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The new wave of governance assessments

A conceituação de identidade aqui adotada vem sendo desenvolvida a partir dos pressupostos que servem de base para o referencial teórico da Psicologia Social, a qual, segundo Ciampa (2005) e Lane (1981) vai atribuir importância à relação essencial entre o indivíduo e a sociedade, esta entendida historicamente. Para eles é trata-se de uma abordagem teórica que se preocupa em conhecer como cada um de nós – que nasce como ser apenas natural capaz de se metamorfosear, em ser também histórico ao sofrer as determinações das constantes transformações sociais – se constrói como indivíduo humano que, assim, ao mesmo tempo em que age como ator social, vai se tornando autor de ações que podem determinar transformações da sociedade as quais, ao se concretizarem, concretizam o processo histórico como síntese de natureza e cultura.

Para Pacheco e Ciampa (2006), a identidade é considerada como um processo de constante metamorfose que pode ser compreendida à luz da Psicologia Social. Ainda para Ciampa (2005, p. 113): “Metamorfose é a expressão da vida. Como tal é um processo inexorável, tenhamos ou não consciência dele”. Dentro desta visão, o velho, pelo simples fato de ser velho, não significa já ter esgotado todas as possibilidades de metamorfoses da vida. Falar de metamorfoses da identidade do velho é se colocar numa visão do velho como um ser ativo e em constante processo de transformação, e não estagnado em sua velhice.

Ao nos remetermos à noção de identidade, segundo Ciampa (2005, p. 138) sua primeira noção, que se revela como um dos seus segredos, é que a identidade é a articulação da diferença e da igualdade, mas diferença é igualdade, conforme se vão diferenciando e igualando os vários grupos sociais de que se parte. Exemplo: brasileiro, igual a outros brasileiros, diferentes dos estrangeiros. Assim, a identidade de um indivíduo está em relação com os diversos grupos de pertencimento, e nesta relação existe a igualdade e a diferença. No caso do velho, sua identidade se diferencia e se iguala em relação aos diversos grupos de que faz parte, pela sua história e pela sua memória, tanto dos fatos do presente, quanto dos fatos do passado. Para Enne (2004, p. 15) se quisermos definir, a priori, a categoria identidade, denotativamente poderíamos utilizar a acepção dada pelo dicionário: “Qualidade de idêntico”, “conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais, etc.”. A idéia inicial remete à perspectiva de se buscar algo em comum com o outro, e não somente aquilo que lhe é único. Portanto, se identidade remete a traços individuais, como os citados acima, naquilo que podemos chamar de identidade individual, em termos gerais o que confere identidade a um indivíduo está atrelado à sua inserção social. Assim, não é possível pensar o conceito de identidade para o velho sem pensar na sua relação com o reconhecimento social.

A possibilidade da construção da identidade do velho, em termos sociais, se entende como a maneira pela qual ele se vê e deseja ser visto pelos outros. Desta forma, sua identidade nunca poderá ser vista como sendo puramente individual (pela própria matriz etimológica de indivíduo, aquele que é único, que não se divide). Portanto, a identidade do velho, em si, já é coletiva.

Portanto, a identidade do velho, sem si, já é coletiva, pois existe nela uma construção social. No seu próprio núcleo está o outro como referência. Daí, a idéia de identidade do velho nos remeter aos processos de interação entre indivíduos numa sociedade.

Para Ferrari (2006), a identidade implica tornar-se singular através da criação de múltiplas e sucessivas personagens numa orquestração de igualdades e diferenças perante si mesmo e o outro através da história. Na metamorfose da identidade do velho está a indicação de que ele deve ir se igualando e se singularizando. Assim, ao mesmo tempo em que existe uma metamorfose do velho de acordo com o social para tornar-se igual ao outro, existe uma metamorfose de múltiplas e sucessivas personagens numa tentativa de tornar-se ele mesmo, diferenciando-se do outro.

Segundo Berger e Luckmann (2004), há dois problemas centrais que afligem o homem moderno: o individualismo e o pluralismo19 que são as condições sob as quais

as pessoas no mundo atual têm de estabelecer padrões para a sua vida. O velho, em seu processo de metamorfose, deve seguir sua trajetória individual, algo que pode significar uma possibilidade de traçar seu caminho de envelhecimento como sendo uma construção única e pessoal. Este modo de compreender seu processo de envelhecimento pode parecer um modo individualista de entender o processo de metamorfose do velho na contemporaneidade, quanto uma possibilidade proporcionada pelo mundo pluralista. Mas perguntamos: ao construir seu projeto pessoal, de que forma o velho se insere no mundo pluralista? Como lida com os inúmeros papéis e conexões sociais em que atuou no passado? É possível a ele conservar uma identidade com aparência de fixa? É possível o velho traçar seu próprio projeto de envelhecimento na contemporaneidade?

Bauman (2005) nos explica que a solidão a que o sujeito está submetido em seu processo de filiação identitária, desprovido de fontes seguras que possam oferecer estabilidade e parâmetros para uma existência satisfatória, o faz contar apenas consigo mesmo para realizar seu projeto de vida. Este individualismo exacerbado, comum às formações identitárias contemporâneas, parece também constituir uma das principais características da velhice e do processo de envelhecimento.

No processo de metamorfoses da identidade do velho está a materialidade da vida. Segundo Ciampa (2005, p. 109), “a materialidade dessas relações sociais faz com que uma nova identidade não seja uma ficção, uma abstração imaginária”. Os tempos mudam e os velhos devem aprender a viver de acordo com o tempo, a época e a capacidade de compreensão dos valores e dos padrões a que são submetidos. Assim, novas aprendizagens se impõem no processo de metamorfose para o envelhecimento na contemporaneidade no sentido de atender as novas demandas da sociedade.

O ser humano é matéria e é através de suas práticas que ele vai se transformando. Esta transformação é metamorfose, e esta é um processo que

acontece ao longo da vida. Mas, é na tomada de consciência de si que se percebe a metamorfose como um processo que aconteceu paulatinamente ao longo da vida. O velho pode não ter consciência de que houve mudanças significativas em sua vida, mas isto não significa que não houve metamorfose. Da mesma forma, ele pode apresentar aparência de resistência às propostas de mudanças da atualidade, mas como muitas delas acabam sendo impostas pela “realidade social”, que se metamorfoseou, rompendo com padrões de estabilidade social, o velho fica como que incapaz para resistir a estas mudanças.

Sabe-se que uma das conquistas da sociedade contemporânea é a valorização da subjetividade que passa a ser algo necessário na estruturação da identidade. Assim, na identidade do velho esta subjetividade vem crescendo como fruto do seu processo de socialização no mundo moderno. O que leva, mesmo que lentamente, em meio a reações de medo ou de impaciência ou de ousadia, a viver a velhice sob uma nova ótica. A subjetividade se abre como uma possibilidade mais humanizadora, de maior responsabilidade, respeito e entendimento do velho na modernidade.

Rouchy (2000, p. 131) nos explica que ela só ganha sentido na e pela intersubjetividade. Assim, podemos dizer que a identidade do “eu do velho” só pode ser assegurada no plano intersubjetivo, isto é, da ação e da linguagem. Segundo Habermas (1989, p. 167), a identidade se constrói num processo interrelacional, seguindo o caminho da socialização. Deste modo, o caminho da intersubjetividade se apresenta como possibilidade de o velho ser dono de si mesmo e membro da sociedade.

A possibilidade da relação intersubjetiva salva o velho da homogeneidade ou da impossibilidade de ser “si mesmo”, e a sociedade democrática lhe possibilita a oportunidade de reivindicação de participação na construção de seu futuro, mas, agora construído intersubjetivamente. Com isto, as questões do mundo social e da subjetividade do velho, que antes ficavam à margem das decisões racionais da sociedade, passam ao âmbito da crítica racional, já que ambas são passíveis de entendimento mútuo.

A partir da idéia de entendimento mútuo e de reconhecimento pode se desdobrar o conceito de intersubjetividade para a identidade do velho, na qual formas diferentes de sociabilidade vão surgindo no decorrer dos próprios conflitos em torno do reconhecimento. No caso dos velhos, ao interagirem no mundo da vida, ao mesmo tempo em que afirmam sempre sua subjetividade autônoma, reconhecem-se na sua pertença comunitária (grupos). O reconhecimento do velho como sujeito de ação e de linguagem o coloca numa posição de diálogo, de alguém que, vivendo numa sociedade democrática, pode produzir um discurso, tornar a palavra inteligível,

posicionar-se, narrar uma história, manifestar sua opinião, recordar, lembrar e até mesmo escrever sobre os acontecimentos atuais do envelhecimento, da velhice, da identidade e da memória.

Podemos também pensar que a identidade é um processo de produção desse movimento da história do sujeito, do reconhecimento do sujeito de quem ele é, e o que isso tem a ver com sua história e com sua identidade através do agir comunicativo. Partimos do pressuposto que o velho ao viver uma velhice satisfatória tem como resultado a interação de pessoas e de grupos que buscam o exercício permanente de ressignificação da vida, da identidade e da memória. É preciso compreender que o ser humano se realiza na sua relação com os outros e constrói seus limites de liberdade na convivência com outras pessoas, com as quais compartilha regras de normas, de direitos e deveres.

Assim, peço licença para colocar aqui o que me diz constantemente a minha tia, Aparecida Anecchine, minha querida Tia Cida, do alto de seus oitenta anos:

Gente, por que vou parar de trabalhar? Se fizer isto, vou ficar em casa, sentindo dores na perna, adoecendo a cada dia, acreditando que meu joelho vai doer muito mais do que já dói. Na faculdade, exercendo a minha função, com seriedade e honestidade, sinto- me útil e sou reconhecida. Lá eu trabalho mesmo, e me sinto muito bem.

Podemos supor que essa autonomia do velho é uma característica comum às formas de subjetividade atuais, uma imposição destinada a todos os sujeitos que participam do nosso momento histórico.

Segundo Gonçalves (2004), citando Habermas, o conceito de identidade não tem apenas um caráter descritivo, ainda que, para ela este conceito tenha relação com o desenvolvimento de processos bio-psíquicos, a identidade do Eu não é uma organização resultante de processos naturais de amadurecimento, mas está fortemente vinculada a condicionamentos culturais e sociais.

A “Identidade do Eu”, segundo Habermas (1990, p. 54) refere-se a uma organização simbólica do Eu, que faz parte dos processos formativos em geral e que possibilita o alcance de soluções adequadas para os problemas de interação social, existentes nas diferentes culturas. “Para tanto, em relação a esse conceito, ele sugere a competência de um sujeito capaz de linguagem e de ação, para enfrentar determinadas exigências de consistência, sendo que a continuidade do eu, no tempo e no espaço, tem a ver com a capacidade reflexiva do agente, sob a perspectiva de sua história pessoal. E, Habermas (1983, p. 53) realça, neste processo, a dimensão da

linguagem, isto é, da interação lingüisticamente mediada, pois é através da linguagem e na linguagem que se revela de forma inteligível a compreensão de si.

Podemos concluir que o velho, em seu processo de metamorfose não fica imune às transformações do mundo contemporâneo. Sua identidade de velho sofre as interferências da imposição de realidade da realidade. De outro lado, crescem os espaços de possibilidade de maior autonomia e de reconhecimento de seus direitos, sendo do conhecimento prático, ou da cultura, construções feitas pelo sujeito velho, durante décadas e, até onde puderam ser, sustentáveis para ele. Neste sentido, para Benjamin (1994, p. 221)

O narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois, o velho pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência para ele, mas em grande parte a experiência alheia).