A velhice não é uma categoria natural, mas uma categoria socialmente produzida. Para o velho, a percepção sobre o processo de envelhecimento e sobre a sua velhice na sociedade contemporânea vem se produzindo na imagem que construiu sobre sua própria condição de ser velho e a forma como permaneceu na continuidade desse processo social. Os vínculos criados com objetos ‘biográficos’ perdem sua razão se desvinculados de seus donos e aumentam na velhice. Também, esse vínculo construído na preservação dos objetos biográficos que o liga nas lembranças da memória, que lhe são caras e na vitalidade das imagens que lhe são vivas, faz da sua velhice e da experiência comum de seu envelhecimento um contínuo de sua imagem atrelado ao grupo social e familiar. Na vitalidade das imagens que são permanentes e conservadas para o velho, no reflexo que ele tem de si mesmo, na construção de seu processo coletivo associado aos vínculos e objetos biográficos da sua lembrança, estes são os lugares em que ele faz memória. O homem produz e é produzido pela sua própria história, o que confirma o paradigma de que homem e meio coexistem e se transformam.
Para Bosi (1994, p. 49): “o velho por estar menos sujeito às pressões do cotidiano de seu grupo social/familiar faz da arte de lembrar um constante exercício mental”. O velho carrega em si, mais fortemente, tanto a possibilidade de evocar quanto o mecanismo da memória, que já se fez prática motora.
Não existe grupo social que não tenha qualquer relação com um velho, e que o velho também seja totalmente desprovido de relações sociais. As lembranças e as memórias familiares e geracionais estão ligadas ao velho na continuidade da sua história e da sua identidade, preservando, assim, o relacionamento social e familiar. De certa forma, a continuidade das “ações” das gerações do presente, que partilham com o velho de um mesmo espaço familiar têm interesses comuns. Estas gerações desenvolvem com os velhos atividades de sociabilidade e preservam também laços de parentesco que unem as famílias, garantem vínculo com eles e ao mesmo tempo impedem a mobilidade para o esquecimento. Quando o grupo social abandona o velho, ou quando este passa a se sentir rejeitado ou mesmo refutado, deixa de dar continuidade a sua memória individual, e assim, ele se perde nos fios da história e na identidade da narrativa que deu origem à memória.
De certa forma é o grupo social e familiar que constrói e dá significado para a continuidade das lembranças e das rememorações do velho. Conseqüentemente, o grupo familiar também preserva a transmissão e a construção destas lembranças e
rememorações, favorecendo, para o velho, a manutenção da identidade e da memória, unindo os vínculos de seu parentesco com a família e com os ancestrais.
Para Bergson (1959 apud BOSI, 1987, p. 45) “Na realidade não há percepção que não esteja impregnada de lembranças”. Os velhos, ao recomporem suas lembranças, o fazem a partir da percepção dos fatos ou acontecimentos da vida passada. As lembranças, estando firmadas nas percepções do passado, naquilo que ficou na memória coletiva, ganham “fluidez” e significado na medida em que são verbalizadas, dão sentido ao presente. Assim, podemos entender a memória como lembranças dos fatos vividos, percebidos e sentidos; isto também é uma forma de conservar a memória sobre a construção da identidade. Novamente, os dizeres de Bergson (1990), podem refletir sobre o velho e sua velhice, pois este autor não atribui importância única ao esquecimento como estratégia de sobrevivência, de criatividade, de esquecimento, mas, sempre para ele as percepções são impregnadas de lembranças.
Para Halbwachs (1990, p. 71),
O passado não é conservado intacto em nossa memória, pois dependemos do grupo social para despertar as lembranças. Por isso a memória social é um processo coletivo, onde o grupo social desempenha um importante papel no processo de lembrar e de conservar a memória.
No entanto, para o velho, nas situações em que há a dispersão do grupo social e havendo também falta de comunicação entre as gerações, torna-se difícil a socialização das suas lembranças e a fixação da sua memória. Isto ocorrendo, possivelmente, o levará a uma descontinuidade dos acontecimentos e do discurso que lhe é próprio. Desta forma, se quisermos reconstruir, de modo mais pleno a memória do velho, torna-se imprescindível “o grupo de pertencimento”, sem o qual o suporte para a memória fica comprometido, dificultando-lhe a identificação e a verbalização do seu passado.
Assim, pressupomos que para o velho poder dar continuidade e permanência à construção dos fatos e da lembrança, deve estar inserido num grupo de pertencimento, e aqui citamos a família, pois, ela “encarna”, de modo mais perfeito, a memória coletiva do velho. Na falta da família podemos citar as pessoas da sua idade, do seu grupo de pertencimento e também aquelas com as quais, no presente, ele se identifica, travando laços sociais.
Concluindo, podemos dizer que ao refletirmos sobre a memória do velho, na sociedade contemporânea, somos levados a considerá-la na interação da identidade do velho com múltiplos grupos de interação social, co-produtores um dos outros, e
assim, não podemos excluí-lo de marcar um “lugar” no contexto da família. Neste aspecto, a memória do velho é percebida na interseção do contexto familiar, o que amplia sua propriedade estática de conservar informações, imputando-lhe certo dinamismo, exigência própria para a ação de reconstrução das experiências passadas, já que é esta uma forma encontrada por ele para pensar a si próprio, quer seja por meio da sua relação com o passado ou com o presente. No entanto, no processo de lembrar, os velhos tendem a selecionar um conjunto de memórias a partir de sua experiência do presente, tornando o trabalho da memória uma “reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente”.
Neste sentido, para Schimidt e Mahfoud (1993, p. 289), em termos dinâmicos a lembrança sempre é fruto de um processo coletivo, na medida em que necessita de uma comunidade afetiva, forjada no “entreter-se internamente com pessoas”, característica das relações dos grupos de referência. Assim, para estes autores, esta comunidade afetiva é o que permite atualizar uma identificação com a mentalidade do grupo no passado e retomar o hábito e o poder de pensar e lembrar como membro do grupo. Quando se recorre a Bérgson (1990), este afirma que o passado é mantido intacto no inconsciente e é atualizado de modo integral no presente de forma consciente (Bergson, 1959 apud BOSI, 1987, p. 54). Para ele, a memória é um processo individual, independe do grupo, da existência de pessoas que tenham vivenciado com o velho os mesmos eventos, e que possam despertar nele os silêncios da memória. Nessa perspectiva, não se associam aos velhos que lembram a memória do grupo, ou a relação entre eles.
Já para Bosi (1987, p. 331),
O encontro com velhos parentes faz o passado reviver com um frescor que não encontraríamos na evocação solitária. Mesmo porque muitas recordações que incorporamos ao nosso passado não são nossas; simplesmente nos foram relatadas por nossos parentes e depois lembradas por nós.
Nesta parte de nosso trabalho pedimos licença para comentar um artigo do Padre João Batista Libânio, “A vida dos Idosos” (2008), onde o articulista nos explica que os muitos anos de vida conduzem as pessoas a situações bem diferentes e que elas questionam a sociedade. Conceber a sociedade enquanto "pluralidade", significa concebê-la enquanto complexidade, marcada por descontinuidades, o que pressupõe, do ponto de vista fenomenológico, a construção de uma identidade "plural", na medida em que os indivíduos estão sujeitos a uma variedade de situações.
Sabe-se que a sociedade moderna dilacera desde cedo as famílias. Os laços estão a enfraquecer-se com as crescentes separações, com a agitação do dia-a-dia,
com as solicitações do trabalho, com a invasão do lazer midiático. Não sobra tempo para cuidar das pessoas. Com isso, os velhos muitas vezes encontram na religiosidade uma forma de se proteger do silêncio e da solidão que os jogam para a periferia do esquecimento. Se em cada fase da vida necessitamos de ajuda, de apoio, de convivência humana, os idosos se tornam mais sensíveis e desejosos de presenças.
Os sujeitos velhos vivem mais de memória que de sonhos, mais de passado que de futuro, num presente, às vezes, bem limitado. Daí a importância de reconhecimento e de cuidados nesta fase da vida. O velho também precisa da sociedade e depende dela que só existe em razão dos sujeitos humanos, e nesta relação surgem as regras e as normas como meios de coerção social para manter o equilíbrio desta relação, com isso, regras e normas afetam o velho que passa a ter uma liberdade condicionada, e ele ora as atende, ora as transgride, gerando conflitos com o seu meio por não exercer, muitas vezes satisfatoriamente, o seu papel social. Assim, a socialização é uma ferramenta de interação entre a sociedade e o indivíduo, sendo que as normas e as regras operam como um agente condicionador desta interação.
Sabe-se que os velhos não vivem somente da repetição do seu passado, as lembranças embutidas em suas narrativas são construídas pelo presente e se inserem numa categoria de discurso por meio do qual expressam sua concepção de mundo e o modo como se relacionam com o ambiente ao seu redor. Na Psicologia Social de Ciampa, existe uma terceira via a que ele se refere em seu livro (2005), isto é, ele projeta para o sujeito a via de poder traçar o projeto pessoal de vida, uma forma especial e reticente daquilo que amadurece na história, que se dá pela “recusa a se identificar com as alternativas que lhe são oferecidas”, o que, para o velho, significaria ser outro velho, isto é, não um velho nos modos idealizados pela sociedade contemporânea não somente pelo modelo de se criar o seu processo de envelhecimento, mas um velho capaz de se comunicar com o seu mundo do passado e com o seu mundo do presente, na construção psicossocial da identidade e da sua memória no caminho da auto-realização e da emancipação.