças de concepção e busca de novas perspectivas individuais e sociais. Derrubar mitos arraigados (feiúra, doença, taras, demência, perdas, falta de memória, ausência de perspectivas, sala de espera da morte) não é tarefa rápida ou fácil. Mas já está em andamento. A geração idosa de hoje já é diferente daquela que a precedeu. Como também já é diferente a geração jovem.
Portanto, ao discutir esses processos de mudança, Hall (c.f. 2006:9 - 10) indaga se não somos compelidos a perguntar se não é a própria modernidade que está sendo transformada? E, também o velho vivendo nesta sociedade cabe a ele fazer parte da mesma e transformar-se também.na modernidade, pressupomos que a identidade, é uma identidade que varia conforme vão acontecendo às mudanças nos sistemas culturais, que vão se definindo pelos fatos externos e não internos ou biológicos. Este “velho” assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente.
Neste sentido nos remetemos à Teoria da Dissonância Cognitiva de Festinger (s/d)19, em que o comportamento humano possui uma relação intrínseca entre a forma
em que é percebida e interpretada a realidade por cada pessoa e ainda o comportamento é alterado de acordo com tensões e angústias para a manutenção de uma coerência cognitiva. De acordo com a teoria de dissonância cognitiva, existe uma
18Extraído de http://www.scalabrini.org/ita/Triuggio/Documento_%20finale_MEMORIA_pt.doc.
tendência nos indivíduos de procurar uma coerência entre suas cognições (convicções, opiniões).
Todavia, para o autor da referida teoria, quando existe uma incoerência entre atitudes ou comportamentos (dissonância), algo precisa mudar para eliminar a dissonância. No caso de uma discrepância entre atitudes e comportamento, é mais provável que a atitude vá mudar para acomodar o comportamento. Numa visão geral, dois fatores afetam a força da dissonância: o número de convicções dissonantes e a importância atribuída a cada convicção. Existem três maneiras de eliminar a dissonância: (1) reduzir a importância das convicções dissonantes, (2) acrescentar convicções mais consoantes que se sobreponham às convicções dissonantes ou (3) mudar as convicções dissonantes para que elas não sejam mais incoerentes.
Assim, Hall (2006, p. 12-13) definiu: “Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando-nos em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas”.
Todavia, podemos concluir que sobre estes deslocamentos, e ao mesmo tempo, há segundo Hall (2006, p. 103), nos últimos anos, uma verdadeira explosão discursiva em torno do conceito de “identidade”. O autor nos diz que há uma severa crítica, talvez possamos pensar em “crise”, pois se critica a idéia de uma identidade integral, originária e unificada. Portanto, identidade e diferença têm que ser ativamente produzidas: as de gênero, as sexuais, as raciais, as étnicas, as etárias e outras, para uma maior discussão da identidade no mundo contemporâneo.
CAPÍTULO II
IDENTIDADE, MEMÓRIA E SUBJETIVIDADE
Escrever a História significa conferir fisionomia às datas (Walter Benjamin)
2.1 Introdução
A memória é uma forma constitutiva da identidade do ser humano e dos conhecimentos articuladores entre passado e presente; não de outra forma devemos pensar na identidade, aqui particularmente a do velho, se não em um constante processo de interação social com o mundo em que ele vive no presente caso, o mundo contemporâneo.
Tal inserção imprescindível do sujeito, pensada neste trabalho nas suas relações psicossociais, como elemento-chave de nossas reflexões sincrônicas ou diacrônicas, é a novidade que nos é trazida ou ratificada na pertinente epígrafe de Walter Benjamin. Uma abordagem nessa direção pode se mostrar inovadora na medida em que se distancia de muitas outras, por considerar a posição de um sujeito no seu papel constitutivo da história dos fatos ou acontecimentos, o que implica a constituição de um objeto próprio de estudo: de tomar, no presente caso, a “memória” como um lugar de interrogações do sujeito e que permite pensar no que ela remete de universal em suas manifestações particulares.
Ao pensar dessa forma, agora em termos da noção de velhice, podemos compreender que, para o velho especificamente, trata-se sempre de um projeto de caráter pessoal, individual; desse modo, uma efetivação bem sucedida desse empreendimento depende do próprio esforço do sujeito-velho, de sua capacidade de adaptação a novas situações, de sua iniciativa em “fazer” de sua real velhice um novo “envelhecimento”. Está implicado aí um processo constante de interação social e de possibilidades de metamorfoses e de emancipação pessoal na chamada sociedade secularizada.
Neste capítulo, será tematizada a questão teórica que diz da relevância da memória, da construção da identidade do velho. Para esta teorização, lançamos mão das elaborações de Ecléa Bosi (1987, 2003) e Maurice Halbwachs (2006), bem como da introdução do sintagma-conceitual postulado pelo psicólogo social Antônio da
Costa Ciampa (2005), que o formula em forma de um triplico: "identidade, metamorfose e emancipação".